Por meio do projeto, Evandro leu o primeiro livro de sua vida (Foto: Gilson Melo/Freelancer)

Por meio do projeto, Evandro leu o primeiro livro de sua vida (Foto: Gilson Melo/Freelancer)

Implantado em escola carente da Zona Oeste, o “Um por todos e todos pelo livro” vem transformando as aulas e a vida de pequenos leitores

Isabelle Valois, no A Crítica

Filho de um casal de indígenas da etnia tukano, o estudante Evandro Santos, 10, aprendeu a ler ainda na alfabetização, quando tinha 6 anos de idade. No entanto, desde essa época até o mês de julho deste ano, ele nunca tinha tido a oportunidade de colocar o aprendizado em prática da forma mais simples: lendo um livro. O motivo? Muito carente, a família do pequeno não tem condições financeiras para comprar livros e permitir a ele desenvolver a prática da leitura.

Mas a realidade de Evandro mudou após o desenvolvimento do projeto piloto “Um por todos e todos pelo livro”, que foi implantado há pouco mais de três meses na escola municipal Francisca Campos Corrêa, na avenida do Cetur, bairro Tarumã, Zona Oeste, onde ele estuda. Em pouco tempo, o resultado surpreendeu os professores: Evandro se apaixonou pela leitura e concluiu a leitura de mais de 20 livros, tornando-se um exemplo para os colegas.

O garoto contou que não imaginava que poderia “viajar na imaginação” por meio das histórias, contos e fábulas dos livros. Agora que está mais íntimo das páginas, ele diz que o sonho é conhecer uma biblioteca de verdade. “Nunca entrei em uma e fico imaginando como dever ser lá dentro, cheio de livros. Durante um bom tempo meu pai esteve desempregado e por isso nunca teve condições de comprar um livro. Hoje ele se orgulha quando me vê lendo os livros que empresto da escola e os levo para ler em casa”, comentou o estudante.

O gosto pela leitura levou o jovem a vislumbrar até um futuro melhor. O sonho de estudar, se tornar policial e ajudar no sustento da família ficou bem mais próximo depois desse novo hábito, diz o jovem leitor. “Com esta prática vou adquirir novos conhecimentos, aprender novas palavras, novo vocabulário e isso tudo no futuro me ajudará quando for seguir uma profissão”, comentou.

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E não é só no futuro que a prática da leitura reflete. Antes do projeto ser implantado na escola, Evandro, que cursa o terceiro ano do ensino fundamental, tinha dificuldades para o aprendizado, mas segundo o professor de Evandro, Vilssonei Dias, após o início das leituras, ele demonstrou grandes avanços. “Evandro é só um de muitos alunos que estão tendo uma evolução significativa com esta prática da leitura. É bom vê-los interessados pelos contos e histórias, depois eles compartilham entre si e isso gera mais interesse pela leitura, além de refletir no melhor rendimento em sala”, explicou o professor.

O projeto de leitura

“Um por todos e todos pelo livro”, é um projeto idealizado pelo conselheiro municipal de cultura Jorge Ernesto Klein com apoio do Instituto Navegando e Lendo. O projeto implantou estantes nas salas de aula da escola, disponibilizando livros didáticos e de literatura infantil aos 480 alunos da escola.

No caderno de cada aluno, o professor controla as leituras por meio de uma planilha, com o nome, autor e período da leitura, para que os estudantes possam levar os livros para casa e compartilhar com familiares.

Desenvoltura dos estudantes

A implantação do projeto também contribuiu para a desenvoltura dos alunos e a perda da timidez, como contou a professora Elizabeth Aguiar. Um dos exemplos é a a aluna Ana Clara Leal Araújo, 10, que cursa o 4º ano do ensino fundamental.

Desde o início do ano, quando Ana ingressou na escola, a professora acompanha a aluna, que tinha dificuldades no aprendizado porque ainda não dominava a leitura. Mas, nos últimos três meses, com ajuda dos livros deixados nas salas de aula pelo projeto de leitura, ela teve um avanço significativo e fez, inclusive, mais amigos. “Hoje ela pede para ler para todos na sala de aula, e até opina sobre o tema lido”, disse Aguiar.

“Não tenho mais vergonha de ler na frente dos meus colegas de sala, pois tenho praticado a leitura aqui e em casa. Agora posso dizer que sei ler e não tenho mais medo de ler textos em voz alta. Era por isso que tinha vergonha e medo de conversar com meus colegas e minha professora”, comentou a estudante, que diariamente leva um livro para casa para ler.

Lei disciplina espaços

A Lei 12.244/2010 estabeleceu que as escolas providenciassem um acervo de, no mínimo, um livro para cada aluno matriculado, até o ano de 2015. Para atingir a meta, o Brasil precisa construir 64,3 mil bibliotecas em escolas públicas até 2020.

No Amazonas, a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) informou que 91,31% das escolas da rede estadual tinham biblioteca em 2015 e que as unidades inauguradas a partir desse ano já constavam com o espaço. As demais estão em processo de adaptação. A Semed não divulgou dados sobre bibliotecas nas escolas.

Segundo dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), o Amazonas possui 65 bibliotecas públicas, entre municipais e estaduais, quatro delas em Manaus.

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