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Cecilia Garcia, no Literatortura

É claro que, pouco depois do bicentenário de publicação de Orgulho e Preconceito, falar da obra é um pouco coxinha. Na verdade, pode parecer assim pelo fato de que Jane Austen nunca foi tão popular antes – ela está quase onipresente: cinema, republicações, continuações, versões, spin offs e afins, de forma que conviver com ela parece ser inevitável. De seus seis romances publicados, o mais popular é Orgulho e Preconceito e minha crença se dá firmemente que a popularidade do romance se deve ao fato dos personagens serem tão bem construídos que o turning point da obra é completamente imprevisível no começo da primeira leitura. 200 anos depois, é claro que a leitura perde parte de seu viço (ainda mais quando Keira Knightley protagoniza uma adaptação em 2005…). Ainda assim, como alguém que já leu e estudou sobre a obra, decidi selecionar 10 frases que, de alguma forma, são importantíssimas para o romance.

1) “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro que possua grande fortuna deve estar à procura de uma esposa”.

A frase que inicia o livro já joga no colo do leitor o quanto o casamento é uma obrigatoriedade e que, mesmo sem querer, o homem será convencido a desposar alguma das damas solteiras de seu círculo social. O tom jocoso, quase de fofoca da abertura, também já mostra que Austen vai rir muito desse povo com quem ela convive e que ela tanto observa.

2) “Ela é tolerável, mas não bela o bastante para me tentar. Não estou com ânimo no momento para consolar jovens rejeitadas por outros homens”.

A arrogância de Darcy e seu desdém pela plebe provinciana de Longbourn estouram bem na cara da protagonista – Lizzy não era a mais bonita e Darcy não é gentil ao pontuar isso.

3) A felicidade no casamento é uma questão de sorte.

Charlotte Lucas, a amiga racional, feia e “encalhada” de Lizzy mostra como o destino ainda era visto como o responsável pelas consequências dos atos. Trata-se então de um resquício daquele fatalismo que vinha da religiosidade. Não lute contra as coisas, é tudo uma questão de sorte e não de atitude.

4) “A imaginação de uma mulher é muito rápida; pula da admiração para o amor e do amor para o matrimônio em um instante”

Mas uma das delicadezas de Darcy, é um dos desabafos a respeito da imposição para o casamento e da falta de liberdade de apenas apreciar uma pessoa bonita sem compromisso de se casar com ela.

5) “Nunca vi tal mulher [ultra prendada, como Darcy e Caroline Bingley descrevem]. Nunca vi tal capacidade, gosto, aplicação e elegância como você descreve, juntas”

Que lindo! A incapacidade de ser prendada como diziam ser é colocada por Elizabeth diante das figuras mais influentes socialmente. É como se ela dissesse “Você pode até dizer que é prendada assim, mas não me convence”.

6) “Não tenho pretensão alguma pelo tipo de elegância que consiste em torturar um homem respeitável. Eu preferiria ser considerada sincera”

O uso da razão e a força do pedido de Elizabeth para ter seu direito de expressão reconhecido surgem quando ela decide não se casar com Collins. Ela nega o “charme” que era feito para que o pedido de casamento fosse reforçado e insiste que só tem opinião própria e voz para fazê-la valer.

7) “Em vão tenho lutado sem sucesso. Deve permitir que eu te diga o quão ardentemente te admito e te amo”

Além de fazer as tietes infartarem, a declaração de amor do Sr. Darcy é a marca da virada na trama e é o momento em que o amor dele supera o preconceito e que o valor do personagem finalmente aparece, já que, em seguida, ele escreve uma carta em que revela ser totalmente diferente do que o leitor achava que ele era até então.

8) “Tenho a certeza de que é generosa demais para fazer pouco caso dos meus sentimentos. Se os seus são ainda os mesmos que manifestou em abril passado, diga-o imediatamente. Minha afeição permanece inalterada; basta porém uma única palavra sua para fazer com que me cale para sempre.”

O novo pedido de casamento de Darcy, mais gentil e generoso do que o primeiro, mostra que o afeto permaneceu, mesmo que Elizabeth tenha sido tão rude. A citação foi muitíssimo açucarada no filme de 2005 – ele não diz “Eu te amo” nenhuma vez, que dirá três. Ele também não fica sussurrando, desesperado – é um passeio, em que Bingley e Jane estão andando na frente e ela está indo apenas fazer companhia a Darcy. A conversa mostra a objetividade do texto de Austen que, infelizmente, é transformada em um pote de melaço no cinema.

9) (Em resposta a Elizabeth, quando ela questionou como ele começou a amá-la, se ela era sempre tão incivil com ele) “— Não posso fixar a hora ou o lugar. Isto já foi há muito tempo. Eu já estava no meio e ainda não sabia que tinha começado.”

Gosto particularmente desta citação por quebrar um paradigma romântico de amor instantâneo. Darcy é incapaz de dizer em que momento se apaixonou por Elizabeth e isso não representa um problema. Na vida real, e até mesmo hoje, séculos depois, parece verossímil se apaixonar por alguém sem ter consciência daquilo, sem exaltação ou premeditação. Viu só, Nicholas Sparks?

10) “A princípio ouvira com assombro e um pouco de terror os gracejos e brincadeiras de Elizabeth. O irmão sempre lhe inspirara um respeito que quase sufocava a sua afeição. Começou a saber de coisas que ignorava. Elizabeth lhe explicou que uma esposa pode se permitir com o marido liberdades que um irmão nem sempre poderia tolerar na irmã dez anos mais moça do que ele.”

Mais uma citação que mostra a concepção “prafrentex” de Austen: um casamento por amor em que, inclusive, a esposa, tão inteligente quanto o marido, pode tirar sarro dele, de igual para igual.

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