Cena de ‘Altered Carbon’, série nova da Netflix – Netflix / Divulgação

Laeta Kalogridis ficou conhecida em Hollywood pelos roteiros de “Ilha do medo” (2010) e “O exterminador do futuro: Gênesis” (2015)

Alessandro Giannini, em O Globo

SÃO PAULO — Roteirista de sucesso em Hollywood, Laeta Kalogridis, de 52 anos, ficou conhecida pelo trabalho em filmes como “Ilha do medo” (2010), “Alexandre” (2004) e “O exterminador do futuro: Gênesis” (2015). “Altered carbon” eleva a carreira da escritora a um novo patamar, já que ela surge também como produtora executiva da série original da Netflix. Laeta falou com exclusividade ao GLOBO sobre o que a atraiu na obra do escritor Richard K. Morgan: uma tecnologia que torna o corpo descartável.

O que mais chamou sua atenção em “Carbono alterado”, de Richard K. Morgan, quando leu os livros pela primeira vez?

Gostei da história subjacente. Da forma como uma tecnologia destrutiva pode mudar a maneira como a gente vive como seres humanos. Quando li, achei isso muito interessante e queria ver como ficava na tela.

Há muitos temas incorporados na história e um deles é a possibilidade de alcançar a imortalidade pela troca de corpos. Outras questões subjacentes dizem respeito ao gênero e etnia. Acha que conseguiu despertar interesse por esses temas?

Estava interessada na ideia do corpo se tornar descartável ou mercantilizado. Na vida contemporânea, temos como cultura tratar tudo como dispensável, inclusive o meio ambiente e o nosso planeta. Achava que podíamos levar esse conceito ainda mais além, expandindo-o à relação com os corpos nos quais vivemos. Mas no que diz respeito à mudança de gênero ou etnia acho que não, porque se trata de uma ocorrência corriqueira tanto no livro quanto na série. Não lidamos muito profundamente com essas questões.

Laeta Kalogridis, criadora de ‘Altered carbon’ – Divulgaçaõ

Como foi a colaboração com Morgan?

Falamos muito enquanto eu estava escrevendo e quando começamos a filmar. A visão dele foi o que me levou a adaptar o livro. Então, ele foi um grande parceiro na transposição da sua obra para um novo meio.

No Globo de Ouro deste ano, os principais prêmios de TV foram para histórias femininas, capitaneadas por mulheres. Acha que o momento é favorável para criadoras?

Parece-me que estamos no meio de uma grande mudança, o que é muito bom. Acho que devemos muito às mulheres que vieram antes de nós e lutaram e sofreram para serem vistas e ganhar espaço. Quanto mais diversos e variados os criadores, mais interessante e melhor a conversa vai ser. Sinto-me feliz por fazer parte desse momento. No entanto, acho que temos muito trabalho a fazer, ainda.

Conversando com parte do elenco feminino, quando vieram ao Brasil, em dezembro, elas disseram que ficaram encantadas com o desenho de seus personagens. Houve alguma mudança nesse sentido?

Sim. Estava interessada em expandir o papel que as mulheres tinham no livro. Ao dar a elas mais complexidade e mais força. Acho que conseguimos, porque as mulheres na série me parecem mais interessantes, fortes e complexas.

Que outras mudanças promoveu ao adaptar o livro?

Como os livros são narrados quase inteiramente sob a perspectiva do Kovacs, eu quis expandir isso e ver o mundo sob outros pontos de vista, também.

“Altered carbon” lembra muito alguns clássicos da ficção-científica no cinema, especialmente “Blade Runner — O caçador de androides” (1989). A comparação procede?

Acho que “Altered carbon” é, sim, tributário da procedência e do visual do primeiro “Blade Runner”, ou seja, do trabalho do escritor Phillip K. Dick e também de William Gibson, especialmente da trilogia “Sprawl” (que inclui “Neuromancer”). Aquela ideia de questionar para onde a humanidade vai, de mostrar o encontro entre Ocidente e Oriente, destacar como resultado a explosão populacional, e principalmente destacar as diferenças entre quem tem e quem não tem dinheiro.

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