4257170676_9aecab4506Beatriz Montesanti e Matheus Magenta, na Folha de S.Paulo

Escritores de diferentes gêneros têm utilizado as redes sociais não apenas para divulgar trabalhos, mas em busca de novas formas de se fazer literatura.

Nos últimos tempos, algumas dessas iniciativas se consolidaram e pularam para páginas de livros, após ganharem reconhecimento de forma independente na internet.

Mas apesar da euforia que já cunhou termos como “twitterature” ou “tweet writing” —estilo de literatura e escrita no Twitter—, os próprios autores questionam a qualidade do que é produzido e os limites literários da internet.

O livro “Twitterature”, publicado pela Penguin Book, por exemplo, surgiu em 2009 como uma brincadeira de dois estudantes da Universidade de Chicaco, que resumiram mais de 80 clássicos da literatura —de Kafka a Kerouac— em no máximo 20 frases de 140 caracteres, opondo a língua de Shakespeare a das redes sociais.

A versão para “Hamlet” começa com “Meu real pai se foi e ninguém parece se importar”, e segue “Mamãe disse para parar de usar preto”.

“Você está ouvindo isso? É o barulho de Shakespeare se revirando no túmulo”, diz uma crítica do “Wall Street Journal” reproduzida na capa americana do livro —que ganhou versões em francês, italiano e alemão.

“O grande sucesso do livro veio quando as pessoas perceberam que era para ser engraçado, e não um esforço literário sério”, diz Alex Aciman, um dos criadores do “Twitterature”, que hoje vive em Nova York e contribui para a revista “Paris Review”. “O Twitter em si não tem um potencial literário, mas um escritor que tem a capacidade de fazer algo grande usando o Twitter tem este potencial.”

O escritor e ator Michel Melamed também vai levar sua criação das mídias para o papel. No segundo semestre deste ano, pretende lançar o livro “Obras Competalas” pela editora Beltrand, relembrando algumas de suas frases escritas no Twitter nos últimos anos. Construções como “Estou preso entre o pior já passou e o melhor está por vir” e “Chupando câimbras sob o céu de paralelepípedos” serão incluídas na obra.

Mas escritores que conversaram com a Folha concordam que repetem uma fórmula antiga, bem adequada à rede.

Microcontos —histórias geralmente contadas em não mais que duas linhas— são escritos há anos. Um dos mais conhecidos foi publicado em um livro de contos do guatemalteco Augusto Monterroso (1921-2003), no final da década de 1950. “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”, deixaria espaço sobrando no Twitter, e circulou o mundo muito antes de as redes surgirem.

“O formato não é uma novidade. Existem livros clássicos de aforismo, o haikai vem de muitos sonhos antes do Twitter existir. É uma linguagem curta. O Nietzsche, o Millôr, todos de certa forma tuitaram”, diz Michel Melamed, em entrevista à Folha.

Para ele, se o formato não é novo, as redes sociais acrescentam à literatura a mesma coisa que trouxeram aos demais aspectos da vida: interatividade.

“Eu já fazia coisa assim antes, o que tem de interessante agora é a resposta. Novas circunstâncias surgem de diálogos literários. No final, talvez, tudo seja uma grande composição coletiva”, diz. “Eu acho que essa interação faz parte da obra em si”.

O americano Anthony Marra, autor de “A Constellation of Vital Fenomenal”, que será lançado no Brasil pela editora Intrínseca, concorda. “Como escritor, você normalmente trabalha por meses ou anos em um livro antes de mostrá-lo para alguém. O aspecto mais gratificante [escrevendo na rede] é ver leitores reagindo enquanto a história ainda estava sendo feita”.

Marra passou pela experiência de criar uma história no Twitter pela primeira vez neste ano, em um festival literário promovido pela própria rede social.

ALÉM DO MICROCONTO

Criado em 2012, o Twitter Fiction Festival reúne virtualmente escritores que se revezam para contar uma história, em tempo real, utilizando o Twitter.

O festival ganhou sua segunda edição neste ano, entre os dias 13 e 16 de março, e teve apoio da Penguin Random House e da APP (Associação de Editores dos Estados Unidos).

Entre as possibilidades literárias na rede surgiram as chamadas paródias (criar uma personalidade ficcional e escrever de seu ponto de vista); ficções colaborativas (quando diferentes pessoas postam conteúdos, criando uma história em conjunto); histórias imagéticas (feitas pela publicação de fotos em sequência, como em uma fotonovela) e múltiplas personalidades (quando uma mesma pessoa cria diferentes contas para diferentes personagens fictícios, que interagem formando a narrativa).

Para o escritor mexicano Alberto Chimal, que participou do festival, a vantagem de iniciativas como esta é poder escrever sem as restrições da mídia tradicional. “Acho que o potencial vai além do Twitter, Facebook ou qualquer rede social. A verdadeira ferramenta para se escrever é a internet, as ferramentas de comunicação e publicação que ela oferece”.

Mas apesar da liberdade criativa permitida pela rede, escritores também questionam a receptividade encontrada neste espaço.

“Foi uma experiência divertida, mas é difícil para mim imaginar como cultivar uma leitura regular no caos das mídias sociais”, comentou o escritor Benjamin Percy, autor do livro juvenil “Lua Vermelha” e um dos escritores convidados do Twitter Fiction.

Ben Winters, autor de “Countdown City”, que também participou do evento, questiona o ambiente oferecido pela plataforma.

“Histórias no papel são mais imersivas e requerem mais paciência e reflexão do leitor”, diz. “Pode um leitor ser completamente tragado em um ambiente cujo principal propósito é a distração?”, contrapõe.

As histórias criadas durante o festival podem ser vistas no site www.twitterfictionfestival.com.

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