Estudantes conseguem entender com uso de sinais e recursos tecnológicos.
Disciplina é optativa para alguns cursos do Instituto Federal Goiano (IFG).

Professor surdo se comunica com alunos durante aula no IFG, em Goiânia (Foto: Fernanda Borges/G1)

Professor surdo se comunica com alunos durante aula no IFG, em Goiânia (Foto: Fernanda Borges/G1)

Fernanda Borges, no G1

Com um silêncio incomum em sala de aula e mãos em movimentos constantes, os alunos do Instituto Federal de Goiás (IFG) prestam atenção ao máximo nas explicações do professor Luiz Pereira de França Júnior, 45 anos. Ele é surdo desde o nascimento e ministra a disciplina de Língua Brasileira de Sinais (Libras) no campus Goiânia. O diferencial é que todos os presentes são ouvintes e interagem com o mestre apenas pela linguagem de sinais.

O G1 acompanhou uma aula do professor Luiz no IFG e contou com a ajuda da psicóloga e estudante de Libras Maraiza Oliveira Costa, 28 anos, para intermediar a entrevista.

De acordo com o professor, a técnica usada para ministrar as aulas faz toda a diferença para que todos possam se entender. “Utilizo bastante um projetor multimídia, pois os alunos precisam do visual para entender a linguagem de sinais. Também uso o método de perguntas e respostas, no qual o grupo interage e pode compartilhar informações. Além disso, fazemos atividades impressas, para que cada um possa, em casa, continuar os trabalhos. Se alguém tiver dúvida, uso também técnicas de soletração”, explicou Luiz.

Além dos slides e imagens, o professor faz comparações entre as gramáticas da Libras e do Português e faz traduções entre as duas linguagens. Com o movimento das mãos e expressões aguçadas, Luiz envolve os alunos, que participam o tempo todo das explicações e se ajudam entre si quando alguém não compreende um determinado ponto. O silêncio das aulas só é quebrado quando o professor faz alguma graça e as risadas tomam conta do ambiente.

Luiz nasceu no município de Sertânia, no interior do Pernambuco, e mudou com a família para Goiânia em 1995. Os pais dele moraram na capital por quatro anos, mas decidiram voltar para o estado natal. Ele preferiu continuar na cidade, onde já estudava a linguagem de sinais. Em 2006 começou a cursar Licenciatura em Letras-Libras, em um convênio entre o IFG e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que formou a primeira turma a distância em 2010.

Luiz interage com alunos o tempo todo durante as aulas de Libras (Foto: Fernanda Borges/G1)

Luiz interage com alunos o tempo todo durante as aulas de Libras (Foto: Fernanda Borges/G1)

Em 2012, já graduado, Luiz ministrou o curso de Libras para servidores do IFG e da rede estadual de ensino de Goiás. Logo depois, em agosto de 2013, foi aprovado como professor substituto no instituto, onde permanece dando aula. “No começo, as pessoas estavam preocupadas em como eu iria dar aula. Mas não tive dificuldades em me adaptar como professor. Conheço bem a gramática que envolve a Libras, como fonética e fonológica e isso ajuda muito”, esclarece.

A disciplina de linguagem de sinais só é obrigatória para os cursos de licenciatura. Para os demais, como hotelaria, engenharia de controle e automação e engenharia mecânica, a disciplina é optativa, mas as aulas nunca ficam sem interessados. Em média, cada uma tem 35 alunos inscritos, mas todos são ouvintes. De acordo com o IFG, atualmente, nenhum aluno surdo está matriculado no instituto.

Célia diz que aprendizagem sober Libras pode ser diferencial na carreira (Foto: Fernanda Borges/G1)

Célia diz que aprendizagem sober Libras pode ser
diferencial na carreira (Foto: Fernanda Borges/G1)

Além de dominar a escrita muito bem, o professor consegue fazer leitura labial quando os alunos falam pausadamente e nenhuma dúvida fica sem resposta.

“Ele usa muitos gestos e expressões que nos ajudam a entender e assimilar cada sinal. No começo foi muito desafiador, pois ele não fala nada, mas aos poucos fomos nos acostumando. Sem contar que ele é muito engraçado e a aula fica leve e divertida”, afirmou a estudante de hotelaria Célia Keiko, 34 anos, que conta que o professor é carinhosamente apelidado pelos alunos como “Mr. Bean”, pela semelhança física com o ator britânico Rowan Atkinson, que interpretou o personagem de filmes de comédia. “Até no e-mail dele ele se intitula assim”.

Para ela, optar pelas aulas de Libras será importante para o sucesso profissional. “Eu já falo japonês fluente e queria ter mais um diferencial. Encontrei na linguagem de sinais o que eu precisava, pois são pouquíssimas as pessoas que dominam e acredito que isso agrega valor ao currículo”, ressaltou Célia.
Para o estudante de engenharia mecânica David Uander, 27 anos, a paciência do professor com os alunos também é importante para favorecer o aprendizado. “Ele repete um movimento até 20 vezes se for necessário. Além disso, aprendemos o alfabeto e, quando alguém não entende, é possível ‘soletrar’ o que se quer dizer. Mas acho que o mais importante de tudo é que ele é divertido e faz o que for necessário para ser compreendido”, afirmou.

David também escolheu cursar a disciplina optativa para agregar conhecimentos a carreira. “Eu já tive contato com Libras a partir de um folheto que ganhei em um ônibus. Sozinho, comecei a me informar sobre a linguagem e queria muito aprender. Quando soube sobre a possibilidade de estudar aqui no IFG, não pensei duas vezes. Acho que em qualquer área que se escolha trabalhar é importante dominar todos os tipos de comunicação”, disse o estudante.

Alunos repetem movimentos ensinados pelo professor durante aula de Libras (Foto: Fernanda Borges/G1)

Alunos repetem movimentos ensinados pelo professor durante aula de Libras (Foto: Fernanda Borges/G1)

Além de Luiz, outros três integrantes da família são surdos. Ele conta que aprendeu a entender o que os ouvintes falavam ao prestar muita atenção nas conversar de uma irmã. Aos 4 anos, ainda em Pernambuco, ele começou a ser alfabetizado em uma escola que ensinava Libras para crianças surdas.

Já na 4ª série do ensino fundamental, Luiz passou a estudar em uma escola regular, onde só havia alunos e professores ouvintes. “Foi um desafio intenso, porque não tive intérprete e utilizava o método oralista junto com a Libras”, lembra o professor.

Após mudar para Goiânia, ele passou a estudar no Sistema Educacional Chaplin. “Lá, aprendi ainda mais sobre Libras e passei, de fato, a dominar a linguagem de sinais”, destacou. Luiz lembra que decidiu virar professor enquanto estudava em outra instituição particular na capital, pois as pessoas o incentivaram dizendo que ele era bom para ensinar.

Maraiza ajuda professor nas relações burocráticas com o IFG (Foto: Fernanda Borges/G1)

Maraiza ajuda professor nas relações
burocráticas com o IFG (Foto: Fernanda Borges/G1)

Desafios

Ele seguiu o conselho e realiza as atividades na sala de aulas sem maiores transtornos. No entanto, as relações com as partes burocráticas da função ainda são grandes desafios. No IFG, Luiz conta com a ajuda da psicóloga Maraiza Oliveira Costa, uma das poucas pessoas que trabalham no instituto e conseguem se comunicar na linguagem de sinais com ele.

“Ainda estou aprendendo, mas consigo entendê-lo bem. Durante as aulas, o Luiz domina a comunicação sem problemas, mas quando precisa tratar de assuntos acadêmicos ou em reuniões, fica bem complicado. Existem algumas palavras que são complexas demais e fica difícil para ele entender. Mas vamos ajudando na medida do possível”, explicou Maraiza.

A psicóloga destaca que algumas questões do cotidiano podem virar grandes desafios para os surdos. “O Luiz precisou fazer o Imposto de Renda, por exemplo, e ele contratou os serviços de um contador. No entanto, não sabia que era preciso enviar os documentos e ficou aguardando. Sem entender os motivos da demora, me pediu para cobrar o serviço. Quando entrei em contato, o contador me explicou que ele não tinha entregado nada. Aí avisei ao Luiz, que ficou surpreso ao saber que precisava fazer todo esse procedimento. Muitas vezes a questão é simples, mas a dificuldade de comunicação com os ouvintes resulta em uma enorme barreira”, ressaltou.

Apesar das dificuldades, Luiz afirma que consegue lidar bem com as pessoas e diz que nunca foi alvo de preconceito. Segundo ele, os surdos podem atuar em qualquer profissão, desde que a audição não seja um requisito fundamental. “É preciso ter maior divulgação dos cursos para que as pessoas surdas tenham interesse e busquem a formação superior”, acredita.

Professor e alunos mostram sinal que representa a sigla do IFG (Foto: Fernanda Borges/G1)

Professor e alunos mostram sinal que representa a sigla do IFG (Foto: Fernanda Borges/G1)

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