Bruna Souza Cruz, no UOL

Edivando de Moura Barros, 22, é calouro de medicina da Unifesp e da UFTM

Edivando de Moura Barros, 22, é calouro de medicina da Unifesp e da UFTM

Edivando de Moura Barros, 22, é só alegria. E não tem a ver com a folia do Carnaval que se aproxima. Ele foi aprovado no tão concorrido curso de medicina em duas instituições públicas, a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e a UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro).

Mas, para chegar a esse resultado, o percurso foi longo. No total, Edivando, que estudou sempre em escola pública, passou quatro anos se preparando após a conclusão do ensino médio.

Em alguns períodos, como em 2012, ele se dedicou completamente ao vestibular chegando a 10 horas diárias de leituras e exercícios, além das aulas no cursinho popular da Unifesp (Cuja – Cursinho Pré-Vestibular Jeannine Aboulafia). Em outros, ele precisou dividir o tempo de estudo com alguns bicos como cobrador de lotação para completar a renda familiar (de um salário mínimo e meio, cerca de R$ 1.000).

Sonho de infância

Quando era pequeno, Edivando precisou conviver com muitos médicos e estava sempre em tratamento por causa de um problema no esôfago. “Tinha 10% de chance de sobreviver e precisei ser operado com cinco dias de vida”, conta. Desde então, sonha em ser médico.

Residente do bairro Pedreira, localizado na periferia da zona sul de São Paulo, e tendo como única fonte de renda a pensão de seu pai (morto quando tinha 16 anos), Edivando diz ter passado  por muitas provações durante o preparo para o vestibular.

Logo no primeiro ano de cursinho, passou cinco meses com o braço imobilizado. Depois, passou por dificuldades financeiras e acabou fazendo bicos para completar a renda. “Uma época, nem dinheiro para comprar um tênis eu tinha. Foi bem no ano que eu pensei mais firme que não podia desistir. Minha luta tinha que continuar”, diz. Morador de uma área pobre em região de manancial, Edivando e a família vivem também com o fantasma da remoção por parte da prefeitura.

O jovem não se queixa ao contar sua história. Ele apenas aponta as dificuldades e as superações. E é grato pela ajuda que apareceu pelo caminho — de professores, monitores, das bolsas de estudo que obteve em todos esses anos. Acrescenta que as políticas afirmativas também foram importantes para que ele alcançasse seu objetivo.

Não sabia regra de três

O primeiro ano de cursinho, em 2010, foi só “para pegar o jeito”, conta Edivando. “Nas primeiras aulas não sabia fazer nem fazer uma regra de três”, lembra. “Eu até ficava quieto quando perguntavam, por exemplo, o que era um verbo. Eu não sabia.” Ao final do ano, ele não passou em nenhum vestibular.

Em 2011, o rapaz optou por um cursinho perto de casa e a rotina era puxada mesmo nos finais de semana, quando ficava em cima dos livros das 9h às 18h. Foi nesse ano que ele conseguiu a aprovação em agronomia na Unesp (Universidade Estadual Paulista) e chegou perto dos pontos necessários para ir para a segunda fase da Fuvest, que seleciona alunos para a USP (Universidade de São Paulo).

Quando o dinheiro apertou, em 2012, o estudante arrumou um emprego. Nos vestibulares de 2013, ele foi aprovado em ciências e tecnologia na UFABC (Universidade Federal do ABC), que começaria em julho. Mas a vontade de fazer medicina ficava “martelando sua cabeça” e ele largou a graduação.

No segundo semestre do ano passado, ele conseguiu outra bolsa de estudos e se dedicou novamente ao projeto de passar em medicina. Ele pensou que o ano estava “perdido”. Mas não estava. Ele passou em medicina na UFTM por meio do Sisu (Sistema de Seleção Unificada). “Nossa, fiquei muito feliz. Um dia eu estava dentro do ônibus e bateu aquela emoção. Caíram umas lágrimas e acho que todo mundo que olhou pra mim deve ter achado estranho”, diz o rapaz em meio a risos.

Na última terça-feira (25), Edivando recebeu a notícia que mais esperava: havia sido aprovado na lista de espera no curso de medicina da Unifesp — sua “opção desde sempre”.

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