Uma carta do escritor a uma amiga, que será leiloada em Londres, mostra sua rejeição à fama
A oferta vai superar na próxima quarta-feira os 3.500 euros segundo a casa Bonhams

Primeira página da carta de Lewis Carroll.

Primeira página da carta de Lewis Carroll.

Patricia Tubella, no El País

As aventuras de uma criança chamada Alice que desce por um buraco para emergir no País das Maravilhas transformara Lewis Carroll, um autor reconhecido e bem-sucedido, em um famoso de seu tempo. E, no entanto, o criador daquele fantástico relato desejou um dia não ter escrito o livro que acabou lhe consagrando como lenda literária. Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898), o verdadeiro nome de um escritor que tentava guardar zelosamente sua privacidade sob o refúgio de um pseudônimo, recebeu mal o fato de sua identidade não ser mais ser um segredo. A sondagem pública fazia com que ele se sentisse como um animal de zoológico, tal e como se lamenta em uma carta dirigida a uma amiga que acaba de se tornar pública porque será leiloada pela casa Bonhams na próxima quarta-feira em Londres.

“Toda esta classe de publicidade faz com que desconhecidos vinculem meu verdadeiro nome com o livro, e que me assinalem, e que me olhem e me tratem como se eu fosse um leão”, escreveu para a sua confidente Anne Symonds, a viúva de um eminente cirurgião da época, em uma carta datada no dia 9 de novembro de 1891 valorizada hoje em mais de 3.500 euros (mais de 11.500 reais) segundo a Bonhams. Já se passaram 26 anos da publicação de Alice no País das Maravilhas uma obra que supunha uma virada radical na produção do matemático e lógico inglês até então dedicada aos livros sobre álgebra. Esse novo universo que tomava a fantasia como arma seduziu de imediato a legião de leitores, incluindo a mesmíssima rainha Victoria, que dizem que esperava com impaciência a publicação da sequência, Alice Através do Espelho – E o que ela encontrou lá.

O escritor que utilizava o pseudônimo de Lewis Carroll semeou sua novela de alusões satíricas em uma sociedade victoriana em que cujos espartilhos nunca se sentiu cômodo.O personagem real de Charles Lutwidge Dodgson teve que se confrontar com as indesejadas atenções daquela sociedade. Odiava a fama “tão intensamente, que às vezes quase desejaria não ter escrito nenhum de meus livros”. A carta dirigida à senhora Symonds confirma a reticência com a vida pública de um autor que só deixava a solidão quando estava rodeado de meninos, e sobretudo de meninas, de quem fez numerosos esboços e fotografias.

A relação de Dodgson com uma criança de 10 anos foi a inspiração da Alice da ficção. Alice Liddell era uma das três filhas do decano de um colega da Oxford (Christ Church), a quem o escritor costumava entreter com suas histórias sobre o inquieto coelho branco, o Gato de Cheshire ou o Chapeleiro Maluco. Durante um passeio de barco pelo Tâmisa com as pequenas da família Liddell, teria surgido a ideia de um novo livro que com o tempo acabaria tendo um imenso impacto cultural, do que beberam até hoje tantas e tão diversas manifestações artísticas.

A carta inédita que vai ser agora leiloada pela casa Bonhams contribui ao menos com um pedaço da ambígua personalidade de Carroll, submetida a um julgamento póstumo que continua sendo objeto de debate entre os que atribuem a fixação por Alice à sua condição de pedófilo, os que sublinham um amor desmesurado pelas crianças embora não de caráter sexual e aqueles para quem ele singelamente encarna uma obsessão literária por fixar a infância eterna. Seu verdadeiro perfil humano continua sendo um grande desconhecido porque quatro dos treze volumes de seus diários desapareceram misteriosamente, e sete páginas de outro foram arrancadas provavelmente por seus herdeiros. Um legado incompleto cuja mutilação alentou as especulações sobre uma perversão nunca provada.

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