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Alessandro Martins, no Livros e Afins

(publicado originalmente em 2007)

A simples menção do nome Rudyard Kipling me faz lembrar de diversas coisas.

Por exemplo.

A Editora Objetiva lançou, coisa de anos, a coleção em quatro volumes Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades, coletânea preparada pelo crítico e ensaísta Harold Bloom.

Uma dessas histórias foi extraída do Livro da Selva, de 1894: Rikki-Tikki-Tavi (desculpe, mas achei apenas a versão em inglês pra você).

É a aventura de um mangusto – um daqueles bichinhos de aparência muito simpática mas que costumam matar najas com sua extrema habilidade – que se desgarrou da família.

Eu justamente lia essa história para o Marcel, pequeno primo da Júlia, sujeito muito espirituoso que adora baleias e outras criaturas do mar. E procurava dar alguma interpretação para a narrativa.

Tive a infeliz idéia de, no momento em que Rikki-Tikki-Tavi é levado embora por uma enxurrada, imitar o Gil Gomes, aquele radialista. Assim como quem narra uma notícia sensacionalista.

Eu sei. Talvez não tenha muita graça.

Mas o menino adorou e pediu para que eu lesse aquele trecho tantas vezes que perdi a conta. Até hoje ele pede que eu repita o mesmo trecho que, aliás, já decorei. Acho que até ele decorou.

Isso é uma boa lembrança, embora recente. O fato é que Rudyard Kipling traz muitas outras boas lembranças.

Outra delas é o filme Mogli, da Disney. Um dos primeiros que assisti com meu pai e do qual guardo com especial zelo personagens como Balu, o urso, Baguera, a pantera, e Shere-Khan, o tigre, entre outros.

E também a inesquecível canção tema de Balu: The Bare Necessities, composta por Terry Gilkyson e indicada ao Oscar, em 1967. Não há como ouvi-la sem sentir-se feliz. É uma espécie de Cantando na Chuva para crianças (todos conhecem o número em que Gene Kelly canta e dança na chuva, mas eu recomendo Good Morning).

Finalmente, achei a versão em português de The Bare Necessities no YouTube. A letra da versão é algo assim:

[balu]
Eu uso o necessário
Somente o necessário
O extraordinário é demais
Eu digo necessário
Somente o necessário
Por isso é que essa vida eu vivo em paz

Assim é que eu vivo
E melhor não há
Eu só quero ter
O que a vida me dá
Milhões de abelhas vão fazer
Fazer o mel pra eu comer
E se por acaso eu olhar pro chão
Tem formigas em profusão
Então, prove uma

[mogli]
Você come formigas?

[balu]
Tranquilamente…
E você vai adorar a coceira que elas dão

[baguera]
Mogli, cuidado!

[balu]
E o necessário pra viver
Você terá

[mogli]
Mas quando?

[balu]
Você terá

Eu uso o necessário
Somente o necessário
O extraordinário é demais
Eu digo o necessário
Somente o necessário
Por isso é que essa vida eu vivo em paz

Vejam o pica-pau, pau
Que só pensa em picar

[mogli]
Ai!

[balu]
Ele vai se dar mau, mau
Pra se alimentar
Não pique a pera no pé
Pois pera picada no pé
Nunca presta, pois é
Não vai dar pé
Você vai dar mal
Não pique essa pera como um pica-pau
Você entendeu esse angu?

Depois disso – eu devia ter uns cinco ou seis anos lá por 1979 ou coisa assim -, lembro de meu pai falando, enquanto voltávamos para casa, do Livro da Selva e imaginei um livro gigantesco, com milhares de páginas, com leis, histórias e mitos. Tudo isso na minha imaginação de criança.

Hoje sei que ela, a imaginação, fez a coisa aumentar e se distorcer um pouco. Mas creio que para bem. Sobretudo, encantou-me saber que todas aquelas cores que há pouco vi na tela haviam saído de um livro feito só de letras e palavras e, aparentemente, muito sério e grave.

Assim que chegamos em casa – e essa é outra lembrança importante -, meu pai fez questão de ler para mim um poema de Rudyard Kipling, o autor daquela história que há pouco víramos. E pelo tom de voz que ele assumiu tive certeza de que era algo que ele queria que eu guardasse.

Se eu rezasse, rezaria assim:

Se

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

Assim, por hoje, fecho este livro de lembranças.

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