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Publicado no UOL

A filósofa e escritora Adélia Prado disse, nesta segunda-feira (24) durante o programa “Roda Viva”, que partes de suas poesias têm relação com o sofrimento das pessoas. Para ela, é necessário passar por momentos tristes para que se entenda a vida. Assista trecho acima.

“A pessoa que não sofre é motivo de estudo. Nós todos temos motivos de sofrimentos, a finitude da vida, envelhecemos, morremos, temos desconfortos físicos e morais. Tudo isso é sofrimento. Tenho muito medo de livro de auto-ajuda porque ele quer desviar você daquilo que é importantíssimo. Você tem que encarar. Você tem que dizer sim para aquela dor. Fugir de dor é uma perda de tempo, você encontra ela em cada esquina”, disse a escritora, que parou de escrever por sete anos devido a uma depressão.

Segundo ela, ao ficar depressiva não conseguia mais escrever. Na época, ela iniciava o romance “Homem da Mão Seca” e contou que, sem perceber, o livro narrava a própria história. ” Fiquei no deserto. No desamparo total. Por que eu não dava conta de escrever? Estava empolgada e parei. O problema era comigo, uma depressão profunda. Uma coisa que não tinha consciência que estava padecendo. Eu sabia até o gesto como ia acabar o livro. Ai, eu descubro que a mão seca era minha”, disse ela.

Apoiada na fé, Adélia é católica e em todas as suas poesias cita Deus. De acordo com a escritora, “todo crente passa pela dúvida e pelo deserto da fé”. No entanto, ela não deixa que dúvidas momentâneas transpareçam em suas poesias. “O problema religioso sempre aparece e é muito incômodo para muita gente. Se eu fosse ateia ou agnóstica, faria poesia do mesmo jeito porque é um dom, uma graça. Mas faria outro tipo de poesia. A minha fé necessariamente aparece na poesia porque faço a poesia comigo por inteira”, explicou ela, que lança nesta terça o livro “Miserere”.

Após três anos de seu último livro, “Miserere” traz 38 poesias que revelam diálogos da escritora com Deus. O próprio título vem da liturgia católica. Miserere vem da expressão latina “miserere nobis”, que quer dizer “tende piedade de nós”.

Ainda na entrevista, Adélia falou do seu apoio ao Papa Francisco, adoração a Steve Jobs e compaixão a Saddam Hussein. No último, ela explica que a cena em que o ex-presidente do Iraque de um pequeno buraco subterrâneo camuflado com terra e tijolos foi dramática. “Me senti na pele dele. Por que não sou eu que fui condenada a morte?’, questionou ela.

Participaram da bancada do “Roda Viva” Ubiratan Brasil, editor do “Caderno 2” de “O Estado de S. Paulo”; Ana Weiss, editora-assistente de cultura da revista “Isto É”; Josélia Aguiar,  jornalista especializada em livros e autora da biografia de Jorge Amado, a ser lançada este ano; Paulo Werneck, curador da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty)  2014; Fabrício Corsaletti, poeta e colunista da “revista São Paulo”, publicação semanal da “Folha de S.Paulo”.

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