O escritor Paulo Coelho, que lança seu 28º livro, o romance 'Adultério'

O escritor Paulo Coelho, que lança seu 28º livro, o romance ‘Adultério’

Morris Kachani, na Folha de S.Paulo

Aos 66 anos, o escritor Paulo Coelho se prepara para lançar seu 28º livro. “Adultério” será publicado inicialmente no Brasil, com uma tiragem de 100 mil exemplares. Até o final do ano, será lançado em mais de 34 países.

A história é um triângulo amoroso formado por Linda, uma jornalista que vive aparentemente um conto de fadas, seu marido rico e um antigo namorado dos tempos de escola, político em ascensão, também casado.

Coelho conta que a ideia de escrever sobre adultério surgiu após consultar seus seguidores na internet. São 19 milhões no Facebook e 9 milhões no Twitter.

“Oitenta por cento das pessoas consultadas falavam em depressão induzida por uma infidelidade conjugal. Comecei a entrar em fóruns de maneira anônima para entender por que reagiam dessa maneira”, diz. “Terminei em duas ou três pessoas que me serviram de base para a composição dos personagens.”

Ocupante da cadeira de número 21 da Academia Brasileira de Letras, Paulo Coelho tem 165 milhões de livros vendidos no mundo, traduzidos em 80 idiomas.

Para esta entrevista, o escritor recebeu 22 perguntas por e-mail. Decidiu selecioná-las e gravou as respostas em um podcast. Leia os principais trechos.

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Folha – Por que escolheu o adultério como tema?
Paulo Coelho – Eu tinha visto um filme sobre um estudo que marcou a geração dos meus pais, que foi o relatório Kinsey, no qual um cientista desenvolveu uma pesquisa de comportamento sexual.

Depois dele, as pessoas passaram a ficar menos preocupadas e encucadas com seu próprio comportamento sexual. Antes, todo mundo achava que era único, que só ele tinha esse problema, que só ele se masturbava, que só ele gostava disso ou daquilo.

Com o relatório, houve uma espécie de alívio geral, ficou evidente que ninguém estava sozinho. Daí pensei, ‘puxa vida, qual seria o grande problema hoje em dia?’.

A que conclusão chegou?
Perguntei aos meus leitores na web sobre o que achavam da depressão, que me parecia ser o maior problema humano hoje. Efetivamente as pessoas começaram a falar a respeito, mas, na verdade, 80% delas falavam em depressão induzida por uma infidelidade conjugal. Deduzi que o tema era adultério.

Oitenta por cento das pessoas com depressão induzida por uma infidelidade conjugal é um número muito alto, não?
No final das contas, infidelidade conjugal e depressão são duas coisas diferentes. O verdadeiro deprimido não quer saber de conversar sobre depressão. Uma coisa são esses problemas que a gente têm na vida diária, outra são as questões médicas, a serem tratadas com remédio.

Qual seu entendimento sobre a depressão e a melancolia na vida contemporânea, e o uso disseminado de remédios de tarja preta?
É engraçado porque quando entrei nos fóruns sobre adultério, nenhuma das pessoas se tratava com remédio. Acho que o remédio sufoca teu enfrentamento com o problema, ele não mostra. Ninguém ali estava se tratando. As pessoas realmente deprimidas não participaram da discussão, nem estão em fóruns nem nada. Estão tomando seus remédios de tarja preta.

O adultério deve ser considerado um pecado?
Eu não julguei o casamento, o adultério, não julguei nada. Acho que um escritor muitas vezes é apenas um repórter do seu tempo.

O que representa este livro para você e no contexto de sua obra?
Foi um desafio interessante. Não posso viver sem desafios. Meus ciclos são de dois anos. Posso falar de qualquer assunto. Em outros livros já tratei do espiritual, da prostituição, da lenda, da loucura ou da cultura das celebridades. Mas o que marca todos é a ideia do estilo. Você pode ser simples sem ser superficial.

Qual é seu momento atual?
Vivo de maneira praticamente isolada. Não faço lançamento e não dou autógrafo. Atualmente tenho comunidades muito fortes. No Facebook, já cheguei a 19 milhões de seguidores, no Twitter tenho 9 milhões. Vinte por cento são brasileiros. Isso tudo me permite interagir com meu leitor, coisa que não podia fazer antigamente.

A superficialidade das relações nas redes sociais não te incomoda?
Eu discordo quando você diz que tem superficialidade. Acho que pode ser superficial. Mas existe uma relação muito intensa também. Acabei conhecendo gente muito interessante nas comunidades sociais. É só saber o mapa da mina e procurar pessoas que te interessam. Mas sobre passar muito tempo nas redes sociais, é verdade. Fico aqui muito tempo, mais tempo do que deveria.

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