Úrsula Passos, na Folha de S.Paulo

Não é só a maneira de ver séries televisivas que está mudando com as chamadas maratonas, em que todos os episódios são vistos de uma vez só. Os leitores também estão cada vez mais ansiosos para saber como continua a história dos personagens de livros.

A pressão do público pela sequência de títulos que compõem séries vem influenciando os lançamentos editoriais no exterior e no Brasil.

“As pessoas estão consumindo cada vez mais rápido o livro, então conseguimos um intervalo menor do que um ano para lançar um segundo volume”, diz Alessandra Ruiz, publisher da editora Gutenberg, que pretende diminuir o espaço entre seus lançamentos para seis meses a partir de 2015. A editora publica séries estrangeiras e nacionais, como as de Paula Pimenta e Bruna Vieira.

Mateus Erthal, da editora Novo Século, diz que a pressão pelo lançamento do título seguinte é quase imediata quando um livro de uma série é bem recebido.

“Uma opção tem sido o lançamento, ou relançamento, quando alguns títulos já foram publicados, de séries completas em boxes. Assim, o leitor já compra e lê todos de uma vez”, afirma.
Editoras como a Galera Record, com séries baseadas em jogos de videogame, e a Seguinte, com a “Seleção” de Kiera Cass, já fazem lançamentos simultâneos aos EUA.

Editoria de Arte/Folhapress

Além das editoras, os fãs cobram diretamente os escritores nas redes sociais. “Às vezes acordo, abro meu Twitter, aí já tem uma galera perguntando pelo próximo livro e me dá estímulo para continuar escrevendo naquele dia”, conta Eduardo Spohr.

André Vianco, autor de séries como “O Turno da Noite”, diz ter vontade de atender os leitores, mas afirma que é impossível escrever tão rápido quanto eles desejam.

Já a mineira Paula Pimenta, que lançou três livros no último ano, pretende manter o ritmo em 2014. A internet, para ela, facilita o trabalho. “Os escritores têm retorno imediato sobre o que as pessoas pensam sobre seus livros e os leitores podem ter contato direto com o autor”, diz.

A série “As Mais”, de Patrícia Barboza, era para ser um único volume, mas serão cinco graças à pressão do público. Para ela, a história de que adolescentes não leem é velha. “Eles são vorazes para pegar o livro e conhecer os autores”, diz a autora carioca.

Pascoal Soto, diretor da Leya, que publica “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin, no país, observa que o comportamento do leitor brasileiro está ficando cada vez mais parecido com o do americano.

“Os livros, especialmente os best-sellers, têm essa dinâmica rápida há muito tempo nos mercados mais maduros, isso é muito próprio dos produtos de massa”, diz Soto.

Mas não adianta correr demais se os leitores não tiverem tempo de conhecer a série. Soto e Ruiz dizem ser necessário criar uma base de leitores e esperar que o mercado possa absorver o produto.

Vianco diz acreditar que alguns livros não são mais só livros, “são franquias, é o videogame do livro, filme, seriado, HQ”, afirma.

Para o professor da Unesp João Luís Ceccantini isso pode revelar “um apego à quantidade e ao mais do mesmo”.

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