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Que destino terão os 4 mil livros de Joaquim Barbosa em Brasília

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Felipe Patury, na Época

BIBLIOTECA Onde Joaquim Barbosa porá os quatro mil livros que tem apenas em Brasília (Foto: Alan Marques/Folhapress)

BIBLIOTECA Onde Joaquim Barbosa porá os quatro mil livros que tem apenas em Brasília (Foto: Alan Marques/Folhapress)

O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa acumulava quase quatro mil livros no seu gabinete na corte. Depois que se aposentou, pediu aos antigos funcionários que catalogassem todos, os encaixotassem e mandassem para seu apartamento em Brasília. Não é problema acomodar no imóvel de 600 metros quadrados sua biblioteca brasiliense – ele tem outra no Rio. O problema é que se trata de um apartamento funcional e Barbosa quer devolvê-lo ao Erário tão logo volte de suas férias. Seus amigos estão de olho num apartamento ou casa capaz de comportar tudo, quando ele recomeçar sua vida como parecerista e palestrante. Já tem, aliás, seis conferências na agenda.

As bibliotecas perdidas do deserto

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No final de uma dura e poeirenta estrada no deserto do Saara, encontramos uma cidade praticamente engolida pelas areias do deserto, estamos em Chinguetti na Mauritânia, África Ocidental. A maioria das casas já se encontram abandonadas e à mercê dos poderosos elementos, entre eles o vento que sopra quente arrastando consigo milhares de milhões de pequenos grãos de areia. Mas é também aqui que se encontram algumas das mais antigas bibliotecas e livros do mundo.

Vasco Neves, no Obvius

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Calcula-se que o deserto do Saara avance para sul a uma velocidade média de 30 milhas por ano (mais ou menos 50 quilómetros). Caso não exista uma intervenção humana constante, é possível que fique enterrada na areia em pouco mais de duas gerações. Mas Chinguetti é mais do que uma cidade semi abandonada no meio do deserto, pois aqui estão bibliotecas com alguns dos mais raros livros do planeta. Em tempos idos, levados na memória do vento, Chinguetti foi uma próspera metrópole medieval que chegou a ter no seu auge cerca de 20.000 habitantes. Era a casa de um dos mais importantes centros de estudos multidisciplinares, onde eram estudadas matérias de direito, matemática, ciências, religião, medicina, e astronomia. Na Europa vivia-se uma era negra e obscura, conhecida como Idade das Trevas, que castrava quem tivesse vontade de beber conhecimento e onde imperava a lei da religião acima de todas as outras, mas aqui, neste canto da África Ocidental, encontravam-se os mais variados pensadores, estudiosos e religiosos.

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Não era ao acaso que isto sucedia, pois ficava numa das antigas rotas de peregrinos a caminho de Meca. Os peregrinos islâmicos paravam aqui para descansar e retemperar energias, mas também para discutir, trocar ideias e mercadorias. Durante algum tempo chegou a ganhar estatuto de local santo do Islão, e por mérito próprio ficou conhecida como a “Cidade das Bibliotecas”.

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Hoje, infelizmente pouco resta desses esplendorosos tempos, sendo pouco mais do que um conjunto de ruas semi desertas com pequenos casebres de barro. Mas são estes casebres de barro, que têm como missão guardar os cerca de 6 mil livros antigos, grande parte deles em condições impressionantes de conservação tendo em conta a dureza dos elementos. Mas estes não são livros comuns, a maioria deles é século do IX (9).

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Parece incrível, mas até à pouco mais de 60 anos, nos anos 50 do séc XX, existiam em Chinguetti mais de 30 bibliotecas familiares. Mais uma vez a dureza dos elementos, principalmente as secas rigorosas, fizeram com que famílias inteiras procurassem outras paragens, muitos procurando cidades com mais condições de habitabilidade e abandonando a vida do deserto, mas ao partirem levaram também os seus livros (muitos deles passados ​​de geração em geração).

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Actualmente restam menos de 10 bibliotecas nesta velha cidade, estas ainda se vão mantendo graças a alguns estudiosos e turistas que as visitam e deixam uma (preciosa) ajuda monetária para a conservação dos livros. Os livros não saem de Chinguetti nem para serem restaurados (salvo raras excepções).

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De entre estes manuscritos, encontram-se alguns dos mais importantes e antigos escritos islâmicos, com tratados sobre religião, literatura ou ciências. Os livros foram escritos em pele de gazela e encontram-se protegidos por capas de pele de cabra.

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A mais importante e rica destas bibliotecas é considerada das mais antigas de todo o Islão, e pertence à família de Mohammed Habbot. São cerca de 1.600 livros, e mesmo tendo uma localização inusitada, a esta biblioteca não faltam armários de ferro onde estão alojados os livros, assim como várias secretárias de leitura.

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O restante das outras bibliotecas que ainda existem em Chinguetti, nada mais são do que cápsulas do tempo da idade média, muitas mantendo-se da mesma forma como foram inicialmente construídas. Muitos destes livros encontram-se em prateleiras abertas e vulneráveis ​​aos duros elementos do deserto. Infelizmente as mudanças climatéricas não estão apenas a afectar o armazenamento dos livros, sazonalmente aparecem cheias seguidas de épocas longas de seca e erosão severa, provocando o aumento da desertificação ambiental (mas também humana), que trazem consigo tempestades de areia mais frequentes e severas.

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Uma das soluções para prevenir a deterioração destes livros, ​​seria limitar o seu contacto com a luz e poeira, mas os moradores que ainda vivem em Chinguetti, têm no turismo uma das suas únicas fontes de rendimento. A subsistência humana está acima da preservação cultural, e em muitos casos os bibliotecários nómadas vêm-se obrigados a expor estes livros antigos para atrair alguns turistas, mesmo que desta forma os façam deteriorar-se ainda mais.

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A UNESCO em 1996 tornou Chinguetti (cidade e bibliotecas) Património Mundial, reconhecendo a situação de risco da cidade e das suas bibliotecas. Pinturas que remontam à Idade da Pedra que existem perto de Chinguetti, retratando a região como um oásis de pastagens luxuriantes onde os animais selvagens proliferavam.

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Infelizmente receio que as constantes mudanças climatéricas que assolam o deserto, assim como a turbulência política que assola muitas partes da África Ocidental, incluindo a Mauritânia (com um aumento dos raptos e extremismo por parte de alguns povos do deserto) afastem ainda mais os turistas, pondo em causa toda a subsistência dos bibliotecários do deserto.

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Que o vento não seja o único a transportar as memórias escritas do deserto.

Nota do Autor: Este texto foi escrito de acordo com a grafia de Portugal, todos os termos utilizados no texto devem ser respeitados correndo o risco da coerência do mesmo não se verificar.

dica do Chicco Sal

10 bibliotecas totalmente singulares

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Publicado por Hypescience

Se você tiver que fechar os olhos e imaginar uma biblioteca, ela com certeza vai ser algo bem padrão: um prédio ou construção qualquer com muitas estantes cheias de livros, um balcão e uma bibliotecária, ou bibliotecário, uma pessoa provavelmente já mais velha e de óculos.

Mas não as bibliotecas abaixo. Confira dez delas muito incomuns:

10. Biblioteca na praia

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Surfe, areia, biblioteca… Biblioteca?! Sim, você leu direito. Herman Kompernas construiu uma biblioteca na praia búlgara do resort Bulgarian Black Sea, em Albena, e a abasteceu com mais de 2.500 livros em 10 idiomas. Os hóspedes são convidados a pegar os livros (de graça) e deixar outros ali para que demais pessoas possam ler.

9. Biblioteca em um ônibus público

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O cobrador de ônibus brasileiro Antônio da Conceição Ferreira, 42 anos, é um exemplo de como um pouco de cooperação e generosidade podem fazer uma grande diferença na vida das pessoas. Há 11 anos, inspirado pelo seu gosto por leitura, ele criou sozinho o projeto “Cultura no Ônibus”, transformando o ônibus no qual trabalha em uma pequena biblioteca.

Atual morador de Brasília, Antônio oferece cerca de 15 títulos em uma prateleira dentro do ônibus todos os dias. O cobrador empresta esses livros aos passageiros da linha. Além de ser uma distração para ajudar a passar o tempo no trabalho, a biblioteca móvel é uma forma de oferecer cultura para as pessoas.

Quando ele começou, Antônio carregava uma caixa de papelão cheia de livros e escrevia os nomes dos passageiros que os emprestavam fora do veículo. Hoje, ele já não se importa se as pessoas não os devolvem – a ideia é que os livros sejam transmitidos de pessoa para pessoa. Além disso, Antônio sonha em expandir o projeto para todas as linhas de ônibus do Distrito Federal.

8. Biblioteca na caixa de correio

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Cuidar de uma biblioteca é mais fácil do que você pensa. Tudo que você precisa é de uma caixa de correio e um monte de livros para montar uma pequena biblioteca de sua preferência, permitindo que você compartilhe o seu amor pela leitura com a comunidade a sua volta.

A ideia por trás das “Pequenas Bibliotecas” não poderia ser mais simples – retire tudo o que as pessoas não gostam sobre bibliotecas, como custos de aluguel, placas de “silêncio”, multas por atraso, cartões de biblioteca, crianças debruçadas sobre livros chatos que ninguém mais lê, e fique só com o melhor dela: os livros.

Há 300 ou 400 pequenas bibliotecas livres em operação em 24 estados e oito países, de acordo com o cofundador da ideia Rick Brooks. Se você quiser encontrar uma, o site littlefreelibrary.org mantém um mapa de bibliotecas, além de instruções sobre como construir a sua própria. Infelizmente, a informação está disponível somente em inglês.

7. Biblioteca em cabine telefônica

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Quando a British Telecom resolveu tirar a cabine de telefone vermelha icônica na cidade do sul da Inglaterra Westbury-sub-Mendip, os moradores entraram em ação. A cabine telefônica resgatada tornou-se uma das menores bibliotecas do mundo, cuidada por voluntários.

A biblioteca de Westbury-sub-Mendip fica aberta 24 horas por dia e tem uma luz interior para leitura a meia-noite. A seleção de 100 livros, CDs e DVDs vem inteiramente de bibliotecas particulares dos habitantes da cidade. Eles trazem os livros que já leram e os trocam por livros que ainda não leram.

Periodicamente, os voluntários verificam quais livros estão se movendo e quais não. Os livros mais lidos são enviados para uma loja de caridade local e substituídos por novos livros. É muito parecida com a biblioteca que você tem em sua cidade, só que é mais eficiente e significativamente mais compacta.

6. Biblioteca em mulas

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Em 2009, nas montanhas do estado de Trujillo, na Venezuela, a Universidade del Valle Momboy começou um serviço incomum – biblio-mulas, bibliotecas móveis nas costas de mulas que entregam livros a crianças camponesas.

5. Biblioteca ao ar livre em miniatura

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Instalada no bairro Nolita em Nova York, nos EUA, em 2013, esta unidade de prateleiras ao ar livre temporária funciona também como uma biblioteca totalmente gratuita. O design inteligente da biblioteca protege os livros dos elementos como chuva e vento, permitindo que as pessoas fiquem sob uma tampa para ver o que está disponível.

A biblioteca foi projetada pela empresa de design venezuelana Stereotank como parte de uma colaboração com a Architectural League de Nova York e o Pen Mundial Voices Festival, que selecionou 10 designers para construir bibliotecas livres em miniatura no centro de Manhattan.

4. Biblioteca gigante ao ar livre

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Em 2012, o artista italiano Massimo Bartolini desenvolveu uma biblioteca pública ao ar livre ampla chamada Bookyard, para o festival belga de arte “TRACK”.

Bartolini empregou seus talentos criativos para desenvolver um conjunto de doze estantes instaladas em um estabelecimento originado durante a Idade Média. A forma arrebatadora das prateleiras verdes foi construída em um pequeno campo gramado, e se inclina gradualmente.

As unidades foram cheias com livros para venda por bibliotecas públicas de Gante e Antuérpia, com os lucros desses itens beneficiando as instituições.

3. Biblioteca com fachada de livros

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Esta é a única biblioteca “convencional” da lista, mas o que a torna única é a sua fachada. Este design inovador foi projetado para inspirar o povo de Kansas City, nos EUA, a enfiar seus narizes em um bom livro e, ao mesmo tempo, revitalizar a comunidade.

A característica mais marcante dessa fachada é uma prateleira de livros composta por 22 títulos clássicos escolhidos pelos moradores, que atua como estacionamento da biblioteca. A estante arquitetônica corre entre as ruas Wyandotte e Baltimore e é, definitivamente, a única maneira possível de estacionar dentro de uma cópia gigante de Romeu e Julieta.

2. Biblioteca em tanque de guerra

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O ativista e artista Raul Lemesoff criou o “Arma de Instrucción Masiva”, uma biblioteca móvel pacífica.
A obra de arte/veículo tem uma função muito séria: com cerca de 900 livros sobre “prateleiras” no tanque, Lemesoff fornece materiais de leitura gratuitos para qualquer um que queira conforme passeia por centros urbanos e comunidades rurais da Argentina. O artista vê seu trabalho como uma missão que “contribui para a paz através da literatura”.

A biblioteca é construída ao longo de um Ford Falcon 1979, um veículo que era popular com as forças armadas da ditadura militar na época. O que já trouxe opressão militar agora traz a literatura de todos os gêneros em uma coleção constantemente reabastecida através de doações privadas.

1. Biblioteca sobre rodas

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Antonio La Cava, um professor italiano aposentado, decidiu que depois de 42 anos de ensino ele poderia fazer ainda mais para espalhar o amor pela leitura entre as crianças. Então, em 2003, ele comprou uma moto usada Ape e a modificou para criar uma biblioteca portátil que abriga 700 livros. Ele viaja com seu chamado “Bibliomotocarro” desde então.

Bônus: Biblioteca em bondinho

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A cidade da Curitiba não tem mais um bondinho, mas um bom exemplo localizado na Rua XV de Novembro revive a imagem do antigo transporte público com um novo uso: serve de biblioteca desde 2010, quando foi reinaugurado como Bondinho da Leitura, um espaço para difundir a cultura a todos os cidadãos curitibanos. As pessoas têm o direito de ler e emprestar os livros gratuitamente, até 2 por 15 dias. Para isso, basta apresentar documento de identidade com foto, e comprovante de endereço. 2.500 títulos para todas as idades estão disponíveis.

Em 1973, o local abriu com a intenção de ofertar distração para crianças enquanto suas mães realizavam compras no calçadão. Em 1980, passou a funcionar como serviço de informações ao turista, mas nove anos depois voltou a ser um espaço cultural.

Real Gabinete Português de Leitura entra na lista das bibliotecas mais bonitas do mundo

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Seleção feita pela revista ‘Time’ inclui prédios históricos do mundo inteiro

Foto do Real Gabinete Português de Leitura, no Centro do Rio. Foto de 10/08/2007 - O Globo / Carlos Ivan

Foto do Real Gabinete Português de Leitura, no Centro do Rio. Foto de 10/08/2007 – O Globo / Carlos Ivan

Publicado em O Globo

RIO – O Real Gabinete Português de Leitura, que reúne o maior acervo de obras lusitanas fora de Portugal, entrou na lista das 20 bibliotecas mais bonitas do mundo. A seleção, feita pela revista “Time”, inclui edifícios históricos como a antiga biblioteca da Trinity College, em Dublin; a biblioteca de Alexandria, no Egito; e a famosa biblioteca pública de Nova York.

O Gabinete Real, que fica no Centro do Rio, aparece na quarta posição, atrás da George Peabody Library, que fica na universidade Johns Hopkins; da Biblioteca Real de Copenhague; e Clementinum, em Praga. A lista cita a construção no estilo neo manuelino, com uma sala de leitura que lembra uma catedral e as paredes cobertas de livros, além das esculturas de exploradores portugueses na fachada do prédio, como as de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.

Livros raros da Europa e do Brasil Colônia são os destaques da coleção do Gabinete Real Português de Leitura, cujo prédio foi construído em 1887. Entre as 350 mil obras disponíveis, está inclusive um exemplar da primeira edição de “Os Lusíadas” (1572), de Luis de Camões, que pertenceu à Companhia de Jesus.

Fundado para promover a instrução e melhorar o nível de conhecimento dos portugueses que chegavam ao Brasil, o Gabinete de Leitura vive do pagamento mensal de seus sócios. A biblioteca funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, na Rua Luís de Camões 30, no Centro.

A majestosa Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, em Portugal

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Vista interna da biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, em Portugal

Vista interna da biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, em Portugal

Carol Cunha, no Roteiros Literários

“Era uma vez um Rei que fez a promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez”, escreve José Saramago, no livro Memorial do Convento, publicado em 1982.

O romance histórico, que apesar de trazer pitadas de fantasia é baseado em fatos reais, tem como cenário o Palácio Nacional de Mafra. Saramago esteve várias vezes no lugar, construído na montanhosa vila de Mafra (a 40 quilômetros de Lisboa).

O Palácio Nacional de Mafra é considerado o mais importante monumento barroco de Portugal. Suas paredes em pedra lioz (tipo raro de calcário encontrado na região) abrigam uma basílica (miniatura da Basílica de São Pedro do Vaticano), um Paço Real e uma biblioteca que está entre as mais belas do mundo. É possível fazer uma visita guiada para descobrir melhor lugar.

Os números do palácio de 40.000m² impressionam. São mais de 800 salas e quartos, 5.000 portas, 2.500 janelas e 300 celas. A Basílica tem dois carrilhões com 92 sinos considerados os maiores do mundo e seis órgãos de tubos que produzem um som emocionante em dias de concerto de música sacra.

O edifício foi construído por D. João V, no início do século 18, quando ele fez a promessa de erguer um convento caso D. Maria Ana Josefa lhe desse um herdeiro. A princesa Maria Bárbara nasceu em 1711, e logo depois ele cumpriu a palavra.

No início, em 1717, eram apenas treze frades franciscanos vivendo por ali. Com o ouro abundante vindo da colônia brasileira, D. João não poupou despesas e decidiu criar um palácio que fosse usado como mosteiro e residência de verão da realeza. A construção faraônica empregou 52 mil trabalhadores.

Em 1808, com as invasões francesas, a família real partiu para o Brasil e levou consigo tapeçarias, quadros e móveis. O mosteiro foi abandonado em 1834, após a dissolução das ordens religiosas. Durante os últimos reinados da Dinastia de Bragança, o palácio foi utilizado como residência de caça, atividade que pode ser comprovada na Sala das Armas, onde estão expostas dezenas de troféus de caça.

A BIBLIOTECA
A biblioteca é considerada o maior tesouro do palácio. Construída pelo arquiteto português Manuel Caetano de Sousa, o local tem a planta em formato de cruz. É dividida em dois andares, tem 83 metros de comprimento e abóbodas com até 13 metros de altura.

Os livros são preservados com a ajuda inusitada de uma colônia de morcegos que vivem na biblioteca. À noite, os animais voam livremente e se alimentam de insetos nocivos que poderiam comer as folhas de papel.

O trajeto é feito por um corredor central que exibe um chão revestido com uma combinação de mármores rosa, azul e amarelo. Em dia de pouco movimento, pelo que relatam seus visitantes, é possível se escutar o som do silêncio.

A iluminação é garantida pela luz natural que entra pela claraboia das janelas. O teto branco do edifício e das colunas é considerado inacabado, pois originalmente eram previstas pinturas em cada estante que representariam autores mais ilustres.

No corredor central, um globo da 1ª metade do século 18 se destaca sob uma mesa de madeira feita para o estudo e desenho de mapas. As estantes de estilo rococó são feitas de madeira vinda do Brasil e abrigam mais de 30 mil volumes raros dos séculos 14 ao 19. À época da criação do acervo, o rei D. João V enviou emissários especiais a países estrangeiros para adquirir livros.

Globo da 1ª metade do século 18 disponível para estudos na biblioteca (Divulgação)

Globo da 1ª metade do século 18 disponível para estudos na biblioteca (Divulgação)

São milhares de livros encadernados em couro com gravações a ouro que foram feitas manualmente na antiga oficina do local. O padrão de encadernação acaba dando um efeito harmônico de cores.

No final do século 18, os padres eram os guardiões e bibliotecários responsáveis por catalogar os livros, iluminuras, pergaminhos e manuscritos. Livros religiosos e de toda sorte de assuntos como arquitetura, anatomia, mapas, matemática, literatura, filosofia, filologia, direito, medicina e música formam um verdadeiro patrimônio do conhecimento da humanidade.

A biblioteca guarda um volume da segunda edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, de 1520. É possível encontrar ainda incunábulos (obras impressas até 1500), a famosa Crónica de Nuremberga (1493), a primeira Enciclopédia (de Diderot et D’Alembert), um exemplar de De Humani Corporis Fabrica, considerado o primeiro tratado de anatomia humana e ainda um importante núcleo de partituras musicais especialmente escritas para o conjunto dos seis órgãos históricos da Basílica.

Partituras expostas na biblioteca

Partituras expostas na biblioteca

O acervo também chama a atenção por guardar a maior coleção mundial de livros proibidos pela Santa Inquisição. Segundo historiadores, no período entre 1540 e 1794, os tribunais de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora decretaram a morte por fogueira de 1.175 pessoas por consultarem livros proibidos. Mas uma bula concedida pelo Papa Bento 14, em 1754, autorizou a entrada desses livros em Mafra, com acesso apenas aos frades. Esses livros estão marcados na página de rosto como ‘proibidos’, entre eles, O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.

Uma das relíquias que o visitante encontra é Mutus Liber, uma das mais importantes obras iconográficas da tradição hermética medieval. Existe ainda uma versão do Alcorão com 500 anos e uma Bíblia escrita em aramaico, hebraico grego e latim, que foi publicada em 1520, e outras edições históricas.

Muitos dos livros de Mafra foram parar na mão dos invasores franceses e outros foram enviados ao Brasil para uso da corte.

O acesso aos livros pode ser feito para pesquisa e precisa ser agendado previamente com os bibliotecários locais.

Corredor da biblioteca de Mafra

Corredor da biblioteca de Mafra

A biblioteca tem um acerco de 30.000 volumes

A biblioteca tem um acerco de 30.000 volumes

CURIOSIDADE
Na trama de Saramago, Dom João V promete a construção de um convento franciscano em troca de um herdeiro. Assim, depois do nascimento da filha, ele inicia a dolorosa construção megalomaníaca de Mafra, que o escritor conta levando em conta as dificuldades dos operários.

O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão (figura real da história) quer construir um engenho voador, a “passarola”, misto de barco e pássaro que é movido pelas vontades humanas. A invenção poderia desagradar aos oficiais da Santa Inquisição e ter punições como o degredo para os trópicos ou a queima na fogueira. Ainda assim, a passarola passa a ser montada em segredo, com a ajuda do apaixonado casal Baltasar e Blimunda, que acredita no sonho de voar. O rapaz chega a trabalhar nas obras de construção do convento.

A passarola, em gravura de 1709

A passarola, em gravura de 1709

Na vida real, a passarola seria a primeira aeronave no mundo a realizar um voo. Consistia em um balão a ar inventado por Bartolomeu de Gusmão, padre jesuíta e também cientista que nasceu no Brasil colônia. D. João V passou a financiar a construção do protótipo. Ele teria voado no ano de 1709, em Lisboa.

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