Sala vazia. Falta espaço no campus universitário americano; a solução foi a de remover parte do rico acervo Foto: Michael Rubinkam/AP

 

Estudantes abandonam as estantes em favor do material de referência virtual

Michael Rubinkan, no Estadão

INDIANA, PENSILVÂNIA – Uma biblioteca sem livros? Não é bem assim, mas, como os estudantes abandonaram as estantes em favor do material de referência online, as bibliotecas universitárias estão querendo se livrar de milhões de volumes não lidos em uma limpeza de nível nacional, o que deixa profundamente perturbados alguns estudiosos amantes da palavra impressa.

As bibliotecas estão armazenando os livros, contratando revendedores ou simplesmente reciclando-os. Há um número cada vez maior de livros na nuvem, e as bibliotecas estão se unindo para garantir que cópias impressas sejam mantidas por alguém, em algum lugar. Ainda assim, isso nem sempre cai bem junto aos acadêmicos que praticamente vivem na biblioteca e argumentam que as grandes coleções, sempre disponíveis, são vitais para a pesquisa.

“Ninguém está realmente à vontade com isso”, disse Rick Lugg, diretor executivo da OCLC Sustainable Collection Services, que ajuda as bibliotecas a analisar suas coleções. “Mas, sem acesso a recursos infinitos para lidar com isso, trata-se de uma situação que precisa ser enfrentada”.

Na Universidade Indiana da Pensilvânia (IUP), as prateleiras da biblioteca transbordam com livros que recebem pouca atenção. Como uma empoeirada monografia sobre desenvolvimento econômico na Escócia vitoriana. Ou almanaques internacionais de televisão de 1978, 1985 e 1986. Um livro cujo título, Finanças Pessoais, parece relevante até que se veja a data de publicação: 1961.

Como quase metade da coleção da IUP ficou sem ser consultada durante 20 anos ou mais, então os administradores da universidade decidiram que deveria ser realizada uma grande limpeza. Usando o software do grupo de Lugg, eles apresentaram uma lista inicial de 170 mil livros que devem ser analisados para possível remoção.

Os professores que ganham a vida graças ao conteúdo das estantes manifestaram sua indignação diante do fato.

“Uma ideia incrivelmente mal concebida” e “uma facada no coração”, escreveu Charles Cashdollar, professor emérito de história, em carta ao reitor e ao pró-reitor. “Para os humanistas, jogar fora tais livros é tão devastador quanto seria para outras pessoas o bloqueio do laboratório ou do estúdio ou fechar as portas da clínica”.

Embora tal depuração sempre tenha ocorrido nas bibliotecas, os especialistas dizem que a situação está complicada. As finanças são um fator. Entre funcionários, despesas gerais e outros gastos, custa cerca de US$ 4 manter cada um dos livros na prateleira por um ano, de acordo com um estudo de 2009. Espaço é outro fator a se acrescentar. As bibliotecas simplesmente estão ficando sem espaço.

E, claro, a digitalização de livros e outros materiais impressos afetou dramaticamente a forma como os alunos pesquisam. A circulação vem diminuindo há anos.

As bibliotecas dizem que precisavam evoluir e fazer melhor uso de valiosos imóveis no campus. Estudantes ainda se reúnem na biblioteca. Mas eles a usam de maneiras diferentes. As estantes de livros estão dando lugar a salas de estudo em grupo e centros tutoriais, locais para trabalhos artesanais e cafeterias, já que as bibliotecas tentam se reinventar para a era digital.

“Somos uma espécie de sala de estar do campus”, disse a bibliotecária da Universidade Estadual do Oregon, Cheryl Middleton, presidente da Associação de Bibliotecas Universitárias e de Pesquisa. “Não somos apenas um depósito.”

É uma mudança radical. Até recentemente, o valor de uma biblioteca era medido pelo tamanho e alcance de seu acervo. Alguns acadêmicos ainda veem isso dessa maneira.

Na Universidade de Syracuse, centenas de professores e estudantes se opuseram a um plano para depositar livros num local a quatro horas de distância do campus universitário. A escola terminou construindo sua própria instalação de armazenamento para 1,2 milhões de livros, perto do campus.

Na IUP, uma universidade estadual a 96 quilômetros de Pittsburgh, a faculdade reagiu com inquietação depois que as autoridades escolares anunciaram um plano para descartar mais de um terço dos livros.

Cashdollar argumentou que a circulação é um indicador pobre do valor de um livro, uma vez que os livros são frequentemente consultados, mas isso não foi conferido. Reduzir substancialmente a coleção de livros impressos de uma biblioteca também ignora o papel do acaso na pesquisa, quando se procura um livro nas prateleiras, mas se tropeça em outro, que leva a uma nova visão ou abordagem, dizem Cashdollar e outros críticos.

“Nós vamos jogar fora quantos deles for possível para que a biblioteca continue funcionando, o que não é uma boa estratégia”, disse Alan Baumler, professor de história da IUP. “Eles dizem que querem mais áreas de estudo, mas acho difícil acreditar que não exista outro lugar para os alunos estudarem”.

O projeto da biblioteca refere-se mais à responsabilidade na administração dos recursos do estado do que a um esforço para liberar espaço, disse o diretor Timothy Moerland. Mas ele compreende a paixão de seus colegas.

“Existem alguns que jamais se sentirão à vontade com a ideia de que qualquer livro seja abandonado à sua própria sorte”, disse ele.

As bibliotecas dizem que o objetivo é tornar as suas coleções mais relevantes para os estudantes, ao mesmo tempo em que certifica que os materiais menos importantes não fiquem perdidos na história. Um grande repositório digital chamado HathiTrust tem encomendas de 50 bibliotecas para manter mais de 16 milhões de volumes impressos. Outros 6 milhões foram preservados pelo Eastern Academic Scholars ‘Trust, consórcio de 60 bibliotecas do Maine à Flórida.

Um comitê de faculdades da IUP está revisando o que Moerland chama secamente de a “lista na mira” para garantir que obras importantes permaneçam nas prateleiras. O número final de livros a serem removidos ainda não foi determinado, mas a escala potencial está facilmente à disposição. Os bibliotecários afixaram grandes adesivos vermelhos na lombada dos volumes listados.

Alguns estudantes dizem que se preocupam com a falta de prazo se tiverem que esperar por um livro que a biblioteca já não possui. Outros, como a novata de 19 anos, Dierra Rowland, dizem que estão a favor.

“Se ninguém os está lendo”, ela disse, “qual é o sentido de mantê-los?” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

NÚMEROS

170 mil livros devem ser analisados para uma possível remoção da Universidade da Pensilvânia, dividindo a opinião dos professores e alunos, sendo que os últimos dizem que não se importam, pois não são lidos

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