Uma lista de grandes romances da geração de 30. Gente como: Érico Veríssimo, José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, Dyonélio Machado e Cyro dos Anjos.

José Figueiredo, no Homo Literatus

Não que no Brasil não houvesse bons prosadores, mas a verdade é que nunca antes na história desse país houve uma geração tão impressionante de romancistas. Dos mais intimistas aos urbanos e universais, os romancistas de trinta mostraram que o Brasil era capaz de marcar a posição do país no mundo do romance.

Para tanto, indicamos dez romances, dentre tantos, para mostrar a mudança que essa geração provocou na literatura nacional ao mostrar as modificações que ocorriam em nosso país.

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1. O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo

Érico Veríssimo

Érico Veríssimo

Érico Veríssimo criou o maior épico brasileiro escrito até hoje. O Tempo e o Vento narra nada menos que duzentos anos da história do Rio Grande do Sul – e, por que não, do país. Da chegada dos primeiros habitantes ao estado até a derrocada das velhas famílias estancieiras representadas pelos Terra-Cambará, vemos passar uma galeria de personagens apaixonantes. Temos Ana Terra e Bibiana, mulheres fortes em meio a um mundo de homens hostis; temos Capitão Rodrigo, uma mistura de galã e aventureiro, cativante como só ele pode ser. Há guerras – muitas guerras – e passagens marcantes dessa história de formação de um estado marcado por homens que morreram à toa e mulheres que sofreram por eles.

2. A Bagaceira – José Américo de Almeida

José Américo de Almeida

José Américo de Almeida

O primeiro dos romances de 30 foi publicado em 1928. Nele podemos encontrar boa parte do que seriam as características de uma geração: o foco numa região periférica do país; e a mostra da violência das velhas elites que viam seu entardecer logo ali. José Américo nos apresenta uma família de retirantes que vai morar em um engenho e as consequências da relação entre o filho do senhor do engenho, Lúcio, e da filha do sertanejo, Soledade. Com muito sangue e violência, vemos os rígidos códigos de sertanejo sendo aplicado a todos, doa a quem doer.

3. O Quinze – Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz

Um romance de paradoxos: se por um lado, é o romance menos inventivo do ponto de vista técnico (poderia se dizer que é um romance do século passado), por outro é extremamente moderno em sua temática. Ao narrar a história de Conceição, personagem central da obra, Rachel de Queiroz, no auge dos seus vinte anos, dá um final surpreendente para uma mulher em meio a uma sociedade patriarcal e machista da época. Também inovou ao mostrar as mazelas proporcionadas pela seca no nordeste – algo, pelo incrível que pareça, quase totalmente ignorado pela maioria dos romancistas anteriores. Instigante, é o primeiro e melhor romance da autora.

4. São Bernardo – Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

Poderíamos dizer muitas coisas sobre esse romance: que fala sobre a ascensão e queda de Paulo Honório, que fala dos ciúmes doentios de um homem, que é um romance de fina análise psicológica de tradição machadiana. Não adianta, tentar encaixar Graciliano Ramos em poucas palavras, é covardia, afinal ele joga com tantos níveis ao mesmo tempo nesta narrativa da fazenda São Bernardo que a única coisa que podemos dizer é: leiam, por favor, leiam!

5. Fogo Morto – José Lins do Rego

José Lins do Rego

José Lins do Rego

Romance único não só na sua própria obra como também na sua geração. Não que conte algo de novo, pois a história, como em outros livros dessa lista, é sobre a derrocada de um antigo coronel. No entanto, a forma como é feita, dando o foco narrativo a três personagens diferentes, dá ao romance uma construção impar. Do Mestre José Amaro até o Capitão Vitorino, José Lins nos apresenta a derrocada inevitável de um mundo frente à modernidade, aproveitando para nos mostrar a derrocada social e psicológica do Coronel Lula de Holanda. Vale ainda uma grande ressalva ao melhor dos personagens do autor: Capitão Vitorino. De percepção limitada e sentimentos nobres, é o melhor personagem de cunho quixotesco que temos em nossa literatura.

6. Terras do Sem Fim – Jorge Amado

Jorge Amado

Jorge Amado

Como muitos dos romances de Jorge Amado, este também virou novela. Há, entretanto, algo de diferente nessa história. Não é a Bahia gostosa dos seus romances mais tardios, muito menos a denúncia da vida sofrida das camadas mais baixas. Jorge Amado nos brinda com um épico sobre a tomada do Sequeiro Grande e a luta de dois clãs, o de Horácio e o dos Badarós, para tomar as melhores terras para o plantio de cacau. Temos de tudo um pouco no meio do caminho: tocaias, incêndios, traição e muito mais. Romance único na obra do autor, temos uma aventura impar sobre o auge da era do cacau e uma terra adubada de sangue.

7. Os Corumbas – Amando Fontes

Oswald de Andrade disse que ficava sem ar ao ler a vida sofrida e miúda d’Os Corumbas, e não é para menos. Nesse primo pobre do romance de 30, Amando Fontes mostra a vida da família título ao se mudar do sertão para a cidade, revelando o movimento migratório clássico que estava começando no país e os problemas que os pobres passavam nessa passagem. Se você quer encontrar felicidade, não leia este romance, pois a única coisa que encontrará vai ser a vida desgraçada desses imigrantes.

8. Os Ratos – Dyonélio Machado

Dyonélio Machado

Dyonélio Machado

Naziazeno é o pior personagem da Literatura Brasileira, talvez esteja aí o grande êxito da obra. É difícil de acreditar que Dyonélio Machado construiu esse magnífico romance psicológico partindo de um mote tão banal: a busca de dinheiro de um homem para pagar a conta do leiteiro. No meio de idas e vindas de Naziazeno, sofremos junto com ele – sofremos tanto e tão próximos que às vezes esquecemos que não é ele quem está narrando a história. Um romance russo que se passa em Porto Alegre, mas ainda que Naziazeno, o pobre-diabo e protagonista do romance, tivesse vivido, e sofrido, em São Petersburgo, ninguém notaria a diferença.

9. O Amanuense Belmiro – Cyro dos Anjos

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Um homem que literalmente não consegue sair do lugar, esta é a melhor descrição que podemos dar do personagem-título desse romance de Cyro dos Anjos. Ao escrever seus diários, Belmiro mostra o interior de um homem falido em todos os sentidos possíveis. Filho de uma família oligárquica arruinada, ele vai rememorar o maior amor da sua vida, Camila, com quem nada teve. Além disso, vai nutrir um amor platônico por uma mulher que abraçou por poucos instantes num baile de carnaval, sem jamais tentar algo para conquistá-la, mesmo quando um amigo lhe mostra que a moça, uma filha de família rica, é real e pode estar ao seu alcance. Nesse mundo que poderia ter sido e não foi, Belmiro vive até que decide terminar o diário que compõe o romance – talvez porque saiba que nada irá acontecer.

10. Gabriela, Cravo e Canela – Jorge Amado

Jorge Amado

Jorge Amado

Tudo bem, já tem Jorge Amado nessa lista e muitos outros autores e romances ficaram de fora (a lista é longa, admito). No entanto, não há como citar Jorge Amado sem citar esse romance. No auge da sua carreira, o autor soube se reinventar e mostrar sua tão amada Bahia por uma nova perspectiva. Não que tenha abandonado a denúncia, só que agora ela tomou cores mais tropicais, sendo mais espontânea e brasileira. O romance entre o árabe Nacib e a sertaneja Gabriela não abandona a terra do cacau, muito menos os coronéis enriquecidos com o fruto dourado, apenas mostra aquele mundo ambíguo, onde homens tinham de ser machos e dados à traição, enquanto as mulheres tinham de ser esposas ou prostitutas por uma nova ótica, mais leve e divertida – mas nunca com menos denúncia. E lá vamos nós atrás de rabos de saia, intrigas de velinhas de igreja e brigas e mais brigas como sempre. Gabriela, Cravo e Canela é Jorge Amado se reinventando – e reinventando o jeito de contar os problemas de uma geração.

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