Dez medidas para salvar os derradeiros espaços espontâneos de convívio cultural

Luís Antônio Giron, na Época

As livrarias estão desaparecendo no mundo inteiro. Livrarias de bairro, antiquários e sebos vão fechando um depois dos outros, inapelavelmente. Até as grandes cadeias sucumbem à voragem da internet e do livro e digital. Também as bibliotecas. Muitos governos não estão mais investindo em bibliotecas físicas (inclusive o brasileiro) porque são caras e as bibliotecárias repreendem a poeira e conversam com os mosquitos. Os usuários foram embora. Mesmo assim, as bibliotecas contêm documentos raros e manuscritos, e ainda vão continuar a existir, embora em pequeno número. As livrarias, porém, correm um sério risco de se desintegrar pelo simples fato de que não serão mais viáveis economicamente.

A razão da transformação é um aparente avanço tecnológico: a digitalização dos arquivos de texto. Nunca houve um momento da história como o presente, em que todos os textos pudessem ser consultados ou comprados em qualquer lugar do planeta por meio de um computador. No entanto, tamanho progresso também tem afastado o leitor do contato físico e lúdico com o livro.

É preciso entender que livrarias jamais foram apenas depósitos de livros. Elas costumavam servir como espaços espontâneos de convívio entre pessoas que amavam cultura, arte e diversão. O livreiro – o empresário que investia em vendas de livros – era uma espécie de Dom Quixote que gostava de empatar o dinheiro investido pelo prazer de estar próximo dos livros e dos compradores de livros. Os escritores encontravam nas livrarias o local para suas noites de autógrafo, onde podiam se encontrar com seus leitores. Que é feito das noites de autógrafo de antanho? Ninguém mais quer nem mesmo assinar livros para os leitores. As redes sociais substituíram a presença e a interação entre autor e leitor.

Escrevo no pretérito, mas penso que as livrarias ainda têm uma função a exercer no mundo, assim como as locadoras de vídeo. E talvez ainda seja possível salvar algumas livrarias, pois as locadoras se foram de vez – elas eram também polos de encontro e troca de ideias. Atualmente ninguém quer trocar ideias. Cada um prefere ficar com as suas por considerá-las mais valiosas. E as redes sociais fortaleceram essa crença no isolamento e na estupidez.

As livrarias pedem socorro. Que fazer para evitar que elas sejam extintas? Vou sugerir a seguir aos livreiros e antiquários dez medidas emergenciais. Talvez eu repita o que já se faz por aí, pois algumas livrarias já fazem isso. No entanto, tais procedimentos podem ser imitados por negócios menores, como as livrarias de bairro e em cidades pequenas, e podem retardar o processo de desaparição, embora não creia que elas irão se manter por muito tempo.

Promoções – É preciso que as livrarias façam liquidações mais avassaladoras que as dos sites da internet. Isso atrairia os compradores. É o que as feiras de livro de rua fazem há séculos.

Espaços de convivência – Elas precisam parecer tanto salas VIP de aeroportos como claustros de bibliotecas antigas. Dispor de mais sofás e mesas e dar mais liberdade para as pessoas permanecerem no local. Mas também têm que destinar um espaço de silêncio e reflexão para os leitores compulsivos.
Cafés – Um café com petiscos, de preferência gratuitos, ajudam a segurar, senão atenção do leitor, pelo menos o leitor.

Internet livre – Serviços potentes de W-Fi e 4G e computadores para que os jovens se divirtam com literatura e aplicativos de literatura no espaço das livrarias.

Orientação – As livrarias perderam a noção de que quem as
frequenta precisa de atendimento personalizado e especializado. Hoje a pressa converteu os atendentes de livrarias em meros balconistas mal-humorados.

Salas de vídeo, games, revistas e discos – Reservar um espaço para a oferta de produtos multimídia que enriqueçam a experiência literária. Não produtos soltos e descontextualizados.

Eventos – Ocasiões que associem a experiência da leitura, como shows, peças, recitais, encontros de fãs, palestras de escritores e leituras enriquecem o ambiente. Um pequeno auditório pode ser instalado se o espaço permitir. Livrarias funcionam bem como parques de diversões de adultos e crianças.
Curadoria – Contratar um profissional que, mais que um gerente banal, tome conta de todas as atividades culturais e educacionais do negócio e que seja ouvido pela administração.

Entrega – Prestar serviços de encomenda em domicílio na região, pela internet. e por telefone. Para isso, um bom serviço de loja virtual e uma boa presença nas redes sociais não podem faltar
Acervo visível – Não adianta oferecer todas essas atrações se a livraria não expuser em belas estantes um acervo importante e portentoso, sujeito à constante renovação. Isso sem deixar de manter os títulos disponíveis ao alcance da mão do leitor.

Hoje poucas livrarias remanescentes no Brasil adotam essas medidas e preenchem esses requisitos. Só mesmo algumas grandes cadeias, que foram as primeiras devoradoras das livrarias de esquina. Quem sabe se as pequenas livrarias e sebos não conseguem manter vivo o sonho da presença dos leitores e dos autores, cada vez mais distantes uns dos outros? Talvez eu esteja sendo ingênuo demais. Mas nada me irá substituir um passeio distraído pelas estantes de uma livraria.

dica do Rodrigo Cavalcanti

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