Diário da Maísa

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Por que uma biblioteca na Califórnia está emprestando outras coisas além de livros

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Ferramentas, instrumentos musicais e videogames, além de livros, são algumas das coisas que é possível pegar emprestado na "Biblioteca das coisas" - Foto: Divulgação/Bibliotecas de Sacramento, Califórnia

Ferramentas, instrumentos musicais e videogames, além de livros, são algumas das coisas que é possível pegar emprestado na “Biblioteca das coisas” – Foto: Divulgação/Biblioteca de Sacramento, Califórnia

 

Em Sacramento, na Califórnia, unidade pública tem à disposição videogames, ferramentas, máquinas para produção artesanal e até instrumentos musicais

Ana Freitas no Nexo

A biblioteca pública da cidade de Sacramento, na Califórnia, é composta por um sistema de 28 unidades distribuídas pela cidade. Normalmente, além do catálogo de livros, CDs revistas e jornais, as bibliotecas oferecem computadores públicos, Wi-Fi gratuito, e-books e audiobooks para empréstimo, além de serviços gratuitos de impressão. Até aqui, nada de novo.

Uma das unidades, no entanto, inaugurou em 2015 um serviço pouco ortodoxo para uma biblioteca. Agora, eles também fazem empréstimo de coisas – algumas só podem ser usadas dentro da biblioteca, enquanto outras podem ser levadas para casa. São jogos de tabuleiro, equipamentos tecnológicos, videogames, ferramentas e máquinas de costura.

Como funciona a ‘coisoteca’

Nos EUA, existem espaços para empréstimo de ferramentas desde os anos 1970. Hoje, há 40 desses lugares espalhados pelo país. Há também centros de empréstimo de sementes espalhados pelo país. Mas é a primeira vez que uma biblioteca tradicional, de livros, agrega empréstimo de outros objetos.

Os equipamentos disponíveis na biblioteca são gratuitos para empréstimo e foram financiados por meio de verba de um órgão federal, o Instituto Norte-americano de Museus e Serviços de Biblioteca, ou doados pela comunidade. Estes são alguns itens da “coisoteca” de Sacramento:

Para levar para casa: aparelhos de videogame, máquinas de costura, instrumentos musicais, jogos de tabuleiro, máquinas para confecção de bottons, impressora de tecidos, laminadora, projetores, câmera filmadora para esportes, mesa digitalizadora.

Para usar na biblioteca:ferramentas e oficina de bicicletas, scanner 3D, laboratório de impressão 3D, máquina de costura profissional.

Para pegar os itens da “coisoteca” emprestados é preciso ser residente nos EUA, ser maior de 18 anos – exceto no caso dos videogames – e se cadastrar gratuitamente como membro do sistema público de bibliotecas da Califórnia. Como no caso de empréstimos tradicionais de livros, atrasos na devolução geram cobrança de multa.

Um dos objetivos do serviço de empréstimo de itens é atrair as pessoas de volta ao espaço da biblioteca. A revolução digital, que democratizou o conhecimento e mudou a lógica de acesso a bens culturais, gerou um questionamento sobre a função desses espaços no mundo moderno.

“É quando você cria um projeto que chama a atenção das pessoas que você as lembra de outras coisas que uma biblioteca tem a oferecer.”

Lori Easterwood

Responsável pela biblioteca de “coisas” de Sacramento

Entre educadores, bibliotecas não são vistas apenas por sua função pragmática, a de empréstimo de livros. Elas também atuam como centros culturais e sociais, além da função educacional. A inclusão de empréstimo de outros itens que não sejam livros faz parte da dimensão mais ampla da função de uma biblioteca: reunir a comunidade para promover conhecimento e debates sobre questões pessoais e locais relevantes.

Como é no Brasil

Não há “coisotecas” públicas no país. Serviços de empréstimo de coisas, geralmente, funcionam por meio de iniciativa privada – há uma série de aplicativos para celular com essa função, na qual usuários oferecem e pedem equipamentos emprestados a outras participantes da rede.

Em São Paulo, no entanto, uma alternativa para centros culturais que permitem uso gratuito de ferramentas e oferecem oficinas na área de criação são os FabLabs. Em dezembro de 2015, a prefeitura da cidade inaugurou o primeiro desses centros. Hoje, há doze deles espalhados pela cidade.

Os FabLabs disponibilizam, além de cursos, máquinas e ferramentas para criação, todos associados à chamada “cultura maker”. São impressoras 3D, cortadoras laser, computadores com software de modelagem e fresadoras, por exemplo. Os centros também mantêm instrutores que ensinam como usar os equipamentos.

Os tesouros escondidos nas grandes bibliotecas particulares de Curitiba

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 Miguel Kfouri: chegou a trazer 33 quilos de livros da França de uma vez só Daniel Castellano/Gazeta do Povo

Miguel Kfouri: chegou a trazer 33 quilos de livros da França de uma vez só Daniel Castellano/Gazeta do Povo

 

Elas possuem milhares de exemplares, algumas têm bibliotecária própria e outras ganharam até um apartamento exclusivo para serem abrigadas. Em comum, a imensa paixão de seus donos pelos livros

Susy Murakami, na Gazeta do Povo

O ex-presidente do Tribunal de Justiça do Paraná Miguel Kfouri Neto já chegou a trazer da França 33 quilos de livros – pagos em várias prestações – para completar sua coleção particular.

Paulo Venturelli, professor aposentado da Universidade Federal do Paraná, comprou um apartamento que é habitado por 15 mil seres fantásticos: seus livros. Ele faz questão de os separar por país de origem.

O Caderno G visitou estes templos construídos por meio de décadas de investimento e dedicação. Veja a seguir o que guardam em suas estantes e o que motiva os donos de grandes bibliotecas particulares de Curitiba a manter milhares de obras em suas casas.

Paulo Venturelli – Um apartamento só para os livros

“Quando eu era adolescente, eu tinha um professor que dizia: para ser inteligente, é preciso ler um livro por semana”. O conselho dado ao professor aposentado da Universidade Federal do Paraná Paulo Venturelli foi mais do que seguido à risca. Foi necessário para lá de um livro por semana para encher as estantes do apartamento comprado exclusivamente para abrigar sua biblioteca. Hoje já são 15 mil livros de um acervo que continua crescendo.

O primeiro exemplar ele guarda até hoje: Boitempo, de Carlos Drumond de Andrade, adquirido em 1968 com o dinheiro do almoço do dia. “Almoçar eu almoçaria no dia seguinte. Já o livro poderia não estar mais lá”, recorda.

Assim como essa obra de grande valor pessoal, qualquer outra, entre as milhares, pode ser encontrada “no escuro” pelo professor. Ele sabe onde está cada um dos livros, que ficam separados por país: Brasil, Inglaterra, França, Índia, Japão, Turquia e tantos outros. Os títulos, além de literatura, abordam história, política, futebol e tantos outros também. Tem livros que já leu dez, quinze vezes. “Cada livro que leio é uma vida nova, um universo novo. Tenho uma vida que se renova a cada dia sem o peso da mesmice”.

Entre temas atuais e de seu interesse, alguns são apenas resgate das lembranças da adolescência. Da trilogia da autora francesa Raoul de Navery, que havia lido quando estava no colégio interno, faltava o primeiro volume “Sepultada Viva” que finalmente conseguiu em um sebo. Veio com uma dedicatória datada de 1952 de uma madre para uma aluna. Esse é um dos que ainda hesita em reler. Receia que o encanto produzido pela leitura na adolescência não se repita.

Venturelli também é doutor em literatura, membro da Academia Paranaense de Letras e tem cerca de 20 obras publicadas.

Kfouri: A biblioteca chegou a ter 9 mil exemplares, contando as revistas de jurisprudência, mas hoje tem “apenas” cerca de 3 mil, incluindo outros temasDaniel Castellano/Gazeta do Povo

Kfouri: A biblioteca chegou a ter 9 mil exemplares, contando as revistas de jurisprudência, mas hoje tem “apenas” cerca de 3 mil, incluindo outros temas Daniel Castellano/Gazeta do Povo

 

Miguel Kfouri Neto – 33 quilos de livros

Grandes referências do direito nacional e internacional podem ser encontradas na biblioteca do desembargador e ex-presidente do Tribunal de Justiça do Paraná Miguel Kfouri Neto. O acervo foi sendo montado ao longo de mais de 30 anos com clássicos, lançamentos, obras esgotadas, periódicos e tudo o que poderia ser relevante para o estudo do direito. A biblioteca chegou a ter 9 mil exemplares, contando as revistas de jurisprudência, mas hoje tem “apenas” cerca de 3 mil, incluindo outros temas.

Leitor voraz, Kfouri Neto tem formação em letras e foi professor de português. Mas o vício em comprar livros começou depois de ser aprovado no concurso para magistratura, em 1984. Entre as principais aquisições estavam obras usadas como referência em acórdãos dos tribunais ou citações em petições. “Não sossegava enquanto não adquiria tal livro, se já não o tivesse, para conferir a transcrição”, revela.

Também ia colecionando exemplares para utilizar nas aulas de direito processual civil que lecionava, para o mestrado, doutorado e para os três livros que publicou relacionados ao direito médico e da saúde. Esse tema ocupa em torno de 20% do espaço da biblioteca.

A certa altura, quando ainda morava no interior, sua esposa proibiu a entrada de vendedores de livros em sua casa. “Eu tinha que ver os livros na esquina, longe dos olhos dela”, lembra.

Quando veio a Curitiba teve que ir se desfazendo de uns tantos “com dor no coração”, pois a situação ficara insustentável. Hoje eles ainda ocupam mais de um cômodo da casa, além da biblioteca, contrariando a advertência contida no primeiro livro que leu na magistratura: “De regra, nossas casas e apartamentos já não tem lugar para bibliotecas, além disso, a grande biblioteca é um luxo caro e desnecessário” – A Voz da Toga, Eliézer Rosa.

Biblioteca Roberto Campos: acervo de mais de 8 mil obras com anotações e dedicatórias que podem ser consultadas pelo públicoHenry Milleo/Gazeta do Povo

Biblioteca Roberto Campos: acervo de mais de 8 mil obras com anotações e dedicatórias que podem ser consultadas pelo públicoHenry Milleo/Gazeta do Povo

Biblioteca Roberto Campos – Homenagens de Bill Clinton e da Rainha da Inglaterra

Entrar na sala Roberto Campos, da biblioteca da Universidade Positivo, é como invadir uma parte do universo particular de um dos maiores economistas que o Brasil já teve. Roberto Campos morreu em 2001 e deixou um acervo de mais de 8 mil obras com anotações e dedicatórias que podem ser consultadas pelo público.

Sua vasta coleção de livros foi disputada por várias instituições, sendo, ao final, adquirida pelo Grupo Positivo que não revela o valor pago. O acervo está aberto para consulta pela comunidade em geral, mas não pode ser emprestado.

Admirado pela inteligência e pelo conhecimento na área econômica, Campos foi ministro, embaixador e escritor. Em sua gestão nasceram o Banco Central, o FGTS, a caderneta de poupança. Implementou reformas, elaborou programas de governo, foi também senador, deputado e deixou uma série de outros legados.

A biblioteca expõe cerca de 30 objetos que pertenceram a Campos.

Observando as prateleiras, descobrirá seu interesse pelos mais variados assuntos e grande inclinação pelas biografias. A quantidade de dicionários também impressiona. Um deles, o “Novo dicionário da língua portuguesa”, de Jânio Quadros, conserva a dedicatória do autor: “Ao embaixador Roberto Campos, mesmo sabendo que a obra lhe é supérflua”.

As obras de autoria de Campos também estão disponíveis no acervo. O economista Gustavo Franco foi um dos frequentadores assíduos do local, que serviu de fonte de pesquisa para o seu livro “A leis secretas da economia: revisitando Roberto Campos e as leis do Kafka”.

O espaço faz jus ao valor das obras, sendo elegantemente decorado com peças de artes e objetos antigosHenry Milleo/Gazeta do Povo

O espaço faz jus ao valor das obras, sendo elegantemente decorado com peças de artes e objetos antigosHenry Milleo/Gazeta do Povo

René Dotti – Bibliotecária para cuidar do acervo

Grande admirador das bibliotecas bem formadas, Renê Dotti, um dos mais respeitados juristas do Brasil mantém em casa seu próprio acervo de obras seletas. Livros não se compra por metro, sugere ele.

Não à toa, tem uma coleção de obras raras: do Código do Processo Criminal de Primeira Instância do Império do Brasil, de 1882, a uma edição italiana da ópera O Guarany, de Carlos Gomes, dedicada A sua Maestá Dom Pedro IIº, Imperatore del Brasile. Da obra poética Paraíso Perdido, de John Milton, possui quatro versões, a mais antiga é de 1789.

A bibliotecária, Mônica Catani, contratada para cuidar do acervo, registrou até o momento 5600 obras, mas estima ter mais de 15 mil. O acervo valioso ganhou seus primeiros itens nos anos 50. Em princípio, eram relacionados ao tema de interesse do então estudante de direito. “Mas sempre achei que atividade de advogado era complementada de literatura, de arte…”, ressalta Dotti, que também é membro da Academia Paraense de Letras.

Muitos dos exemplares foram adquiridos em feiras de antiguidade ou em sebos de vários cantos. Mas não é apenas às coleções antigas que Dotti dispensa atenção. Está sempre alerta aos lançamentos ou ao que “está na ordem do dia”. Uma das aquisições mais recentes é reedição de “Ópio dos Intelectuais”, de Raymond Aron, que ganhou nova tradução em 2016.

O espaço faz jus ao valor das obras, sendo elegantemente decorado com peças de artes e objetos antigos. Ao fundo, um minipalco revela que o encanto pelo teatro segue intacto. Antes do direito, Dotti fez parte de um grupo que tinha Ary Fontoura entre seus integrantes.

Todo esse arsenal de conhecimento não fica restrito às quatro paredes da biblioteca. As penitenciárias que visita é um dos destinos das doações que costuma fazer.
Marcelo Almeida – Indicações de Michel Temer

Formado em engenharia civil, Marcelo Almeida, ex-vereador e ex-deputado federal, indica que se tivesse que exercer a profissão seria a de engenheiro dos livros. “O curso de engenharia foi um erro”, aponta. “Eu deveria ter feito jornalismo, letras…”. O entusiasmo pela leitura logo entrega sua afinidade com a área de Humanas.

A relação de amor com os livros tornou-se forte na faculdade e teve como grande cupido o respeitado escritor curitibano Jamil Snege (1939-2003) de quem foi amigo pessoal. “Ele colocou uma frase que mudou minha vida: ‘você vai ser o que você ler”. Desde então, mergulhou na leitura, tendo preferência pelos romances.

Mas em sua biblioteca particular, que deve passar dos 1500 livros, tem também muito de política, urbanismo, história, autoajuda. “Se eu leio autoajuda? Eu leio qualquer coisa. Tirei uma coisa muito boa daqui”, diz, antes de recitar um trecho de “Como Chegar ao Sim”, de William Ury.

Fora os livros pessoais, compra centenas de um mesmo exemplar para distribuir aos integrantes do “Conversa Entre Amigos”, clube que criou há mais de dez anos para reunir leitores e autores e promover discussão sobre as obras. A reunião é feita em torno de cinco vezes ao ano e já teve nomes internacionais e locais, como Mia Couto, J.M. Coetzee, Laurentino Gomes e Domingos Pellegrini.

De épocas de efervescência na política prefere tirar proveito apenas dos assuntos e temas discutidos, ir fundo nas leituras e aprender sobre fundamentos da democracia e governos.

Paulo José da Costa: o sebo Fígaro de Curitiba tem 20 mil livros em estoque. O acervo particular tem “mais ou menos 3 ou 4 mil obras”, calculaDaniel Castellano/Gazeta do Povo

Paulo José da Costa: o sebo Fígaro de Curitiba tem 20 mil livros em estoque. O acervo particular tem “mais ou menos 3 ou 4 mil obras”, calculaDaniel Castellano/Gazeta do Povo

Paulo José da Costa – Discoteca judaica

O gosto pela leitura e o dom para o comércio manifestaram-se desde cedo na vida de Paulo José da Costa. Na década de 50, com 6, 7 anos, já lia as célebres quadrinizações e gibis da época e participava dos eventos onde se faziam trocas de exemplares. “Eu ia com 50 gibis e voltava com 54 e a minha pilha ia sempre aumentando”, relembra.

A pilha cresceu e variou tanto que acabou virando o tradicional sebo Fígaro de Curitiba com 20 mil livros em estoque. O acervo particular tem “mais ou menos 3 ou 4 mil obras”, calcula Costa.

Assim como no estabelecimento, a coleção de casa está mais para “culturoteca”, pois além dos livros, é composta por discos, DVDs e fotografias. Começou com livros sobre música e hoje tem, basicamente, obras de história, música e arte e nada de literatura. “Perdi o gosto pela ficção. Gosto de coisas que aconteceram”, explica. Também por causa do volume prefere limitar-se ao que realmente tem interesse.

Por isso, tem sempre o trabalho de fazer um bom garimpo em bibliotecas privadas inteiras que lhe são oferecidas para compra. De cada cem livros que vão para o sebo, dois ou três ele leva para casa. Nessa de examinar acervos, se depara com fotografias antigas que para ele são valiosas narrativas revelando todo o contexto de uma época ou lugar. Os retratos acabam sendo incorporados ao material adquirido e já superaram em muito o número de livros: cerca de 30 mil.

Muitas obras são raras e algumas de valor inestimável, como um disco de Heitor Villa Lobos com assinatura e um “aprovo” escritos pelo ele. É um disco enviado pela gravadora para avaliação e aprovação do maestro e compositor na década de 1940.

Dica do Chicco Sal

O namoro telefônico de Borges e outros segredos da Biblioteca Nacional da Argentina

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Trabalho de restauração na Biblioteca Nacional da Argentina. Ricardo Ceppi

Trabalho de restauração na Biblioteca Nacional da Argentina. Ricardo Ceppi

 

Restauradores, ‘detetives’ e inventores trabalham às sombras para preservar o patrimônio bibliográfico

Mar Centenera, no El País

Uma bala perdida em uma publicação periódica, o namoro telefônico que Jorge Luis Borges manteve durante mais de dois anos com uma mulher, mapas que apagaram a presença indígena no país e o fantasma de Evita Perón são alguns dos segredos ocultos na face invisível da Biblioteca Nacional da Argentina. Ao cruzar suas portas, abre-se um universo de prateleiras, elevadores de carga, escadas, salas com temperatura e umidade controladas, oficinas e máquinas, habitado por especialistas apaixonados que catalogam, restauram, ordenam, pesquisam, microfilmam e digitalizam o patrimônio bibliográfico nacional. É também uma viagem no tempo, na qual é possível se deslumbrar – frente a livros do século XV, fotografias do XIX e registros audiovisuais do princípio do XX.

O acervo da biblioteca consta de três milhões de peças, entre livros, jornais, partituras, mapas, fotografias, discos e outros, e cresce de forma constante. Os recém-chegados são recebidos na seção de Aquisições, onde são carimbados e dotados de alarme. Logo passam para o Departamento de Processos Técnicos, para serem catalogados e ordenados por tamanho, antes de continuarem rumo ao depósito geral. Ali, distribuídos em três porões – que ocupam 19.000 metros quadrados do edifício desenhado por Clorindo Testa –, as publicações posteriores a 1940 aguardam o chamado de algum leitor para serem subidas em elevadores de carga até as salas de leitura.

O itinerário habitual está cheio de exceções. Se o material chegar em mau estado – ou se for descoberto deteriorado no depósito – vai direto para o pronto-socorro: a Conservação Preventiva. “Há livros que chegam muito destruídos, muito manuseados, com péssimas intervenções e depois de serem constantemente golpeados pelo tempo”, descreve Pablo Cortez, um dos 36 integrantes do departamento. Eles já viram de tudo: mapas dobrados e furados, exemplares sem lombada, com folhas soltas que tinham que ser montadas como um quebra-cabeça, páginas rasgadas e consertadas com fita adesiva e até um jornal que chegou com um projétil dentro. A missão desses técnicos é estabilizar o material e conter a degradação.

Caso precise de mais cuidados, o paciente é internado na Preservação e Restauração. Nessa oficina, com paciência infinita, mãos especializadas e detalhistas reparam os danos peça por peça. Alguns dos livros que chegam aqui se esfarelam ao toque, o que obriga a extremar as precauções sobre o objeto e pode prolongar o trabalho por semanas ou mesmo meses. Para a limpeza são usados pinceizinhos de cerda suave e borracha ralada; para remendar folhas rasgadas, papel japonês e uma cola natural feita de água e amido de trigo. “Os critérios de conservação são o respeito ao original e a reversibilidade de todos os tratamentos. Por isso se usa esta goma, porque com um pouquinho de umidade se pode retirar o papel japonês”, explica um dos restauradores.

Negativos escondidos num trem

O trabalho minucioso se repete na fototeca e na mapoteca. No dia da visita do EL PAÍS, a conservadora fotográfica Denise Labraga se dedicava aos negativos do jornal Notícias, que circulou em 1973 e 1974, até ser fechado por um decreto da Isabel Perón. “O material foi escondido em uma sacola num trem que fazia o percurso Buenos Aires-Tucumán. Passou alguns anos fazendo essa viagem escondida”, detalha Labraga. Depois, os negativos passaram 30 anos perdidos, até chegarem à biblioteca “em estado impecável”.

Perto dela, o historiador fotográfico Abel Alexander, descendente de daguerreotipistas pioneiros procedentes da Alemanha, descreve uma das joias mais antigas do acervo: uma fotografia de Buenos Aires tirada pelo italiano Benito Panunzi em 1867 ou 1868. “Mostra uma cidade achatada, não havia nenhum edifício com mais de dois andares, com ruas de pedras e transporte a tração animal. Era uma cidade tranquila, quase colonial, mas já despontava como uma grande capital da América Latina.”

Os primeiros mapas desta instituição remontam ao século XVIII, quando cartógrafos franceses, ingleses e espanhóis chegaram ao continente americano em diversas expedições, segundo Graciela Funes, chefa do departamento. Entre os mapas mais importantes dessa época estão os cadastrais, que estabeleciam onde cada pessoa morava. “Aí se pode ver como as pessoas se adaptam às circunstâncias, às guerras…”, diz Funes, citando como exemplo as mudanças ocorridas em 1880, por causa da campanha oficial do Governo argentino para povoar territórios: “Nos primeiros mapas, onde havia diaguitas [um grande grupo indígena que habitava o noroeste da Argentina] puseram índios diaguitas. Em 1880, onde havia diaguitas colocam arvorezinhas, para que as pessoas não se assustassem”.

Os restauradores da biblioteca, orgulhosos do seu trabalho, defendem as virtudes do material sobre o qual labutam: “A era digital nos dá acesso rápido à informação, mas o suporte que tem mais durabilidade é o papel. Há hoje livros do ano 1000 que estão em bom estado, ao passo que um DVD não dura 20 anos”. Os microfilmes, que contêm cópias do acervo bibliográfico, supostamente conservam-se por 500 anos em condições ótimas. A duração do suporte digital, ao qual a instituição começou a converter todo o seu catálogo, ainda é um mistério. Para facilitar essa tarefa titânica, a Biblioteca Nacional conta com um inventor, Rubén Barbei, ex-funcionário da Canon, que está atualmente em pleno processo de fabricação da máquina digitalizadora Biblos II.

Não há na biblioteca nenhum livro milenar, mas sim 21 incunábulos – os primeiros livros impressos – do século XV, entre eles uma página de uma Bíblia de 1454 e um exemplar comentado da Divina Comédia, de Dante Alighieri, de 1484. Eles ficam no coração da instituição, a sala do Tesouro. “Estão em um depósito fortificado e com câmaras de segurança”, diz María Etchepareborda, responsável por esse espaço. Lá também são conservados alguns dos primeiros livros impressos na Argentina, como um Vocabulário da Língua Guarani, de 1772, procedente de uma missão jesuítica do norte do país. “A Argentina não tinha autorização [da Espanha] para fazer uma imprensa, e os jesuítas fizeram a sua própria prensa de tipos móveis”, conta Etchepareborda. Manuscritos, livros estranhos e primeiras edições também são guardados neste depósito custodiado.

A história da Biblioteca Nacional ajuda a entender o amor pelos livros que ainda hoje os argentinos professam, como provam as inumeráveis livrarias da capital. Sua antecessora direta, a biblioteca pública de Buenos Aires, foi criada por decreto pela Primeira Junta em 1810, seis anos antes de o país declarar sua independência. Desde então, teve como diretores intelectuais de grande prestígio, em especial Paul Groussac (1885-1929) e seu sucessor mais célebre, Jorge Luis Borges (1955-1973).

“Ele passeava sozinho pela Biblioteca e quase nunca falava em castelhano. Falava em inglês ou em francês”, recorda Héctor Sigales, um dos funcionários mais antigos, que trabalhou com Borges em seus últimos dois anos como diretor, quando a Biblioteca ainda ocupava a sede anterior, no bairro de San Telmo. “Em cada livro que lia colocava uma crítica”, acrescenta Sigales.

Essas notas manuscritas são o objeto do desejo dos pesquisadores Laura Rosato e Germán Álvarez. Depois de anos de busca dentro e fora da Biblioteca, reuniram 800 livros com anotações e grifos de Borges, que forneceram pistas sobre os processos de leitura e escrita do genial contista. Mas nesse trabalho detetivesco ainda surgem surpresas, como as notas encontradas numa tradução espanhola dos quatro evangelhos. “Achávamos que era um manuscrito, mas nos enganamos. Registram seu namoro telefônico com, supomos pela data, Estela Canto. Está anotado, de forma quase obsessiva, todas as vezes que liga para ela dia após dia, durante dois anos e meio”, relata Álvarez. Se não houver imprevistos, no ano que vem os detalhes virão à luz. Muitas outras histórias, ainda inéditas, aguardam sua vez.

As mais impressionantes bibliotecas alemãs

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Publicado no DW

A única coisa que se precisa saber com certeza é onde fica a biblioteca, disse Albert Einstein uma vez. Confira aqui uma seleção de bibliotecas na Alemanha, em estilos que vão do barroco ao modernismo sem adornos.

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Biblioteca Municipal de Stuttgart

Projetada para ser um centro de produção cultural, a Biblioteca Municipal de Stuttgart foi construída em 2011, como um cubo de nove andares. As paredes externas são de tijolos de vidro levemente acinzentados. No interior, ela é totalmente branca. Os livros que revestem os cinco andares do luminoso vão interno são os únicos arroubos de cor. À noite, a biblioteca é iluminada em diferentes cores.

 

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Biblioteca Anna Amalia

A Biblioteca Anna Amalia é uma pequena joia em Weimar que abriga livros, mapas, partituras e registros ancestrais. O seu nome é uma homenagem à duquesa, que fez com que os livros da corte fossem transferidos para o edifício rococó em 1766. Um incêndio em 2004 destruiu parte da preciosa coleção. O prédio considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco foi reaberto após três anos de restauração.

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Biblioteca Augusta

A Biblioteca Duque Augusto em Wolfenbüttel é uma das mais antigas do mundo entre as que chegaram aos dias atuais sem perdas em suas famosas coleções. Ela foi transformada numa das maiores bibliotecas europeias de sua época pelo duque Augusto (1579-1666), um ávido colecionador de livros. Ainda hoje, os acadêmicos continuam a recorrer à instituição por sua riqueza em literatura medieval.

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Biblioteca Foster

Devido à sua forma craniana, esta instituição berlinense foi apelidada de “o cérebro”. Ela abriga as bibliotecas dos Departamentos de Filosofia e Humanidades da Universidade Livre de Berlim e logo se tornou um marco arquitetônico. Inaugurada em 2005, ela foi projetada pelo arquiteto britânico de renome internacional Norman Foster.

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Biblioteca de Ciências de Oberlausitz

Localizada em Görlitz, junto à fronteira com a Polônia, a Biblioteca de Ciências de Oberlausitz remonta a 1806. Simples, mas convidativa, trata-se de um dos mais impressionantes exemplos classicistas de prédios de biblioteca. Mais de 140 mil livros documentam a (mais…)

Em exposição, o acervo raro e singular da Biblioteca Nacional

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Centenas de obras guardadas na instituição são apresentadas pela primeira vez em mostra

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – O acervo de 9 milhões de itens da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) reúne tempos, assuntos e lugares diversos. A exposição “Gabinete de obras máximas e singulares”, em cartaz até o dia 31 de outubro, faz uma viagem a esse tesouro. Nas 18 vitrines espalhadas pelos corredores da biblioteca estão 507 itens que nunca tinham sido expostos ao público, conta a curadora Cláudia Fares, como um exemplar de 1529 de uma obra do viajante veneziano Marco Polo, em que relata as maravilhas vistas em suas peripécias no Oriente.

Uma das vitrines da exposição 'Gabinete de obras máximas e singulares' - Jaime Acioli / Divulgação

Uma das vitrines da exposição ‘Gabinete de obras máximas e singulares’ – Jaime Acioli / Divulgação

 

A mostra foi inspirada nos gabinetes de curiosidades que surgiram no século XVI. As grandes navegações expandiram o mundo conhecido pelos europeus até então. Toda a cultura dos povos recém-descobertos era registrada pelos viajantes e, depois, guardada nos gabinetes. A exposição foi dividida em múltiplos temas, como “Torre de Babel”, “A invenção do Novo Mundo”, “Utopia e distopia”, entre outros.

— Cada vitrine abre uma conversa com o visitante. Na hora que você se detém em cada uma delas, pode criar suas próprias associações. É como um caleidoscópio. Cada vez que você olha, vê de maneira diferente — explica Cláudia. — O gabinete de curiosidades era uma maneira barroca de ver o mundo, onde o real e o fabuloso estão juntos. A lógica da exposição tinha que ser livre assim.

A curadora conta que a pesquisa no acervo para a montagem da exposição envolveu muitas conversas com os chefes responsáveis por cada setor da biblioteca, “pessoas super capacitadas, de dedicação ímpar”. Entre as pepitas descobertas estão um exemplar em alemão de “Mein Kampf”, de Adolf Hitler, e a Segunda Bíblia Hebraica, do século XVI. Nesta edição, pela primeira vez, foram publicadas notas críticas feitas por doutores judeus nas margens do texto bíblico, para preservar ortografia, pronúncia e acentuação exatas. A partir do que o acervo revelava para ela, Cláudia ia agrupando e montando as vitrines.

Uma das obras eróticas expostas é 'Pinto renascido, empenado e desempenado', de Thomaz Pinto Brandão, publicada em 1794. - Fotos de Divulgação

Uma das obras eróticas expostas é ‘Pinto renascido, empenado e desempenado’, de Thomaz Pinto Brandão, publicada em 1794. – Fotos de Divulgação

 

— A vitrine das “Utopias e distopias” foi a primeira que eu fiz. Eu tinha visto o manuscrito de “Os sertões”, de Euclides da Cunha, no setor de manuscritos. Depois, encontrei o “Paraíso perdido”, de John Milton. Aí caiu a ficha das utopias e distopias, Canudos, o paraíso perdido. E ainda descobri que a biblioteca tinha a primeira edição do “Mein Kampf” — lembra a curadora.

Há, também, um “Gabinete Secreto”. Montado no Salão de Obras Raras, a vitrine reúne 90 obras relacionadas à pornografia e ao erotismo. O gabinete foi inspirado naquele criado por funcionários da Biblioteca Nacional de Paris, no século XIX, para salvar da destruição obras consideradas ilegais, eróticas, imorais ou de caráter ofensivo. Entre os exemplares à vista do público, maior de idade, estão uma ilustração do artista italiano Gino Boccasile para o “Decamerão”, de Biovanni Boccaccio.

SERVIÇO

Onde: Biblioteca Nacional — Av. Rio Branco 219 (2220-9484)

Quando: De terça a sexta, das 10h às 17h. Sábado, das 10h30m às 14h. Até 31/10.

Quanto: Gratuito.

Classificação: Livre.

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