Escritora americana de 25 anos é uma das mais vendidas do mundo
Filme baseado em seu primeiro livro já arrecadou US$ 100 milhões e estreia no Brasil no dia 17

André Miranda em O Globo

RIO — Aos 22 anos, sem nenhum livro publicado, a moça conseguiu uma editora para lançar seu primeiro romance. Para o tema, ela não optou por histórias românticas como fazem muitas meninas de sua geração, nem tramas que capricham no erotismo, como se tornou moda na literatura nos últimos tempos, muito menos enredos fofinhos sobre o universo pós-adolescente do qual ela fazia parte.

Veronica Roth chacoalhou as listas de mais vendidos com um livro passado num futuro apocalíptico, em que as pessoas são divididas em facções conforme suas aptidões — abnegação, amizade, audácia, franqueza e erudição — e aprendem a lutar para sobreviver. Um livro, não. Três: em pouco tempo, a americana, hoje com 25 anos, tornou-se uma das autoras mais vendidas da atualidade com a trilogia formada por “Divergente”, “Insurgente” e “Convergente”, este último lançado agora no Brasil pela editora Rocco. Por mais estranha que a descrição de suas histórias possa parecer, Veronica é o tipo de escritora que tem o direito de falar para qualquer um: “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.

E a tendência é que a repercussão do trabalho da autora junto ao público adolescente fique ainda mais forte agora, com a adaptação para o cinema do primeiro livro. Dirigido por Neil Burger, o filme “Divergente” estreou nos EUA em 20 de março e logo assumiu o topo do ranking de bilheterias. A produção já arrecadou mais de US$ 100 milhões no mundo, um valor que tende a crescer ainda mais com sua chegada a países como o Brasil, onde a estreia está marcada para o próximo dia 17.

Em entrevista ao GLOBO por e-mail, Veronica falou do feminismo na literatura, de uma tradição de romances distópicos que surgiu em livros como “Admirável mundo novo” e “1984” e foi renovada com “Jogos vorazes”, e também do comportamento dos leitores de obras infantojuvenis. Ela só deixou de responder a uma pergunta, sobre a ira gerada após o lançamento de “Convergente” nos EUA, em outubro: irritados com o destino da protagonista, a adolescente Beatrice “Tris” Prior, os fãs passaram a escrever mensagens nada simpáticas para Veronica. Mas, para evitar revelar o desfecho da trilogia, é melhor ficar por aqui.

Você já tinha o desfecho do terceiro livro programado desde o início? Sabia como iria terminar a história de Tris?

Eu escrevi um esboço para o segundo e o terceiro livros assim que terminei a primeira versão de “Divergente”, mas me desviei um pouco do plano inicial. A única coisa que se manteve a mesma desde o início foi o final do terceiro livro. Eu sabia exatamente o que aconteceria com Tris, mas ainda estava um pouco incerta de como ela chegaria lá.

E você se lembra exatamente do dia em que teve a ideia para “Divergente”? Como o livro nasceu na sua mente?

Não acho que as ideias apareçam para as pessoas de uma só vez. Para mim, “Divergente” veio em partes. Eu puxei um pouco pelo que estava aprendendo no curso de Psicologia, sobre terapia de exposição, que é um método de tratar ansiedades e fobias em que a pessoa é repetidamente exposta a tudo o que lhe provoca medo, mas dentro de um ambiente seguro, até que seu cérebro se acostume com aquilo. É um conceito que se aplica nas simulações de medo que estão no livro. Mas houve outras inspirações. Eu me lembro de ouvir uma música e imaginar alguém pulando de um prédio para provar sua coragem, e também me recordo de visualizar a cena de alguém colocando seu sangue numa tigela. Enfim, não sei exatamente de onde essas ideias vieram. Acho que você deve deixar sua mente aberta para que as coisas aconteçam.

Se olharmos para os últimos 15 anos da literatura infantojuvenil, primeiro veio a mágica de “Harry Potter”, depois os vampiros de “Crepúsculo”, e agora as atenções estão voltadas para os futuros distópicos de “Jogos vorazes” e “Divergente”. A que se deve o recente sucesso da distopia entre os jovens leitores?

Eu não tenho a menor ideia da razão de algumas coisas se tornarem populares. E não acho que essa mudança de interesse necessariamente diz alguma coisa específica sobre nossos jovens. Talvez eles estejam mais interessados em personagens poderosos que lutam contra sistemas opressores, o que me parece ser o elemento que os mais recentes romances distópicos juvenis têm em comum. As histórias distópicas podem ser mais sombrias, mas elas também mostram às pessoas a possibilidade de encontrar força na adversidade. São livros que reconhecem as dificuldades do mundo, mas que também sugerem caminhos para seguir adiante.

Sua trilogia é usualmente comparada com “Jogos vorazes”. Porém, histórias passadas em mundos distópicos são populares desde obras importantes do século XX, como “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, “1984”, de George Orwell, ou “O senhor das moscas”, de William Golding. Essas obras foram importantes para você? Nos seus livros, você procurou usar a literatura para criar alegorias políticas, como Huxley, Orwell e Golding fizeram?

Na definição clássica, é exatamente isto o que os livros distópicos fazem: eles oferecem, através de exageros, algum tipo de análise política ou social. É o que dá a esses livros um valor especial. Mas “Divergente” não é assim. Não acho que alguém acredite que nossa sociedade esteja à beira de ser dividida em facções baseadas em virtudes. Mas, para mim, as facções foram uma maneira de explorar a natureza humana, como as pessoas atuam em grupos, como esses grupos lidam com seus pares, e o que acontece quando perseguimos uma coisa que é excludente a outra. Só que eu só quis contar uma história interessante e provocar alguns questionamentos, não quis passar uma mensagem específica. A não ser, talvez, sobre nossa tendência nociva de ficar categorizando as pessoas.

Como você avalia o fato de best-sellers juvenis recentes terem protagonistas femininas fortes? Além da série “Divergente”, houve “Jogos vorazes” e “Crepúsculo”. É um sinal de um novo feminismo na literatura ou apenas uma demanda de mercado?

Certamente é um sinal de progresso. Quando eu era nova, a maioria das histórias que eu lia eram protagonizadas por homens jovens. Era como se estivéssemos ensinando as mulheres a se identificarem com personagens masculinos, mas sem nunca ensinar os homens a se identificar com as personagens femininas. Espero que isso esteja mudando, e que os leitores de obras juvenis, em sua maioria garotas, estejam exigindo histórias sobre mulheres. E sabe o que é mais encorajador? Os garotos também estão lendo esses livros e aprendendo a ter empatia com personagens diferentes deles.

Por causa da idade de seus leitores, você tem algum cuidado em abordar algum tema? A série “Divergente” tem um tom mais sombrio, mas você já evitou alguma situação específica por achar que ela não seria apropriada para o leitor?

Não. Acredito que meus leitores podem lidar com muitos assuntos. Quanto mais eu interajo com eles, mais fico convencida disso. Os jovens são diferentes entre si, há níveis distintos de sensibilidade. Então não tenho como generalizar sobre meu leitor, apenas procuro escrever o que considero ser o mais sincero e verdadeiro. Há muitos livros no mercado para jovens adultos, alguns mais e outros menos sombrios. Há histórias para todos os tipos de leitores, você só precisa procurar por elas.

Você já deve ter assistido ao filme “Divergente”, certo? O que você tem a dizer sobre ele?

Até agora, eu já vi o filme quatro vezes. E eu amei. Ele é visualmente lindo, a distopia de Chicago está fantástica. O elenco fez um trabalho incrível, e foi surreal e maravilhoso assistir à minha história se tornar real nas telas do cinema.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments