Catarina Bessel

Catarina Bessel

 

Gregório Duvivier, na Folha de S.Paulo

Na minha escola a gente podia escolher entre o literário e o científico. Quem escolhesse o primeiro, teria oito horas de filosofia por semana. Todas elas com o mesmo professor. Um sujeito que podia ser tudo menos simpático.

Levy Midon tinha uma barriga dura e um bigode ruivo de gaulês, como Abracurcix –mas sem o carisma. Não sorriu. Não perguntou nossos nomes. Na primeira vez que entrou na sala, tivemos a certeza de que nossa vida seria um inferno.

Um aluno falou, blasé, que aquela aula seria tempo perdido porque “filosofia não servia pra nada”.

Antes que o estudante terminasse, o sangue subiu à cabeça já vermelha do professor: “Nada serve pra porra nenhuma, seu imbecil!”, ele berrava, batendo os punhos na mesa.

“Você vai morrer! Não importa o que você faça! Sabe o que não serve pra nada? Você. Eu também não sirvo pra nada. Mas você serve pra menos ainda, porque você acha que serve pra alguma coisa.” E ele foi se acalmando, aos poucos, enquanto deixava claro para quão pouco servia a vida.

Sem que percebêssemos, a aula tinha começado. Quando descobrimos que ele podia surtar a qualquer momento, assistíamos à aula vibrantes e estarrecidos, como quem brinca com um tigre.

Uma vez, falei que os franceses eram fascistas porque tratavam mal as crianças. Midon virou um camarão graúdo: “No seu país, meio milhão de crianças mora na rua! E você está cagando pra elas! Fascista é você que só se importa com criança branca e rica”.

“Iaaaaau”, todos berravam, fazendo a famosa onomatopeia de humilhação moral, hoje talvez substituída por “chupa!”.

Sempre que consultado, o professor versava sobre qualquer assunto: futebol, cinema, dicas de masturbação, a vida íntima dos outros professores, sua própria vida íntima, a morte da esposa num acidente de carro. Tudo estava em pauta.

A não ser o assunto da semana. Hegeliano, sobre atualidades não falava de jeito nenhum. “A coruja de Minerva só levanta voo no crepúsculo”, dizia, e se calava.

Ficamos amigos dele. Quando se apaixonou, levou a namorada pra sala pra que a gente a conhecesse.

Quando me formei, não sabia o que cursar. Tinha medo de, escolhendo a literatura, ser pobre pra sempre.

Perguntei a ele o que achava. “Você já escolheu”, ele disse, “quando escolheu um professor pobre pra escolher. Você não perguntou a um banqueiro. Essa é a tragédia da vida, meu amigo. Você não consegue não escolher.”

Nunca mais nos encontramos.

Quarta-feira visitei a escola. Perguntei por ele. Morreu no início do ano, disseram-me. Do coração.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments