ca33Hélio Schwartsman, na Folha de S.Paulo

Concordo com o novo presidente do Inep, Chico Soares, quando afirma que o currículo do ensino básico no Brasil precisa ser mais bem definido. Vou um pouco mais longe e acho que deveríamos considerar seriamente a possibilidade de um currículo nacional daqueles bem detalhados e quem sabe até a adoção de alguns sistemas estruturados (apostilas).

A questão é controversa entre educadores. Para os que são contra, o material didático padronizado amarra o professor e inibe a criatividade. Eu mesmo já pensei assim (mas faz tempo). E continuaria pensando não fosse por uma reflexão matemática.

A autonomia é de fato ótima, desde que você tenha professores excepcionais. E o problema é que, por uma fatalidade estatística, contamos com poucos docentes muito bons, uma grande massa de mestres medianos e alguns bem ruinzinhos. Nessas condições, os sistemas estruturados, ao contribuir para puxar um pouquinho a média para cima, produzem mais ganhos do que prejuízos.

Essa intuição parece ser corroborada por dados empíricos. Num estudo de 2010, as pesquisadoras Ilona Becskeházy e Paula Lozano, da Fundação Lemann, compararam o desempenho na Prova Brasil de escolas municipais paulistas que usavam apostilas com o de instituições semelhantes que não usavam e concluíram que os sistemas tendem a ter efeitos positivos no aprendizado. Não se trata de nenhuma revolução, mas é algo que traz um ganho incremental que parece consistente.

Tal resultado não chega a ser uma surpresa, quando se constata que as apostilas ajudam o professor a organizar-se para a aula e que um dos grandes problemas identificados na escola pública brasileira é que o docente não sabe o que fazer com o tempo de que dispõe.

Acho que vale a pena tentar. Já passamos muito tempo apostando na autonomia aos professores e os resultados estão longe de brilhantes.

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