Gaúcho radicado em Curitiba reúne mais de sete mil pensamentos e cria estratégia própria para divulgar livros em bares e restaurantes da cidade

Não há como ignorar Antônio Ribeiro, 62 anos, quando ele se transforma no homem-livro

Não há como ignorar Antônio Ribeiro, 62 anos, quando ele se transforma no homem-livro

Cristiano Castilho, na Gazeta do Povo

O Oil Man que se cuide. Paramentado com um colete de plástico recheado de livros, dotado de alto poder de convencimento, munido de frases feitas afiadas e com brilho natural devido à carequinha que o anuncia de longe – e que, com a ajuda dos óculos, o faz parecer com o Dr. Abobrinha –, Antônio Ribeiro, o homem-livro, está prestes a se tornar o mais novo super-herói lado B de Curitiba.

No Juvevê, é batata. Almoço ou jantar, não importa: o homem-livro sempre estará a postos, pronto para vender ou oferecer de graça seus livrinhos coloridos, coletâneas de pensamentos sobre a felicidade, o sucesso, o dinheiro, a amizade, a ajuda, o amor e o pensar. “Esse aí é alimento para a alma”, costuma dizer Antônio, ao apontar o dedo para a macarronada da sua “vítima”. “Este daqui, alimento para a mente”, completa, ao mostrar sua obra. O homem-livro já peregrinou por 35 restaurantes da região. E, dizem, ninguém reclama.

Sua história lembra a de um caixeiro-viajante moderno. Gaúcho de Porto Alegre, começou a vender livros de porta em porta quando era adolescente. Os Quitutes da Tia Marilu fizeram sucesso estrondoso entre as donas de casa que acompanhavam o programa da Ofélia. Depois, a Biblioteca Científica da Life seduziu professores. A mala que carregava a tiracolo era pesada – “hoje eu sou a mala!”, ri –, mas Antônio se orgulha dos calos que têm nas mãos.

Irmão de sete, o homem-livro ajudava a família com a grana do que vendia. “Em casa, tinha o sorteio do bife”, lembra. Mas a coisa engrenou mesmo quando começou a vender livros para dentistas, já em São Paulo, para onde se mudou aos vinte e poucos anos, depois de largar a faculdade de Agronomia. Porque livros sobre implantes em português eram a maior novidade – os poucos que existiam eram em inglês e espanhol. “Foi uma beleza. Os livros eram baratos, bons e desconhecidos.”

Antônio fez um pé de meia. Até carro comprou, à vista. Pagou a faculdade de Administração no Mackenzie. E montou uma empresa que vende produtos odontológicos. Conheceu alguém. Casou-se com uma curitibana. Separou. Casou novamente. “O terceiro casamento foi com Curitiba, e continuo fiel!”, exalta-se.

Por aqui, continuou com a empresa – a Odontex existe há 35 anos. Antônio é arroz de feira odontológica. E faz questão de divulgar seus livros técnicos – estes ele mesmo escreveu – pessoalmente. Astuto, percebeu que a maioria dos potenciais interessados passava as páginas rapidamente até se deparar com um pequeno pensamento, posicionado estrategicamente no início de cada capítulo. “Toda grande ideia tem um parto”, justifica.

Além de coloridos, os livros de pensamento que vende hoje são pequenos. “Ideal para ler na sala de espera, no ônibus, no avião e no con-ges-tio-na-men-to”, avisa Antônio, irradiante. Fora que “livro grande incomoda e é caro”. Os pensamentos que recolhe são fruto de pesquisa e contribuições de amigos. Somam quase sete mil. Ousado, o homem-livro marcou presença na Bienal do Livro de São Paulo e até em Paraty, na pomposa Flip, ano passado. Ninguém deu bola. Mas ele insiste.

Nas próximas semanas sairão do forno o Livro da Vida, o Livro dos Sonhos, o Livro da Fé, o Livro da Alegria e o Livro do Sexo. “Ah, esse precisa ser vermelho, né?”.

dica do Jarbas Aragão

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments