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Rodrigo Wolff Apoloni, na Gazeta do Povo

Na manhã do último sábado, minha irmã Cláudia convidou-me para participar de umas das experiências mais legais que eu já vivi. Durante algumas semanas, ela havia feito uma campanha de arrecadação de livros. Reuniu pouco mais de quinhentos volumes, consertou os mais machucados, embrulhou-os um a um em plástico transparente, guardou tudo em engradados plásticos, colocou os engradados no carro e, no primeiro dia do feriado, seguiu para o Centro com um pequeno grupo de amigos.

Fomos primeiro à Praça Generoso Marques, depois à Rua Quinze e, um pouco mais tarde, às escadarias da Universidade Federal, e espalhamos os livros para o povo escolher. Um tanto envergonhados no começo da operação, contamos que era o Dia Mundial da Gentileza (não era, mas funcionou), que os livros eram de graça e que ninguém ali representava religião, sindicato, ONG ou partido político.

Nos primeiros trinta segundos, o clima foi de dúvida, até que uma menina puxou a mãe pela mão e escolheu um livro. A partir daí, teve início uma onda de curiosidade e daquela sociabilidade tranquila que é uma beleza. Momento de falar de livros e, inesperado, de ganhar abraços de desconhecidos. De despertar a energia que está sempre ali, a um invencível centímetro de distância, e que pode ser acessada de forma tão simples. Coisa louca.

Pois Dostoiévski, Simenon, Poe, Drummond e Monteiro Lobato não pararam no chão. E nem as histórias de terror, mistério, romance e faroeste. Dan Brown, por exemplo, foi embora no primeiro minuto, seguido por Stephen King e Machado de Assis. E até Crônicas Marcianas de Bradbury, que doei com o coração apertado e quase peguei de volta, foi recebido com verdadeiro interesse por um estudante de Ciências Sociais.

Uma senhora que trabalha como gari pegou um livro, saiu e, pouco tempo depois, trouxe outras três amigas, que também escolheram os seus. Emocionado, o dono de um café próximo, muçulmano devoto, chegou para mim e disse que Deus, em sua sabedoria, também faz livros brotarem do chão. E eu fiquei com os olhos cheios d´água, e acabei presenteado com um excepcional café expresso.

Em pouco mais de uma hora, todos os quinhentos e tantos livros voaram pelo mundo. Aprendi, então, que os curitibanos gostam de ler, que o preconceito em relação ao tema era meu, que é muito fácil despertar a benevolência e que compartilhar livros é uma das melhores coisas que alguém pode fazer. Que basta apenas o desejo, a paciência de pedir livros e a disposição de enfiá-los em um cesto e ir para a rua. Isso não tem preço.

dica do Chicco Sal

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