LOLITA - FILM

Lorena Robinson, no Literatortura

No papel de leitores ou autores, nossos primeiros contatos com a literatura sedimentam-se na arte (inicialmente simples, mas regrada) da narrativa. Aprendemos no bê-á-bá os elementos estruturais necessários para uma narração completa, dinâmica e informativa; e descobrimos, talvez, que o principal para pôr tais conhecimentos em prática consiste na materialização formal de uma prática rotineira: contar e repetir histórias.

Uma familiaridade inevitável surge do nosso papel de ouvinte ávido e curioso: acostumados a sermos aves de rapina sedentas de (e que exigem) informações completas, somos críticos odiosos de brechas e furos até no mais simples dos boatos. Natural que, construindo nossa primeira narrativa, tenhamos ouvido na cabeça perguntas que faríamos se estivéssemos na posição de leitores (ou ouvintes): o que aconteceu? quando aconteceu? onde aconteceu? como aconteceu? por quê? quem estava lá?

Tempo, espaço, personagens, enredo, clímax… Todos os elementos organizados e conduzidos por uma figura muito, muito importante.

Você mesmo (ou ele?). O narrador.

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Primeira pessoa ou terceira pessoa. Onisciente, personagem ou observador. Independente do tipo, conhecemos como um personagem – que pode ou não fazer parte da história que está prestes a narrar – responsável por quebrar a “quarta parede” para o leitor: é ele quem expõe o mundo ficcional, assim como todos os elementos necessários, segundo o autor, para que se compreenda plenamente a história narrada. O narrador existe no mundo ficcional, mas, de certa forma, reconhece e direciona a audiência para contar a história desejada ou expor seus elementos contextuais – deixando que outras personagens desenvolvam a narrativa. O narrador mais simples e direto é conhecido como a entidade onisciente e imparcial; conta e só, geralmente não chegando a participar dos acontecimentos registrados. No entanto, um narrador que seja também um personagem atuante, protagonista de sua própria história (narrador autodiegético) ou não (narrador homodiegético), possuirá particularidades. Um personagem, por definição, é uma pessoa ficcional, com perfil e personalidade características que serão colocadas a dispor do desenvolvimento e enriquecimento da obra. Um personagem atuante que seja narrador, além de trazer consigo a bagagem de sua personalidade, trará, provavelmente, uma boa dose de parcialidade. O estilo narrativo acentuará suas características e preferências, portando o diferencial-chave desse tipo de narração: um ponto de vista.

Um narrador com particularidades pode escolher quais acontecimentos narrar e quais ignorar. Pode escolher como narrá-los. Pode despejar uma série de juízos de valor sobre as demais personagens. Um narrador-personagem discorrerá sobre o mundo através de suas perspectivas únicas – pois uma história nunca será a mesma quando contada por bocas diferentes. Histórias são moldadas por peculiaridades individuais.

E se o narrador-personagem em questão ostentar uma moral duvidosa, uma mente insana ou um prazer sádico? Será que ele pode omitir, conduzir, manipular ou mentir para o leitor?

O nosso narrador, no entanto, pode ser completamente anônimo. Pode soar como a clássica voz a descrever ambientes e situações da história; pode ser nosso narrador onisciente e imparcial. Entretanto, ser onisciente não significa partilhar sua onisciência: narradores em terceira pessoa podem ser igualmente argutos. O mecanismo sutil de narrar a história sobre uma perspectiva, ao mesmo tempo em que a camuflando elegantemente, é capaz de surpreender até o mais detalhista dos leitores. O narrador onisciente pode ser seletivo, conduzindo a história de modo a influenciar o leitor tanto com uma opinião quanto sobre os próprios fatos. O narrador onisciente seletivo se abstém, de modo a não comprometer o suspense ou a reviravolta estapafúrdia prometida para o fim da trama. A surpresa é sincera quando chegamos ao final de um livro ao modo Agatha Christie e torcemos o nariz pensando: oras, ele sabia disto o tempo todo.

Seja por malevolência, insanidade ou como um mecanismo para direcionar e conduzir a obra, é certo dizer que um narrador não confiável capaz de provocar uma experiência única em um texto. Um autor com desenvoltura para construção de personagens intrigantes e complexos pode aproveitar-se desse tipo de narração para explorar o subconsciente e os lados da mente do personagem mais interessante – expondo-o ao fazê-lo contar uma história a seu próprio modo. Assim como pode usar a narração como um treinamento eficaz de escrita: analisando um texto narrado em terceira pessoa, como seria a mesma história narrada por algum personagem da trama?

Explorar a vivacidade independente de um personagem é útil e interessante tanto para o leitor quanto para o autor; e podemos certamente considerar esse artifício como enriquecedor e diferenciador de qualquer história.

Quando você se der conta de quanto foi enganado; quando descartar o pressuposto de que todo narrador provavelmente está contando a verdade… Pode se encontrar intrigado e – por que não? – divertido por uma narrativa peculiar, engenhosa e brilhantemente diferente.

Conheça, então, alguns dos narradores menos confiáveis da literatura. E, lógico, comente quais, na sua opinião, estão faltando.

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1. Humbert Humbert em Lolita, de Vladimir Nabokov
A esmerada e graciosamente fluída narração em Lolita pode ter sido o elemento-chave para tornar o livro o maior sucesso do russo Vladimir Nabokov e a consagrá-lo como um clássico da literatura. A obra polêmica, inicialmente rejeitada por diversas editoras, possui um enredo direto: um professor de poesia de meia-idade, cínico e irreverente, conta a história de seu caso de amor obsessivo com Dolores Haze (Lolita), uma menina de apenas 12 anos.

Humbert Humbert possuía tão absurda inclinação para a manipulação e omissão que sua narrativa sobre seu caso de evidente pedofilia virou, aos olhos de uns (ou de muitos), um curioso caso de amor. “Um relato apaixonado”, dizem. Em alguns pontos do livro somos conduzidos a achar que Lolita o seduziu; em outros que ela retribuía o amor compulsivo de Humbert em alguma escala. Perdidos na narrativa envolvente de Nabokov, negligenciamos os elementos que apontam para o mau-caratismo de Humbert (como o fato de ele ter sido preso por conta de seu envolvimento com Dolores e o fato de ter se aproximado da mãe dela só para passar mais tempo com a menina), tal como pequenas passagens em que ele alega ter uma “memória fotográfica” para páginas depois afirmar que possuía uma memória falha e traiçoeira.

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2. O Narrador em Clube da Luta, de Chuck Palahniuk
O Narrador da obra mais marcante do norte-americano Chuck Palahniuk é conhecido exatamente assim, como “o Narrador”, pelo simples fato de seu nome não ser dito em um único momento ao longo de toda a obra.

Narrado pelo protagonista (ou um dos), em 1ª pessoa, são expostos ao leitor alguns fatos ou detalhes que poderiam tirar o crédito do Narrador como condutor de uma história. Além de frequentar assiduamente grupos de apoio (para causas em que ele não precisa de apoio algum), nosso personagem é atormentado por uma terrível insônia – que pode o levar a dormir em um lugar e acordar em outro completamente diferente, sem qualquer lembrança do ocorrido. Evitando estragar uma das surpresas literárias mais esmagadoramente deliciosas, basta dizer que O Narrador é certamente um dos menos confiáveis da literatura, e é justamente isso que torna a leitura tão prazerosa e antológica.

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3. Holden Caulfield em O apanhador no campo de centeio, de J.D Salinger

“Sou o maior mentiroso que você já viu na vida. É terrível. Se vou até a esquina comprar uma revista e alguém me pergunta onde estou indo, sou capaz de dizer que vou a ópera.”

Brevemente, a história de Holden narra sua iminente entrega a traumas emocionais. Mas, obviamente, isso não é dito ao leitor ao longo de sua narrativa. Holden não só omite como mente ao dizer, em momentos da história, como ele supostamente estava se sentindo. Outro fator marcante é que reconhecemos que não podemos levar a sério ou confiar na maioria das coisas que ele diz: em um momento ele difere acusações sobre a indústria cinematográfica, em outro ele está recomendando seu filme favorito.

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5. Eva em Precisamos falar sobre Kevin, de Lionel Shriver
A obra de Lionel Shriver foi levada aos cinemas por Lynne Ramsay em 2011, e podemos dizer que, no longa, algumas características de Eva subentendidas no livro foram mais claramente acentuadas. Carregado de uma atmosfera obsessiva e sombria, registra e reflete a personalidade da narradora – que, também no filme, apresenta os acontecimentos sob seu ponto de vista, em uma experiência profunda e introspectiva. Em alguns momentos, no entanto, chegamos a duvidar dos fatos narrados por Eva, ou, pelo menos, em sua acurácia narrativa. Sentimos um leve desconforto e estranhamento quando Eva insiste na malevolência de seu filho, mesmo ainda tão jovem, como se exagerasse as situações para, posteriormente, livrar-se de qualquer culpa. Também é ligeiramente curioso seu marido ser tão cego em relação ao comportamento de Kevin que ela evidencia – talvez, porque, alguns acontecimentos foram moldados por seu ponto de vista (visto que Eva escreve após o grande feito de Kevin).

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6. Bentinho em Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Todos nós, enquanto estudantes, já lemos ou ouvimos falar em Dom Casmurro, obra pertencente à “trilogia realista” do nosso célebre Machado de Assis. O enredo, portanto, não deve ser uma surpresa: Bentinho, o narrador-personagem e protagonista, conta a história de sua vida; dos pormenores da infância até o presente em que está escrevendo o livro. Nas reminiscências de sua juventude, conhecemos Capitu, nossa moça dos famosos olhos de ressaca; de cigana oblíqua e dissimulada. Conhecendo-se desde crianças, Bentinho e Capitu enlaçam uma história de amor marcada, por parte do nosso protagonista, por fortes doses de ciúmes e inseguranças. Apresentando um comportamento quase psicótico agravado por suas crises de ciúmes, fica claro que a narrativa de Bento é tendenciosa, permeada por suas fortes emoções e fruto de uma mente insegura e conturbada. Não é à toa que uma dúvida antológica ecoou nas gerações de leitores desde 1899: Capitu traiu ou não Bentinho?

Fica evidente que a questão só poderia ser esclarecida se Dom Casmurro tivesse sido narrado por um personagem mais imparcial e confiável; e é essa a grande marca da obra.

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6. Huckleberry Finn em As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain
A narrativa de Finn é ameaçada e marcada por seu mau-caratismo, seu cinismo e sua irreverência – fazendo dele um dos narradores pouco confiáveis mais famosos. No primeiríssimo capítulo, além de quebrar a “quarta parede” dirigindo-se à audiência e ao próprio autor, ele questiona a sinceridade do livro anterior e (é claro) desse próprio.

“Você não me conhece a menos que tenha lido um livro chamado As Aventuras de Tom Sawyer; mas não importa. Aquele livro foi escrito por Mark Twain, e ele contava essencialmente a verdade. Algumas coisas ele exagerou, mas no geral ele disse a verdade. Isso não é nada. Eu não conheço ninguém que nunca tenha mentido uma vez ou outra, a não ser a Tia Polly, ou a viúva, ou talvez Mary. Tudo sobre a Tia Polly – ela é a tia do Tom – a Mary, e a Viúva Douglas, está escrito naquele livro, que é principalmente um livro que diz a verdade, com alguns exageros, como eu disse antes.”

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7. Kvothe em O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss
Com a história de Patrick Rothfuss, temos um interessante caso de narrador não confiável.

A história da trilogia é narrada em primeira pessoa por Kvothe, que decide relembrar e registrar, pela primeira vez, a história da sua vida e os acontecimentos que o tornaram uma lenda de seu próprio tempo. Ao longo do livro percebemos que Kvothe, ao menos em sua adolescência, tinha um ego notável: gostava de ser reconhecido, e não havia modéstia que impedisse a vontade de ter pessoas repetindo seu nome e contando histórias sobre ele, a ponto de ele próprio espalhar boatos absurdos sobre si. Além da possibilidade do orgulho de Kvothe ter modificado alguns acontecimentos narrados, sabemos que Kvothe está longe de ser imparcial. Temos, inclusive, algumas dicas de que seu depoimento não é inteiramente confiável; como quando outro personagem afirma que Denna, moça adorada por Kvothe, não era tão bonita quanto ele fazia parecer.

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