971602_10152317313223258_100848871_nLucas Ferraz e Rodrigo Russo, na Folha de S.Paulo

Autor da controversa aula apologética à “Revolução de 1964”, o professor de direito da USP (Universidade de São Paulo) Eduardo Gualazzi tem um único desejo se retornar à terra numa vida futura: dedicar-se exclusivamente à música erudita e ao canto lírico, “do nascimento à morte, do berço ao túmulo”.

Avesso às modernidades e fiel a um tradicionalismo expresso no amor à música lírica, às gravatas borboletas e ao aristocratismo, que ele elenca como a primeira das características a definir sua personalidade, o professor Gualazzi viu sua “excentricidade” repercutir nacionalmente no vídeo que mostra estudantes invadindo em protesto sua aula sobre os 50 anos do golpe, na última segunda-feira, 31 de março.

Nos últimos dias, assustado com a repercussão, o professor ficou em casa, segundo amigos, ouvindo música e evitando o telefone, que soou insistentemente. Professor de direito administrativo da USP desde 1986, o paulistano Eduardo Lobo Botelho Gualazzi, 67, é o mais antigo professor associado da Faculdade de Direito. Descrito como um homem fechado, extremamente conservador e temperamental, é conhecido na universidade pela liberalidade nas provas.

O tema é livre, e segundo o relato de alunos e ex-alunos, é mais fácil obter nota máxima no exame abordando Batman e Wolverine, como fez um deles, do que discorrendo sobre o direito. É praticamente impossível ser reprovado em sua disciplina.

“A aula dele é tranquila, quase parada. Ele fica sentado, falando, e poucas pessoas interagem. Acho que todos já se acostumaram com o jeito dele”, diz Gabriela Nunes, 22, presente na invasão de segunda-feira.

A fama de excêntrico que o acompanha é famosa na USP. Como se viu no texto da aula “Continência a 1964”, ele redige seus artigos na máquina de escrever e sempre os registra em cartório. Não usa e-mail nem celular.

“Ele é respeitado na área do direito administrativo, tem alguns livros e escreve bem, eu sempre o recomendava”, lembra o professor aposentado da USP Edmir Netto de Araújo, que ressalta ter tido com ele apenas relações profissionais.

O mentor de Gualazzi na USP é outro professor aposentado, o nonagenário José Cretella Júnior, que por anos lecionou direito administrativo. Cretella fez parte da banca que aprovou Gualazzi e queria fazê-lo seu sucessor.

Num texto de introdução do livro “Direito Internacional Administrativo”, publicado em 2005, Gualazzi incluiu um prelúdio que reproduz “a parcela mais terna, suave e meiga” de uma mensagem que colocou na Arca do Centenário, enterrada em 2003, no Largo São Francisco, nas comemorações dos cem anos do Centro Acadêmico Onze de Agosto. A caixa será aberta em 2103, para os “estudantes do futuro”. Nela, conforme escreveu Gualazzi, “repousa a verdade integral de minha vida”.

Lá, descobre-se fatos da vida do professor, como a curta carreira diplomática, o trabalho como advogado na Procuradoria do Estado de São Paulo e os favores que pedia nos anos 1980 a políticos como o atual vice-presidente Michel Temer e ao ex-presidente Jânio Quadros, de quem era muito próximo. Em coautoria com um neto de Jânio, Gualazzi escreveu uma biografia sobre o político, para ele um “estadista”.

Como registra na sua carta à eternidade, Gualazzi já se envolveu em outras polêmicas na USP por causa da “Revolução”, que ele “apoiou intimamente”, “embora lamente o desvirtuamento que sucedeu entre 1968 e 85”.

Em 1986, ele quase saiu no braço com estudantes em plena aula. O professor registrou assim o episódio: “Um grupelho de três homens e uma mulher deflagrou uma série de provocações. Percebi o objetivo de agitar e destruir minha aula, bem como desmoralizar-me. Urrei ao grupelho: ‘Ou me matam ou baixam a crista e calam a boca’. Os quatro retiraram-se furiosos, minha aula continuou. Meu urro permanece no ar, em eco perpétuo”.

Nada, contudo, o satisfaz mais do que a música. Pianista que já se apresentou para calouros na USP, Eduardo Gualazzi já gravou discos e estudou música no Vaticano. A paixão o proporcionou momentos inesquecíveis, que os estudantes do futuro haverão de descobrir.

É o caso de um recital num táxi, em 1999, que ele deixou registrado na carta colocada na Arca do Centenário: “Comecei a cantarolar Sotto Voce, uma ária de ópera. O motorista pediu-me para cantar a seu chefe, no microfone. Cantei por meia hora tudo o que tinha na memória e até improvisei. Quando meu recital no táxi terminou, o chefe agradeceu e revelou-me haver conectado o aparelho com todos os rádio-táxis de São Paulo e com um canal secundário da PM. Todos agradeceram, aplaudiram e pediram bis, mas a corrida chegou ao destino. Não houve bis”.

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