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Conhecendo as raridades da biblioteca do poder

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A BIBLIOTECA DA CÂMARA, EM BRASÍLIA

A BIBLIOTECA DA CÂMARA, EM BRASÍLIA

Andréia Martins, no Roteiros Literários

As primeiras bibliotecas começaram a ser implantadas no Brasil em 1800. Foi nessa época que a biblioteca que só chegaria a Brasília em 1960 começou a ganhar forma, ainda na antiga capital federal.

A Biblioteca da Câmara Federal foi criada oficialmente em 1866, no Rio de Janeiro, para atender apenas aos legisladores da casa. Lá, teve sede em diferentes locais, como o Palácio Tiradentes, o Cassino Fluminense, o Palácio Monroe e o Palácio da Quinta da Boa Vista, além da Biblioteca Nacional. Aos poucos, seu acervo foi sendo ampliado com compras, doações e trocas de livros. Mas foi só em 1926 que ele alcançou um volume considerável de obras, com 27.000 exemplares.

Ao ser transferida para nova capital brasileira, em 1960, já com o dobro do acervo bibliográfico, a biblioteca ocupou quatro andares do Anexo I da Câmara, passando depois, em 1969, para o Anexo II, onde hoje está o Centro de Documentação e Informação (CEDI). Aberta ao público, ganhou o nome de Biblioteca Pedro Aleixo em 1985, em homenagem ao advogado e parlamentar.

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A primeira impressão é de que o acervo é restrito, com obras e referências ao dia a dia da política nacional. Mas o acervo surpreende. Em seus 2500m², a biblioteca reúne uma extensa bibliografia sobre direito, economia, administração pública, ciências políticas e sociais, literatura nacional, documentos publicados pela ONU (Organização das Nações Unidas), edições do Diário Oficial desde 1930, jornais antigos e atuais, entre outros.

No entanto, a cereja do bolo é o acervo de obras raras, com publicações em latim, português, francês e entre outras línguas. Ao todo são 4.600 livros e 108 periódicos raros, como obras clássicas do pensamento ocidental, relatos de viajantes dos séculos 18 e 19, edições de referências da historiografia, geografia e literatura nacional.

Este ano a biblioteca começou o processo de digitalização de 200 obras desse acervo. O critério foi escolher as mais danificadas, mais antigas e mais importantes. Todo o processo deve ser concluído em 26 anos. (Acesse aqui as publicações já digitalizadas)

A ENTRADA DA BIBLIOTECA PEDRO ALEIXO

A ENTRADA DA BIBLIOTECA PEDRO ALEIXO

LOGO NA ENTRADA VEMOS AS ANTIGAS ENCICLOPÉDIAS E OUTRAS OBRAS DE REFERÊNCIA. AO FUNDO, O SALÃO DE LEITURA COM MESAS PARA ESTUDO

LOGO NA ENTRADA VEMOS AS ANTIGAS ENCICLOPÉDIAS E OUTRAS OBRAS DE REFERÊNCIA. AO FUNDO, O SALÃO DE LEITURA COM MESAS PARA ESTUDO

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Os livros do acervo raro só podem ser manuseados com luvas e consultados com a supervisão de alguém da casa. Por isso, para fazer qualquer consulta a este acervo é preciso agendar uma visita antes.

Quem nos recebe na sala dos fundos da biblioteca, onde fica o acervo raro é a chefe da seção de obras raras e especiais, Maria Cristina Silvestre. Ela coloca as luvas brancas plásticas e manuseia com cuidado as obras previamente separadas. Em comum, os livros ali têm o amarelo das páginas e guardam o cheiro do tempo de muitas gerações.

Considerando a data original desses livros, alguns do século 16, pode-se dizer que eles estão bem preservados. A obra rara mais antiga é De Orbis Situ, de 1522, escrita por Pompônio Mela, o único tratado de geografia da Antiguidade escrito em latim clássico. Publicado na época em que ainda se considerava a Terra o centro do universo, o livro traz um mapa que mostra a antiga divisão dos continentes. Uma época e forma de ser ver o mundo que parece muito distante dos dias de hoje.

A OBRA MAIS ANTIGA DO ACERVO RARO DA BIBLIOTECA

A OBRA MAIS ANTIGA DO ACERVO RARO DA BIBLIOTECA

O MAPA QUE ACOMPANHA A OBRA

O MAPA QUE ACOMPANHA A OBRA

O acervo guarda ainda obras-relatos dos chamados “cronistas-mor” do reino de Portugal, autores que tinham quase que o papel de historiadores –embora, em alguns casos, com viés totalmente favorável ao governo—e colaboraram para construir uma espécie de memória das dinastias, e claro, do país. Eles eram contratados pelo rei para escrever sobre o país, seu governo e história.

O primeiro a ocupar o cargo foi Fernão Lopes (1380-1460), em 1434, encarregado por D. Duarte. Estima-se que ele tenha escrito a história de Portugal desde a fundação do reino e as crônicas de todos os seus reis até D. João 1º. Há ainda obras de outros cronistas importantes para a história portuguesa, como Duarte Galvão (1445-1517) e Rui de Pina (1440-1522).

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Pesquisadores, historiadores ou interessados na história nacional encontram ali livros que traçam um panorama que vai do descobrimento do Brasil até a definição de nossas fronteiras. São obras importantes pelas informações que contém e também pela questão estética. Um exemplo é Nova Lusitania, escrito por Francisco de Brito Freire, em 1675. Além de ser uma fonte rica em informações sobre os acontecimentos em Pernambuco, entre 1630 e 1638, a preocupação gráfica fez da obra um dos destaques da tipografia portuguesa do século 17.

A PÁGINA QUE ABRE O LIVRO NOVA LUSITANIA, COMPLETAMENTE DECORADA, TRADIÇÃO NA ÉPOCA DE SUA PUBLICAÇÃO

A PÁGINA QUE ABRE O LIVRO NOVA LUSITANIA, COMPLETAMENTE DECORADA, TRADIÇÃO NA ÉPOCA DE SUA PUBLICAÇÃO

DENTRO, OS CAPÍTULOS COMEÇAM COM UMA LETRA CAPITULAR EM DESTAQUE E AS PÁGINAS APRESENTAM UMA MARGEM À DIREITA

DENTRO, OS CAPÍTULOS COMEÇAM COM UMA LETRA CAPITULAR EM DESTAQUE E AS PÁGINAS APRESENTAM UMA MARGEM À DIREITA

Há ainda Novus orbis regionum ac insularam veteribus incognitarum, de 1633, que narra as grandes navegações e as expedições de Cristóvão Colombo, Pedro Alonso Pinzon e Américo Vespúcio. O livro traz também o primeiro relato de viagem de Fernão de Magalhães, o navegador português que planejou e comandou a expedição que deu a primeira volta ao mundo, mas morreu no caminho. Esse é um dos motivos que a torna uma obra literária “muito rara”.

Travels in Brazil é um relato de viagem feito pelo inglês Henry Koster. Originalmente escrito em lâminas, traz a melhor descrição do nordeste brasileiro na primeira metade do século 19. O diferencial deste livro é trazer o primeiro depoimento sobre a psicologia e a etnografia tradicional do sertanejo no seu cenário, incluindo algumas primeiras ilustrações do sertanejo.

Para 2015, a biblioteca da Câmara prepara uma exposição sobre os relatos de viagem do acervo de obras raras.

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Entre os livros raros não estão apenas obras sobre história. Há também raridades literárias como, por exemplo, edições comentadas de duas obras de Luís de Camões (1524-1580) difíceis de serem encontradas: Os Lusíadas, publicada em 1572, e Rimas Variadas, publicada em meados dos anos 1600.

A biblioteca permite um olhar mais amplo sobre a obra do padre Antonio Vieira (1608-1697) além de Os Sermões– de 1679, iniciados há quatro séculos, composta por 15 volumes e, provavelmente, seu trabalho mais conhecido. O local guarda outros escritos do padre como Historia do Futuro… (1718), que faz parte de uma trilogia de obras proféticas que contém ainda Esperanças de Portugal, escrita entre 1856 e 1857, e Clavis Prophetarum, obra perdida e não concluída.

14 VOLUMES DE OS SERMÕES, DO PADRE ANTONIO VIEIRA, NA PRATELEIRA DA BIBLIOTECA

14 VOLUMES DE OS SERMÕES, DO PADRE ANTONIO VIEIRA, NA PRATELEIRA DA BIBLIOTECA

Outros livros do autor são Cartas do P. Antonio Vieyra da Companhia de Jesus, uma coleção com três volumes que trazem cartas que refletem o estilo da prosa portuguesa do século 18, datados de 1735 e 1746, e Vozes Saudosas, de 1736, com vários tratados sobre o Brasil. Este último livro tem um suplemento, Voz Sagrada, de 1748, também disponível na biblioteca. São poemas, cartas e outros escritos em latim e português.

Os títulos brasileiros não ficam atrás. Temos exemplares da primeira edição de Os Sertões e um volume autografado de Contrastes e Confrontos (foto abaixo), ambos de Euclides da Cunha (1866-1909); a edição de 1909 de Recordações do escrivão Isaias Caminha, primeiro livro de Lima Barreto (1881-1922). Do autor, há ainda a primeira edição de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de 1915, sua obra mais conhecida.

OBRA AUTOGRAFADA POR EUCLIDES DA CUNHA

OBRA AUTOGRAFADA POR EUCLIDES DA CUNHA

Ganham destaque ainda alguns dos 23 volumes de Os Cem Bibliófilos do Brasil, coleção famosa editada em 1943 e que reunia um escritor e um artista plástico para ilustrar uma obra. Além de promover o encontro entre renomados escritores e artistas, os livros dessas coleções tornaram-se raros devido às poucas edições impressas.

Dessa coleção a Câmara possui exemplares de Memórias Póstumas de Braz Cubas, de Machado de Assis (1839-1908), ilustrado por Portinari e que foi o primeiro volume da coleção; Espumas Flutuantes, de Castro Alves (1847-1871) com ilustrações de Tomás Santa Rosa; Macunaíma, de Mario de Andrade (1893-1945) com desenhos de Carybé; A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água, de Jorge Amado (1912-2001) com Di Cavalcanti, Campo Geral, de Guimarães Rosa (1908-1967) ilustrado por Djanira, entre outros.

OBRA DE MACHADO COM ILUSTRAÇÕES DE PORTINARI

OBRA DE MACHADO COM ILUSTRAÇÕES DE PORTINARI

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O dia a dia da biblioteca é movimentado. Além de atender aos legisladores, o local é aberto ao público, que pode ler e estudar nas salas de leitura. O público agora tem acesso às prateleiras para consultar os livros do acervo — antes, tudo passava pela mão de um atendente. Agora, é só levantar, dar alguns passos entre as prateleiras para consultar a obra desejado. No entanto, o empréstimo de livros é feito somente para os servidores da casa.

Ernani Júnior, coordenador do acervo da biblioteca, conta que o local é muito procurado por concurseiros que buscam um ambiente mais calmo — e climatizado, fator importante já que Brasília é conhecida por apresentar temperaturas altas — para estudar. Há uma sala de leitura e mais duas salas que podem ser usadas pelo público. A meta é construir uma terceira.

Hoje, são 1.500.000 itens catalogadas, sendo 200.000 livros impressos, 2.000 revistas, entre outros. Esse material também serve de base para as pesquisas solicitadas pelo público e legisladores à equipe do Centro de Documentação. Os pesquisadores atendem pedidos de informações sobre a Câmara, a atividade legislativa, legislação, Constituintes, acervo bibliográfico, entre outros. Entre setembro de 2013 e agosto de 2014 foram 18.858 pedidos de pesquisa para o CEDI.

O acervo, digamos, mais comum, inclui o que foi citado no início do texto, além de livros de ficção contemporâneos, romances da literatura nacional ou internacional, obras sobre religiões, filosofia e catálogos de arte. Uma curiosa coleção que só está disponível ali é “Mensagem ao Congresso Brasileiro”, onde estão reunidos os discursos de abertura das sessões feito pelos presidentes da República. Os livros incluem discursos desde a época da ditadura, nos quais os presidentes revelam pontos pessoais de suas ideias sobre direitos humanos,forças armadas, trabalho, educação. É um bom instrumento para entender um pouco mais o pensamento que motivou o golpe, sua manutenção e forma de condução política.

ERNANI CAMINHA ENTRE AS PRATELEIRAS DA BIBLIOTECA

ERNANI CAMINHA ENTRE AS PRATELEIRAS DA BIBLIOTECA

CANTINHO DA PRATELEIRA DE ARTES QUE REÚNE CATÁLOGOS DE EXPOSIÇÕES E MOSTRAS

CANTINHO DA PRATELEIRA DE ARTES QUE REÚNE CATÁLOGOS DE EXPOSIÇÕES E MOSTRAS

COLEÇÃO ‘MENSAGEM AO CONGRESSO NACIONAL’, COM DISCURSOS DOS PRESIDENTES NAS ABERTURAS DE SESSÕES. SÃO TEXTOS SOBRE DIFERENTES TEMAS, DESDE E O PERÍODO DITATORIAL

COLEÇÃO ‘MENSAGEM AO CONGRESSO NACIONAL’, COM DISCURSOS DOS PRESIDENTES NAS ABERTURAS DE SESSÕES. SÃO TEXTOS SOBRE DIFERENTES TEMAS, DESDE E O PERÍODO DITATORIAL

A biblioteca também procura avançar na inovação. Já implantou a retirada e entrega eletrônica de livros e planeja colocar em prática um processo para facilitar a elaboração de seu inventário: inserir chips nos livros para que a checagem do acervo seja eletrônica e mais rápida.

Além disso, ela integra o sistema RVBI – chamado de ‘rubi’ – do qual fazem parte 12 bibliotecas federais e distritais que estão integradas em um catálogo único online, gerenciado pela biblioteca do Senado. Dessa forma, todas têm acesso ao acervo uma das outras, podendo indicar aos usuários onde encontrar um determinado livro caso não tenha em seu catálogo.

Dos pedidos recebidos neste sistema, o livro mais procurado na biblioteca da Câmara é Campeões do Mundo, de Dias Gomes. O motivo, Enrani não sabe explicar. Já no acervo de ficções da própria biblioteca, até a nossa visita, em setembro de 2014, o livro mais solicitado no ano era A Cabana, do canadense William P. Young. Parece que os nossos políticos e servidores estão buscando inspiração no romance – ainda que ele venha carregado de suspense.

Serviço:

A biblioteca da Câmara funciona de segunda à quinta-feira, das 9h às 18h30, e sexta-feira, das 9h às 18h. Endereço: Câmara dos Deputados – Anexo II. Praça dos Três Poderes – Brasília. Lembre-se: para visitar o acervo de obras raras é necessário agendar. Para o resto, o acesso é livre.

Trens de Moscou ganharão bibliotecas virtuais gratuitas

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Preferência será pelos gêneros de leitura de curta duração

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Publicado por Diário da Rússia

Em 2015 as composições de todas as 10 linhas de trem da grande Moscou serão equipadas com materiais gráficos exibindo códigos QR (tipo de código de barras que pode ser facilmente esncaneado usando telefones celulares e equipamentos dotados de câmeras digitais) pelos dos quais os passageiros poderão ter acesso gratuito a livros de uma biblioteca virtual.

Segundo revelou à agência M24 o diretor do departamento de comunicações da empresa central de trens da grande Moscou, as primeiras obras disponibilizadas pelo projeto serão os clássicos das literaturas russa e mundial, gratuitos por já terem seus direitos autorais esgotados.

A preferência será igualmente dada a gêneros mais curtos, como contos e novelas, capazes de serem lidos pelos passageiros em 30 a 40 minutos. A seleção de livros disponibilizados pela biblioteca virtual dos trens moscovitas será renovada trimestralmente.

dica do Jarbas Aragão

Mostra exibe anotações em livros da biblioteca de Waly Salomão

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Exposição com o acervo inédito do poeta abre ao público hoje na Biblioteca Parque Estadual

Um dos livros grifados por Waly: “O grifo muda o nosso olhar em relação ao livro. A gente ouve a voz dele nas marcações”, diz Omar Salomão, filho de Waly e curador da mostra - Reprodução

Um dos livros grifados por Waly: “O grifo muda o nosso olhar em relação ao livro. A gente ouve a voz dele nas marcações”, diz Omar Salomão, filho de Waly e curador da mostra – Reprodução

Mariana Filgueiras em O Globo

RIO — A ideia surgiu por acaso, numa conversa da editora Anna Dantes com o músico Marcelo Yuka. Ele viu o livro “Signos”, de Merleau-Ponty sobre a mesa do escritório dela, tomou-o para folhear, e Anna comentou que o exemplar havia sido do poeta Waly Salomão. Estava ali porque ela começaria em breve a pensar em uma exposição sobre Waly, mas que ainda não tinha um mote definido. Na última página do livro, Yuka notou uma ameaça de poema entre rabiscos, frases sublinhadas, palavras circuladas. Anna comentou que todos os livros de Waly eram assim, repletos de grifos. O músico sugeriu: “Você podia fazer uma exposição só com os grifos dele: ‘A biblioteca de grifos de Waly Salomão’”.

— Pronto. Ali nasceu a exposição. A ideia estava na minha mesa, e eu ainda não tinha percebido — comenta Anna, ao lado do poeta Omar Salomão, filho de Waly, que assina com ela a curadoria da mostra que começa hoje para o público na Biblioteca Parque Estadual e segue até o dia 14 de dezembro, com exemplares do acervo pessoal do poeta morto em 2003. — Quando a gente se depara com as anotações que ele fazia, a maneira como ele lia, entende muito da mente dele. Os grifos eram um recado para ele mesmo como leitor futuro, como uma mensagem na garrafa. E agora as mensagens estarão ao alcance de todos os leitores.

Versos soltos entre anotações no livro de Merleau-Ponty - / Reprodução

Versos soltos entre anotações no livro de Merleau-Ponty – / Reprodução

Ato de libertação

Waly lia compulsivamente. Comia os livros, com aquela bocarra cheia de dentes e sorrisos, dobrando suas páginas, marcando palavras com o que tivesse à mão, fossem canetinhas, marca-textos ou as próprias unhas (Omar conta rindo das vezes em que viu o pai fazer isso). Fazia desenhos envolvendo as frases, emoldurava palavras unas, e às vezes, ao ler o mesmo livro em línguas diferentes, fazia anotações completamente distintas. Tinha cerca de 8 mil volumes nas estantes de casa — e a maioria carrega o percurso da sua leitura, como poderá ser visto pelo público na exibição.

Marguerite Duras era uma personagem constantemente grifada por Waly - / Reprodução Read more: http://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/mostra-exibe-anotacoes-em-livros-da-biblioteca-de-waly-salomao-14244635#ixzz3GDbTmPjK

Marguerite Duras era uma personagem constantemente grifada por Waly – / Reprodução

— O grifo muda o nosso olhar em relação ao livro. Os que ele fazia não eram grifos de estudo, as marcas não indicam uma leitura de estorvo, mas de libertação. A gente ouve a voz dele nas marcações, seja em volumes de Roland Barthes, Murilo Mendes ou nos livros de zen-budismo — observa Omar, lembrando que muitas dessas anotações ecoam em seus poemas e letras de músicas.

É possível ver mesmo: no livro “Lírica, Épica, Teatro e Cartas de Camões”, por exemplo, Waly emoldura a frase “Oh! bem-aventurados fingimentos”, assinando embaixo, como se o verso também pudesse ser dele; no livro “Malone morre”, de Samuel Beckett, ao lado da frase “Nasci sério, como tem gente que já nasce sifilítico”, escreve: “parece Nelson Rodrigues!”. Completa poemas de Drummond, como se fossem textos abertos; e numa dedicatória de um livro a Oswald de Andrade, desenha ali uma espécie de labirinto cerebral antropofágico sobre o nome do autor. Ah, sim, o poema notado por Yuka também esta lá: “Uma arte poética/ manter tenso o arco que /Abrange caos e cosmos/ Uma área poética/ Limpar a área do terreno/ Desprogramar bulas e receitas/Posologias e fórmulas prévias/ Ou ainda: “Uma arte poética/ Penetrar até o centro do coração de cada código e desprogramar/ Bulas, receitas e posologias e/ Fórmulas prévias/ Pescar em águas límpidas/ Pescar em águas turvas/ Usar em mão dupla/ O arco que une caos e cosmos”.

Painéis pela cidade

A mostra conta ainda com vídeos, depoimentos do autor e uma instalação interativa, onde o público poderá deixar sua própria intervenção em textos de Waly. O escritor Leonardo Villa-Forte vai colaborar com três instalações do “Paginário”, projeto de sua autoria que enche de grifos literários alguns muros da cidade. Serão três painéis: um na biblioteca, um na Rua da Alfândega e um na estação de metrô da Central. Já a filósofa Rosa Dias vai participar ministrando semanalmente jogos de leituras com convidados.

O antropofagismo de Oswald de Andrade dá origem a um esboço de cérebro - / Reprodução

O antropofagismo de Oswald de Andrade dá origem a um esboço de cérebro – / Reprodução

Aposentado compra apartamento vizinho para montar uma biblioteca

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Antoine, de 78 anos, comprou apartamento em Santos para guardar obras.
Aposentado acabou se especializando e gosta de debater história.

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Guilherme Lucio, no G1

Um aposentado de Santos, no litoral de São Paulo, vive, literalmente, cercado de livros. Antoine Abdid, de 78 anos, precisou comprar o apartamento vizinho para conseguir guardar um acervo de cinco mil livros adquirido ao longo de toda a vida.

Abdid explica que não foi fácil comprar o apartamento ao lado. “Meu vizinho queria alugá-lo, mas não adiantava. Eu precisava de um lugar fixo para guardar meus livros, eu estava irredutível. Conversei com um dos filhos dele, que convenceu o pai”, disse.

Seo Antoine, que nasceu em Damasco, capital da Síria, explica que sua paixão por livros começou em São Paulo. “Eu parei de estudar no colegial. Porém, na minha época existia muito debate sobre política, história, economia e religião. Isso aguçou a minha curiosidade. Foi assim que comecei a recorrer aos livros”, explica.

Ainda na adolescência, Antoine se mudou para o bairro José Menino, onde vive atualmente. No início, ele contava com apenas 30 obras. Hoje, sua biblioteca particular possui milhares de livros de história, religião, filosofia e antropologia.

Segundo o aposentado, a biblioteca não é pública. “É difícil você emprestar livros para pessoas que você não conhece. Para os meus amigos e conhecidos, até empresto alguns, pois acho importante a leitura e o acesso a ela. O acervo que tenho é pessoal”, conta Abdid.

Aposentado comprou apartamento ao lado para guardar livros (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Aposentado comprou apartamento ao lado para guardar livros (Foto: Guilherme Lucio/G1)

O aposentado conta que marca cada livro com uma etiqueta. “Leva um certo tempo e dá trabalho. Tiro uma cópia da capa e colo na parte lateral. Além disso, vou a sebos e pego capas reforçadas que foram descartadas para colocar nos exemplares”, diz.

Além dos livros, o idoso também coleciona algumas centenas de DVDs. “Isso me mantém ativo. Mesmo com uma certa idade, precisamos nos manter ativos e fazer algo que gostamos. E os livros são a minha paixão”, afirma.

“Marx era igual a Jesus Cristo. Acreditava que o homem era bondoso, misericordioso”
Antoine Abdid,
78 anos

Comunismo

Antoine se diz um homem apaixonado por história, que considera fundamental na vida do ser humano. “Nós precisamos conhecer a nossa história. Precisamos saber o que aconteceu no passado, quais foram os erros e quais foram os acertos. Não entendo como as escolas de hoje têm tão poucas aulas de história”, afirma.

Católico apostólico romano e ex-comunista, o aposentado explica o motivo pelo qual acredita que o sistema não deu certo. “A Rússia, que foi onde o comunismo teve ínicio, não era um país preparado para esse sistema. Talvez, se o primeiro país a implantar o comunismo tivesse sido a França ou a Inglaterra, ele poderia ter dado certo. Karl Marx era igual a Jesus Cristo. Acreditava que o homem era bondoso, misericordioso. Mas, na vida real, as coisas não funcionam bem assim. O homem é mau, vive conspirando, só pensa no próprio bem estar. O homem é o lobo do homem”, desabafa.

Antoine também tem uma teoria sobre o início das religiões. “Tudo teve início no Egito. Foi lá que as religiões, próximas ao que conhecemos hoje, tiveram início. Depois foi para a Grécia e o Oriente”, diz.

Para Antoine, Karl Marx pensava como Jesus Cristo (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Para Antoine, Karl Marx pensava como Jesus Cristo (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Mein Kampf

Livro de Hitler faz parte da coleção do aposentado (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Livro de Hitler faz parte da coleção do aposentado
(Foto: Guilherme Lucio/G1)

Dentre os milhares de livros de seu acervo, Antoine tem alguns exemplares mais “exóticos”, outros raros, como uma das primeiras edições do livro de Adolf Hitler, Mein Kampf (Minha Luta, em português). Antes de tocar no assunto, ele preferiu deixar algo bem claro. “Muitas pessoas associam o livro ao nazismo. Eu sou uma pessoa apaixonada por história e por livros de história. Não quero que confundam as coisas”, enfatiza. O aposentado explica que leu apenas parte do livro. “Não cheguei ao final, mas achei interessante”, diz Abdid.

Sobre o regime alemão implantado durante a 2ª Guerra Mundial, Antoine explica que o regime foi “útil” para a Alemanha. “É lógico que houve problemas, mas a Alemanha conseguiu se reerguer. O objetivo principal era conquistar a Europa, como Napoleão também tentara, e não conseguiu”, conclui.

Aposentado tem livros por todo o apartamento (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Aposentado tem livros por todo o apartamento (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Bibliotecas digitais ajudam nos estudos para o Enem

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Bibliotecas digitais ajudam nos estudos para o Enem

Com amplo acervo digitalizado, sites como Domínio Público, Biblioteca Nacional e UnB disponibilizam conteúdo gratuito

Publicado no IFronteira

Dentre os conteúdos que podem auxiliar o estudante a se preparar para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma boa opção são as bibliotecas e conteúdos digitais, que permitem o acesso gratuito a acervos de livros, manuscritos, artigos científicos e dossiês.

Entre as opções, o Portal Domínio Público, lançado em 2004 pelo governo federal, dispõe de um amplo acervo de obras literárias, artísticas e científicas. O site ainda permite ao usuário coletar diversos materiais na forma de textos, sons, imagens e vídeos, já em domínio público* ou que tenham a sua divulgação devidamente autorizada, o que caracteriza patrimônio cultural brasileiro e universal.

O governo armazena em um banco de dados a obra completa de escritos como Machado de Assis, Dante Alighiere e Joaquim Nabuco, poesias do Fernando Pessoa e vídeos do educador Paulo Freire. Além disso, o estudante pode ter acesso à coleção de história geral da África, da Unesco ou até mesmo assistir a alguns dos programas da TV Escola.

Outra opção interessante de estudo é o site da Biblioteca Nacional. A ferramenta disponibiliza um amplo acervo digital com mais de 800 mil documentos de livre acesso, entre eles livros, periódicos, manuscritos, áudios e vídeos. Para acessá-la, basta se dirigir a página inicial da Biblioteca Digital Brasil e clicar em acervo digital. Em seguida, é preciso indicar dentro do campo de pesquisa o material a ser buscado.

O portal também permite acesso a dossiês que oferecem ao público visitas guiadas ao acervo já digitalizado. O visitante virtual é levado a conhecer e aprofundar seus conhecimentos sobre temas diversos da história e cultura nacionais. Destaque para o material que reúne textos sobre “A França no Brasil”, com apresentação introdutória do escritor e geógrafo Muniz Sodré, além de outros periódicos sobre literatura, material fotográfico, etc.

Universidade de Brasília (UnB) também oferece um conjunto de serviços digitais voltados para gestão e disseminação da produção científica e acadêmica da universidade, além disso mantém uma biblioteca digital para deficientes visuais. Todos os seus conteúdos incluem uma biblioteca digital e sonora, uma biblioteca de monografias e diversos livros eletrônicos.

Preparação

Além dos sites de biblioteca digital, o candidato pode se preparar utilizando diversas plataformas on-line de estudo como o Questões Enem, oferecida gratuitamente pela Empresa Brasil de Comunicação.

O aluno pode acessar o aplicativo, que consiste em um banco de questões que reúne as provas de 2009 a 2013. No sistema é possível escolher quais áreas do conhecimento quer estudar. O banco seleciona as questões de maneira aleatória.

Outra opção é o Geekie Games, selecionado pelo Ministério da Educação (MEC) por meio de edital. A plataforma oferece textos, videoaulas, simulados e jogos para os estudantes, tudo on-line.

O projeto idealizado pela ‘Geekie’ disponibiliza conteúdo gratuito para todos aqueles que queriam se preparar para o Enem. Ao entrar na plataforma, o aluno faz um teste diagnóstico para identificar quais são as dificuldades e níveis de proficiência em diferentes assuntos, de cada um.

Com o relatório em mãos, o aluno tem acesso a um plano de estudos personalizado baseado nas suas dificuldades e pode estudar em aulas disponíveis na própria plataforma. Ao concluir suas atividades, o estudante faz um novo diagnóstico que testará, além dos assuntos já abordados, outros diferentes. Dessa forma, ele tem acesso a um novo plano de estudos.

Enem 2014

As provas acontecerão no dia 8 e 9 de novembro. No primeiro dia, será aplicada a prova de ciências humanas e ciências da natureza e suas tecnologias. A prova vai durar 4h30. Já no segundo dia de prova, os alunos responderão questões de linguagens, códigos e suas tecnologias e matemática. A redação também será aplicada no dia 9. O tempo da prova será de 5h30.

O Enem de 2014 será realizado em 1.699 municípios. Nos dois dias de prova, os portões de acesso serão abertos às 12h e fechados às 13h, de acordo com o horário de Brasília.

Saiba mais

A nota do Enem pode ser usada para participar de vários programas, entre eles o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que oferece vagas no ensino superior público; o programa de acesso a universidades privadas, que disponibiliza bolsas em instituições particulares; e o Sistema de Seleção Unificada do Ensino Técnico e Profissional (Sisutec), que destina a estudantes vagas gratuitas em cursos técnicos.

O Enem é também pré-requisito para firmar contratos pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e para concorrer a bolsas de intercâmbio pelo Programa de mobilidade internacional.

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