Philip Roth era um dos maiores escritores norte-americanos da segunda metade do século XX | Reuters

O escritor morreu de insuficiência cardíaca na terça-feira, aos 85 anos. Foi um dos principais autores da literatura norte-americana da segunda metade do século XX.

Publicado na RTP

Natural de Newark, Nova Jersey, a 19 de março de 1933, o premiado romancista era considerado um dos maiores escritores da atualidade. Candidato eterno ao Nobel da Literatura, foi autor de mais três dezenas de obras.

Roth tinha anunciado a decisão de deixar de escrever aos 78 anos, em 2012, após a publicação da obra Nemesis, em 2010. Desde então dedicou-se a ler a sua obra publicada, no sentido de avaliar se “tinha desperdiçado” o seu tempo na literatura. Em entrevista à New York Times Book Review, em 2014, concluiu: “Fiz o melhor que consegui com o que tinha”.

Durante a juventude foi um grande entusiasta do desporto, em particular do basebol. A literatura chegou mais tarde, aos 18 anos. Formou-se em Estudos Ingleses pela Universidade de Bucknell, e concluiu um mestrado na mesma área na Universidade de Chicago. Em 1957 e chegou a iniciar uma tese de doutoramento, mas abandonou o projeto pouco tempo depois, decidindo dedicar-se à escrita.

A primeira obra surge logo em 1959. Goodbye, Columbus foi aclamada pela crítica e recebeu o prêmio National Book Award, tendo sido também adaptada para o cinema pelo realizador Larry Peece.

Durante a longa carreira, entre várias distinções, Philip Roth foi premiado com dois National Book Awards, dois National Book Critics Circle e, em 1998, com o Pulitzer a partir da ficção American Pastoral. (“Pastoral Americana), um dos seus livros mais aclamados.

Roth foi ainda galardoado com o Prêmio Internacional Man Booker, atribuído no Reino Unido em 2011 e, um ano depois, venceu o Prêmio Príncipe das Astúrias de Literatura, o principal prêmio literário em Espanha. Também nesse ano, o autor recebe a Medalha Nacional das Humanidades, atribuída pelo ex-presidente norte-americano Barack Obama.

Antes, em 2002, tinha recebido a Medalha Nacional de Artes da Casa Branca, atribuído pela Academia de Artes e Letras, e ainda a medalha de Ouro da Ficção, atribuída anteriormente a lendas da literatura como William Faulkner ou Saul Bellow, entre outros. Escreveu livros que marcam a literatura contemporânea, tais como Operação Shylock (1994), A Mancha Humana, (2001) ou Everyman (2007).

Já o livro O Complexo de Portnoy conheceu grande impacto junto do grande público em 1969, muito por culpa das cruas descrições sexuais e da abordagem à vivência judaica. A obra foi mesmo banida da Austrália, mas vendeu milhões de cópias no resto do mundo.

Ainda que vários livros explorassem a realidade judaica nos Estados Unidos, Philip Roth identificava-se como ateu. “Não é uma questão que me interesse. Eu sei o que é ser judeu e para mim não é interessante. Sou americano” disse ao jornal The Guardian em 2005.

Livros que “mordem e picam”

No romance O Escritor Fantasma, Philiph Roth lembrou um dos seus heróis literários, Franz Kafka: “Só devemos ler aqueles livros que nos mordem e nos picam”.

Foi sucessivamente atacado por feministas, judeus e uma das ex-mulheres, por vezes pessoalmente. Nos romances que escreveu, as mulheres eram descritas como objetos de desejo e raiva, tendo mesmo sido acusado de misoginia.

A relação com a comunidade judaica foi também turbulenta. Uma das críticas que recebeu após o lançamento de “O Complexo e Portnoy” referia que aquele era o livro “pelo qual todos os antissemitas estavam a rezar”.

Phiplip Roth sobreviveu no final dos anos 60 a uma apendicite e a uma depressão quase suicida em 1987. Revisitou esse tempo em Os Fatos, Pastoral Americana, entre ouros trabalhos.

Numa entrevista à revista The New Yorker em 2000, o escritor antecipava o “fim da era literária”. “A evidência está na cultura, a evidência está na sociedade, a evidência está na tela, na progressão para a tela de cinema, para a tela da televisão, para a tela do computador”, referia.

Philip Roth considerava, na mesma entrevista, que a literatura “precisa um hábito mental que desapareceu”

“Requer silêncio, alguma forma de isolamento e concentração constante, na presença de algo que é enigmático. É difícil lidar com um romance maduro e inteligente”, considerava ainda o autor.

Em O Teatro de Sabbath, publicado em 1995, o escritor imaginou a inscrição que teria a sua lápide: “Sodomita, Abusador de Mulheres, Destruidor de Caracteres”.

Numa entrevista ao New York Times no início do ano, Philip Roth descreveu a sua experiência de mais de 50 anos de escrita: “Exultação e gemidos. Frustração e liberdade. Inspiração e incerteza. Abundância e vazio. Ardente e confusa”.

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