Chapeuzinho Vermelho é uma das histórias mais conhecidas de Perrault (Foto: Wikimedia / Carl Larsson)

Chapeuzinho Vermelho é uma das histórias mais conhecidas de Perrault (Foto: Wikimedia / Carl Larsson)

 

Claudia Fusco, na Galileu

Há 388 anos, nascia Charles Perrault, um dos escritores de contos de fadas mais influentes da humanidade. Perrault cresceu rodeado pela alta sociedade francesa e seus contos, muitos deles releituras bastante editadas de histórias orais da tradição europeia, são conhecidos até hoje, como Gato de Botas, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e Bela Adormecida.

Perrault era um homem bastante poderoso de seu tempo: há até quem compare sua influência como autor de histórias infantis a Walt Disney. Suas histórias ditavam os costumes da burguesia europeia que estava em ascensão; serviam como “guia de comportamento” para as crianças da época. Ainda que muito dessas morais tenha se perdido no tempo ou se transformado, contos de fadas são pistas da mentalidade humana de cada época e sabedorias universais. Por isso, o The Guardian fez uma lista com três lições que persistem nos contos de fadas tradicionais, mas devemos contestar (e, quem sabe, reciclar):

Primeiras impressões (não) são tudo – e são importantes

Um bom exemplo disso é A Bela e a Fera, do próprio Perrault. Sem o amor de Bela, que transforma o monstro em um belo (e bastante conveniente) príncipe, não enxergaríamos a Fera como um príncipe. Contudo, a história original termina de um jeito um tanto quanto polêmico: apesar da garota poder voltar para ver sua família, a besta impõe condições e regras o tempo todo, nunca a deixando totalmente livre. Como diz o Guardian, “é basicamente uma síndrome de Estocolmo em forma de conto de fadas”.

É claro que as morais da época eram diferentes; Bela fica muito agradecida com o acordo e isso só faz com que se apaixone ainda mais pelo monstro. Mas é fato que a natureza cerceadora da Fera sempre esteve lá – e nem mesmo a mágica do amor pode mudar isso.

Você (não) deve mudar para conquistar o seu final feliz

Quando lemos ou assistimos à Bela e a Fera, fica claro que o monstro só se transformou para se tornar um par ideal para a garota. Perrault era um grande defensor da moral burguesa – e a Fera só merece realmente o amor de Bela, a jovem praticamente perfeita em todos os sentidos (diligente, próxima à família, obediente e sem grandes arroubos de personalidade), quando se molda à mesma moral. O monstro lentamente se torna mais afável e, eventualmente, um candidato mais respeitável ao amor da futura princesa.

Ainda que muitos contos de fadas sejam únicos e originais, a repetição da fórmula “belo príncipe + bela princesa se apaixonam” já cansou. Por mais garotos e garotas imperfeitos nos contos de fadas modernos! As adaptações recentes da Disney dos contos de fadas teriam grandes oportunidades de mudar esse cenário – mas muitos deles apenas repetem o que foi estabelecido por Perrault no passado.

(Não) espere a fada madrinha mudar sua vida

Tanto na versão de Perrault de Cinderela quanto na dos Irmãos Grimm, que veio duzentos (!) anos depois, a história é a mesma: a jovem (e bela) garota de bom coração é, de certa forma, salva por algo externo. Mas enquanto a “Cendrillon” de Perrault é ajudada por uma fada madrinha que surge espontaneamente, a “Aschenputtel” dos Grimm é salva por um pássaro branco, que é atraído por conta de uma árvore da qual a Cinderela alemã sempre cuidava (logo, mais uma prova de seu bom coração).

Na versão dos Grimm, a jovem pelo menos é mais ativa em sua própria felicidade. Não é o ideal; princesas de contos de fadas modernos da Disney, como Merida e Mulan, lutam pela própria felicidade e por aquilo que consideram correto. É isso que se espera dos novos contos de fadas: releituras que conversem mais com aquilo que, hoje, acreditamos como moral.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments