Baixista do Duran Duran descreve em livro sua ligação com a fama e as drogas

Carlos Albuquerque, em O Globo

Em “No ritmo do prazer”, Taylor descreve a fulminante ascensão do grupo, o favorito da princesa Diana, ao topo das paradas de sucesso em meio à euforia dos anos 1980. (Foto: Divulgação)

Em “No ritmo do prazer”, Taylor descreve a fulminante ascensão do grupo, o favorito da princesa Diana, ao topo das paradas de sucesso em meio à euforia dos anos 1980. (Foto: Divulgação)

Dezoito, 20 e 21. John Taylor — o míope e boa-pinta baixista do Duran Duran — ainda estava se acostumando às lentes de contato e ao sucesso quando reparou nesses três números, escritos no canto esquerdo de cada página do roteiro que detalhava a primeira excursão do grupo britânico pelos Estados Unidos, em 1981. Como relata em sua autobiografia recém-lançada no Brasil, “No ritmo do prazer” (editora Benvirá), ele levou algum tempo até entender do que se tratava. Os números indicavam, ora veja, a idade legal para a prática de sexo em cada estado americano.

— Não se tratava exatamente de um aviso, mas era bom saber aquilo para se livrar de possíveis problemas na estrada — diz Taylor, hoje com 53 anos, casado pela segunda vez e pai de três adolescentes (duas mulheres).

Com o subtítulo “Amor, morte e Duran Duran”, o livro descreve a fulminante ascensão do grupo, o favorito da princesa Diana, ao topo das paradas de sucesso em meio à euforia dos anos 1980. Vai desde os primeiros ensaios, em um pequeno clube em Birmingham até shows lotados no Madison Square Garden, em Nova York, com fãs histéricas praticamente se jogando em cima do quinteto (que tinha também o vocalista Simon Le Bon, o tecladista Nick Rhodes, o guitarrista Andy Taylor e o baterista Roger Taylor). Um salto desconcertante para o tímido e superprotegido filho único de um ex-combatente (e prisioneiro) da Segunda Guerra Mundial e de uma dona de casa, apaixonado por modelismo e cujo sonho era ser piloto da Força Aérea britânica.

— O sucesso é alienante. As pessoas passam a dizer apenas o que você quer ouvir. Eu mesmo faço isso quando encontro um ator no avião e digo “Adorei seu último filme”, embora tenha achado horrível — confessa o baixista.

Num ritmo tão preciso quanto aquele que criou para músicas como “Planet earth” e “Girls on film” — com texto afiado e boas tiradas de humor negro —, Taylor descreve uma época pré-internet, em que os discos ainda vendiam muito (ao longo de sua carreira, o Duran Duran vendeu mais de 100 milhões de discos) e a MTV ditava os rumos da música pop. No caso do autor, essa batida incluía também viver a vida louca da época, com festas sem fim nos bastidores, encontros com alguns dos seus ídolos — ele lembra como certa vez Andy Warhol se aproximou e sussurou em seu ouvido: “Você deveria ser o cantor” —, namoros com modelos e encontros furtivos com groupies, intercalados por uma relação quase destrutiva com a cocaína (e o álcool).

Taylor descreve a droga inicialmente como uma falsa companheira para compensar seu terrível medo da solidão na estrada e depois como uma “tola” forma de se autoafirmar como uma estrela do rock.

— Tive que simplificar minhas experiências no livro — conta ele. — Drogas são apenas drogas. Algumas pessoas experimentam uma vez e param. Eu não. Fiquei preso na repetição, com um gosto de cocaína. Ao tentar parar, me envolvi com o álcool. Hoje entendo por que as pessoas bebem tanto, já que o álcool ameniza as durezas da vida. Mas felizmente aprendi a conviver com esses desafios. Isso não me assusta mais.

800022O que assustava Taylor era ter que representar frente às câmeras, justamente numa época em que os videoclipes explodiram e se tornaram o principal veículo de divulgação de um artista. Na verdade, poucos grupos simbolizaram tanto esse período quanto o Duran Duran, com as inesquecíveis imagens de “Rio”, “Hungry like the wolf” e “Save a prayer”, gravadas em locações no Sri Lanka e na Tailândia, sob a direção de Russel Mulcahy (de “Highlander”).

— Não gostava de atuar nos vídeos, mas sei que eles foram cruciais para nossa popularidade — reconhece. — Os vídeos deram forma e estilo ao Duran Duran, tornaram-se a linguagem de uma geração. E nós éramos fluentes nela.

Em “No ritmo do prazer”, Taylor reconhece que o Duran Duran emergiu numa época em que ter uma imagem forte era fundamental. E afirma que ele e seus companheiros foram influenciados inicialmente pelo glamour do Roxy Music e de David Bowie e, mais tarde, pelo visual estilizado do Human League, que também conquistou todos com seu gélido som de sintetizadores. “Nos anos 80, teclados eram in, guitarras eram out”, escreve.

— O Human League era o máximo naquela época. Não tínhamos visto o Velvet Underground ou o Kraftwerk, nem vivemos os anos 1960 para acompanhar o visual psicodélico da época. Então, ver o Human League tocar sem guitarras e com projeções incríveis foi radical. Pensamos todos, “temos que fazer algo parecido”.

Foi assim que surgiu o visual “new romantic” do seu primeiro disco, de título homônimo — roupas bufantes, cabelos montadíssimos — depois substituído pelo colorido de “Rio”, um álbum que teve como inspiração a cidade que Taylor descreve no livro como “uma fonte de prazeres terrestres, uma festa que nunca acaba”. Um cenário diferente daquele que a banda encontrou quando visitou o Brasil (e o Rio) pela primeira vez, em 1988.

— Na época, nos disseram que as ruas em torno do hotel em que ficamos, em Copacabana, eram arriscadas e que não deveríamos nos afastar muito. Mas os shows foram incríveis, encontramos a melhor plateia do mundo. Desde então, aprendi a amar o Brasil — conta Taylor, que voltou ao país pela última vez em 2012, já com o Duran Duran como um quarteto, ao lado de Le Bon, Rhodes e Roger Taylor, e sem a mesma histeria de mais de duas décadas atrás.

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