Escritor tenta entender por que o Nirvana foi tão importante para sua geração

O cantor Kurt Cobain, que morreu em abril de 1994 Márcia Foletto

O cantor Kurt Cobain, que morreu em abril de 1994 Márcia Foletto

Luiz Felipe Reis em O Globo

RIO – Charles R. Cross era o editor da revista “The Rocket”, a mais importante da cena musical de Seattle, quando recebeu por telefone uma informação que, de tão desconcertante, parecia boato: o corpo do cantor Kurt Cobain havia sido encontrado por um eletricista na estufa da casa do músico, caído no chão e com um rombo de tiro de espingarda no crânio. Antes daquela ligação, na manhã de 8 de abril de 1994, Cross esperava por outro tipo de chamada, para a confirmação da entrevista que serviria à capa da edição, a ser fechada naquela mesma noite.

Durante a semana anterior, a líder da banda Hole, Courtney Love, havia desmarcado uma série de encontros para falar de seu novo disco, “Live through this”, mas naquela sexta-feira ela desapareceu: “Foi aí que eu entendi que ela devia estar procurando por Kurt”, diz Cross. A capa já estava diagramada, a foto, escolhida, mas tudo mudou, e de um segundo para o outro, em vez de Courtney, era Cobain quem estaria nas bancas. A história está no prólogo do novo livro de Cross, “Kurt Cobain — A construção do mito” (Agir), que acaba de chegar às livrarias brasileiras.

Publicado no ano que marca as duas décadas da morte do ex-líder do Nirvana, em 5 de abril de 1994 — as investigações sobre o suposto suicídio foram reabertas em março —, a obra foi escrita com objetivo oposto do último livro de Cross dedicado a Cobain, a biografia “Mais pesado que o céu”, lançada no Brasil em 2002. Narrada em terceira pessoa e a partir de relatos de fontes variadas, aquela obra cumpria a função de recontar em detalhes os meteóricos 27 anos de vida de Cobain e a trajetória de sua banda. Já o novo trabalho aponta para outro lado da história: o que se passou nos últimos 20 anos, após a morte de Cobain e o fim do Nirvana.

Escrito em primeira pessoa, entre testemunhos, confissões e vivências, a obra é uma análise íntima, pessoal, que se vale de um distanciamento histórico, definido pelo autor como fundamental para que ele pudesse compreender o que o impacto da notícia da morte o impediu de formular naquela manhã, quando pedidos de entrevistas chegavam a seu escritório. Entre eles, o do apresentador de TV Larry King, que desconcertou Cross ao vivo com uma única questão: “Por que Kurt Cobain foi tão importante?”.

— É difícil estimar o impacto da vida de uma pessoa no dia em que ela chega ao fim — diz.

Ele precisou de 20 anos. E, ao longo de 176 páginas, empenha-se em responder à pergunta de King e a outra formulada por ele próprio com o passar do tempo: “De que modo os últimos 20 anos sedimentaram o legado do Nirvana?”.

— Esse livro representa o meu esforço para responder a essas questões — diz. — Enquanto “Mais pesado que o céu” era uma biografia tradicional, com uma narrativa direta, sem interferências da minha parte, agora crio um relato em primeira pessoa, que investiga os rastros deixados por Kurt em cinco diferentes zonas de influência.

São essas áreas que definem os capítulos da obra: a estética e a indústria da música, o comportamento e a cultura jovem, a moda e o estilo, as cidades de Aberdeen e Seattle; as reflexões que conectam o vício em drogas e a morte e o legado do músico, que Cross defende ser o “último grande astro do rock”.

O autor elenca aspectos como “carisma, talento, ambição e genialidade para compor”, mas tal enumeração não sustentaria, fora do plano subjetivo, tal afirmação. O autor conclui melhor quando amplia sua visão para além de Cobain e o localiza como último grande astro surgido numa era pré-internet, antes de a revolução digital virar de ponta-cabeça o negócio e o modo de fruição da música, fracionando “gêneros em fatias menores e diminuindo as possibilidades de qualquer grupo tomar conta do cenário como fez o Nirvana”, diz.

Principal dos quatro álbuns da banda, “Nevermind” foi, talvez, o último clássico da era física do disco, e após o seu lançamento e suas vendas surpreendentes, chegou a ficar em falta durante mais de duas semanas em todos os Estados Unidos, fato impensável nos dias de mp3. Em um ano, “Nevermind” vendeu dez milhões de cópias, enquanto a única banda de “rock” (mais para o folk, na verdade) a entrar na lista de mais vendidos em 2012, o Mumford and Sons, atingiu 1,2 milhão de cópias com “Babel”. São outros tempos, as vendas de discos físicos mirraram, migraram e se fracionaram entre downloads.

Cobain foi de outro tempo. Sacramentou a sua principal parceria artística, por exemplo, ao entregar uma fita cassete em mãos no balcão de uma franquia do Burger King, onde trabalhava o baixista Krist Novoselic. Quando precisou de um novo baterista, Kurt bateu à porta de Cross na “The Rocket” para publicar um anúncio — “Um dos meus arrependimentos é de ter descontado o cheque de US$ 20 dólares dele”, diz o jornalista.

Segundo Cross, o legado de Cobain continua relevante porque, a despeito de mudanças tecnológicas, a inquietação e o espírito de rebelião continuam acesos na experiência de transição da adolescência para a vida adulta. E é aí que a sua “angústia adolescente rende bons frutos”, como ele cantou em “Serve the servants”, do álbum “In utero”, numa referência ao impacto de sua mais famosa criação, “Smells like teen spirit”. Com essa canção, Cobain estabeleceu uma ligação atemporal com a cultura jovem: “É como uma espécie de ‘O apanhador no campo de centeio’ da música”, escreve Cross, em referência ao clássico romance de formação de J.D. Salinger.

— Kurt e o Nirvana ainda são marcos absolutamente relevantes para a cultura jovem — diz Cross. — Ele escreveu sobre a angústia, a revolta, temas pertinentes e permanentes, e é por isso que todo jovem ainda encontra sentido em sua música. Apesar disso, Kurt nunca usou a posição de ícone para passar ideias ou pensamentos. Sua maior mensagem era a música.

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