Marco Rodrigo Almeida, na Folha de S.Paulo

Raphael Montes entrou cedo para o mundo do crime. Aos 12 anos, foi cooptado por um britânico excêntrico e uma substância viciante demais.

Por sorte, o britânico era o escritor Arthur Conan Doyle (1859-1930) e a substância, o romance “Um Estudo em Vermelho”, primeira aventura de Sherlock Holmes. Com eles, o garoto descobriu sua vocação.

Não demorou a cometer seus próprios delito, histórias sobre pedófilos, professoras assassinas e mulheres serradas ao meio que fizeram dele a sensação da escola. Hoje, uma década depois, Montes continua a fascinar por seu universo macabro, mas sua fama já extrapolou os limites do Colégio de São Bento, no Rio.

O escritor Raphael Montes posa em hotel de São Paulo / Karime Xavier / Folhapress

O escritor Raphael Montes posa em hotel de São Paulo / Karime Xavier / Folhapress

Aos 23 anos, é um nome de destaque da literatura brasileira recente, trabalhando num gênero, o policial, ainda com pouca tradição por aqui.

A Companhia das Letras lança agora o segundo romance de Montes, “Dias Perfeitos”. Embora brevíssima, a carreira do escritor já ostenta uma série de conquistas.

O novo livro sai com uma tiragem inicial de dez mil exemplares, bem maior que a média do mercado (entre 3.000 e 5.000). Na capa, com destaque, um elogio nada singelo do best-seller americano Scott Turow, afirmando que Montes “certamente vai redefinir a literatura policial brasileira e surgir como uma figura da cena literária mundial”.

Em 2015, “Dias Perfeitos” deve ser lançado nos Estados Unidos pela Penguin. Fora isso,o autor vendeu seus dois livro para a produtora de cinema RT Features “por um valor na casa dos seis dígitos”.

É no cinema, por sinal, que Montes busca uma comparação para definir seu lugar no cenário brasileiro. “Quero ser o Tarantino da literatura, conciliar a cultura pop, a violência gráfica, a ironia e a qualidade artística.”

“Dias Perfeitos” é um pouco de tudo isso. Narra a história do amor obsessivo de Téo, solitário estudante de medicina, por Clarice, jovem roteirista. Rejeitado por ela, Téo dá início a uma jornada que inclui sequestro, esquartejamento e um bizarro hotel administrado por anões.

“Meus livros não são como o romance policial clássico, que começa com um crime, acompanha o trabalho do detetive e termina com o assassino desmascarado. Acho que a tendência é ser mais universal, brincar com as regras do gênero, embaralhar esses papéis fixos”, define.

A precoce ascensão de Montes pode dar a entender que tudo foi fácil em sua carreira. Mas nem sempre foi assim.

Ele concluiu seu primeiro romance, “Suicidas”, aos 19 anos. Em vão, passou os dois anos seguintes procurando uma editora que topasse publicar um livro policial de um autor desconhecido com tema horripilante: jovens que decidem se matar em um jogo de roleta-russa.

Tudo mudou quando inscreveu o livro no Prêmio Benvirá de Literatura. Não venceu, mas, recomendado pelo o júri, foi publicado pela Benvirá em 2012. “Suicidas” seria depois finalista do Prêmio São Paulo e do Machado de Assis.

Mesmo com pouca divulgação oficial, o livro foi alavancado pelo “boca a boca” nas redes sociais e já chega perto dos 7.000 exemplares vendidos. “Gosto de saber que as pessoas leem o que escrevo. Adoro conversar com os leitores no Facebook. Já recebi bronca, pedido de casamento. O escritor tem que sair de sua torre marfim.”

Enquanto lança “Dias Perfeitos”, Montes já pensa nos próximos livros. Além do que já começou a escrever, tem outros seis já planejados. A meta é lançar um por ano e, entre eles, desenvolver projetos para TV e cinema. A vida no crime, afinal, é uma tentação quase impossível de largar.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments