A literatura exerceu forte influência na vida profissional e pessoal do pai da psicanálise

Felipe Torres, no Diário de Pernambuco

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Sigmund Freud. Ilustração: Blackzebra/Editoria de arte/DP

Você já deve ter percebido. Regularmente a literatura persegue o mesmo objetivo da psicanálise, o de explicar a complexidade da alma humana, revelar conflitos, inquietudes e perturbações da alma. Sigmund Freud (1856-1939) não apenas sabia disso, como era exímio leitor de autores clássicos e contemporâneos. Conheça os hábitos de leitura e os relacionamentos mantidos pelo criador da psicanálise.

20140306144109620399aNascido 24 anos após a morte de Goethe, Freud foi vastamente influenciado por ele. Aliás, foi depois de ouvir leitura de A natureza, texto então atribuído a Goethe, que Freud decidiu cursar medicina (o ensaio era, na verdade, de Georg Tobler). Freud citou Goethe em várias correspondências. As menções também surgiam de maneira inesperada nos textos técnicos, nos quais um pensamento poético se aliava a um pensamento metapsicológico.

Os interesses científicos de Goethe reverberam na obra do pai da psicanálise: (ótica, botânica, geologia, osteologia). O poema A dedicatória do Fausto, de Goethe, foi usado por Freud como prólogo ou epílogo de todos os tratamentos psicanalíticos realizados por ele. As manifestações do Eros na obra de Goethe alimentaram os estudos freudianos.

20140306144142438679aEra chamado por Freud de “poeta-filósofo”, pois uma característica marcante de sua poesia era a relação com as reflexões, assim como os poetas pré-socráticos. Em O mal-estar na civilização, Freud reconhece: “Em plena aflição do início, encontrei meu primeiro ponto de apoio na máxima do poeta-filósofo Schiller, segundo a qual ‘fome e amor’ movem as engrenagens do mundo.”

Freud chegava a sonhar com os poemas do escritor alemão. Chegou a usar estrofe de À alegria, de Schiller, no trabalho de interpretação de sonhos de um de seus pacientes, descrito como “um rapaz de homossexualidade forte, porém reprimida”. Schiller também foi um importante teórico da estética, um dos primeiros a utilizar a palavra e o conceito de “trieb” (pulsão), em especulações sobre a percepção do belo e a função da arte.

Pode-se dizer que a vida e a obra de Freud foi guiada por dois “gênios”: o de Goethe, relacionado ao Eros, ao gozo sensível da beleza do mundo e da criação artística, e o de Schiller, encarnação do sublime, da força do ideal, do drama do mundo interior, da revolta contra a injustiça e da exigência da ética.

20140306144214849029iCom Hoffman, Freud redescobre e conceitua um sentimento típico das crianças, e que pode ser atualizado na fase adulta. Trata-se da “inquietante estranheza”, ou seja, a emoção ou sensação de quando algo familiar, conhecido ou íntimo se torna estranho, angustiante, até mesmo aterrador. Freud considerava Hoffman “o mestre inigualável do ‘estranhamento inquietante’ na criação literária”, pois as obras do escritor eram recheadas de motivos capazes de despertar no leitor a sensação.

Sentia-se atraído por temas e conceitos abordados na obra de Hoffman, considerado o inventor do conto fantástico moderno: o duplo, a alucinação, a magia, o mistério da arte e do canto, a telepatia. Em um dos ensaios freudianos, há uma exaustiva análise de O homem de areia, conto de E.T.A. Hoffman. No texto, são citados Shakespeare, Heinrich Heine, Mark Twain, Friedrich Schiller, Goethe, Dante, Schnitzler, Oscar Wilde.

20140306144242543165aO escritor russso foi tema do ensaio Dostoiévski e o parricídio (ato de matar o próprio pai), escrito por Freud em 1928 e utilizado como prefácio do volume A versão original de Os irmãos Karamazov (esboços e fragmentos do último romance do autor). No texto, Freud sentencia: “Na rica personalidade de Dostoiévski, é possível distinguir quatro aspectos: o escritor, o neurótico, o moralista e o pecador”.

Mais adiante, elogia: “Ele tem seu lugar não muito atrás de Shakespeare. Os irmãos Karamazov é o romance mais grandioso jamais escrito”. Por meio da análise da obra de Dostoiévski, Freud consegue explicar a um público leigo ideias fundamentais de sua teoria (mais especificamente relacionadas ao ego, superego e id).

O psicanalista condenava Dostoiévski por ser pecador, jogador, incapaz de renunciar às tentações. Dizia que ele “se entregava à experiência do mal como se o erro lhe fosse necessário para, em seguida, proclamar as mais exigências éticas, na condição de moralista”.

20140306144316724448oFreud não somente leu, como se referiu largamente a Shakespeare ao longo da vida. Assim como ele, o dramaturgo inglês explorou a alma humana e seus conflitos, tumultos, fantasmas, loucuras. Adolescente, Freud já recitava de cor cenas de Júlio César e Hamlet. Aos 16 anos, quando se apaixonou, escreveu em carta que só o seu “absurdo hamletiano” o impedia de revelar o sentimento.

Na vida pessoal e profissional, Freud interagia sempre com obras como A tempestade, Macbeth, Sonhos de uma noite de verão. Dizia que Édipo Rei era uma “tragédia do destino” e Hamlet, “tragédia do caráter”. Via em Hamlet um histérico: melancólico e agitado. Estudou Macbeth, mas dizia “não encontrar solução” (não sabia explicar a prostração de Lady Macbeth após o crime por ela instigado).

Em um dos textos, O tema dos três escrínios, inspira-se em O mercador de Veneza e Rei Lear. Vê na personagem Cordélia uma “figura de morte”, e no rei Ricardo III um “modelo para identificação das exceções”. Com a ajuda de Sonhos de uma noite de verão, Freud estuda o delírio poético.

20140306144502154403aFreud admirava o poeta desde a adolescência: comentava sobre a extrema facilidade que possuía para decorar os versos de Heine, quase involuntariamente. Certa vez, apontou como seu livro favorito a coletânea de poemas Livro de Lázaro, que Heine escreveu em 1854, paralítico, pouco antes de morrer. O bom humor inteligente de Heine era muito admirado por Freud, assim como a sua concepção laica da existência humana (chegou a referir-se a Heine como “companheiro de descrença”) .

 

 

 

 

Foto: freud.org.uk/reprodução da internet

Foto: freud.org.uk/reprodução da internet

>>> CONTEMPORÂNEOS

Embora fosse mais cientista e menos escritor, Sigmund Freud interagiu com autores de sua época e até desenvolveu laços de amizade com alguns. Leitor atento, expressava admiração por meio de numerosas correspondências e, em contrapartida, tinha a obra lida e comentada por nomes como Thomas Mann e Stefan Zweig. A proximidade de Freud com seus pares também se dava por mera cortesia (caso de Schnitzler) ou por considerar notáveis algumas ideias, embora discordasse delas (Romain Rolland). Esses relacionamentos se mostraram de grande importância na vida do pensador considerado o pai da psicanálise.

20140306173442497887iFreud tinha várias afinidades e gostos em comum com Thomas Mann. Os dois abordaram em suas obras o ocultismo, as narrativas bíblicas, o mito de Fausto. Tornou-se grande admirador da obra freudiana e prestou vários tributos ao contemporâneo.

20140306173522177799iBastante reconhecido em sua época, foi abordado por Freud por ter criado a ideia de “sentimento oceânico”, uma sensação inspirada na mística hindu. Embora o conceito fosse rejeitado por Freud, ele respeitava bastante o pensamento de Rolland.

20140306173455705740aAssim como Freud, era médico, judeu, ateu, escritor prolífico, praticante de hipnose. Trocaram cartas, se conheceram pessoalmente, mas a proximidade era mais por cortesia do que por real admiração por parte de Freud.

20140306173503535343aTrocou correspondências assiduamente com Freud por três décadas. Tinha o hábito de mostrar seus escritos inéditos ao amigo, e vice-versa. Recebia elogios na mesma medida em que os concedia.

>>> TOP 10 de Freud

Em 1907, Freud respondeu pesquisa de opinião feita pelo editor e livreiro Hugo Heller, que pediu a indicação de “dez bons livros”. Como resposta, Freud diz que ali não estão as dez maiores obras-primas da literatura, ou os dez livros mais importantes. Listou, portanto, “bons livros”, conforme solicitado:

Cartas e obras, de Multatuli
O livro do jângal, de Kipling
Sobre a pedra branca, de Anatole France
Fecundidade, de Zola
Leonardo da Vinci, de Merejkóvski
A gente de Seldwyla, de G. Keller
Os últimos dias de Hutten, de C.F. Meyer
Ensaios, Macaulay
Os pensadores da Grécia, de Gomperz
Histórias alegres, de Mark Twain

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> BIBLIOTECA DE FREUD
Freud era amante dos livros. Sua biblioteca em Viena, na Áustria, era composta de mais de 2 mil títulos. Eram obras de todos os gêneros: ciências do espírito e da natureza, religiões, história, filosofia, etnologia, mitologia, biografias, relatos de viagem, literatura alemã e estrangeira. Especula-se que alguns desses volumes lhe serviram de documentação para os próprios livros (por exemplo, A essência do cristianismo, de Feuerbach, para O futuro de uma ilusão; e os Cadernos de Leonardo da Vinci para Uma recordação de infância…)

>AS OBRAS
O autor com maior presença nas prateleiras era Shakespeare, com edições inglesas e alemãs. Dostoiévski era igualmente bem representado nas prateleiras de Freud. Ali também estavam as obras completas de Gustav Flaubert (18 volumes), Guy de Maupassant (20) e Anatole France (21). Entre os alemães, Goethe, Heine e, em destaque entre os contemporâneos, Thomas Mann e Stefan Sweig. Curiosamente, não havia nada de Schnitzler na biblioteca de Freud.

> ATÉ O FIM
Em vários livros havia frases sublinhadas e observações rabiscadas nas margens: “Não, não! Burrice. Estúpido!”. Poucos dias antes de morrer, voltou suas atenções para A pele de onagro, de Balzac. “Era justamente o livro de que eu necessitava; fala do encolhimento e da morte por inanição”, teria dito.

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