“Revelações” é baseado em “A Marca Humana” e tem Anthony Hopkins no papel do professor acusado de racismo Ver Descrição / Ver Descrição

Cinema não conseguiu fazer adaptações à altura do escritor, criador de uma prosa que impõe dificuldades à narrativa audiovisual

Marcelo Perrone, no Gaucha ZH

Gigante na literatura, Philip Roth não conseguiu ganhar em vida uma adaptação no cinema a sua altura. Algumas de suas principais obras foram levadas às telas, a partir do obscuro drama de guerra Battle of Blood Island (1960), de Joel Rapp, inspirado no conto Expect the Vandals, publicado na revista Esquire, sobre dois marines americanos que sobrevivem a um confronto com os japoneses e se veem isolados em uma ilha do Pacífico. Também em 1960, Roth chegou à TV com um episódio da série Alfred Hitchcock Presents inspirado em seu texto The Contest for Aaron Gold. Teve ainda adaptados, na série Quest, seus dois primeiros textos de ficção: Goodbye, Columbus and Five Short Stories e Letting Go.

Goodbye, Columbus chegou ao cinema em 1969, no filme de Larry Peerce que no Brasil ganhou título de Paixão de Primavera — foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado. No elenco, Ali MacGraw e Richard Benjamin, ator que viveu depois o personagem título de O Complexo de Portnoy(1972), dirigido por Ernest Lehman.

Verter para a linguagem audiovisual a prosa em que Roth embaralha sexo, judaísmo, decrepitude física e crônica de costumes, em meio a digressões temporais e vozes interiores de seus personagens, é tarefa espinhosa. Daí vem a decepção. Após uma nova adaptação na TV (The Ghost Writer, na série oitentista American Playhouse), o autor chegaria novamente ao cinema somente em 2003, com Revelações, chocha transposição de A Marca Humana estrelada por Anthony Hopkins e Nicole Kidman, sobre professor acusado de racismo que esconde um nebuloso segredo sobre suas origens.

A dissonância da potência entre o material escrito e o filmado acaba sempre amortecendo o resultado das adaptações de Roth para o cinema, por mais qualificados que sejam os nomes nelas envolvidos. Também bateu na trave Fatal (2008), de Isabel Coixet, com Ben Kingsley vivendo o professor e intelectual sessentão que exercita seu poder de sedução sobre jovens alunas, até se ver desconcertado por uma delas, personagem de Penélope Cruz.

Duas tentativas seguintes tiveram melhores resultados: O Último Ato (2014), de Barry Levinson, com Al Pacino na pele do protagonista de A Humilhação, um ator decadente e deprimido que envolve-se romanticamente com a filha lésbica de amigos (Greta Gerwig). E Indignação (2016), de James Schamus, acompanha, nos anos 1950, um rapaz judeu que ingressa na universidade e encontra um ambiente de repressão sexual e antissemitismo.

A frustrações dos fãs de Roth com as adaptações de sua obra deixaram em banho-maria a expectativa por Pastoral Americana (2016), dirigida e estralada por Ewan McGregor. Foi melhor não esperar muito. Sem querer arriscar, o filme sucumbiu ao excesso de reverência à matriz literária, que acompanha por anos o desmoronamento de uma família símbolo do sonho americano.

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