Imagem publicada no livro ‘Bruce Dickinson, uma autobiografia’ – Divulgação

 

Na autobiografia, inglês relata ainda sua vitória na batalha contra o câncer

Bernardo Araújo, em O Globo

RIO — Nascido em uma cidade mineradora da Inglaterra em 1958, quando a TV em preto e branco era atual, Paul Bruce Dickinson — que fala de suas origens na música “Born in ‘58” — já passou por quase tudo nessa vida. Saiu de Nottinghamshire, região central do país, para dezenas de turnês mundiais com o Iron Maiden, no qual canta desde 1981 (com “férias” entre 1993 e 1999). Nesse meio tempo, mergulhou em atividades como a esgrima, a aviação e a economia criativa (que o trará a São Paulo em maio, como headliner do VTEX, um evento de varejo multicanal). Pelo jeito, os 60 anos que ele completa em agosto devem ter valido uns 360.

— Acho que tenho vivido uma vida interessante — diz o cantor por telefone, da Noruega, onde estava promovendo o livro (ele promete tentar marcar uma leitura para São Paulo, aliás). — Algumas pessoas dizem “interessante demais”, mas não concordo. Eu gosto de me manter ativo, não ficar sentado sobre a minha bunda sem fazer nada. Minha mente não para, fico tentando aprender sobre assuntos diversos, gosto de conceitos, de criar alguma coisa e mostrar às pessoas.

Ele diz que amigos e fãs cobram o livro há décadas — já escreveu outros, como “The adventures of Lord Iffy Boatrace” (1990) e “Crowley”(2009, uma ficção com o bruxo Aleister Crowley como personagem) —, mas ele não achava que o momento havia chegado.

— O livro precisava ter um fim, e eu estou vivo, aqui, tenho muito o que fazer ainda — avalia. — Depois de anos pensando nisso, achei que a minha luta contra o câncer era um bom momento para encerrar a história.

DETALHES E HUMOR NEGRO NO BOLETIM MÉDICO

Bruce foi diagnosticado em dezembro de 2014, depois de encerrar as gravações de “The book of souls” (2015), um dos mais bem-sucedidos discos da história recente do Maiden. Todo o processo de descoberta e tratamento da doença (dois tumores na região da língua e da garganta) é descrito no livro com riqueza faraônica de detalhes e muito humor negro.

— Relatei diversos detalhes pessoais, porque câncer assusta muito as pessoas — diz ele. — Se você estiver em um bar bebendo uma cerveja e disser a alguém que tem a doença, a pessoa se afasta de você. Então, a minha maneira de lidar foi essa, pesquisando tudo o que podia, para entender como funcionava, e tentando ser prático. Quanto mais detalhes você aprende, melhor sabe avaliar as chances de cura (ele foi declarado livre do câncer em maio de 2015, e dez meses depois partiu para uma turnê de um ano e meio de promoção do disco). O humor também é uma forma de lidar com isso, né? Foi o que fiz.

A ironia e o sarcasmo são frequentes nas mais de 300 páginas de “Para que serve esse botão? — Bruce Dickinson: Uma autobiografia” (Intrínseca), em que o músico, se não deixa de reconhecer suas qualidades, não tenta posar de herói o tempo todo, lembrando do quanto apanhou na escola (uma tradição universal), o que o levou a praticar esportes como o rúgbi e a esgrima. Depois de treinar com campeões de várias nacionalidades, ele tem uma coleção de troféus e dúzias de histórias para contar, como das vezes em que aproveitou folgas em meio a turnês para fugir e esgrimir pela Europa.

— Acho que minha memória é bem razoável — diz. — Costumo me lembrar das coisas de forma muito visual. Não sou muito bom com nomes e datas, tenho que pesquisar. Mas quando tento recordar uma história, uso o YouTube da minha cabeça para colocar em palavras e escrever. Aí, faço comentários, piadinhas. Sou um cara sério, mas sei rir de mim mesmo.

Depois de cantar em pequenas bandas — tendo Ian Gillan, vocalista do Deep Purple, como maior ídolo —, Bruce acabou no Samson, grupo de boa repercussão na Europa no fim dos anos 1970 e início dos 1980. Um dia, quando estava para prestar os exames finais na universidade (onde estudava História e Inglês), foi abordado pelos integrantes da banda, liderados pelo guitarrista Paul Samson, com o convite (o quarteto contava também com o baterista Thunderstick, que tocava com uma máscara de couro no estilo sadomasô e instalava sua bateria no interior de uma jaula). Em dois anos, gravou os três primeiros discos da banda, até ser convidado, após um encontro em um festival, a integrar o ascendente Iron Maiden, e o resto é história. O disco traz detalhes dos 37 anos, milhões de discos e diversas voltas ao mundo, inclusive com ele mesmo ao manche. O interesse pela aviação (do qual os fãs começaram a desconfiar com “Flight of Icarus”, sucesso do disco “Piece of mind”, de 1983) e a dedicação a cursos de pilotagem compõem umas das facetas mais interessantes do livro — e possivelmente a mais apaixonada.

Depois de tantos anos e territórios conquistados, será que o Iron Maiden pensa em seguir o caminho de outras bandas de sua geração, como Judas Priest e Scorpions?

— Não! — exclama Bruce, com uma risada maligna. — Nunca vamos nos aposentar. Jamais faremos uma turnê de despedida. Ou você viaja por aí tocando como se a sua vida dependesse disso, ou é melhor nem sair de casa.

NOVA TURNÊ COMEÇA EM MAIO, NA ESTÔNIA

Ele diz não se arrepender de ter deixado a banda, em 1993, ou de ter voltado, em 1999.

— Acho que vejo isso de forma bem realista — afirma. — Eu poderia ter continuado como artista solo. Não teria a menor chance de ser tão grande quanto o Maiden, não chegaria a 20%, mas tudo bem. Aliás, estou indo encontrar (o produtor) Roy Z para começarmos a compor para o meu próximo disco solo. O último foi “Tyranny of souls”, em 2005, tem muito tempo, né? Acho que vamos nos divertir, mas o Maiden é a prioridade, sempre.

O gigante se prepara para a turnê “Legacy of the Beast”, que destacará sucessos de décadas passadas, com uma produção visual que remeterá às capas de discos antigos.

— Vai ser espetacular! — empolga-se Bruce sobre a excursão que começa no dia 26 de maio, em Tálin, na Estônia. — Temos ideias muito loucas, até porque será difícil superar o sucesso de “Book of souls”.

Como sempre, em breve (possivelmente 2019), Bruce pedirá autorização para aterrissar o Voo 666 no Brasil. As memórias do país estão por todo o livro, desde o Rock in Rio de 1985, com uma confirmação histórica: ele de fato abriu um corte na testa ao cantar “Revelations” naquele 11 de janeiro. O sangue não era cenográfico (relembre no vídeo acima, a partir dos 2m).

— Rod (Smallwood, empresário) me pediu para espremer o corte e provocar mais sangramento, porque “ficava ótimo na TV” — lembra ele, sempre consciente de seu business.

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