1

Susana Reis, no Literatortura

Machado de Assis, José de Alencar e Aluísio Azevedo. O que mais esses autores brasileiros têm em comum, além de serem fundamentais na nossa literatura? Bem, antes de estarem em formato completo na sua estante, as obras dos autores em xeque passaram por um processo interessante, que faz parte da história do jornalismo e da literatura. Suas obras foram, em sua maioria, folhetins em jornais. E aí, está preparado para conhecer um pouco mais sobre esses folhetins, os precursores do romance nacional?

Foram os folhetins que popularizaram a Literatura entre a população em geral, no séculoXIX, quando os escritores de importância começaram a tomar conta dos jornais e perceber a força que esse veículo possuía no espaço público. Assim, o folhetim apareceu como um dos principais caminhos para a divulgação do conteúdo desses escritores.

Mas vamos começar pelo início, na Europa, especificamente na França. Os leitores franceses do século XIX começaram a ficar entediados com o conteúdo de seus jornais, que se mostrava cheios de reclames sociais e notícias “sérias”. Foi então que apareceu o “Feuilleton”, ou folhetim, um espaço no rodapé da página do jornal, dedicado a críticas culturais, receitas de bolos, boletins de moda e assuntos diversos.A partir de 1830, principalmente na França e na Grã-Betanha, as publicações das narrativas literárias começaram a surgirneste espaço como uma nova forma de entretenimento.

1Nos folhetins, cada capítulo era publicado em uma edição do jornal, então a curiosidade obrigava o leitor a comprar o jornal do dia seguinte. Era a fórmula do “continua amanhã.”. Ao mesmo tempo em que os autores encontravam uma nova forma de publicar suas histórias e seus nomes, o jornal se beneficiava porque vendia mais edições e poderia, assim, diminuir o preço do jornal, para aumentar o número de leitores e consequentemente aumentar os anunciantes. Um aumento das tiragens ocasionava um espaço publicitário mais fácil. Ou seja, o autor ganhou mais espaço, o jornal mais dinheiro e o leitor, conteúdo.

A novela picaresca espanhola Lazarillo de Tormes, de autor desconhecido, foi a primeira história a ser publicada em partes, no jornal La Presse. Agora, aprimeira ficção feita para ser exclusivamente um folhetim foi escrita por Honoré de Balzac, em 1836. Ele escreveu em doze episódios a ficção La vieillefille, igualmente sob encomenda do jornal La Presse. Foi a abertura necessária para a aparição de mais e mais histórias seriadas.

Até o começo do séc. XX, diversas obras, que hoje são conhecidos como clássicos universais, apareceram também nos folhetins. Memórias do diabo, de Frédéric Soulié; O capitão Paulo, de Alexandre Dumas, Os mistérios de Paris e O judeu errante, de Eugène Sue; O Conde de Monte Cristoe Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas; Os dramas de Paris, de PonsonduTerrail; Os mistérios de Londres de Paul Féval; La porteuse de pain, de Xavier Montépin ; La fauvettedumoulin, de ÉmileRichebourg, além de obras de Flaubert, como Madame Bovary e Victor Hugo, como Os Miseráveis.

Os folhetins tinham sempre temáticas melodramáticas, com amores roubados, adultérios, odisseias aventureiras, filhos bastardos, heranças roubadas, duelos, raptos, traições, prisões, romance de novo… Tudo que entretivesse o público consumidor popular do jornal. E foi dessa maneira que, em 4 de janeiro de 1839,o primeiro folhetim de ficção foi publicado no Brasil. A novela Edmundo e sua prima, de Paul de Kock, no Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro.

Nas duas décadas seguintes, os jornais brasileiros ficaram recheados de folhetins com as traduções dos clássicos, com novelas curtas e romances tradicionais franceses. A população brasileira da época estava descontente com os portugueses, criando grande afinidade com a cultura francesa. Ao juntar esse fato à reestruturação da imprensa que ocorreu na época, percebemos alguns motivos do grande sucesso dos folhetins no Brasil.

1

Alexandre de Lavergne, Elie Berthet, Charles Reybaud, Charles de Bernard, Jules Sandeau, Georges Sand e Alexandre Dumas foram os autores que mais apareceram nas páginas brasileiras nessa época. Os romances e novelas eram traduzidas assim que saíam na Europa.Começou-se então a vender a obra em volume único, com anúncios que apareciam no rodapé dos jornais. “O Conde De Monte Cristo”, por exemplo, foi inicialmente publicada no jornal em 15 de junho de 1846. Em julho do ano seguinte, a coleção completa deseus 10 volumes.

Os autores brasileiros começaram a conquistar seu espaço de forma vagarosa. Primeiramente nas páginas dos folhetins, alguns autores como João Manuel Pereira da Silva, Justiniano José da Rocha, Francisco de Paula Brito, João Joséde Souza, Martins Pena, Francisco Adolfo de Varnhagen e Carlos EmílioAdetpublicavam pequenos escritos; novelas que eles gostavam de chamar de “romance histórico” ou “romance brasileiro”. Esses textos possuíam um teor ideológico, político e moralizador, com limitações de caráter estético literário. Viam-se claramente traços dos romances de folhetins franceses e do romantismo. Além das temáticas já usuais do melodrama, estavam igualmente presentes osdramas do romantismo: a doença; o casamento por obrigação; a morte como solução, ou castigo; e para a mulher, o confinamento religioso ocasionado pelo amor…

A partir de 1840, nomes conhecidos por nós começaram a chegaras nos jornais: Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, Joaquim Manuel de Macedo;acompanhados décadas mais tarde por Manuel Antônio de Almeida, José de Alencar e Machado de Assis. Esses autores eram mais ufanistas. Retratavam o ambiente nacional e, divulgando a realidade, solidificavam a escrita nacional brasileira. A pesquisadora Yasmin Jamil Nadaf comenta sobre essa consolidação da escrita no Brasil:

“Regra geral, o romance brasileiro do século XIX substituiu com veemência os castelos, as exóticas ilhas, as fábricas, as mansardas dos operários e a labiríntica Paris ou Londres pelas chácaras urbanas da Corte, florestas virgens e tropicais, e habitações sertanejas e indígenas. Trocou também a figura dos príncipes e outros nobres, dos assustadores piratas das tavernas e das margens do Sena e dos pobres operários pelas sinhazinhas, estudantes, negros, índios e sertanejos.”

Yasmin fez um levantamento dos folhetins mais populares que circularam pelos jornais brasileiros, de 1840 a 1900. Foram eles:

Obra – Jornal/Data – Autor

  1. Rosa – Revista Guanabara/1849 – Joaquim Manuel de Macedo
  2. Vicentina – Marmota Fluminense/1854 – Joaquim Manuel de Macedo
  3. A carteira demeu Tio – Marmota Fluminense/1855 – Joaquim Manuel de Macedo
  4. Nina – Jornal das Famílias/1870 – Joaquim Manuel de Macedo
  5. Maria ou A menina roubada – Marmota Fluminense/1852–53 – Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa
  6. A providência – Correio Mercantil/1853 – Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa
  7. Diva – Diário do Rio de Janeiro/1856 – José de Alencar
  8. Cinco minutos – Diário do Rio de Janeiro/1857 – José de Alencar
  9. A Viuvinha – Diário do Rio de Janeiro/1857 – José de Alencar
  10. O Guarani – Diário do Rio de Janeiro/1857 – José de Alencar
  11. Memórias de um sargentode milícias – Correio Mercantil/1852–53 – Manuel Antônio de Almeida
  12. Inocência – A Nação/1872 – Visconde Taunay
  13. O encilhamento – Gazeta de Notícias/1893 – Visconde Taunay
  14. A mão e a luva – O Globo/1874 – Machado de Assis
  15. Helena – O Globo/1876 – Machado de Assis
  16. Memórias póstumas de Brás Cubas – Revista Brasileira/1880 – Machado de Assis
  17. Quincas Borba – A Estação/1886 – Machado de Assis
  18. O Ateneu – Gazeta de Notícias/ 1888 – Raul Pompéia
  19. Casa de Pensão – Folha Nova/1883 – Aluísio Azevedo
  20. Philomena Borges – Gazeta de Notícias/1884 – Aluísio Azevedo
  21. Demônios – Gazeta de Notícias/1891 – Aluísio Azevedo
  22. Cadáveres insepultos – Gazeta de Notícias/1891 – Aluísio Azevedo

1

Vemos nesse folhetinso apelo feminino em alta,devido ao grande público feminino que lia os jornais. Afinal, as mulheres precisavam saber o que havia acontecido com sua personagem favorita.
Agora eu te pergunto: Imagina começar um livro e ser obrigado a esperar o dia seguinte para continuar a lê-lo? Isso era a tortura do século XIX.Assim, surgiram os romances brasileiros. Primeiro em páginas de jornal, depois reunidos em livros que se tornaram essências para o entendimento da história da literatura brasileira. Jornalismo e a literatura desde os primórdios andam juntas, com seus altos e baixos.

Os folhetins foram mudando de veículo, mas estão presentes nas nossas vidas até hoje. Primeiro, eles migraram para as rádios, surgindo as radionovelas. Hoje elas são as nossas novelas de cada dia, que, querendo ou não, fazem parte da cultura nacional.

Observação: Alguns dados e datas podem se diferenciar em diversas pesquisas. Procurei os dados que tivessem maior ocorrência, para explicitá-los aqui.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments