Ilustração de Louisa Gagliardi no livro ‘O Dorminhoco’, de H. G. Wells Foto: Carambaia

Um dos pioneiros da ficção científica, o escritor britânico tem dois livros sendo publicados no Brasil

André Cáceres, no Estadão

Em seu romance utópico Looking Backward (1888), o escritor socialista Edward Bellamy (1850-1898) narra a aventura de Julian West, que, induzido a dormir por hipnose, acorda 113 anos mais tarde para descobrir que os Estados Unidos se transformaram em um país comunista. Embora essa previsão não pudesse estar mais equivocada, o livro foi um dos primeiros a imaginar cartões de crédito, e-commerce e streaming de músicas. Entre o final do século 19 e o início do seguinte, especialmente durante o período de otimismo cientificista da Belle Époque, muitos autores especularam sobre o futuro, como o americano Jack London, o russo Alexander Bogdanov e o francês Júlio Verne. O mais bem-sucedido nessa empreitada, entretanto, talvez tenha sido o britânico H.G. Wells, que tem dois livros futuristas inéditos no Brasil, O Dorminhoco (1910) e A Guerra no Ar (1908), sendo publicados pela editora Carambaia.

O Dorminhoco é protagonizado por Graham, um sujeito que estava há seis dias insone e, enfim, cai no sono. Ou melhor, em um transe letárgico que preserva seu corpo por 203 anos. Quando ele acorda, seu dinheiro, administrado por um conselho, cresceu tanto graças aos juros compostos que o tornou literalmente dono do mundo.

Aclamado por “multidões em escala monstruosa, massas compactas de matéria humana indistinta”, Graham desperta “mais deslocado que um cavaleiro saxão que caísse sem aviso em plena Londres do século XIX”. O cenário é a capital inglesa com 33 milhões de habitantes: a moeda é outra, os costumes mudaram (“o hábito de fumar praticamente desaparecera da face da Terra”), o idioma se transformou (“um fluxo espesso no qual boiavam cadáveres de expressões em inglês, o dialeto insidioso dos tempos modernos”), a escrita mudou. Nem mesmo os números são familiares a Graham: “O senhor viveu na época do sistema decimal”, explica um criado. “Doze dúzias dá uma grosa. Na casa do milhar, com uma dúzia de grosas, temos uma duzena. E uma dúzia de duzenas perfaz uma miríade. Não é simples?”

O esquecimento de pintores, escritores e músicos em prol dos capilostomistas – uma espécie de barbeiro elevado ao patamar de artista prestigiado – reflete o ceticismo de Wells em relação à massificação cultural, talvez até uma aversão às vanguardas: não por acaso, apenas sete anos após a publicação do livro, Duchamp chacoalharia os baluartes do mundo da arte para sempre.

O livro inspirou livremente Woody Allen em sua comédia homônima de 1973, mas oferece um tom muito mais dramático. Um exemplo disso é a questão trabalhista levantada por Wells, ainda atual após mais de um século: “a mecanização da agricultura fez um engenheiro equivaler a trinta trabalhadores”, descobre Graham quando decide conhecer a vida das camadas menos favorecidas. “As cidades maiores cresceram. Atraíram os trabalhadores com a força gravitacional de oportunidades aparentemente infinitas; já os patrões viam nelas uma força de trabalho de dimensões oceânicas.” Aliada à superpopulação, a desigualdade fez com que a vida se tornasse insuportável e até a morte se tornou um escape desejável: “a eutanásia está muito além dos recursos da maioria, pois para os pobres nem a morte é tarefa fácil”.

Wells antecipa o “cinetotelefotógrafo” – tela oval e brilhante que transmite imagens de outros lugares e se assemelha a uma janela – décadas antes da primeira emissora da TV. Mas são os aviões que realmente tomam de assalto ambos os livros. Em O Dorminhoco, há uma sequência de combates aéreos escrita antes de qualquer voo registrado (a história foi publicada originalmente no semanário The Graphic entre 1898 e 1899). A Guerra no Ar explora ainda mais a questão dos “aeroplanos”, demonstrando os prejuízos para civis envolvidos em batalhas com aviões, previsão que se concretizaria durante a 1.ª Guerra Mundial, menos de uma década após o lançamento do livro.

Leitor contumaz de H.G. Wells, Jorge Luis Borges, que confessa a influência do conto The Crystal Egg em O Aleph, afirma que os livros do autor “são os primeiros que li; serão talvez os últimos (…) hão de se incorporar na memória geral da espécie, e se multiplicarão, para além dos limites da glória de quem os escreveu, para além da morte do idioma em que foram escritos”. O escritor americano Jack Williamson, cuja tese de doutorado demonstrou que Wells não tinha nada de otimista em suas previsões, nota que o britânico, “como um biólogo, sabia que nenhuma espécie sobrevive eternamente. Ele viu que a humanidade corre risco de extinção. E explora esse perigo.”

O valor de O Dorminhoco e A Guerra no Ar não está nas previsões que acertam, como o êxodo rural, abismo entre ricos e pobres, mecanização do trabalho e perigo do combate aéreo para civis. Tampouco nas que erram, como a erradicação da calvície, fim da arte e das ferrovias. As tendências que o autor identifica são muito mais interessantes por tratarem de sua época, não de séculos adiante. O autor fala de um futuro muito distante para discutir questões perenes de seu tempo e que permanecem relevantes ainda hoje. Não surpreende que, em sua palestra The Discovery of the Future, Wells defenda ser plenamente possível, com base em evidências, investigar o futuro da mesma maneira que historiadores fazem. “Sobre o passado, eu diria que estamos inclinados a superestimar nossas certezas, assim como penso que subestimamos as certezas sobre o futuro.”

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