A capa do livro 'Ninguém nasce herói' e o autor Eric Novello - Twitter / Reprodução

A capa do livro ‘Ninguém nasce herói’ e o autor Eric Novello – Twitter / Reprodução

‘Ninguém nasce herói’ é voltado para o público jovem e já está à venda

Bolívar Torres, em O Globo

RIO — Quando Eric Novelllo começou a escrever “Ninguém nasce herói”, uma distopia para o público jovem sobre um Brasil dominado por fundamentalistas religiosos que oprimem minorias, o país vivia a flor da pele a onda de protestos de 2013 — um momento de violência, turbulência e radicalismo, que acirrou os ânimos e deixou muita gente temerosa sobre o futuro.

Quatro anos depois, o romance ganha as livrarias em um outro timing, não menos dramático. Os protestos que resultaram no cancelamento da exposição “Queer Museu”, em Porto Alegre, e a liminar de um juiz do Distrito Federal que liberou as terapias de “reversão sexual”, preocupam artistas e representantes de minorias, que alertam para censura e ataques a direitos fundamentais. Se “Ninguém nasce herói” se anunciava como uma das respostas da ficção brasileira aos protestos de 2013, ele agora também ecoa novos medos e pautas da sociedade brasileira.

DIREITOS AMEAÇADOS

— Escrever é minha forma de refletir sobre o entorno e também de responder a ele. Por mais que tentasse me concentrar em outras ideias, eu só conseguia pensar em uma coisa: e se essa situação sair do controle e um dos nossos políticos fundamentalistas descerebrados se aproveitar do vácuo de poder e conseguir ganhar as eleições? — diz o escritor, que vê o momento atual como uma culminação das marchas de junho.

— Independente de inclinação política, acho que a parte sã da sociedade sentiu então o ódio exacerbado no ar e deu um passo para trás, num retorno, mesmo que inconsciente, a um campo civilizado de ação — avalia ele. — Mas, nenhuma surpresa, dava para imaginar que essa tensão perduraria até as eleições de 2018, na melhor das hipóteses, e que não faltariam aproveitadores para continuar inflando os ânimos e extrair disso seu capital político.

No romance, o Brasil saiu dos eixos democráticos e é comandado por um líder que se autodenomina O Escolhido. O preconceito foi institucionalizado no país, e o governo totalitário persegue minorias raciais, religiosas e sexuais com o apoio de uma milícia conhecida como Guarda Branca. O protagonista é Chuvisco, um jovem de 21 anos que trabalha com tradução e tenta sobreviver como pode. Para lutar contra essa realidade, distribui livros proibidos pela Praça Roosevelt, em São Paulo. Mas Chuvisco logo se junta a um grupo de rebeldes e começa a se interessar por formas mais radicais de resistência, descobrindo em si mesmo uma vocação para super-herói, com poderes que, na verdade, estão só em sua cabeça. O que não o impede de, num ato de coragem, salvar a vida de um rapaz das garras da Guarda Branca — rapaz por quem ficará obcecado.

Ao conceber uma história para o público Young Adult — gênero que visa leitores entre 14 e 21 anos — Novello acerta em cheio na incerteza social das novas gerações, que estão, segundo o autor, com “direitos e liberdades ameaçados”.

— Pensar em entrar numa faculdade, conseguir um primeiro emprego, ter mais independência, se torna algo nebuloso — diz o autor, que está em seu quinto livro. — Por mais fácil que seja pensar na distopia como um gênero que diz que somos todos capazes de derrubar um governo autoritário, eu prefiro pensar no Young Adult de modo geral como uma ferramenta importante que estimula o diálogo e a reflexão, e assim evita que políticos autoritários cheguem ao poder e precisem ser derrubados. Não é por acaso que a atenção dos leitores de Young Adult está se voltando para uma literatura mais inclusiva, com personagens mais diversos, na qual eles se veem representados, e que mostra que não há nada de errado em ser diferente.

Também não é um acaso que o grupo de amigos criado por Novello seja diverso — inclui representantes de diferentes minorias. Do núcleo rebelde da história, Amanda é impulsiva, bissexual e viciada em doce e café; libertou-se dos padrões de beleza e não se importa em estar acima do peso. Cael é negro — e, por isso mesmo, sempre o primeiro a ser revistado pela Guarda Branca. Já Chuvisco sofre do que ele chama de “catarses criativas” e às vezes não consegue distinguir a realidade da fantasia. Ao mesmo tempo uma doença psicológica e um superpoder, sua imaginação é um elemento a mais no clima de instabilidade e paranoia geral.

Através dos personagens, o autor tenta analisar as relações de amizade em uma ditadura: como jovens fora da curva se amam, se divertem e negociam suas discordâncias quando seus direitos à diferença são suprimidos. Depois de buscar formas pacíficas de resistência, veem-se obrigados a responder à violência do Estado com mais violência. Dilema também enfrentado no Brasil da vida real?

— Por enquanto, não — acredita Novello. — Me parece que estamos em uma etapa anterior a isso, com os jovens mais esclarecidos torcendo para que se retome um caminho de racionalidade e respeito e que o país consiga escapar desse vórtice de retrocesso no qual nos colocaram. Mas eu não tenho dúvida de que são todos plenamente capazes de lutar pelos seus direitos, seja lá a forma que escolherem para fazer isso.

Não é só o público Young Adult que vem se interessando por ficções distópicas, entretanto. O gênero se beneficiou de um boom no mundo todo após a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, catapultando autores como Margaret Atwood e George Orwell às lista de mais vendidos. No turbulento Brasil não é diferente — “A revolução dos bichos”, de Orwell, vendeu 47 mil exemplares desde o início do ano, 20% a mais do que no ano passado.

— Parte disso é um reflexo da guinada conservadora em alguns países, imagino. Se eu, que sou adulto e pago as minhas contas, estou preocupado com o que está por vir, imagino como um jovem, alguém na idade em que mais pensamos sobre o futuro, vê essa falta de estabilidade — diz Novello. — Mas não dá para ignorar que houve também um fenômeno de mercado nesse “renascimento” das distopias com o sucesso da trilogia “Jogos vorazes”, da Suzanne Collins, e sua adaptação para o cinema. Toda uma geração de leitores que se identificou com a história começou a buscar livros similares para ler, fossem os clássicos modernos como “1984” e “O Conto da Aia”, ou os de autores contemporâneos como Kiera Cass e Venorica Roth. Então, sim, houve uma ida de um grupo para a distopia.

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