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O quanto os brasileiros sabem de Ciências?

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Felipe Bandoni de Oliveira, revista Nova Escola

Uma pesquisa inédita acaba de ser divulgada com dados muito interessantes para todos que trabalham com Educação, especialmente na área de Ciências.

O resultado dessa investigação é o Indicador de Letramento Científico (ILC), um parâmetro que tem o objetivo de aferir o quanto os brasileiros dominam conhecimentos e habilidades relacionados às Ciências Naturais. O levantamento, que ouviu mais de 2 mil pessoas nas nove principais regiões metropolitanas do país, foi realizado pela Abramundo, em parceira com o Ibope, o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa.

O aspecto mais interessante do ILC é que ele buscou abordar conhecimentos científicos em um contexto cotidiano. Nesse sentido, ele difere do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e de outras avaliações, pois não aborda estritamente conhecimentos escolares. Além disso, ao contrário desses exames que se destinam apenas aos estudantes, o ILC incluiu pessoas de 15 até 40 anos na amostra.

Em linhas gerais, o objetivo do ILC é descobrir se os respondentes dominam a linguagem científica, se possuem saberes práticos relacionados a ciências e em que medida esses saberes contribuem para a visão de mundo que possuem.

A análise das respostas classificou os respondentes em quatro grupos:

- 16% deles possui letramento não-científico. Conseguiram localizar informações em textos breves e que tenham relações com o cotidiano (ex.: contas de luz, bulas de remédio simplificadas), mas não demonstraram habilidades científicas.

- O segundo e maior grupo é o de letramento científico rudimentar, com 48% dos entrevistados. São pessoas capazes de ler e comparar textos com informações científicas básicas, também relacionadas a temáticas do cotidiano.

- O terceiro grupo é o de letramento científico básico, que abarca 31% da amostra. Conseguiram resolver problemas de maior complexidade usando procedimentos científicos e informações presentes em textos técnicos, manuais, infográficos e tabelas.

- O último grupo é o de letramento científico proficiente, que engloba apenas 5% da amostra. Esse pequeno contingente é formado por pessoas que resolvem problemas que exigem saberes científicos em contextos não necessariamente cotidianos (ex.: genética ou astronomia). Além de possuírem domínio de procedimentos, operam com conceitos científicos.

Chama a atenção o fato de que 64% de todos os entrevistados estão nos dois primeiros grupos. Veja, por exemplo, a questão a seguir, indicativa do nível rudimentar:

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Se analisarmos com cuidado, essa questão exige apenas uma leitura atenta do texto. Se o entrevistado respondesse que “as estrias aumentam a aderência”, “permitem o escoamento de água” ou “aumentam o atrito”, ele acertaria. Mas 50% de todos que responderam erraram essa questão.

Portanto, 64% dos respondentes dominam apenas leitura e, no máximo, conhecimentos muito básicos de Ciências. Ou seja: segundo a pesquisa, a maioria dos brasileiros possui um conhecimento muito incipiente de Ciências Naturais e não o utiliza para resolver problemas em suas vidas.

Isso nos leva a uma reflexão. Todas as duas mil pessoas entrevistadas frequentaram a escola por pelo menos quatro anos. O que aprenderam de Ciências? O que supostamente foi ensinado sobre Ciências? O que deveríamos mudar em nossas escolas para que isso não se repetisse?

Essa discussão não se encerra aqui. O ILC traz muitos outros dados, que pretendo abordar melhor em outros posts.

Gabriel Pensador: ‘Professor é herói do dia a dia’

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Imagem: Google

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Renata Mendonça, no UOL

“Eu tô aqui pra quê? / Será que é pra aprender? / Ou será que é pra sentar, me acomodar e obedecer?”

O rapper Gabriel o Pensador causou polêmica em 1995 com a música Estudo Errado, em que questiona o formato e o conteúdo das aulas, que via como distantes da realidade fora das salas de aula. O rap, à época, foi bastante criticado por professores e educadores.

“Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci.Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi.Decoreba: esse é o método de ensino.Eles me tratam como ameba e assim eu não raciocino”, diz a música.

Duas décadas depois do lançamento de Estudo Errado, em meio à campanha para as eleições presidenciais de 2014 e no momento em que graves problemas da educação como a violência contra professores e a desvalorização do ensino voltam à tona, a BBC Brasil procurou Gabriel o Pensador para saber o que ele mudaria nessa letra se fosse fazer uma versão hoje. Veja o seu depoimento:

‘Escola ideal’

“Mais do que imaginar uma escola ideal, seria ideal a gente transformar a escola a partir das dúvidas, das curiosidades dos alunos em relação à realidade fora da sala de aula. Tanta informação que uma criança hoje recebe na internet, na televisão…tudo isso gera milhões de questões que já não se enquadram dentro do que é passado pelo MEC, dentro das disciplinas. Acho que o que os alunos precisam é entender um pouco mais sobre ética, sobre violência, sobre política, como funciona a sociedade, por que certas coisas acontecem, por que certas coisas permanecem acontecendo depois de tantos anos…

É um desafio para os professores adaptar o conteúdo das suas aulas para coisas cada vez mais próximas do dia a dia, das coisas da atualidade. Isso dá resultado sempre, quando é feito nas aulas de redação, por exemplo, nas aulas de história, de geografia, muitos professores já fazem isso. Minha crítica na letra ‘Estudo Errado’ era justamente em relação a essa distância do conteúdo do que era passado nas matérias para a vida real.

Outro problema crônico que a gente tem na escola brasileira é a evasão escolar, então mais um desafio é tornar cada vez mais interessante para os alunos esse conteúdo. Isso também faz parte do que eu abordei na letra da música. E eu acho que é um dos problemas da escola de hoje em dia. Além da falta de resultado efetivo, porque mesmo para aqueles que frequentam a escola, às vezes o nível de aprendizado é muito baixo, principalmente na questão da interpretação de texto, da alfabetização, da compreensão de certas matérias. A gente tem muito a evoluir, mas também tem muitos trabalhos bonitos sendo feitos, com grandes educadores, e eu confio que isso já esteja sendo trabalhado pelos professores.

‘O valor que o professor merecia’

Na frase da letra de ’175 Nada Especial’, o professor reclamava ‘esse não é o valor que um professor merecia’. Ali eu estava falando do salário, mas hoje eu poderia lembrar da polícia batendo nos professores em manifestações, da falta de respeito dos alunos que agridem e ofendem professores e os desrespeitam verbalmente. Isso também faz partedesse lamento do professor, que não vê seu valor reconhecido. Não é só uma questão de salário. Para mim, o professor é o herói do dia a dia, essa é a palavra que cabe perfeitamente. O professor é herói pelo amor com que ele se dedica a profissão, pela superação que ele demonstra, que deve inspirar os alunos, e na sua dedicação ao acolhimento, que é uma das coisas mais generosas e importantes que os professores dão para os alunos, não só os alunos das classes mais baixas, mas todos que tem às vezes pouco tempo com seus pais, com suas famílias, e sentem esse acolhimento, esse carinho, essa amizade do professor.

Violência

O aumento da violência não é um problema só das escolas ou das salas de aula, é um reflexo de um aumento da violência na sociedade e da falta de valores, da diminuição da ética, da amizade, do respeito, do amor à vida. E da própria falta de esperança, que leva uma grande massa de jovens e adolescentes para um caminho da violência, do ‘nada a perder’. Esse é um problema muito complexo, que só os professores não vão conseguir resolver. Mas acho que deve haver uma medida de emergência para proteger a integridade física dos professores, e também uma medida educativa, que extrapola a sala de aula, que possa tentar recuperar um pouco esses valores na nossa sociedade, em todas as idades, nos pais e nos filhos.

Solução

A solução da educação no Brasil é uma questão bem complexa, que precisa de muitas pessoas trabalhando sério, fazendo um programa abrangente de medidas para melhorar. Mas acho que um ponto fundamental é a destinação de mais verba para a educação, para a construção de escolas, para equipar as escolas, para pagar os professores e os funcionários. O Brasil tem muito dinheiro só que o dinheiro é desviado para outros caminhos, para falcatruas variadas, superfaturamento de obras, muitas outras coisas que dão mais dinheiro, mais margem para lucro dos políticos corruptos do que a educação. E na área da educação, a gente vê muitos escândalos absurdos também, até com a merenda escolar, entre outros. Então uma primeira medida seria corrigir esse absurdo e destinar muito mais recursos pra educação.

Para 47% dos jovens brasileiros, o bom professor usa tecnologia

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Publicado no UOL

escola-ead-ipad-tecnologia-na-escola-1390563390275_300x300Na opinião de 47% dos jovens brasileiros, um bom professor é aquele que sabe utilizar a internet e os recursos tecnológicos para ajudar no aprendizado dos alunos. É o que mostra a pesquisa Juventude Conectada, realizada pela Fundação Telefônica Vivo em parceria com o Ibope, o Instituto Paulo Montenegro e a Escola do Futuro, da USP, e divulgada ontem (27) no Ria Festival, evento de cultura digital promovido pela fundação, em São Paulo.

Esse número pode ser justificado pelo crescente uso que os jovens fazem da internet e dos recursos tecnológicos para realizar atividades educativas, seja nas instituições de ensino ou em casa. Segundo o levantamento, 75% dos jovens dizem já ter utilizado a internet na escola para atividades propostas em aula – e 68% deles declaram ter utilizado na escola por iniciativa própria.

O número sobe para 82% quando se refere à utilização da internet no âmbito doméstico para a realização de atividades propostas em sala. E 77% dos jovens afirmaram que já utilizaram a internet em casa para fazer trabalhos por iniciativa própria. Isso também se justifica pelo entendimento que os jovens fazem do uso da internet, que possibilita que o aprendizado seja realizado em ritmos, horários e locais diferentes, de acordo com as necessidades e preferencias de cada um, segundo 44% dos entrevistados.

Assim, é possível justificar a preferência dos estudantes por professores que fazem uso de tecnologias de informação e comunicação em sala de aula, por estarem mais alinhados tanto com o modo quanto com as ferramentas que os próprios jovens escolhem para estudar quando estão sozinhos.

Relação com os professores

Outro dado interessante apontado pela pesquisa é que os jovens conectados já estão percebendo uma das principais tendências no que diz respeito ao papel do professor na educação contemporânea: 38% deles acreditam que, no futuro, o professor passará a ser mais um orientador dos estudos, assumindo funções de tutor e curador, e não mais unicamente um transmissor de conhecimentos.

Essa percepção dos jovens sobre o papel dos docentes casa muito bem com outros dois dados da pesquisa que reforçam a necessidade do professor assumir esse papel de orientador. Em um deles, 33% os entrevistados dizem que a internet muitas vezes atrapalha a aprendizagem, pois as redes sociais e os games distraem o aluno, reduzindo seu tempo de estudo. E em outro, 24% afirmam que na internet tem muita informação, o que dificulta a seleção do melhor conteúdo.

“Vemos como a percepção da realidade dos jovens é boa. As perguntas que antes eles faziam para o professor, hoje são feitas para a internet e respondidas por ela. Logicamente o papel do professor tem que ser outro. É bacana ouvir isso dos jovens”, afirma Gabriella Bighetti, presidente da Fundação Telefônica Vivo, que também ressalta outro ponto de grande relevância: “não é só o papel do professor que está mudando com a tecnologia, mas sua relação com os alunos também. Segundo os jovens, se o professor estiver conectado isso ajuda no relacionamento entre eles. É uma questão de confiança”, completa.

A afirmação de Bighetti está baseada na resposta de 38% dos jovens ouvidos no levantamento que disseram que a tecnologia pode contribuir para melhoria da relação entre professores e alunos. E isso acontece inclusive fora da sala de aula: eles destacam positivamente os professores que compartilham material didático nas redes sociais, blogs, emails e tiram dúvidas pela internet.

Além de educação, a pesquisa completa também aborda o comportamento da juventude conectada nas áreas de ativismo, empreendedorismo e comportamento. No total, foram ouvidos 1.440 jovens de 16 a 24 anos, que fazem uso regular da internet, em todas as cinco regiões do Brasil.

Quatro dicas para encarar a prova de literatura do Enem

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Mesmo sem lista de leituras obrigatórias, exame nacional busca valorizar os “bons leitores”

Foto: Uchôa / Agencia RBS

Foto: Uchôa / Agencia RBS

Vinícius Fernandes, no Zero Hora

É praxe começar a estudar para a prova de literatura a partir da lista de leituras obrigatórias. Para garantir um bom percentual de acertos na UFRGS em 2015, bastaria mergulhar em Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Machado de Assis ou nos contos de Murilo Rubião e Sergio Faraco. Mas os livros nem sempre são a principal exigência da prova. Às vezes, conta mais a interpretação de textos e a capacidade de relacioná-los a períodos históricos da literatura brasileira. Nesse caso, por onde iniciar os estudos?

Por ser aplicado em todo o país, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem um olhar nacional sobre o tema. Mais do que conhecer autores, as cerca de 12 questões de literatura exigem conhecimento do processo de construção do texto. Talvez você não encontre referências a Machado de Assis, mas tenha de interpretar um enunciado publicitário ou um quadro de Candido Portinari.

– O Enem enxerga as artes como um processo mais amplo e entra nas artes plásticas e na música. O aluno tem de ser um bom leitor de textos em todos os formatos, mas a primeira coisa é ter conhecimento da história da literatura brasileira como um todo – aconselha o professor de literatura do Unificado, Pedro Gonzaga.

Apesar dos enfoques diferentes, os vestibulandos da UFRGS acabam se capacitando para o Enem. O aluno que devorou todas as leituras obrigatórias evoluiu como leitor e provavelmente ganhou fôlego para interpretar questões mais complexas.

– O Enem pega tanto textos mais modernos, que se parecem mais com a nossa linguagem atual, quanto textos de jornais, poesia e canções populares – garante Gonzaga.

Confira dicas para ficar preparado para a abordagem do Enem para a literatura. Não há leituras obrigatórias, mas ler bastante é indispensável.

Atenção para o século XX

Professores concordam ao afirmar que a literatura brasileira do século 20 predomina na prova. Se tiver de escolher algum período para focar estudos, opte por este. No Rio Grande do Sul, se convencionou dividir esse tempo em modernismo de 22 (1ª geração), 30 (2ª geração) e 45 (3ª geração). Em cada geração, se destacaram autores que pavimentaram a literatura brasileira, como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Vinícius de Moraes, Erico Verissimo, Jorge Amado e Clarice Lispector.

– É sempre legal ter uma visão bem panorâmica da história da literatura brasileira, mas o século 20, a partir do modernismo, sempre cai em uma ou duas questões – lembra o professor de literatura do Unificado Diego Grando.

De acordo com Pedro Gonzaga, o escritor mais lembrado nas provas do Enem é Carlos Drummond de Andrade, um dos estandartes da geração de 30.

Texto e o contexto

Reconheça a presença de valores humanos nas questões da prova e os relacione com o contexto histórico, social e político. Não é raro as provas pedirem associações entre poemas, prosas, quadros e tirinhas com o período em que foram produzidas.

Prosa e poesia

O vocabulário rebuscado e por vezes não usual assusta, mas, segundo o professor Pedro Gonzaga, “o leitor capaz de interpretar prosa e poesia se capacita a interpretar tudo”. Por mais exigente que seja a tarefa, decifrar estrofes é um exercício válido para estimular a interpretação de outros formatos. Leia com calma, atentamente, e procure compreender a mensagem do autor camuflada nas entrelinhas do texto.

Leia manuais de literatura

Manuais são recursos simples e diretos para conhecer e compreender os períodos mais representativos da literatura brasileira. Obras como Antologia Comentada de Literatura Brasileira – Poesia e Prosa (vários autores, Vozes) e Curso de Literatura Brasileira (Sergius Gonzaga, Leitura XXI) oferecem um panorama amplo acompanhado por comentários que elucidam cada período tratado.

QUESTÃO COMENTADA

Questão 29 (Enem/2010)

Reclame

Se o mundo não vai bem
a seus olhos, use lentes
… ou transforme o mundo

ótica olho vivo
agradece a preferência

CHACAL et al. Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2006.

Chacal é um dos representantes da geração poética de 1970. A produção literária dessa geração, considerada marginal e engajada, de que é representativo o poema apresentado, valoriza

a) o experimentalismo em versos curtos e tom jocoso.
b) a sociedade de consumo, com o uso da linguagem publicitária.
c) a construção do poema, em detrimento do conteúdo.
d) a experimentação formal dos neossimbolistas.
e) o uso de versos curtos e uniformes quanto à métrica.

Comentário de Pedro Gonzaga

A questão trata de uma das últimas gerações, senão a última, de poetas que podem ser reunidos em um grupo com elementos estéticos semelhantes. Entre os “marginais” está o nome de Chacal, em um poema representativo de seu fazer poético, marcado por versos enxutos e por uma constante ironia, muitas vezes feita de colagens de discursos da mídia e da publicidade. O tom imperativo, ou como chama o Enem, conativo, aqui é parodiado. Por isso, é preciso cuidar com a alternativa B, pois o enunciado fala em valorizar, não em utilizar a linguagem publicitária, o que o poema não faz. As demais alternativas não fazem sentido, pois é um poema em que o conteúdo importa tanto quanto a construção, nada tem a ver com a escola neossimbolista do início do século 20 e também não apresenta uniformidade métrica. Para a adequada resposta à questão era preciso unir conhecimentos de interpretação, período literário e noções formais de poesia. Resposta A.

Médico com doença do ‘desafio do balde de gelo’ dá aula só com olhos

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Sem controle sobre músculos,Vanderlei Corradini leciona à distância.
Esclerose lateral amiotrófica afeta neurônios responsáveis por movimentos.

Médico de São Sebastião do Paraíso, MG (Foto: Luciano Tolentino / EPTV)

Médico de São Sebastião do Paraíso, MG (Foto: Luciano Tolentino / EPTV)

Mariana Lenharo, no G1

O médico Vanderlei Corradini Simões de Lima, de 53 anos, já não tem mais controle sobre os músculos do corpo. Diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA) em 2010, ele sofreu a paralisação progressiva dos membros. A exceção são os olhos. É com eles que ele se comunica com os alunos da disciplina de Fisiologia Médica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), instituição em que atua como professor convidado. Lima vive em São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais.

1A ELA é a doença rara que motivou o desafio do balde de gelo, campanha que desafia personalidades a jogarem um balde de água gelada na cabeça para chamar a atenção sobre o problema.

As pessoas podem aceitar o desafio ou fazer uma doação para uma instituição ligada à ELA, ou ainda fazer as duas coisas.

De caráter progressivo, a ELA afeta os neurônios responsáveis pelos movimentos do corpo e causa a perda do controle muscular. A doença não interfere na capacidade cognitiva do indivíduo.

Nos Estados Unidos, onde a campanha foi criada pela ALS Association, associação americana que financia pesquisas dedicadas a encontrar uma cura para a doença e também serviços para pacientes, as arrecadações chegaram a US$ 88,5 milhões até esta terça-feira (26).

No Brasil, as três principais associações dedicadas ao apoio de pacientes com ELA arrecadaram, juntas, quase R$ 200 mil em doações em apenas uma semana.

“Acredito que esse fenômeno tem mais importância de nos tornar visíveis, já que as estatísticas insistem em nossa invisibilidade. Quanto à arrecadação de fundos, é um pontapé inicial em uma situação tão complexa”, diz Lima.

Comunicação
Desde quando perdeu os movimentos, Lima tem duas estratégias para se comunicar com o mundo externo. Em uma delas, um acompanhante mostra a ele um quadro com as letras do alfabeto dispostas em três linhas. Lima pisca para indicar em que linha está a letra desejada. Em seguida, a pessoa começa a ler as letras daquela linha e ele pisca na letra que quer usar. Dessa forma, formam-se as palavras e as frases.

Outra estratégia envolve uma ferramenta capaz de detectar os movimentos do globo ocular, que passam a controlar o mouse virtual de um computador.

Foram esses mecanismos que permitiram que ele escrevesse um livro, chamado “Eu e elas”, e que fosse convidado a ministrar uma disciplina, como professor convidado, na UFJF. O convite partiu da fisioterapeuta Carla Malaguti, que leciona a disciplina de fisiologia médica na instituição. Ela conta que já o conhecia e que sabia que tinha muito conhecimento acumulado nos 27 anos de prática em cirurgia geral e endoscopia digestiva.

Vanderlei Corradini Simões de Lima, em foto tirada antes de perder seus movimentos pela esclerose lateral amiotrófica (Foto: Vanderlei Corradini Simões de Lima/Arquivo Pessoal)

Vanderlei Corradini Simões de Lima, em foto tirada
antes de perder seus movimentos pela esclerose
lateral amiotrófica (Foto: Vanderlei Corradini Simões
de Lima/Arquivo Pessoal)

“Falei para ele que, na disciplina, discuto casos à distância com os alunos e que precisava de um professor convidado para me ajudar. Ele adorou porque, com a doença, não pôde mais exercer a medicina, mas pôde manter a profissão como professor”, diz Carla.

A professora conta que a disciplina envolve a discussão de casos reais de pacientes com doenças degenerativas, como a ELA. “Foi muito bom para os alunos porque eles tinham contato com um caso real e também com alguém que entende, como médico, os aspectos todos das doenças”, observa.

Em entrevista por e-mail, Lima diz que sempre gostou de se envolver com a comunidade científica. “No momento que os primeiros sintomas apareceram, ministrava aulas no curso de endoscopia digestiva na pós-graduação da Faculdade de Medicina da Suprema. Quando recebi o convite, fiquei imaginando uma forma de ser útil. Assim, aproveitando minha experiência de 27 anos de medicina assistencialista, participo dos fóruns de discussão de casos clínicos online através da plataforma Moodle [ferramenta de ensino à distância], abordando aspectos psicobiossociais dos casos discutidos e respondendo às questões dos alunos.” Atualmente, além de dar aulas, ele prepara seu segundo livro: “Médico de pijamas e suas estórias”.

“Eu mesmo fiz o diagnóstico clínico e, após a confirmação, preparei minha vida e minha família para tudo que iria enfrentar.”
Vanderlei Corradini, médico

Diagnóstico
Vanderlei começou a perceber os primeiros sinais da doença quando passou a ter câimbras e diminuição da força muscular da mão esquerda. “Pelo fato de ser médico, eu mesmo fiz o diagnóstico clínico e, após a confirmação, preparei minha vida e minha família para tudo que iria enfrentar.”

Depois do primeiro sintoma, a doença evoluiu para paralisa do resto do corpo e da deglutição e respiração. “Nessa situação, é fundamental a aceitação. Para isso é preciso ter a convicção de que desempenhou seu papel com honradez e com a máxima perfeição que conseguiu impor e assim se atinge a sensação de ter vivido na sua plenitude e com êxito.”

Médico Vanderlei Corradini Simões de Lima, que tem esclerose lateral amiotrófica, dá aulas e escreveu livro só com os movimentos dos olhos (Foto: Vanderlei Corradini Simões de Lima/Arquivo Pessoal)

Médico Vanderlei Corradini Simões de Lima, que tem esclerose lateral amiotrófica, dá aulas e escreveu livro só com os movimentos dos olhos (Foto: Vanderlei Corradini Simões de Lima/Arquivo Pessoal)

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