Sem saber do passado, sem ter um presente, serão eles que cuidarão do futuro? (Foto: João Machado)

Sem saber do passado, sem ter um presente, serão eles que cuidarão do futuro? (Foto: João Machado)

Na ‘Visita de Domingo’, Mônica denuncia a tragédia da educação no Brasil – nosso maior escândalo. Uma geração perdida, incapaz de raciocinar.

Mônica El Bayeh na Época
Trabalho escrito no quadro: como eles se imaginavam dali a vinte anos. Uma tentativa de visualizar um futuro. De preferência, um futuro melhor, descobrir possibilidades. As perguntas eram simples: quantos anos teriam? Qual profissão? Casados? Filhos? Morariam onde? Simples? Não para todos.

– Ô professora, e como é que eu vou saber quantos anos eu vou ter daqui a vinte anos? Eu hein, você é tão engraçada…
– Soma vinte!

Não somava. Foi o que eu descobri. Não somava dois mais dois. Tinha dezesseis e, por conta da idade avançada, foi jogado no sexto ano. Disseram que era promoção. Foi promovido ao sexto ano. Como? Pergunte às ordens sinuosas que recebemos das altas autoridades educacionais.

Meu aluno não é exceção, é regra. Só mais um nessa multidão de alunos empurrados com a barriga de quem quer números, mas não se dispõe a investir. Ficou chocado? Leia mais uma.

Trabalhava, na aula de francês, o verbo ‘être’ (ser ou estar). Mantinha o sujeito e o verbo fixos. E mudava só os complementos, fazendo frases novas. Pedia que eles copiassem.

Descobri que tudo que eu apagava no quadro, uma aluna apagava também em seu caderno. A página já estava até meio rasgada de tanto atrito.

– Ô professora, você está de sacanagem comigo! Para que você manda copiar se tem que apagar depois? Eu não vou apagar mais nada, não!
– Tem toda razão, não apague mesmo.

Dia de prova. Eles poderiam consultar o caderno. No caderno, três exercícios, feitos em aula, que eram iguais à prova, poucas palavras diferentes para disfarçar. Percebi que eles não conseguiam fazer, mesmo assim. Pedi que interrompessem a prova, que dessem um tempo. Fui ao quadro e fiz, junto com eles, várias frases parecidas. Uma revisão da matéria.

Fingi que me esqueci de apagar. Larguei as respostas da prova no quadro! Não adiantou nada. Até Deus, fé e Amém preenchiam as lacunas. Mas verbo correto, que é bom, não apareceu. Pelo visto, não rezaram o suficiente.

O que fez o resultado da minha prova ser um fiasco foi a incapacidade de pensar, de construir, de juntar as partes e enxergar um todo. Não é por ser francês, posso garantir. É porque eles não ligam o nome à pessoa.

Sem esse blá blá blá tosco de que, como mal sabem português, para que afinal outra língua… Isso é medíocre. Uma língua amplia o aprendizado da outra. Uma língua ensina a outra. Pergunte a quem sabe várias.

O PISA (programa internacional de avaliação de estudantes) é um exame que avalia os estudantes que estão concluindo o ciclo básico de ensino nas áreas de matemática, ciências e leitura. Nos exames, nossa posição é um triste e humilhante trigésimo oitavo lugar num ranking de quarenta e quatro países.

Os alunos brasileiros estão entre os piores em teste de raciocínio lógico. Tem novidade nisso? Não para quem está em sala de aula. É triste, mas não acho que seja surpresa. Já sabíamos disso. Era uma tragédia anunciada. Professores e alunos são todos vítimas da mesma política educacional de fachada que nos jogou no fim da lista dos avaliados. Vivemos numa política de educação pública onde a qualidade e o investimento beiram o nada.

A começar pelo salário dos professores. Além de receberem péssima remuneração, são obrigados a aprovar alunos. Seja por ordens camufladas e indecentes, seja pela necessidade de ganhar o salário extra que vem de prêmio por aprovação.

Nós temos fome de livros, filmes, poesias, músicas que nos falam à alma e nos dão colo e alento.Vemos alunos que chegam com fome de merenda, não de saber. Muitos nem trazem material. Recebem cadernos e material escolar do município. Quebram as réguas, derramam a cola pelas carteiras. Jogam livros nos telhados vizinhos. As mochilas ganhas são largadas pelas ruas como se fosse lixo.

Dos cadernos fazem bolas de papel, aviõezinhos. Mas todos têm celular dos que têm internet e tocam música. Vários nunca entraram num teatro, nunca leram um livro. Mas desfilam com tênis da moda, e ainda riem dos que compram na ¨feirinha¨.

Os valores estão fora de ordem. Mergulhamos numa cultura rasteira de embates corporais. Movida pelos impulsos descoordenados. Eles se batem, brigam, brincam de se bater. Eles se esfregam, se oferecem, se seduzem e partem para os finalmente.  Se autodenominam cachorras e cachorros! E acham isso ótimo.

O que nos permite distanciamento do corpo é o respeito, o cuidado, o afeto e o saber. Eles têm algum desses itens? Muitos sim, com certeza. Infelizmente, não a maioria.

Eles trabalham na incapacidade de mediar pensamento e ação. Se forem contrariados, avançam, ameaçam e muitas vezes agridem mesmo, partem para cima. Sabe o que acontece? Nada acontece. E assim seguimos num fio de esperança tênue. Cada vez mais esfolados.

O nome do exame é Pisa. Nosso resultado nele: mais inclinado que a torre da Itália e tendendo ao chão.

Uma quantidade grande de nossos alunos não desenvolveu a capacidade de raciocinar de uma forma mais ampla e aprofundada, é só entrar numa sala e observar. Eles saem da escola. Viram entregadores de pizza, água, marmita, farmácia. Isso quando não vão para a bandidagem.

O que vai ser desses meninos? O que será de ‘nos enfants’? São eles que ficarão aí para cuidar do futuro? Sinto medo do que nos espera.

Outros trabalhos da autora
https://twitter.com/monicabayeh
http://poesiatodaprosa.blogspot.com.br/

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