Cena de 'Deixa Ela Entrar' (Foto: Reprodução)

Cena de ‘Deixa Ela Entrar’ (Foto: Reprodução)

Oscar Nestarez, na Galileu

Fãs de horror tendem a ser insaciáveis. Mal terminam de ler um livro de que gostaram e já começam a imaginar como seria a adaptação para o cinema, quem interpretaria o(a) protagonista, quem seria encarregado da direção, etc.

E, caso a adaptação já exista, correm aos milhares e milhões para assisti-la, de modo a comparar com a obra literária e a trocar impressões com outros aficionados.

Os tempos atuais são prova disso. A nova adaptação de It, romance de Stephen King, vem quebrando recordes de público — com uma semana de exibição, já virou o filme de horror mais bem-sucedido da história, em termos de bilheteria.

Por isso, elaborei uma lista com sinistro carinho para, quem sabe, assombrar suas noites e madrugadas. E para atenuar a (inevitável) polêmica e queixas dos leitores, informo que a única ordem seguida é a cronológica. Vamos lá:

Adaptações de Drácula
Começo não por uma, mas por várias adaptações. Drácula, de Bram Stoker, talvez seja o mais famoso romance de horror da história, e continua revisitado por cineastas e roteiristas até hoje. Pode fazer as contas: quantas versões (ou apropriações) você já viu?

Agora, embora o (ótimo, a nosso ver) Drácula, de Bram Stoker, de 1992, tenha esse sobrenome literário, a versão considerada mais fiel ao livro ainda é a de 1931, dirigida por Tod Browning. Sim, aquela cujo conde é interpretado pelo lendário Bela Lugosi — vale lembrar que o ator, após falecer, foi enterrado vestindo a capa do vampiro que eternizou.

Há um consenso entre especialistas de que nenhuma outra versão capturou tão bem a atmosfera vertiginosa da obra de Stoker.

Os inocentes, Jack Clayton, 1961
Do Damien de A profecia (1976) até o recente Boa Noite, Mamãe (2016), crianças assombram e são assombradas em páginas e telas há muito tempo. Mas poucas histórias são mais assustadoras do que aquela apresentada por esta adaptação da obra-prima A volta do parafuso, de Henry James.

Qual história? A de uma jovem babá (interpretada pela excelente Deborah Kerr) que vai cuidar de um casal de crianças em uma mansão, após os empregados anteriores terem desaparecido misteriosamente.

A versão de Clayton mantém o clima pesado e labiríntico da narrativa de James. Quanto a nós, espectadores, vemo-nos desamparados entre vivos que se vão, mortos que voltam e, claro, crianças assustadoras.

O Bebê de Rosemary, Roman Polanski, 1968
Um clássico controverso. Baseado na obra homônima do norte-americano Ira Levin, publicada no ano anterior, o filme de Polanski é poderoso por alguns motivos.

Em primeiro lugar, porque transpõe o tom grave da narrativa para a telona; a história da mocinha (Mia Farrow) grávida vai se adensando até beirar o insuportável — com direito a participações muito especiais (de Anton LaVey, fundador da “Igreja de Satã”, em momento culminante da história).

Em segundo lugar, porque a chegada do Anticristo, aqui, é retratada de forma sinuosa e metafórica, que vai além da dicotomia Deus x Diabo; há vínculos implícitos entre influências sobrenaturais e a sanidade da pobre protagonista. Imperdível para quem é fã de horror psicológico.

O Exorcista, William Friedkin, 1973
Hors concours em qualquer lista de cinema de horror — seja ela composta por adaptações ou não. Apresentado como “o filme mais assustador já feito”, O Exorcista de Friedkin foi baseado no livro de mesmo nome escrito por William Peter Blatty (que depois escreveu e dirigiu uma das continuações).

E ambos, livro e filme, mudaram paradigmas na ficção de horror, tanto pelo sucesso de público quanto de crítica. o filme levou dois Oscar, e foi o primeiro do gênero de horror a ser indicado para o prêmio principal, de melhor película: uma verdadeira façanha.

Para completar, a produção é cercada por mistérios. Mencionamos apenas um: durante as filmagens, oito pessoas morreram de formas ainda não muito bem explicadas.

Horror em Amityville, Stuart Rosenberg, 1979
Outro caso de livro e de filme igualmente poderosos. Publicado em 1977 por Jay Anson, Horror em Amityville tornou-se rapidamente um grande sucesso editorial — foram mais de três milhões de cópias vendidas. E dois anos depois, o livro deu origem à adaptação dirigida por Stuart Rosenberg.

O principal motivo dos arrepios é a velha frase “baseado em fatos reais”. No entanto, aqui é para valer. Anson escreveu sua história a partir dos eventos sobrenaturais vividos pela família Lutz, que, em meados de 1975, mudou-se para uma residência que logo se provou maligna. Vale lembrar também que, um ano antes, na mesma casa, ocorrera um assassinato de proporções brutais (está nos jornais da época, caso você queira pesquisar).

O iluminado, Stanley Kubrick, 1980
Mais um habitué de qualquer lista. Aqui na nossa, será o único representante das inúmeras adaptações de Stephen King (por motivos de espaço, deixaremos de fora maravilhas como Carrie, ou mesmo It). Mas um representante peso-pesadíssimo, já que tanto o livro quanto o filme estão entre os favoritos de leitores e espectadores da ficção de horror.

Muito já se falou e se fala sobre a magistral leitura realizada por Kubrick do livro (1977) — e é emblemático o fato de que o diretor praticamente ignorou o roteiro que o próprio King havia escrito. No final, o cineasta partiu da premissa literária, mas tomou algumas liberdades significativas (por exemplo, o descarte do background da família Torrance, importante para o livro; Kubrick não detalha a personalidade ou os problemas familiares de cada um deles). Ainda assim, e mesmo que afastados, filme e livro continuam poderosos.

O Enigma de Outro Mundo, John Carpenter, 1982
É bastante comum, entre aficionados, apontar a influência de H.P. Lovecraft nesta discreta obra-prima de horror e ficção científica. No entanto, o livro em que John Carpenter se baseou é de um autor menos conhecido: o norte-americano John W. Campbell, fundador da revista pulp Astounding Science Fiction and Fact.

A obra em questão é Who goes there?, ainda sem edição por aqui (e que já havia sido adaptada para o cinema em 1951, com o filme The thing from another world, de Christian Nyby). E o filme é fiel ao enredo literário: um grupo de pesquisadores isolados no Ártico descobre uma nave alienígena de milhões de anos atrás.

Liderados por Kurt Russell, os cientistas têm de enfrentar criaturas metamórficas e nada menos que medonhas. Isto graças a efeitos especiais que ainda hoje mantêm sua força.

Hellraiser, Clive Barker, 1987
Caso raro em que o autor do livro e o diretor do filme são a mesma pessoa, não poderia faltar por aqui. Embora hoje muitos considerem a “estética oitentista” um tanto carregada, é inegável o sucesso obtido pela adaptação de Clive Barker para sua própria novela The Hellbound Heart.

Ali despontava aquele que se tornaria um dos maiores vilões de telas e páginas: o sacerdote do inferno Pinhead. E, por mais pesada que talvez seja a mão de Barker, muitos fãs vibram até hoje com a carnificina perpetrada pelos Cenobitas no filme — que deu origem a nada menos do que oito continuações (até agora).

Audition, Takashi Miike, 1999
Esta não seria uma lista que se preze sem um exemplar oriental. Então, optamos por um título que consideramos tão aterrorizante quanto sádico.

Baseado em um romance homônimo de Murakami Ryu (1997), Audition é considerado até por iniciados um verdadeiro tour de force. Mas o filme engana os desavisados: a primeira metade — em que um diretor de TV, após a morte da mulher, realiza entrevistas para encontrar uma nova esposa — é pacata, lírica.

No entanto, do meio para a frente, a coisa pesa, e para valer. As sessões de tortura, bem alicerçadas pelo roteiro e por personagens verossímeis, queimam a retina. Há até quem diga que o filme de Takashi Miike, por sua força, acabou eclipsando a obra de Ryu — que passou a ser lida como um mero rascunho do roteiro.

Deixe ela entrar, Thomas Alfredson, 2008
Para concluir, uma pérola (negra) da Escandinávia. Sim, falamos da obra original, a sueca, não da versão norte-americana de alguns anos depois. O filme foi adaptado da novela vampiresca escrita por John Lindqvist, e o diretor, Tomas Alfredson, mantém a fidelidade de sua versão.

Em ambos, Oskar é um menino de 12 anos que sofre bullying na escola e se apaixona pela vizinha Eli. Ela lhe dá forças para reagir, mas guarda um terrível segredo.

O “terrível” não é força de expressão. Livro e filme carregam elementos controversos e viradas realmente arrepiantes. Além disso, as atuações de Kare Hedebrant (Oskar) e de Lina Leandersson (Eli) comovem na mesma medida em que assustam.

*Oscar Nestarez é ficcionista de horror e mestre em literatura e crítica literária. Publicou Poe e Lovecraft: um ensaio sobre o medo na literatura (2013, Livrus) e as antologias Sexorcista e outros relatos insólitos (2014, Livrus) e Horror Adentro (2016, Kazuá).

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