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Escola muda festa junina para “festa da colheita” por alunos evangélicos

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Insituto Educap de Campo Grande (MS) substituiu a festa junina pela festa da colheita para incluir alunos evangélicos

Insituto Educap de Campo Grande (MS) substituiu a festa junina pela festa da colheita para incluir alunos evangélicos

 

Thiago Varella, no UOL

Ano após ano, o Instituto Educap, de Campo Grande (MS), via o número de alunos que participava da festa junina do colégio diminuir. Isso ocorria, porque esses estudantes eram de famílias evangélicas que não queriam que seus filhos celebrassem uma festa católica.

Para, enfim, integrar esses alunos, a escola decidiu mudar a festa. Em vez de festa junina, o colégio agora celebra a festa da colheita, uma celebração laica.

“Percebemos que nossa festa estava no automático. Só reproduzir a festa não vale a pena se não for algo bem reflexivo. Por isso, fizemos um resgate da colheita, da questão da alimentação na vida das pessoas. A festa da colheita tem o objetivo de celebrar os alimentos”, disse Celia Tavares Rino, diretora pedagógica do Instituto Educap.

Antes da festa, os professores promovem discussões sobre alimentação com os alunos. Neste ano, segunda vez em que a celebração foi feita, os alunos da educação infantil, por exemplo, estudaram a farinha. Já os estudantes do nono ano, os mais velhos do colégio, discutiram os problemas do meio rural.

“Tudo o que nós vamos fazer ele parte de um currículo vivo. A festa pela festa não tem sentido. Tem sentido sim se você faz um resgate histórico e cultural. Mostrar, por exemplo, que a cultura do campo é diferente da cultura urbana”, afirmou Celia.

Mesmo na festa da colheita, os alunos se vestem de camisa xadrez e chapéu de palha como nas festas juninas tradicionais

Mesmo na festa da colheita, os alunos se vestem de camisa xadrez e chapéu de palha como nas festas juninas tradicionais

 

Além de muita comida, a festa conta com danças e uma decoração rural. Os alunos mais novinhos vão vestidos como caipiras, mas os mais velhos, segundo a diretora, não se importam com isso. No fim das contas, o objetivo de integrar os alunos não-católicos à festa foi alcançado.

“Desconstruímos a festa e agora as crianças evangélicas participam. O foco no alimento fez um leque maior de abrir”, completou.

Me formei, e agora?

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Texto de Marina Bergamaschi

A passagem do Ensino Superior e o ingresso no mundo do trabalho costuma ser um momento delicado na vida de um profissional. Seja no meio da faculdade — nos estágios obrigatórios ou extracurriculares — seja após a formatura — ao se tentar vagas para o primeiro emprego efetivo ou para processos seletivos direcionados (como os Programas de Trainees), abandonar a condição exclusiva de estudante e iniciar-se como profissional inaugura uma grande transição de status e responsabilidade.

É um momento que revisita a passagem do Ensino Médio para o Ensino Superior e traz novamente à tona as escolhas do final da adolescência: Com que vou trabalhar? Devo continuar a estudar? Como ingressar no mercado? Que estilo de vida posso e quero levar? De que forma posso sustentar meus sonhos?

Porém, mais que reviver a primeira escolha vocacional, trata-se de um momento de construção da identidade ocupacional. Ao mesmo tempo em que o jovem profissional revive suas angústias escolares, defronta-se com novas angústias do mundo adulto e com uma cobrança social renovada para que se posicione de forma muito mais contundente, “adequada” à sua nova posição social: Como pagar as contas? Qual a melhor proposta de emprego? Trabalhar com o que gosto ou com o que paga mais? Como conciliar trabalho e vida pessoal?

Os privilégios que lhe eram concedidos na infância (e para uma parcela ainda mais privilegiada, até o final da faculdade ou além) não existem mais e surge uma comparação com seus pares e gestores, muitas vezes sentidos como competidores mais experientes e que o cobram por atitudes e decisões que ele ainda não se sente preparado para tomar.

A distância entre a formação acadêmica e a realidade cotidiana do trabalho desampara o jovem na entrada no mercado. Escolas e universidades os ensinam a refletir, questionar, criticar, enquanto o mercado ainda espera por boa adaptação às normas, aos valores vigentes, à cultura organizacional, ao job description… Inovação sim, claro, desde que não ponha em risco a fidelidade dos velhos e bons clientes, não questione a autoridade do especialista com tanto tempo de casa, não passe por cima da hierarquia estabelecida… (Salvo raras exceções.)

A busca desenfreada por novos talentos faz com que organizações desenvolvam programas cada vez mais complexos, que prometem mundos e fundos tanto para os candidatos quanto para os resultados do negócio. São oportunidades de Summer Job, Estágio, Trainee, Pós-Trainee, que oferecem ascensão rápida, salário competitivo, autonomia e autogestão, mas acabam por encontrar um gap imenso entre o esperado e o real em termos de maturidade, comprometimento e desempenho, levando a altos índices de rotatividade, seja por desligamento ou abandono. Situações que me lembram de um cartoon popular no final dos anos 90: Pink e Cérebro tinham ideias mirabolantes para dominar o mundo todas as noites, mas no final, eram só dois ratinhos de laboratório… ;-D

A primeira ilusão foi quebrada: não se estuda apenas o que se gosta na faculdade. Estatística na faculdade de Direito, Anatomia na faculdade de Esporte, Genética na faculdade de Psicologia, Antropologia na faculdade de Economia, Sociologia na faculdade de Medicina… Ok, você sobreviveu a isso.

A segunda ilusão está prestes a ser desmascarada também: não se aprende tudo na universidade. Na verdade, a faculdade mais parece um cardápio, onde você entende os principais ingredientes de cada prato (cada abordagem teórica, cada técnica, cada atuação profissional); prova de uma, talvez duas, quiçá três (em iniciações científicas, estágios obrigatórios, trabalhos extracurriculares); mas não se aprende a cozinhar de fato nenhuma refeição completa (para isso, é preciso especializações, é preciso a prática, a experiência, a vida de trabalho em si). Você vai desenvolver as ferramentas ao longo da sua vida laboral, as bases acadêmicas são uma iniciação, mas é um processo contínuo de aprendizagem (ainda bem!) que continuará te desafiando ao longo da sua trajetória de recém-formado. Você também vai sobreviver a isso.

Mas é a terceira ilusão o maior desafio: depois de conseguir passar naquela DP de estatística, estudar os principais pensadores da Economia, se especializar em Análise Macroeconômica, estagiar em Bancos e ONGs, você finalmente vai ganhar sua liberdade e trabalhar com alegria naquilo que mais ama na vida, certo? Não necessariamente. Essa é a idealização que nos acompanha durante boa parte da (se não por toda) vida. E é irreal porque aquela função escolhida, aquele ambiente definido, aquela missão proferida, aquele cotidiano estabelecido, não respondem conforme o seu desejo e, por isso, não serão sempre satisfatórios, estimulantes e agradáveis.

Para começar, não o serão porque nós mesmos não somos constantemente iguais todos os dias: acordamos mais elétricos ou mais preguiçosos (e isso nos faz mais assertivos ou mais impacientes com aquele cliente, aquela negociação, aquela equipe…), levantamos mais otimistas ou mais desanimados (e isso nos faz mais determinados ou menos resilientes com aquele problema, aquele colega competitivo, aquele desafio novo que assumimos…), vamos para o trabalho mais amorosos ou mais mal-humorados (e isso nos faz mais criativos ou menos generosos com aquela produção, aquele chefe, aquele departamento…).

Em segundo lugar, não o serão porque nós mudamos ao longo da vida. Aquele foco de interesse que temos ao chegar na faculdade se transforma ao longo dela, ao sair é outro, ao se ingressar numa função nova é outro e provavelmente vai se alterar mais algumas vezes no decorrer de nossas vidas. Estudos sugerem que todos nós mudamos nosso tema de interesse no trabalho ao menos quatro vezes ao longo da vida produtiva, ou seja, mesmo quem continua sempre trabalhando com Psicologia Clínica, muito provavelmente comece a vida mais focado em transtornos alimentares, por exemplo, passe a se interessar pelas questões do feminino, da maternidade e por fim acabe trabalhando com crianças. Isso em uma carreira razoavelmente estável, mas há uma boa parte que busca (ou é impelido a) transições ainda mais drásticas: de bancário a nutricionista, de engenheiro a psicólogo, de médico a músico, de editor de vídeo a ator, de advogado a decorador…

Em uma sociedade frenética e disruptiva como a nossa, é cada vez mais natural crescermos com multi-interesses, sermos multi-tarefas, desenvolvermos multi-talentos, já que é cada vez mais claro que muitos caminhos podem levar ao mesmo lugar (um psicólogo, um médico, um administrador e um filósofo podem, todos, resolver trabalhar como Coach) e que uma mesma trajetória inicial pode ter desfechos bem diferentes (um engenheiro pode ser projetista, gerente de obras, administrador público, atuar com segurança e saúde, com meio ambiente e até com coaching partindo praticamente de uma mesma formação-base).

Portanto, amigo Universitário, a resposta à sua pergunta “Me formei, e agora?” é: Agora continua a sua ‘formação’, a formação dos seus valores pessoais, do seu projeto de vida, que será (deve ser) sempre atualizado de acordo com as mudanças de fora e de dentro que você continuará vivendo.

Nem é um começo do zero, inédito (você já carrega uma boa bagagem na mala, então aquelas queixas novelescas “Ai, não tenho experiência nenhuma, não sei de nada, não sirvo para nada…” não procedem) e nem é um final definitivo (por isso chega do drama “Oh, minha juventude, lá se vai minha vida boa, é o fim de uma era…”). Esta é a fase da continuidade: keep walking and carry on! Siga, persista, desbrave e carregue junto as suas experiências vividas e que vão se acumulando e se transformando a cada novo elemento que você põe para dentro da mala.

Pare de vez em quando para olhar os mapas (suas metas, seus desejos, os direcionamentos que lhe foram dados) e recuperar sua energia (seu propósito, sua motivação, sua disposição). Pare de vez em quando para conferir a bagagem (seus conhecimentos, suas habilidades, suas atitudes) e reabastecer quando necessário (novos cursos, novas orientações, novos aprendizados). Pare de vez em quando para encontrar novos rumos (replanejar, recalcular, atualizar) e tomar novos ares (novas parcerias, novas inspirações, novas disposições).

Marina Bergamaschi é sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade, empresa especializada em Orientação Profissional e de Carreira. Estudou Psicologia, Licenciatura e Especialização em Orientação Profissional e de Carreira, todos na USP. Atuou em consultório particular, escola, hospitais, consultorias e empresas nacionais e internacionais. A vivência clínica em terapia Junguiana e Coaching e a experiência organizacional em Recursos Humanos, proporcionaram um olhar humanista que se uniu à paixão por escrever para criar este e outros textos.

As cotas para negros: por que aposto os meus olhos azuis

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Texto de William Douglas

William Douglas Juiz federal (RJ) Mestre em Direito pela Universidade Gama Filho Especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ) Professor e escritor, caucasiano e de olhos azuis

William Douglas
Juiz federal (RJ)
Mestre em Direito pela
Universidade Gama Filho
Especialista em Políticas Públicas e
Governo (EPPG/UFRJ)
Professor e escritor, caucasiano
e de olhos azuis

Roberto Lyra, promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, recomendava aos colegas de Ministério Público que, “antes de se pedir a prisão de alguém, deveria se passar um dia na cadeia”. Algumas coisas, apenas o contato imediato com a realidade permite compreender.

Já fui contrário às cotas para negros, defendendo que seria mais razoável e menos complicado utilizar apenas as cotas sociais. Hoje não penso mais assim. E, embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos. A Constituição é pródiga em fundamentos para, de fato, tornarmos este país melhor e mais decente.

Há ótimos argumentos técnicos favoráveis e contrários às cotas e o valor pessoal e a competência dos contendores comprovam que há gente de bem, capaz, bem-intencionada, honesta e com bons fundamentos nos dois lados dessa questão. Não os usarei aqui, portanto.

Vou deixar minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor e especialista em concursos: não vamos perder nosso momento histórico, nossa oportunidade de descontar parte do atraso de nossa sociedade; vamos criar mais igualdade nas oportunidades de estudo. Rui Barbosa já dizia sabiamente que tratar igualmente os desiguais não é correto.

Trago aqui o argumento que me convenceu a trocar de lado: “passar um dia na cadeia”. Professor de técnicas de estudo, há anos venho fazendo palestras gratuitas sobre como passar no vestibular e Enem para a Educafro, pré-vestibular para negros e carentes.

Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular “para negros”, aceitei o convite para dar aulas como voluntário nessa ONG por entender que isso seria uma contribuição para a formação desses jovens.

Nessa convivência, fui descobrindo que ter acesso a estudo sendo pobre é um problema (que já vivi), mas ser pobre e negro gera um problema bem maior ainda. Claro que alguns negros pobres conseguem, mas isto apenas mostra seu heroísmo, e não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro deste país.

Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos em um colégio onde não há um aluno negro sequer, no qual há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola este ano, uma escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado.

Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de balé. Teve problemas de matemática e providenciei, por ter dinheiro, aulas particulares. A filha de minha empregada não teve dificuldades com matemática porque a sua escola pública está sem professor de matemática. Minha filha tem playground; a outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas.

A filha da empregada, que ajudo o quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa. Toda menina é uma princesa, mas há poucas princesas negras com vestidos, armários e escolas compatíveis, neste país imenso.

A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Sua Justiça. Sei que Deus espera que eu, seu filho, ajude nesse assunto. E, se não cresse em Deus como creio, saberia que, com ou sem um ser divino nessa história, esse assunto não estaria bem resolvido.

O assunto demanda de todos nós uma posição consistente, uma que não se prenda apenas a teorias e comece a resolver logo os fatos do cotidiano: faltam quartos e escolas boas para as princesas negras.

Não que tenha nada contra o bem-estar da minha menina: damos muito duro para ela ter isso. Apenas não acho justo nem honesto que, lá na frente, daqui a uma década de desigualdade, ambas sejam exigidas da mesma forma. É justo que a outra tenha alguma contrapartida para entrar na faculdade. Não seria igualdade nem haveria honestidade ao se tratar as duas da mesma forma só ao completarem o ensino médio.

Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É não fazer nada. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais justos. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: as universidades não podem ficar omissas.

Foi vendo meninos e meninas, negros e pobres, tentando uma chance, tentando manter brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas agruras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos, foi passar “dias na cadeia”. Na cadeia deles, dos pobres, o lugar de onde vieram meus pais, e do qual experimentei somente um pouco, quando mais moço. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido.

Se você discorda das cotas, me perdoe, mas recomendo um dia “na cadeia”. Venha nos visitar na Educafro, venha ver algo que precisa encontrar eco em nossas políticas públicas.

Se você é contra as cotas para negros, eu o respeito, também fui contra por muito tempo. Mas essa semana, na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que frequenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida).

Será que essa desigualdade não persiste por nossa inércia? Você tem argumentos bons, concordo, o outro lado também. O que vai mudar sua opinião é essa realidade nua e crua de falta de oportunidades.

Precisamos confirmar as cotas para negros e para os oriundos da escola pública. Temos que considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles mais oportunidades. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a uma nova realidade.

Queremos você conosco nessa história. Não creio que esse mundo seja seguro para minha filha, que tem tudo, se ele não for ao menos um pouco mais justo com os filhos dos outros, que talvez não tenham tido minha sorte, ou a dela. Talvez seus filhos tenham tudo, mas tudo não basta se os filhos dos outros não tiverem alguma coisa. Alguns dias “na cadeia” me fazem apostar meus olhos azuis nas cotas. Precisamos delas, agora.

Então, como disse Roberto Lyra, “o sol nascerá para todos. Todos dirão – nós – e não – eu. E amarão ao próximo por amor-próprio. Cada um repetirá: possuo o que dei. Curvemo-nos ante a aurora da verdade dita pela beleza, da justiça expressa pelo amor”. Justiça expressa pelo amor e pela experiência, não pelas teses. As cotas são justas, honestas, solidárias, necessárias. E, mais que tudo, urgentes. Fique a favor ou, pelo menos, “visite a cadeia”.

Aos 67 anos, ex-traficante se forma em filosofia e se torna pesquisador em saúde pública

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Ana Beatriz Rosa, no Brasil Post

Aos 67 anos, duas passagens por presídios e muitos roubos, David Norman, ex-traficante de drogas, venceu o seu maior desafio: obter um diploma na Columbia University, em Nova York.

Ele deixou o estereótipo do criminoso perigoso e agora é filósofo e pesquisador em saúde pública.

Mas a trajetória de Norman pelos becos abandonados de Harlem, bairro novaiorquino, não foi fácil. Ainda assim, ele não desistiu.

Ao Daily News, ele contou que obter o diploma foi a prova de que “perseguir os seus sonhos é sempre possível.”

O histórico de Norman é similar ao de muitas pessoas em situação de vulnerabilidade social: começou a beber aos 11 anos; antes dos 15 já injetava heroína; frequentou apenas uma única aula do ensino médio; se prostituiu para alimentar o desejo pelas drogas; foi acusado por homicídio ao esfaquear outro homem em uma briga de rua.

“Eu convivi 35 anos com o vício”, comentou.

Mas a história do ex-traficante se transformou, ironicamente, quando cumpria sua pena no sistema penitenciário. Lá, ele aprendeu hebraico e encontrou o prazer nos livros. A experiência foi tão inspiradora que ajudou Norman a articular um programa que ensina habilidades aos detentos que estão se preparando para a ressocialização após a pena.

“Eu tive momentos de clareza e fui capaz de reconhecer que tudo o que eu tinha feito até aquele momento tinha sido bastante contraproducente. Eu precisava me envolver em algumas novas atividades e ter novos comportamentos”, afirmou ao jornal americano.

Dali em diante, após sua saída em 2000, ele passou a dedicar o seu tempo a desenvolver os seus potenciais.

“Eu refleti sobre o que me levou por esse caminho e o que eu precisava fazer para não ser vítima do vício novamente.”

Ele começou a trabalhar em um hospital auxiliando outros dependentes químicos em recuperação. Depois, passou a ajudar em pesquisas na Columbia University sobre programas de saúde para as comunidades. De lá, foi aceito na Escola de Estudos Gerais da Universidade, onde Norman deu inicio aos seus estudos, mesmo sendo 40 anos mais velho do que a média dos seus colegas.

No dia de sua formatura, ele não escondeu a emoção. Além do trabalho como pesquisador, agora, ele projeta escrever um livro.

Mães universitárias falam sobre a batalha para continuar estudando

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Beatriz Vichessi, no UOL

Engravidar transforma a rotina de qualquer mulher. Se a mamãe em questão é uma universitária, a maternidade representa um desafio a mais. Não se trata apenas de ajustar as tarefas e leituras à atenção que o bebê demanda. Na maior parte das vezes, ela precisa fazer isso sem o apoio da instituição onde estuda.

Embora a Lei 6.202 estabeleça o direito da mãe estudante ao regime domiciliar durante três meses a partir do oitavo mês de gestação (o que significa basicamente estudar à distância ou ter um esquema diferente de entregas de atividades, previamente combinado) e garanta o direito da prestação dos exames finais. Na prática, as instituições de ensino não têm políticas claras para essa situação: deixam nas mãos de cada professor o acerto sobre como fazer as atividades de casa e repor avaliações.

Também é comum encontrar dificuldades para expedir a licença (de afastamento do curso) ou aceitar atestados. Espaços adequados para troca de fralda e amamentação são outra raridade.

Por conta de todos esses percalços, muitas estudantes acabam trancando a matrícula do curso, atrasando a formatura ou obtendo notas menores do que a média. E para piorar há quem seja submetida a constrangimentos, como mostram os relatos abaixo:

imagem: Arquivo Pessoal

imagem: Arquivo Pessoal

Aline Shirazi Conte, 27, mãe de Laura, 4, e Heloísa, 1 ano e 4 meses

“No ano passado, fui pega de surpresa ao chegar para fazer uma prova na faculdade e descobrir que meu nome tinha simplesmente sumido da lista de presença. Estava de licença da faculdade por causa da gravidez da minha segunda filha. Não assistia às aulas, mas fazia os trabalhos e ia à instituição no dia das provas. O professor dessa disciplina me deu muitas faltas e, para piorar, meu nome, por uma falha no sistema da universidade, sumiu da lista de presença. Eu me formaria em dois meses, e aquela avaliação era muito importante para o meu currículo. Assinei atrás da lista, fiz a prova e formalizei minha reclamação por escrito. Cheguei em casa muito revoltada com a situação e escrevi um post no Facebook contando o que havia acontecido. Tinha me preparado para a prova, apesar das dificuldades em conciliar a criação de duas meninas e estudar. Não era justo que fosse proibida de fazer o teste. Na ocasião, disseram que eu estava sujando o nome da USP (Universidade de São Paulo), mas não é verdade. Estava fazendo uma reclamação legítima e deixei claro que a postura desse professor não era compartilhada por todos os docentes. Depois, fiquei sabendo que, apesar da lei, a diretriz da USP estabelecia que fica a cargo do docente decidir se libera a aluna ou não das aulas por conta de ela ter filhos pequenos. Isso é um absurdo porque a estudante fica à mercê da sensibilidade do docente. Com a polêmica do meu caso, a universidade alterou essa norma e agora toda gestante a partir do oitavo mês pode tirar licença integral e fazer as atividades à distância.”

[Na foto, com as filhas e o marido Vinícius Shirazi Conte]
Jaqueline Batista, 31, mãe de Davi, 2 anos e 10 meses

“Estou prestes a me formar em gastronomia pela Universidade Anhembi Morumbi. Chegar até aqui não foi fácil. Quando comecei a faculdade, meu filho tinha um ano e um mês. As aulas iniciaram no mesmo mês que ele começou na educação infantil. Foi um grande baque para nós dois. Ele nunca tinha ficado sozinho e, como também estudo à tarde, não consegui ficar para fazer a adaptação dele na creche. Minha rotina é bastante exaustiva. Parece fácil, pois não trabalho, mas não é. Acordo todos os dias às 5h30, dou conta das tarefas de casa sozinha, cuido dele e tento ler os textos entre uma tarefa e outra. Quase nunca tiro notas altas na faculdade porque não tenho tempo para estudar. Recentemente, meu filho foi internado com pneumonia. Na mesma semana, eu e meus colegas de classe tínhamos uma atividade em grupo. Alguns cozinhavam, enquanto outros assistiam e tiravam dúvidas.

Precisei me ausentar em duas apresentações e perdi quatro pontos. Levei o atestado do meu filho para o professor, mas não adiantou, pois perdi a pontuação dos dias da apresentação. Não tirei uma nota final ruim, mas ela poderia ser melhor se eu tivesse tido a chance de fazer alguma atividade para compensar o que não fiz. Só que o professor não me deu essa possibilidade.”

imagem: Arquivo Pessoal

imagem: Arquivo Pessoal

Jamille Gomes, 22, mãe de Alice, 1 ano e seis meses

“Engravidei aos 20 anos quando cursava o quarto ano de pedagogia na UFV (Universidade Federal de Viçosa), em Minas Gerais. No início da gestação, ia às aulas e, quando passava mal, levava os atestados e minhas faltas eram abonadas. Os professores eram compreensivos comigo. Os combinados sobre trabalhos e provas são feitos diretamente com os professores, então, fica muito na mão deles decidir se vão repor uma ou outra atividade. Mas nem tudo correu bem. Um dos meus professores só dá nota por meio de provas, não pede trabalhos.

Conversei com ele e combinamos que, se eu não pudesse ir à faculdade no dia das avaliações, marcaríamos novas datas. Só que descobri pelas mensagens do grupo da faculdade que ele passou uma atividade surpresa e lançou a nota como se fosse prova. Perdi essa avaliação, mas achei que ele daria a minha nota considerando a prova que nós combinamos que eu faria no fim do semestre. Na ocasião, deixei a minha filha com 22 dias de vida com a minha mãe e fui para a faculdade. Chegando lá, o professor disse que não daria a nota da atividade. Não quis discutir para não me prejudicar, mas isso baixou a minha média, o que pode me prejudicar quando eu quiser concorrer a um estágio ou a um projeto de pesquisa. Outro problema aconteceu quando o período a licença [prevista na Lei 6.202] terminou.

Alice estava com três meses –ela nasceu em novembro e o afastamento pegou as férias da universidade. Verifiquei previamente quais seriam os professores que me dariam aula e fui conversar com eles antes do início do semestre. Avisei que minha filha era um bebê, não tinha com quem deixá-la e teria de levá-la para a aula algumas vezes. Teve uma professora que entendeu. Outros liberaram que ela ficasse comigo e permitiram que eu amamentasse em aula, já outros pareceram se incomodar. Decidi fazer menos disciplinas do que o normal e só me matriculei naquelas cujos professores entenderam a minha condição. Alguns colegas me criticaram. Outros foram mais compreensivos e até pegavam ela no colo durante as aulas. Também recebi olhares tortos por não conseguir cumprir minha parte nos trabalhos em grupo.”
Valquiria Santos da Silva, 27, mãe de Lívia, 8, e Sofia, 2

“Quando comecei o curso de ciências biológicas na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Porto Alegre (RS), minha filha tinha cinco anos. O contexto era favorável: meus pais não queriam que eu deixasse de estudar e ficavam com ela. No terceiro semestre do curso, descobri que estava grávida novamente. Na mesma época, meus pais mudaram de cidade e eu me vi grávida, com uma filha pequena e fazendo um curso universitário integral. Antes da segunda nascer, pesquisei na internet e descobri que poderia pedir licença. A secretaria do curso nem sabia como protocolar o pedido. Durante o meu afastamento, não assisti às aulas. Só acompanhava as atividades pela plataforma on-line. Minha filha nasceu em maio e, em junho, tranquei o curso. Era impossível conciliar as aulas e a maternidade. Logo percebi que não ia conseguir participar das viagens de campo nem concluir a graduação. A solução foi abandonar a biologia e mudar de curso. Depois de um semestre parada, comecei a fazer psicologia. Ao pedir transferência, a direção questionou se eu ia mesmo conseguir estudar já que havia deixado o curso anterior. Foi um pouco constrangedor. Eles insistiram que psicologia era um curso denso, com alta carga de leituras. Mas consegui convencê-los que daria conta. Estou no terceiro semestre do período noturno. No primeiro ano, cursei o menor número possível de disciplinas (duas) para continuar amamentando a criança. Também deixei de cursar uma disciplina no sábado porque as aulas aconteciam no horário das reuniões da escola da filha mais velha. Como não tenho como justificar essa falta para a professora da matéria, cancelei minha inscrição. Por conta de tudo isso, vou demorar mais do que os cinco anos regulares para me formar. Acho que a faculdade deveria ter uma creche ou reservar um espaço para as alunas que são mães. Isso daria mais segurança para estudar, enquanto os filhos estão por perto, e não atrasaria os estudos.”

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