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Publicado no G1

Pessoas com deficiência visual que utilizam softwares de leitura de tela podem ter dificuldade de compreender palavras como “todxs” ou “alun@s”. Programas como o NVDA e o Virtual Vision, que buscam traduzir para áudio o que está escrito no celular e no computador, não leem corretamente as palavras e emitem sons confusos ao tentarem decifrar o “x” e o “@”.

O uso destes códigos é um recurso utilizado principalmente em redes sociais para que haja neutralidade de gênero – em vez do emprego do masculino. Adeptos de movimentos feministas e LGBTs, por exemplo, defendem a escrita de frases como “Todxs xs alunxs foram à aula”, em vez de “Todos os alunos foram à aula”.

A jornalista Giselle se queixou em seu perfil do Twitter sobre essa forma de escrita. “Essa linguagem neutra, que muitos dizem ser inclusiva, é tudo, menos inclusiva. É extremamente cruel com a pessoa que tem deficiência visual”, afirma.

Ela descobriu, há pouco tempo, que tem doença celíaca. Sua visão fica comprometida em alguns dias. “Vivo entre dois mundos, o da deficiência visual e o de enxergar normalmente”, conta. Para conseguir usar celular, ela faz uso do Google Talk Back, aplicativo do sistema Android que lê telas. “Quando são textos com muitos ‘x’, fica muito complicado, não dá para entender nada, nem o contexto. Eu não entro mais em Facebook porque é um pesadelo para a pessoa com deficiência”, afirma. “Consigo entender frases curtas, quando o significado é óbvio. Mas quando são maiores, não dá.”

Marina Yonashiro, estagiária de jornalismo na Fundação Dorina Norwill para Cegos, diz que o problema de compreensão também varia conforme a voz baixada no software de leitura de telas. “Quando a voz é mais humana, fica confuso. A versão mais robotizada tem maior espaço entre as sílabas, aí consigo entender”, conta. “Dá para regular a velocidade do áudio. Quando colocamos com ritmo menor, temos menos problemas. Mas quebra o ritmo da leitura.”

Linguagem exclui

Para ensinar os cegos a usar o computador no meio corporativo, em programas como Excel e Word, Francisco Carlos Alves Batista dá aulas na Adeva (Associação de Deficientes Visuais e Amigos). Ele tem deficiência visual e é usuário da Biblioteca Braille do Centro Cultural São Paulo (SP). “Esse tipo de linguagem realmente exclui os cegos. Nós não vamos entender. Mas temos que levar em conta que é um recurso que as pessoas utilizam e que eu, dentro da minha deficiência, não vou poder usufruir”, diz.

Ele explica que abreviações também oferecem dificuldade para os cegos, como “td” (tudo) ou “blz” (beleza). “O dicionário virtual dos leitores de tela não lê de forma fidedigna estes códigos”, afirma.
O professor esclarece que, a cada lançamento de sistema operacional, os recursos vêm inacessíveis e um desenvolvedor trabalha para tentar adaptá-lo aos cegos. “Quando fica bom, troca a versão. Espero que um dia a pessoa com deficiência visual possa comprar o computador na loja, ligar em casa e usar, sem essa espera. Mas as coisas são feitas para quem enxerga, porque o mundo é dele”, completa.

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