Monte Roraima, platô que inspirou Sir Arthir Conan Doyle a fazer a terra de Maple White em ‘O Mundo Perdido’ Foto: Paulo Liebert/Estadão

‘O Mundo Perdido’, recentemente lançado pela Todavia, imagina dinossauros na Amazônia

André Cáceres, no Estadão

Basta uma pesquisa rápida para um internauta desvelar todo o planeta diante de seus olhos. Com exceção de algumas bases militares, toda a Terra repousa a poucos cliques de distância com ferramentas como o Google Earth. Mas nem sempre foi assim. Desde as grandes navegações, no século 15, às aventuras do capitão James Cook (1728-1779), o mundo estava repleto de lugares desconhecidos. A expressão em latim “terra incognita” era usada pelos cartógrafos antigos para descrever locais ainda por explorar. No fim do século 19, tudo estava praticamente mapeado, mas a busca por novas regiões deu origem a todo um filão literário que vem sendo resgatado para os leitores brasileiros.

Em um dos principais livros dessa leva, O Mundo Perdido, de Sir Arthur Conan Doyle, publicado pela Todavia, o jornalista Edward Malone, do Daily Gazette, acompanha uma jornada ao coração da Amazônia em busca de um platô que abrigaria dinossauros vivos, segundo o zoólogo desacreditado George Challenger. O Zeitgeist da época é expresso por McArdle, editor de Malone que o envia na aventura: “Os grandes espaços em branco do mapa estão todos sendo preenchidos, e não há mais lugar para o romance em parte alguma.” Ou, como Alberto Manguel e Gianni Guadalupi constatam no prefácio à edição lusa do Dicionário de Lugares Imaginários: “Tornamos impossível zarpar rumo ao desconhecido, a não ser sob vigilância humana (…) Mas ainda havia a cartografia da imaginação. A nossa geografia imaginária é infinitamente mais vasta do que a do mundo material.”

No livro de Conan Doyle, Challenger alega ter visto esses dinossauros brasileiros, mas não conseguiu trazer provas de sua existência. A elevação, batizada Terra de Maple White e inspirada no Monte Roraima, teria ficado isolada por milhões de anos, mantendo o equilíbrio ecológico dos períodos jurássico e mesozoico, e evitando a extinção dos dinossauros. No entanto, seus pares cientistas consideram as alegações absurdas “como um shakespeariano confrontado por um baconiano, ou um astrônomo atacado pelos fanáticos da terra plana”.

As imprecisões sobre o Brasil, sua geografia e idioma não mancham a obra, mas algumas idiossincrasias saltam aos olhos do leitor contemporâneo, embora Conan Doyle pudesse ser considerado esclarecido para a época. Como de praxe nas histórias desse tipo, os exploradores são todos homens brancos que usam criados negros e/ou indígenas (no caso, ambos), e as raras personagens femininas existem apenas como interesses amorosos – Malone pede ao seu editor que o envie em uma aventura porque quer conquistar a bela Gladys, cujo nome ele dá à lagoa central de Maple White.

Conan Doyle baseou seus relatos fantásticos em acontecimentos pretensamente reais. No dia 11 de janeiro de 1911, o New York Herald publicou uma matéria sobre feras pré-históricas que supostamente habitariam a floresta amazônica. Durante a chamada Guerra dos Ossos (1872-1892), movida pela rivalidade entre os paleontologistas Othniel Charles Marsh e Edward Drinker Cope, o interesse do público por dinossauros cresceu e as descobertas de fósseis se tornaram mais frequentes. Não é estranho, portanto, que Doyle, já consagrado pelos romances policiais de Sherlock Holmes, quisesse explorar esses mistérios em O Mundo Perdido, publicado originalmente em 1912.

Já existiam criaturas pré-históricas em romances e contos de Jack London, Ambrose Bierce, Frank Mackenzie Savile e H.G. Wells, como Samir Machado de Machado nota no prefácio da obra. Mas as descrições vívidas que Doyle faz dos dinossauros inspiraram fortemente Edgar Rice Burroughs, em At the Earth’s Core (1914); Érico Verissimo, na sua Viagem à Aurora do Mundo (1939); e Michael Crichton, em Jurassic Park (1990, recentemente reeditado pela Aleph).

À época, Doyle teve contato com o Manuscrito 512. Esse documento de 1754 descrevia uma cidade perdida na Amazônia e atiçou a curiosidade de exploradores britânicos como Sir Richard Francis Burton (1821-1890) e Percy Fawcett (1867-1925), com quem o escritor se correspondeu e que morreu desaparecido tentando encontrar uma civilização misteriosa no Mato Grosso. Esse manuscrito brasileiro pode ter influenciado As Minas do Rei Salomão (1886), de Sir Henry Rider Haggard, publicado recentemente pela Via Leitura.

Tido como um dos fundadores dessa literatura de exploração, a obra relata uma jornada ao interior da África pelos olhos do caçador de elefantes Allan Quatermain, que auxilia um nobre a encontrar seu irmão perdido nas terras de Kukuanalândia, para além de um deserto quase intransponível, onde o lendário rei Salomão (1050-931 a.C) havia encontrado diamantes. Foi Haggard quem inspirou o tom impressionista, com relatos em primeira pessoa, descrições de paisagens exuberantes e forma epistolar dos livros desse gênero.

As “viagens extraordinárias” de Júlio Verne à Lua, ao fundo do mar, ou ao redor do planeta também seguem nessa tradição, e vêm sendo reeditadas com frequência no Brasil. Somente em 2018, a Nova Fronteira publicou um box com três aventuras condensadas do autor francês; a Via Leitura lançou recentemente Cinco Dias em um Balão, em que, a exemplo de Haggard, Verne narra uma viagem à África (mas, diferente do autor britânico, ele nunca pôs os pés no berço da humanidade); e a Zahar publicou sua Viagem ao Centro da Terra, obra de 1864 em que Verne imagina seres pré-históricos sendo descobertos por exploradores no núcleo oco do mundo, inspiração para Burroughs.

“É muito antiga a necessidade de inventar países e depois dizer como o autor os encontrou”, relembram Manguel e Guadalupi. “Escrita em meados do terceiro milênio a. C., a Epopeia de Gilgamesh (ou pelo menos a sua segunda metade) é a crônica da viagem de um rei ao Reino dos Mortos. A Odisseia, composta no século 8 a. C., é o relato de uma corrida de obstáculos que alcança, decorridos muitos anos, a meta ansiada.” Essas e outras terras fictícias que povoam o imaginário da literatura, afirmam eles, não são produto de mero escapismo. “Atlântida, a Ilha Misteriosa, a comunidade distante de Utopia e a Cidade das Esmeraldas de Oz são lugares que visitamos em pensamento mas não na realidade, embora sejam necessários para aquilo a que chamamos a condição humana.”

Hoje esse resgate dos clássicos da literatura de exploração demonstra que essas obras ganharam relevância com o tempo. Pode não haver mais uma “terra incognita” para se desbravar, mas, no século 21, com ilhas sendo devoradas pelo aumento do nível dos oceanos, geleiras desaparecendo, traçados litorâneos modificadas pelo avanço das águas e florestas inteiras sendo desmatadas, até os mapas mais perfeitos serão obsoletos sem um pouco de imaginação.

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