O autor de ‘A verdade sobre o caso Harry Quebert’, que já vendeu dois milhões de exemplares, conta que encontrou o sucesso escrevendo “apenas para se divertir”

Marina Rossi, no El País

 

Joël Dicker, em uma foto de 2013. / Carmen Valiño

Faz apenas dois meses que o livro A verdade sobre o caso Harry Quebert (Intrínseca, 39,90 reais) foi lançado no Brasil, mas as vendas já passaram dos 20.000 exemplares. O frisson, talvez causado pelo imenso número de exemplares vendidos no exterior – foi traduzido para mais de 30 idiomas e só na França vendeu mais de dois milhões de cópias -, talvez pelo fato de o autor ter apenas 29 anos ou talvez pelo simples fato de o livro ser bom mesmo, está fazendo do escritor suíço Joël Dicker uma estrela pop da literatura. E ele é um dos queridinhos da 12ª edição da Flip, que começou na quarta-feira.

Mas o sucesso não veio do dia para a noite para esse rapaz. Embora jovem, Dicker escreveu cinco livros, todos rejeitados pelas editoras, antes de seu best-seller, que demorou dois anos e meio para ficar pronto, chegar às livrarias. O que diferencia seu romance policial, sucesso de vendas, dos outros livros que foram recusados? “Eu cresci nos últimos anos e talvez Harry Quebert seja um romance mais maduro do que os outros”, disse o autor, em uma entrevista por e-mail, em seu segundo dia no Brasil. Além disso, “Quebert foi escrito sem nenhuma outra expectativa além do prazer de escrever, o que é um processo bem diferente”.

O livro conta a história de um jovem escritor de 28 anos, Marcus Goldman, que fica rico com o sucesso de seu primeiro livro. Pressionado e em crise para escrever o segundo título, Goldman é convidado a passar uns dias na casa de seu professor e tutor, Harry Quebert, em Aurora, uma pequena cidade fictícia em New Hampshire, na costa leste dos EUA. Chegando lá, descobre a misteriosa história de Nola Kellergan, uma jovem que desapareceu há mais de 30 anos e, por coincidência, foi a namorada de Quebert, o maior suspeito do crime. Tudo vem à tona quando o cadáver da jovem é descoberto no jardim de Quebert. Para provar a suposta inocência do adorado amigo e professor, Goldman sai investigando a história, que se enrola e desenrola ao longo das mais de 500 páginas do livro.

Um livro de verão, para levar nas férias e esvaziar a cabeça. Ainda que seja uma literatura respeitável para um jovem de vinte e poucos anos, Dicker se perde um pouco em alguns clichês – antes de cada capítulo, há um pequeno diálogo entre Goldman, o pupilo, e Quebert, seu tutor que lhe dá conselhos amorosos e dicas para a escrita de um livro. E talvez se enrole demais com as idas e vindas, que acontecem em um ritmo mais frenético nos cinco últimos capítulos.

Pergunta. Você escreveu cinco livros antes do seu best-seller A verdade sobre o caso Harry Quebert.Todos eles foram rejeitados pelas editoras. Quais são as diferenças entre Harry Quebert e os outros livros?

Resposta. É uma boa pergunta. Eu definitivamente cresci durante esses 10 anos que se passaram e talvez Harry Quebert seja um romance mais maduro que os outros. O que posso dizer com certeza é que os primeiros cinco romances foram escritos para serem publicados. Quebert foi escrito sem nenhuma outra expectativa além do prazer de escrever, o que é um processo bem diferente.

P. Você disse em uma entrevista que você escreveu Harry Quebert “apenas por diversão”, já que você não acreditava que seria um livro de sucesso. E que se fosse rejeitado também, você faria outra coisa da vida. O que faria nesse caso?

R. Com certeza eu continuaria escrevendo. Mas eu teria que encontrar um trabalho “full time” e escrever apenas durante os finais de semana. Preciso fazer uma pequena correção: Eu não escrevi Harry Quebert apenas por diversão, eu escrevi para me divertir, o que é levemente diferente.

P. Você escreveu livros que foram rejeitados e, ao mesmo tempo, um best-seller. Por que você acha que Harry Quebert é um grande sucesso?

R. Nenhum autor consegue escrever um best-seller de propósito. Um autor pode apenas escrever livros, que podem vir a ser um best-seller apenas se os leitores, as livrarias e os críticos decidirem por isso. Meu livro se tornou um best-seller na França só por causa do boca a boca. Eu era um autor desconhecido, publicando um livro por uma editora bem pequena. A primeira pessoa que prestou atenção no meu livro foi o vendedor de livros, que gostou e sugeriu aos clientes, que gostaram e sugeriram aos amigos. Eu sou muito grato por esse suporte que foi o grande responsável pelo sucesso do meu livro. Você sabe, a beleza e a mágica dos livros não é algo científico, não há uma receita. Não é possível dizer exatamente por que um livro faz sucesso e outros não. Tem algo a ver com a química entre os leitores e a história.

P. Por que você escolheu a costa Leste dos EUA como lugar para a história se passar? Por que não a Suíça ou algum outro lugar da Europa?

R. Por três razões. Primeiro, meu romance anterior se passava na Europa e eu senti como se precisasse tentar um novo lugar para configurar a minha história. Segundo, eu estava passando um tempo na costa Leste quando comecei a trabalhar neste livro. Eu passei todos os meus verões lá por mais de 20 anos consecutivos, então esse é um lugar que eu conheço muito bem. Terceiro, porque eu queria contar a história usando a primeira pessoa (o “eu”, que é a voz do Marcus) mas que não fosse algo autobiográfico. Então eu senti que precisava colocar alguma distância entre a minha vida em Genebra e o narrador do meu livro.

P. De onde vem essas “dicas de escritor” que estão no livro? Você as segue?

R. Essas dicas são pura invenção. E elas nem mesmo são dicas! Eu não só não as seguiria, como elas são exatamente o oposto de quando eu escrevo! Como eu já te disse antes, eu acredito que não há dicas ou receitas para escrever um livro. Em Harry Quebert, as dicas são para lembrar aos leitores da original relação metre-pupilo entre Harry e Marcus.

P. Harry Quebert diz a Goldman que ele precisa saber o fim da história antes de começar a escrever o livro. Você sempre soube quem matou Nola?

R. Não, não soube. E isso é outra prova de que as dicas de Harry não são para serem seguidas!

P. Você está escrevendo outro livro? Está pensando em um novo thriller?

R. Sim, estou trabalhando em um novo, mas não, não é um thriller. É engraçado porque eu nunca considerei que Harry Quebert fosse um thriller. Na França, ele não é considerado um thriller. O livro começou a ser mencionado como tal quando a versão estrangeira do livro foi publicada.

P. O escritor Joca Reiners Terron disse na Folha de S. Paulo que seu livro era uma “literatura de banheiro”, ou algo que você só lê no banheiro, quando não tem nada melhor para ler. O que você acha dessa crítica?

R. Em primeiro lugar, eu estou muito bem como todas as críticas do meu livro, não importa se sejam boas ou ruins. Contanto que os críticos expliquem o que eles gostaram ou não gostaram, eu respeito todas as opiniões. Pessoalmente, existem livros que eu gosto e livros que eu não gosto. No meu caso, como sou muito jovem, eu li as críticas com um ponto de vista particular: Eu tenho apenas 29 anos, eu escrevi Harry Quebert entre os 25 e os 27 anos, então eu tenho certeza de que posso fazer melhor! Pelo menos é o que eu espero, e seria uma vergonha se eu já tivesse escrito um livro perfeito, pois isso significaria que eu não poderia fazer nada melhor mais. Então eu sempre tomo nota sobre o que os críticos dizem e uso isso para melhorar o meu trabalho no meu próximo romance. Sobre o comentário da “literatura de banheiro”, eu não tenho certeza se poderia fazer algo sobre esse tipo de observação. Mas é justo: Você não pode agradar a todo mundo. Eu espero que o crítico goste mais do meu próximo livro.

P. Como você classificaria seu livro se fosse um crítico?

R. Eu não sei, porque não sou um crítico. Eu acho difícil para um autor criticar livros. Na arte, no cinema ou na pintura, não são pintores ou cineastas que fazem as críticas dos trabalhos de alguém, mas um jornalista especializado e com esse domínio. Da mesma forma, escritores não deveriam fazer a crítica dos livros de outros escritores.

P. Você está gostando do Brasil?

R. Muito! Estou há apenas dois dias aqui, mas estou achando incrível a atmosfera do Rio de Janeiro. E eu também estou muito impressionado com o quanto a indústria de livros parece ir bem no Brasil!

P. Você já leu Meu pé de Laranja Lima (escrito por José Mauro de Vasconcelos em 1968). Existe outro livro brasileiro ou algum autor brasileiro que você gostaria de ler ou conhecer?

R. Sim, meu editor brasileiro me deu Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis (em francês, claro). Eu acabei de começar e estou gostando muito!

P. O que você espera da Flip?

R. Eu estou muito animado com a Flip porque eu tenho ouvido muito sobre o evento. Tem uma reputação de ser um festival rigoroso e de alto nível e é uma grande honra para mim ser convidado. Estou esperando conhecer outros autores e por falar sobre o meu trabalho.

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