Barbara Olivi é criadora do Garagem das Letras Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Bruno Alfano, no Extra

Bárbara Olivi, de 57 anos, estava meio jururu no fim da última semana. Eram 11h e, naquele momento, a italiana retratava bem o astral da Rocinha, favela onde mora há 17 anos e que está em guerra desde setembro de 2017. Ela era a cara do desânimo. Mas não passou nem uma hora, e uma criança entrou no Garagem das Letras, um misto de biblioteca comunitária e cafeteria numa das ladeiras da comunidade que Bárbara abriu há três anos. E não foi só aquele menininho. Outros tantos mais passaram por ali, vindos da aula na Escola municipal Francisco de Paula Brito, que fica ali pertinho. Já era outro o semblante da italiana, personagem de hoje da série “Extraordinários” — que, para comemorar as duas décadas de vida do jornal EXTRA, conta a história de vida de pessoas que mudam a vida de outras.

— Todo dia é um desafio. Todo dia você não sabe o que vai acontecer — diz Bárbara: — Mas essas crianças entram aqui e dizem: “Tia, cadê meu abraço?”. Isso é o que me deixa bem para continuar lutando.

O bem que as crianças fazem para Bárbara é fruto de muito trabalho da italiana com projetos sociais na comunidade. A gringa, como já foi muito chamada pelos moradores locais, chegou ao Brasil em 1998 para morar na casa de uma amiga na Gávea e ficou encantada pelas luzes da Rocinha. Um porteiro do prédio em que ela vivia soube do desejo da italiana e a convidou para almoçar na casa dele, na comunidade. Lá ela conheceu Célia, sua amiga até hoje. Três anos depois, alugou uma casinha na favela.

— Eu achei a Gávea tranquila demais, quieta demais. Sou italiana. Preciso de movimento ao redor de mim. Eu vim para cá para ficar mais perto das crianças. Eu trabalhava como guia turística e fiquei apaixonada por eles. Ou seja, vim por puro egoísmo para receber o abraço deles — conta, invertendo um pouco a lógica dos fatos.

Assim, naturalmente surgiu a vontade de ter um espaço para, sistematicamente, oferecer algo a essas crianças de abraços quase terapêuticos para Bárbara. O Garagem das Letras nasceu em 2015. O local, cheio de livros e brinquedos, recebe eventos gratuitos, como saraus, oficinas, aulas de idiomas e exibições de filmes. Também funciona como uma cafeteria.

Crianças frequentam espaço como segunda casa Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

— Não é preciso muito, nem dinheiro. E preciso tempo. É preciso um ombro e ouvido para as crianças falarem o que elas querem falar — explica a moradora da Rocinha. — Quem quiser (fazer evento no espaço) é só organizar. Não é preciso pagar nada.

Em várias frentes

O Garagem das Letras não é o único projeto que Bárbara coordena na Rocinha. Ela também administra uma escola de maternal comunitária e o Casa Jovem, um espaço que, segundo ela, “sempre tem lanche e pessoas para dar um abraço”. Lá também há diferentes tipos de cursos. Um terceiro trabalho, esse mais recente, é o Projeto Aldeia, que é de terapia de emergências.

— Toda a nossa equipe participou de um curso de terapia de emergência na Cruz Vermelha. Essa instabilidade da insegurança pública deixa nossas crianças traumatizadas. A gente monta atividades para que isso venha à tona e seja trabalhado — conta Bárbara, que segue como guia de turismo na comunidade.

O fascínio da moça pela favela é, como ela diz, “ancestral”. Bárbara é filha de um engenheiro que trabalhava na companhia de petróleo italiana, e ela passou a infância morando em diferentes locais do planeta, como Congo e Egito. Na Nigéria, aos 14 anos, saía dos portões do condomínio para brincar com meninas locais.

Barbara é italiana Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

— Eu ia para conhecer o que estava ao meu redor. Eu queria saber desde então como eles brincavam, como dormiam, o que falavam, o que comiam… Eu me lembro até hoje da brincadeira delas — diz.

‘O livro pode virar o seu melhor amigo’

O meu sonho para o Garagem das Letras é que ele se torne autoadministrado. Ou seja, um lugar público, que não tenha dono, mas que tenha uma organização feita por jovens da Rocinha de acordo com suas próprias necessidades. A leitura é umas verdadeira paixão. O livro pode virar seu melhor amigo. Quantos sonhos você aprende num livro? Quantas viagens você faz? Quantos choros numa história de amor? É isso que a gente tenta transmitir para as nossas crianças.

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