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Segundo professores ouvidos pelo G1, questões não estavam fáceis, mas foram menos difíceis que as da primeira fase aplicada em novembro, que surpreendeu pelo nível de dificuldade.

Ana Carolina Moreno, no G1

A prova de português e redação da segunda fase da Fuvest 2017 foi menos difícil do que as questões objetivas da primeira fase, e que a prova da segunda fase da edição anterior, segundo afirmaram ao G1 professores de cursos pré-vestibulares de São Paulo. Neste domingo (8), mais de 20 mil candidatos foram convocados para responder a dez questões de língua portuguesa e literatura e escrever uma redação. Foi o primeiro de três dias de prova na etapa final de seleção dos calouros da Universidade de São Paulo (USP) e da Santa Casa de São Paulo. A prova teve quatro horas de duração e, segundo a Fuvest, o índice de abstenção do primeiro dia foi de 8,5%.

De acordo com Claudio Caus, professor de português do Cursinho da Poli, “não é uma prova fácil, mas não estava tão difícil quanto a primeira fase indicava que seria, e quanto a segunda fase do ano passado”. Segundo ele, as questões de português da primeira fase da Fuvest 2017, que foi aplicada em novembro, estava “cavernosa”.

Maria de Lourdes Cunha, professora de literatura do Curso e Colégio Objetivo, afirma que o fato de a primeira fase ter sido muito difícil pode ter levado a Fuvest a “frear” o nível de dificuldade. “Tiraram o pé do acelerador”, comparou ela. Maria de Lourdes lembra, porém, que o fato de a prova não estar tão difícil não significa que ela foi fácil. “Foi uma prova para bons leitores, para bons alunos”, resumiu ela.

Para Eduardo Calbucci, supervisor de português do Anglo, o grau de dificuldade da prova foi semelhante ao da segunda fase de anos anteriores, mas, como a prova da primeira fase tinha sido mais difícil, poderia haver a expectativa de que o padrão se repetiria.

Para Caus, do Cursinho da Poli, “a Fuvest continua tendo uma certa exigência de conteúdo, mas também com demanda de reflexão, exige do aluno senso crítico que se sobrepõe ao conteúdo”.

Gramática

Os professores afirmaram que a Fuvest seguiu exigindo conceitos de gramática, ainda que não no modelo tradicional, que já foi abandonado em anos recentes. “Gramática caiu de uma forma muito interessante, muito inteligente”, afirmou o professor Heric Palos, coordenador de língua portuguesa do Colégio Etapa. “Há tempos o gramatiques não faz mais parte do exame. A Fuvest primou neste ano por esse tipo de questão. Às vezes você ouve as pessoas falando que mão cai mais gramática no vestibular. Está aí a Fuvest para provar que cai, sim. Toda a base gramatical está lá. A questão dos tempos verbais, colocações pronominais, voz passiva, pontuação, figuras de linguagens, tudo está lá. É muito bonita a prova, muito bem feita.”

Uma questão de figuras da linguagem mereceu destaque dos professores. A questão 01, que trouxe a transcrição de um vídeo narrado pela atriz Camila Pitanga sobre a Amazônia, pediu que os estudantes soubessem o que é uma prosopopeia, ou seja, quando seres inanimados ganham sentimentos humanos. “Na hora que eu personifico a floresta, transformo a floresta em gente, o sofrimento dela fica mais chocante, mais impactante”, afirmou Palos.

Literatura

Os professores afirmaram que a Fuvest seguiu seu padrão, ao dedicar 60% da prova de português à língua e à linguagem, e 40% à literatura. Neste ano, quatro livros da leitura obrigatória foram abordados: “Mayombe”, de Pepetela, “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, e “Sagarana”, de Guimarães Rosa, com o conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”.

Para o professor Claudio Caus, do Cursinho da Poli, a principal surpresa desta lista foi “Mayombe”. “Já não era tão esperado porque foram três questões na primeira fase, mas a obra se repetiu nessa”, disse ele.

Maria de Lourdes, do Objetivo, lembra que, assim como em anos anteriores, estudantes que não leram a obra por completo até poderiam arriscar esboçar uma resposta em duas das quatros questões. “Uma questão de ‘O cortiço’ foi sobre o determinismo. Se o aluno teve uma orientação de um professor, ele poderia responder sim, mas lendo só o resumo não pode. As questões não são sobre a história, são sobre o entendimento da história. É para o aluno refletir”, explicou ela. “Só a história não cai no vestibular. O que o Joãozinho fez quando Pedrinho abriu a porta? Isso não cai mais.”

Redação

Segundo os professores, a única parte da primeira prova da segunda fase da Fuvest que chegou a surpreender foi a redação. Eduardo Calbucci, do Anglo, essa foi a maior diferença entre outras edições da prova.

“O que teve diferença substancial em relação ao ano passado foi a redação. Foi bem diferente em relação ao formato da prova. A redação usou, no ano passado, uma coletânea de textos com uma proposta difícil, sobre utopia, mas tinha quatro fragmentos para fazer a formulação. Nesse ano havia apenas um texto e uma explicação da banca sobre ele. O candidato tinha que usar mais o repertório dele para conseguir fazer a redação”, disse ele.

A professora Maria de Lourdes, do Objetivo, acredita que o tema deu mais abertura aos estudantes. “Ele podia ir pela linha política, da educação, da religião, da família, podia ter amplitude”, disse ela. Por isso, a produção da redação pode ter sido facilitada.

Caus, professor do Cursinho da Poli, lembra que, “apesar de Kant ser um filósofo considerado bastante hermético e complexo, o texto usado na prova não era muito difícil”.

De acordo com Heric Palos, do Etapa, a tradução do texto o tornou acessível aos estudantes, e o tema “O homem saiu da menoridade?” tem uma relação um pouco menos velada com as questões sociais do que temas abordados nos últimos três anos do vestibular da USP. “Nos três últimos exames havia uma relação mais direta entre a proposta e questões sociais. Agora a relação é um pouco mais velada, mas está dentro da proposta também.”

Segundo os professores, a abertura da abordagem na prova de redação permitiu que os candidatos usassem seu repertório pessoal para redigir o texto, mas, por outro lado, um erro que pode descontar pontos é se o candidato abordou aspectos demais e acabou tocando no assunto apenas de forma tangencial.

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