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Publicado no Gaucha ZH [via The New York Times]

Os livros salvaram a minha vida. A frase parece absurda, mas tenho certeza de ser tão verdadeira quanto todas as outras coisas que não posso provar.

Em meados de 2005, depois de encerrada a minha participação no fiasco que foi a guerra do Iraque, peguei o soldo que ficou acumulado durante tanto tempo e paguei adiantado o aluguel de um ano de um pequeno apartamento de frente para o Museu de Belas Artes de Virgínia, em Richmond. Na época, vivia sem objetivo definido – e embora soe meio como um mantra de autoajuda, o fato é que eu me sentia à deriva, e pouco interessado tanto em velejar como em voltar para a costa. Minhas necessidades eram poucas e simples: porta trancada, persianas abaixadas, e uma loja de conveniência a duas quadras vendendo cerveja gelada o dia inteiro.

Sem dúvida, a guerra era uma das coisas das quais eu queria me apartar, mas o fato de o mundo inteiro também ficar do lado de lá da porta me parecia um golpe da mais pura sorte. Não sei se minha angústia era resultado da química cerebral, de alguma má-formação genética, do que vira no Iraque ou das minhas próprias atitudes, mas parecia verdadeira a ponto de eu me dispor a fazer qualquer coisa para fazê-la desaparecer.

E nesse aspecto até que tive sucesso, pelo menos por um tempo. Os efeitos colaterais da “automedicação” com uma caixa de Milwaukee’s Best todos os dias eram desagradáveis, mas se o objetivo era não sentir absolutamente nada, a eficácia da dose era imbatível. Eu já vinha bebendo em excesso com alguma regularidade desde os 14 anos. Em 2005, passei quase seis meses bêbado. O único contato humano que tinha eram as poucas palavras que trocava com a moça do caixa enquanto ela cobrava as duas caixas de cerveja, dois cachorros-quentes extragrandes e dois maços de cigarro. Essa era a minha vida – até que comecei a duvidar que merecesse ser chamada assim.

O grande problema com que me deparei foi que tanto minha mente quanto meu coração resistiam às minhas tentativas de afogá-los; uma solução temporária que tornasse possível a existência, ainda que superficialmente, já não bastava. Passei a achar que o que parecia ser um problema permanente pedia uma solução à altura.

Durante os meses seguintes, a mente flutuando em uma piscina de cerveja barata, um pouco abaixo do nível da semiconsciência havia sempre o mesmo pensamento: e se eu não acordar dessa vez? Duvido que seja preciso explicar o tipo de desespero que torna uma ideia dessa uma fonte de alento – não o que advém da aceitação de que a situação não tinha como piorar, mas o de que as coisas ficassem como estavam para sempre. O próximo passo me pareceu lógico e inevitável.

No entanto, estou aqui, escrevendo este artigo, quase treze anos depois, apesar do fato de, na semiescuridão daquele apartamento de Richmond, eu não querer ser, não querer existir, com uma intensidade que poucas vezes na vida depois de lá senti.

Comecei dizendo que os livros salvaram a minha vida e, embora saiba que isso seja verdade, não sei bem como conseguiram tal façanha. Se eu soubesse qual a variável responsável por eliminar o suicídio da minha lista de opções, certamente dedicaria minha vida a disseminá-la – mas infelizmente não tenho esse conhecimento, só correlação e especulação.

Conforme ia me afundando mais e mais no meu estupor de eremita, minhas tentativas de leitura foram se tornando ridículas, geralmente resultando no livro torto, na diagonal, seguro por uma mão trêmula, examinado por um olho semicerrado e o outro fechado – até que eventualmente incluí o exercício na lista das muitas outras atividades que um dia me diferenciaram dos outros animais e que já não conseguia mais desempenhar. Um dia, porém, por alguma razão desconhecida, peguei “Poemas Reunidos de Dylan Thomas” e descobri que os seguintes versos me deram um momento de enlevo, na falta de descrição melhor: “Esses poemas, com todas as suas grosserias, dúvidas e confusões, são escritos por amor ao Homem e em honra a Deus, e eu seria um tolo rematado se não fossem”.

Vocês podem achar que ao usar a palavra “enlevo” e a inclusão de uma citação que menciona Deus, estou dizendo que algo milagroso aconteceu ou tentando forçar uma resposta religiosa à dificuldade universal de ser uma pessoa; não. O que me tocou foi a referência a “grosserias, dúvidas e confusões”, pois nada chegou tão perto da descrição do que minha vida se tornou do que essas três palavras. Acho, aliás, que eu era a personificação delas.

Pela primeira vez em muito tempo eu me reconheci no outro, e, de alguma forma, essa ligação frágil permitiu que eu me afastasse de uma das crenças mais terríveis associadas a esse tipo de problema que estou descrevendo: a de que se está absolutamente só, como ninguém mais, e que essa é uma situação permanente.

Eu queria poder dizer que, nesse momento, levantei da cama e saí andando, mas não foi o que aconteceu. Precisei da ajuda de outros seres humanos por um bom tempo antes de melhorar – e me manter nessa condição exige diligência e atenção até hoje.

De qualquer maneira, nos meses seguintes, a conexão com o mundo além da minha mente se fortaleceu com outros livros até eu perceber que toda a gama da experiência humana, incluindo o sofrimento e a dor, quando testemunhada ou compartilhada, pode ser transformada em um tipo de reverência transcendental. Por mais estranho que pareça, o mesmo impulso que me levou à autodestruição – o desejo de me “apagar” – ainda estava ativo na minha vida. O que mudou foi que comecei a ver a imersão nos livros como uma alternativa confiável à bebida ou à morte.

Às vezes, ouço a arte ser descrita como qualquer coisa criada sem uma utilidade definida, mas minha experiência me diz o contrário. Descobri que os livros são úteis na minha vida de maneiras profundas e incomparáveis, pois me ajudaram a não desistir dela.

(Kevin Powers, veterano da guerra do Iraque, é autor de “A Shout in the Ruins” e “The Yellow Birds”.)

Por Kevin Powers

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