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Gustavo Czekster, no Literatortura

Não acredito em auto-ajuda. Sei que muitas pessoas acham que podem mudar a sua vida através da leitura de livros com pensamentos edificantes, e respeito quem pensa assim. Contudo, a ideia de passarem conceitos mastigados e repletos de clichês me causa mais risadas do que propriamente estímulo. Para uma pessoa acostumada a ler, um livro de auto-ajuda é deprimente demais. Se eles fossem bem escritos, talvez eu mudasse de impressão. Como isto não ocorre, o efeito é mais danoso do que qualquer outra coisa.

Vou dizer um segredo que as poucas pessoas que sabem acham tão óbvio que ninguém fala a respeito: toda literatura é auto-ajuda. Se um leitor se concentrar por tempo suficiente em um livro, vai achar ali mensagens muito importantes e que, com certeza, esclarecerão algumas das suas dúvidas existenciais. Muito melhor do que receber o produto duvidoso da leitura de outra pessoa, materializada em sonolentas frases de efeito, é chegar às suas próprias conclusões por meio da leitura – com o acréscimo de vivenciar uma boa história ao redor da lição passada pelo escritor.

Das muitas aulas de auto-ajuda que a literatura me aplicou, duas continuam a assombrar meus passos. A primeira foi ensinada em tom jocoso por Denis Diderot, em uma obra pouco conhecida, “Paradoxe sur le comédie”. Diderot é mais famoso por ter sido um dos escritores e filósofos que ajudou a escrever a “Encyclopédie”, marco do Iluminismo, o livro onde se pretendia colocar todo o conhecimento e a razão humana. Diderot foi o primeiro a tratar de “L’esprit de l’escalier”, ou “O espírito da escada”. Imaginem a seguinte situação: você está debatendo com alguém, que ganha a discussão com um argumento inatacável. Você se afasta, derrotado, e, quando está indo embora “descendo a escada”, vem uma súbita iluminação e a resposta exata aparece com clareza na sua mente. No entanto, você perdeu o tempo da discussão; não pode mais retomar o fio da meada sem parecer ridículo. “O espírito da escada” é a sensaçãode perder de forma irreparável o momento certo de uma resposta. É a genialidade que chega sempre alguns minutos atrasada. Tudo aquilo que poderíamos dizer e que, na hora adequada, esquecemos miseravelmente.

O que guardei desta lição para a vida? Evite “o espírito da escada”. Não se desespere, aguarde que a resposta vai surgir com clareza. Não existe derrota absoluta, existe a resposta que ainda não chegou. Com o tempo, é possível diminuir o tempo de reação até que as respostas surjam ao natural em qualquer situação.

Outra aula vem de Álvaro de Campos, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa, naquele que é um dos seus momentos mais sombrios, o poema “Tabacaria”.A cena é simples: um homem sozinho contempla a rua cheia de vida e interroga-se sobre quem ele é. Suas conclusões são duras – ele é nada, um sonhador incapaz de realizar os próprios sonhos, pois prefere viver na possibilidade ao invés de se aventurar nas incertezas.

No meio do poema, surge a figura do “herói da mansarda”, o homem que sonha uma vida plena – e que não sai do seu esconderijo para vivê-la:

“Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquista-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.”

Todas as pessoas imaginam ter uma vida melhor e mais adequada às suas qualidades. Contudo, muitas delas preferem viver no sonho ao invés de o transformarem em realidade. O sonho é confortável, o mundo real é selvagem; perseguir as aspirações também é ver o quanto somos incapazes de realizá-las, é ter que admitir frustrações e falhas. Ainda assim, duas escolhas se oferecem para cada pessoa: ficar no conforto da mansarda, sonhando com heroísmos que não se realizarão, ou descer para o mundo e tentar ser heroico. Isto vale para tudo – aventurar-se em um novo amor? Trocar de emprego? Escrever um livro? Ter um filho?

Não culpo a grande maioria das pessoas que preferem ficar na mansarda; a vida é menos dolorida lá. A lição que tiro deste poema é muito mais prática: transformar o sonho em realidade é uma experiência cruel, mas, apesar disso, deve ser tentado. Melhor conviver com o fracasso do que passar uma vida com a incerteza do “e se eu tivesse tentado?”. As chances de dar errado são grandes, ainda que, talvez, novas possibilidades – e sonhos – acabem surgindo dos problemas.

Diderot me ensinou a evitar “o espírito da escada”. Fernando Pessoa me disse o quão frustrante é ser “o herói da mansarda”. Muitas outras lições de auto-ajuda a literatura me trouxe: em “Bartleby, o Escrivão”, Melville me mostrou que um homem inexorável na sua tarefa, ao mesmo tempo em que não mais pensa, é um ser que deve ser temido; em “O coração das trevas”, Conrad disse que o ambiente pode enlouquecer tanto o ser humano que a loucura se tornará a única sanidade possível; em “Dom Casmurro”, Machado de Assis revelou que é a dúvida aquilo que corrói o espírito, as certezas ainda são melhores de se lidar do que o preço de ficar eternamente indeciso. Todas as lições de auto-ajuda estão na literatura, a grande questão é saber explorar cada mina de tesouro atrás da pepita que ela esconde – sabendo que as pedras removidas do caminho também são ouro puro.

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