Autor/ator. 'Vivemos o momento em que um novo, digamos, código de ética vai ser instalado, exigindo que todos sejam mais sábios', disse, sobre o affair Weinstein Foto: Jake Michaels/The New York Times

Autor/ator. ‘Vivemos o momento em que um novo, digamos, código de ética vai ser instalado, exigindo que todos sejam mais sábios’, disse, sobre o affair Weinstein Foto: Jake Michaels/The New York Times

Publicado no Estadão

Até Tom Hanks ficou impressionado. Mas não foi uma celebridade que despertou a admiração do vencedor de um Oscar de melhor ator. Foi um documento. No mês passado, durante uma visita VIP à coleção do Arquivo Nacional dos Estados Unidos, Hanks se aproximou da Constituição americana, exposta dentro de uma caixa de vidro. Fã apaixonado e confesso de história, ele cobriu os olhos com as mãos e recitou de cor o preâmbulo da Constituição.

Parece que a Fundação do Arquivo Nacional escolheu o destinatário certo para sua maior honra, o Prêmio Records of Achievement, concedido a indivíduos “cujo trabalho cultivou uma maior consciência nacional sobre a história e a identidade dos Estados Unidos, por meio do uso de registros originais”. Hanks foi reconhecido por seu trabalho como contador de histórias americano, tanto nas telas quanto fora delas, como cineasta, filantropo e, agora, autor.

É dele Tipos Incomuns, seleção de histórias curiosas que agora é lançada pela editora Arqueiro. São casos em que o autor lança um olhar ao mesmo tempo atento e carinhoso: o caso agitado entre dois grandes amigos, um ator medíocre que se torna uma estrela, o colunista de uma pequena cidade que revela um ponto de vista antiquado e até a história de quatro amigos que viajam à Lua em um foguete construído num fundo de quintal. Em comum, os contos têm uma máquina de escrever que desempenha um papel na trama.

Quase 250 fãs de história festejaram Hanks numa noite de sábado de outubro, com um jantar de black-tie e um debate ao vivo com o documentarista Ken Burns, também homenageado pelo Arquivo. “Devemos louvar com orgulho o excepcional serviço que nosso homenageado prestou às histórias do nosso país”, disse Burns no palco. “Em cada personagem que encarnou, em cada gesto e cada respiração, ele nos lembrou que não existem pessoas comuns.”

Hanks diz que leva muito a sério seu papel como uma espécie de professor de história dos Estados Unidos. “Você tem de ficar escolhendo a dedo os detalhes precisos e verdadeiros do modo de ser e se comportar, porque, para o bem ou para o mal, as pessoas vão olhar e dizer: ‘Ah, isso é o que realmente aconteceu naquela época’”, disse Hanks, em uma entrevista no tapete vermelho. “E, quanto mais você acerta, melhor o serviço que você presta”.

Colecionador de máquinas de escrever e descendente distante do presidente Abraham Lincoln, Hanks também é um voraz leitor de história (atualmente está lendo Homo Deus, de Yuval Noah Harari). Hanks também falou sobre sua preparação para viver o lendário editor Ben Bradlee no próximo filme de Steven Spielberg, The Papers.

Até agora, ele já devorou todos os livros, filmes e relatos que lhe passaram pelas mãos. Também teve uma conversa em particular com a viúva de Bradlee, Sally Quinn, veterana escritora do Washington Post, para saber de “outros tipos de detalhes” que não podem ser obtidos pelos papéis e vídeos.

Ao estudar um novo personagem, “você tenta destilá-lo até uma essência que você pode levar consigo todos os dias”, disse Hanks. “Ben Bradlee sabia que era o cara mais bacana do pedaço porque amava seu trabalho e sabia que tinha um grande poder de persuasão. Ele sabia que era bom em algumas coisas, mas acho que, mais do que isso, ele adorava essas coisas”.

Ele também abordou polêmicas atuais, como a troca de farpas entre o presidente Donald Trump e a deputada democrata Frederica S. Wilson, da Flórida, a respeito do tom de um telefonema de condolências para a família de um militar americano morto em combate.

“Se você me perguntar, vou dizer que me parece uma das maiores mancadas do planeta Terra”, disse Hanks. “É uma tragédia que tem grandes consequências, e vai muito além das manchetes. É muito triste.”

Quando questionado sobre as recentes acusações de abuso sexual contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein, ele disse que este é um “momento decisivo”, não apenas para as mulheres do mundo artístico, mas também para mulheres de todos os campos de trabalho. “Vivemos o momento em que um novo, digamos, código de ética vai ser instalado, exigindo que todos sejam mais sábios e comecem a prestar mais atenção e, quem sabe, até obedecer? Acho que sim”, disse Hanks.

Ele sugeriu que as pessoas recorram ao Arquivo em busca de orientação para lidar com o mundo tumultuado de hoje. “As pessoas estão aborrecidas com tudo que está acontecendo. Estão furiosas, estão frustradas, estão cansadas”, disse Hanks no palco. “Eu digo: bom, se você está preocupado com o que está acontecendo hoje, leia os livros de história e descubra o que fazer, porque está tudo lá.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Estreia

Tipos Incomuns é o primeiro livro de ficção Hanks, que já escreveu para o New York Times, a Vanity Fair e a New Yorker.

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