Biblioteca da USP abriga uma coleção de cerca de 60 mil volumes de livros raros e manuscritos, doados por bibliófilos

Biblioteca da USP abriga uma coleção de cerca de 60 mil volumes de livros raros e manuscritos, doados por bibliófilos

 

Juliana Domingos de Lima, no Nexo

A Biblioteca Guita e José Mindlin abriga uma coleção de cerca de 60 mil volumes de livros raros e manuscritos e pertence à Universidade de São Paulo. Agora, 3.000 títulos do acervo podem ser consultados on-line e baixados na plataforma digital da biblioteca, lançada em 5 de julho.

O projeto de digitalização, que conta com a colaboração da Superintendência de Tecnologia da Informação e do Centro de Tecnologia da Informação da USP de São Carlos, teve início em 2008. Entre as obras disponíveis atualmente, há livros, folhetos, periódicos, manuscritos, mapas e imagens. Alguns chegam a ter cinco séculos de idade.

Novas obras serão acrescentadas ao acervo digital a cada semana.

Por se tratarem de livros antigos, muitos já estão em domínio público, livres de direitos autorais, o que possibilita sua digitalização e disponibilização para download no formato pdf.

O Nexo pediu ao bibliotecário Rodrigo Moreira Garcia, coordenador responsável do projeto, que realizasse uma seleção de sete destaques entre as obras digitalizadas até o momento. Aqui sua seleção:

“Warhaftig Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden […]”, de Hans Staden (1557)

“Obra de um viajante alemão do século 16. A primeira edição publicada em 1557, descreve suas experiências no Brasil e como escapou de ser devorado por índios tupinambás em um ritual antropofágico.

O texto teve um papel importante na construção de um imaginário sobre o Brasil e influencia até hoje produções na literatura, cinema e artes plásticas que se debruçam sobre a formação e a identidade nacional. A BBM também possui uma edição em português de 1900.”

“Arte de grammatica da lingoa mais usada na costa do Brasil”, de José de Anchieta (1595)

“Primeira edição, de 1595, do livro escrito pelo padre José de Anchieta, da Companhia de Jesus. Anchieta escreve a gramática ao perceber a grande semelhança da língua falada pelos indígenas do litoral: os tupis. Os jesuítas, desde cedo, determinaram que a catequese seria mais facilmente realizada se usassem a linguagem dos nativos. Assim, essa obra surge como um instrumento da conversão do indígena.”

23 obras de João do Rio

“Entre as novas digitalizações, destacam-se as obras de João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, jornalista, cronista, contista e teatrólogo brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras.

João do Rio foi importante cronista da vida carioca, no início do século 20. Em sua obra, o autor traduz, com maestria, os processos de modernização tanto políticos quanto sociais da então capital federal e suas consequências – tanto positivas, como a urbanização e o saneamento, e negativas, como a marginalização e a exclusão social.

Dentre suas obras mais importantes, destacam-se: “Psychologia urbana”, de 1911  ; “Os dias passam”, de 1912; e “No tempo de Wencesláo”, de 1917.

Os 9 fascículos da revista “KLAXON: mensário de arte moderna” (1922-23)

“Lançada em São Paulo no mesmo ano que se realiza a Semana de Arte Moderna, ‘Klaxon’ é a primeira revista modernista do Brasil. Do comitê de redação, participam ativamente Menotti del Picchia e Guilherme de Almeida. Das diversas revistas modernistas que proliferam no Brasil dos anos 1920, Klaxon sem dúvida é a mais audaciosa, a mais renovadora e a mais criativa, não só por sua belíssima diagramação, como pelas modernas ilustrações de Brecheret e Di Cavalcanti. A revista traz artigos e poemas de autores franceses, italianos e espanhóis, todos em suas línguas originais; e, além disso, poemas de Manuel Bandeira e Serge Milliet (que assinava assim na época) compostos em francês. Irreverente e sarcástica, Klaxon apresenta um perfil de típica agressividade vanguardista”.

Os 18 fascículos de “O Patriota: jornal litterario, político, mercantil” (1813-1814)

“A publicação dos 18 números de ‘O Patriota, Jornal Litterario, Politico, Mercantil’, entre fevereiro de 1813 e dezembro de 1814, na Impressão Régia, Rio de Janeiro, representou o aparecimento do que hoje chamaríamos de primeiro periódico dedicado exclusivamente à difusão do conhecimento científico no Brasil. Seu redator (hoje diríamos editor) era o baiano Manuel Ferreira de Araújo Guimarães (1777-1838). Apresenta expressiva contribuição iconográfica (gravuras, tabelas e quadros) e trata de temas como botânica, zoologia, mineralogia, cartografia, filosofia, viagens, literatura, história, medicina, matemática, química, topografia, hidráulica e navegação, entre outros”.

O documento do Dia do Fico

“Edital. O Senado da Camara, julga do seu dever anunciar ao Povo desta Cidade, que hoje ao meio dia, poz na Presença de S.A.R. o Principe Regente do Brasil as representações […]. Imprensa Nacional. 1822.

Assinado por José Martins Rocha, é o edital que comunica a resolução de D. Pedro de permanecer no Brasil, datado de 9 de janeiro de 1922, dia do Fico.”

Documentos assinados por Diogo Antônio Feijó

Diogo Antônio Feijó, (São Paulo, 1784 -1843), foi um sacerdote católico e estadista brasileiro.

Em seu primeiro cargo político, foi vereador em Itu. Foi deputado por São Paulo às Cortes de Lisboa, abandonando a Assembleia antes da aprovação da Constituição. Foi deputado geral por São Paulo (1826 e 1830), senador (1833), ministro da Justiça (1831-1832) e com a proclamação do Ato Adicional, em 1834, que transformava a Regência Trina em Una, foi eleito pela Assembleia Geral Regente do Império (1835-1837). Por isso, é considerado o primeiro chefe do Poder Executivo devidamente eleito na história do Brasil, aproximando-se do cargo atual ocupado pelo Presidente da República”.

Razões para digitalizar

Preservação do objeto original

Segundo Rodrigo Moreira Garcia, a digitalização é a melhor estratégia de que se tem conhecimento atualmente para fins de preservação do objeto.

A operação também se preocupa em reproduzir, tanto quanto possível, as características materiais da obra original, explica Garcia. “Há diretrizes internacionais (como as da IFLA,  a International Federation of Library Associations and Institutions) para o planejamento de digitalização de obras raras e especiais, e a BBM procura segui-las e adaptá-las para as nossas necessidades”.

Democratização

Tornar o livro raro acessível pela digitalização maximiza a descoberta e o uso das coleções raras e especiais em maior medida do que um acervo físico de uma biblioteca é capaz. “Sem digitalização, as coleções raras e especiais permaneceriam obscuras e desconhecidas, ou no máximo conhecidas por um número mínimo de especialistas“, diz.

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