Diário da Maísa

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Enem sem redação, mais um golpe na leitura

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A pile of books on wooden table

A famosa frase de Monteiro Lobato é bastante oportuna: “um país se faz de homens e livros”

Tatiana Notaro, na Folha de Pernambuco

Uma das máximas mais verdadeiras proferidas pelos professores de redação País afora é: para escrever bem é preciso ler, e muito. A leitura amplia o vocabulário, o repertório de argumentos (essencial para um bom texto) e ainda ratifica gramática, com o uso das regras.

 

Não há como escrever bem sem ser um leitor assíduo. E num País onde se lê pouquíssimo (uma média que não chega a cinco livros per capita/ano) – onde o estímulo doméstico, em geral, é ínfimo -, ter um Ministério da Educação que propõe o fim da redação como critério de seleção às universidades, no Exame Nacional do Ensino Médio, é mais que um grande absurdo, é uma condenação.

 

Ao invés de incentivar o hábito da leitura, mesmo que obrigatoriamente como preparação para a prova, se propõe um sistema apenas com o objetivo de avaliação. Esta e outras mudanças para o Enem serão anunciadas pelo ministro Mendonça Filho em coletiva de imprensa (hoje, às 11h) e ainda vão para consulta pública.

Símbolo de combate ao racismo, escola quer levar nome de escritora favelada

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Reinaldo Canato/UOL

Reinaldo Canato/UOL

 

“Os visinhos de alvenaria olha os favelados com repugnancia. Percebo seus olhares de odio porque êles não quer a favela aqui. Que a favela deturpou o bairro. Que tem nojo da pobrêza. Esquecem êles que na morte todos ficam pobres.”

Publicado no UOL

Mantidas em sua grafia original, exatamente como foram publicadas em 1960, estas linhas foram redigidas por uma das mais importantes escritoras brasileiras do século passado, Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

No livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, ela narra, a partir de sua própria experiência de vida, as agruras de uma comunidade miserável às margens do rio Tietê. O bairro ao qual se refere no trecho é o Canindé, na região central de São Paulo, onde ficava o barraco de madeira que dividia com os filhos. Quase 60 anos depois, a vizinhança já não lança olhares de ódio para a favela, demolida às pressas após a enorme repercussão da obra. Agora, ao contrário, a área prepara-se para, enfim, homenagear a sua ilustre ex-moradora.

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de 'Quarto de Despejo' - Acervo UH/Folhapress

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de ‘Quarto de Despejo’ – Acervo UH/Folhapress

 

O nome de Carolina batizará a EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Infante Dom Henrique, próxima de onde a autora viveu. A alteração, decidida num referendo entre alunos, professores, funcionários e pais de estudantes, traz também a carga simbólica de resgatar a memória de uma mulher negra migrante num colégio público frequentado por muitos estrangeiros –em especial, bolivianos e angolanos.

Reinaldo Canato/UOL

Reinaldo Canato/UOL

 

Escola tem mural com discussões sobre o racismo

A novidade se insere num quadro de atividades promovidas pelos gestores da escola para combater práticas racistas e xenofóbicas entre os alunos. O diretor da unidade, Cláudio Marques da Silva Neto, conta que, quando assumiu o cargo, em 2011, eram frequentes as ofensas dessa natureza, e as crianças bolivianas chegavam ao ponto de andar separadas das demais, para evitar assédios.

Desde então, com projetos voltados à valorização da diversidade cultural, étnica e racial, a situação melhorou substancialmente. Recentemente, a Unesco, braço da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, convidou a unidade para integrar o seu programa mundial de escolas associadas.

“Foi a partir da discussão do tema das identidades que se pensou em levar essa questão às últimas consequências, inclusive com o nome da escola, já que, para nós e para os pais, como expresso na votação, o nome Infante Dom Henrique [nobre português do século 15] não diz muito sobre nós”, explica Silva.

Entre fevereiro e novembro, diversas reuniões foram realizadas e a comunidade escolar pôde indicar nomes para a substituição. As sugestões foram, além de Carolina Maria de Jesus, o escritor Ariano Suassuna, a pintora mexicana Frida Kahlo e a escritora Patrícia Galvão. Com 432 eleitores contabilizados, uma votação final resultou na escolha de Carolina, preferida por 42% dos votantes.

Inaugurada em 1960, a escola tem cerca de 530 alunos — cerca de um quinto é de estrangeiros. O processo agora resultará num projeto de lei que será encaminhado por um vereador na Câmara Municipal, onde deve ser aprovado, para depois seguir para a sanção do prefeito.

Não é a primeira vez que uma escola pública paulistana decide trocar de nome para enfatizar sua luta por uma sociedade mais igualitária. Em junho passado, a Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Guia Lopes, no Limão, na zona norte, conseguiu modificar sua denominação para homenagear o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (1918-2013), expoente da luta contra o apartheid que vigorou em seu país até a década de 1990. Há alguns anos, os muros e portões da unidade, que desenvolve trabalhos para estimular a diversidade, foram pichados com inscrições racistas.
Voz para a comunidade

 

Reinaldo Canato/UOL

Cláudio Marques da Silva Neto, diretor da escola municipal – Reinaldo Canato/UOL

 

 

A vida e a obra da homenageada Carolina Maria de Jesus entrarão no dia a dia dos estudantes, pais e professores. “Assim que o projeto de lei for votado na Câmara de Vereadores, nós faremos a reinauguração da escola com uma mesa de debate que possivelmente contará com a filha da escritora [Vera Eunice, que também é professora pública]”, afirma Silva, acrescentando que os livros de Carolina farão parte do currículo da unidade em 2017.

Para Cesar Luís Sampaio, professor de informática educativa da escola, a troca reforçará os laços de identidade entre estudantes, funcionários e vizinhança. “Simbolicamente vai dar um novo impulso às discussões raciais e sociais em nossa escola. É dar protagonismo para nossa gente, nossa comunidade, nossa realidade social. É dar luz para a população que sempre foi ofuscada. É dar voz àqueles que nunca tiveram oportunidade de falar. Desejamos o empoderamento popular.”

Pai de um aluno do 9º ano, o administrador de empresas Sidnei Palmieri, 48, fez questão de matricular seu filho no colégio, apesar de a família morar longe dali, no bairro de Lauzane Paulista, na zona norte. “Resolvi colocá-lo nessa escola devido à qualidade de ensino, ao respeito e principalmente às oportunidades oferecidas.”

Antes dos debates sobre a alteração de nome, ele ainda não havia tido contato com a trajetória de Carolina. “Soube que sua obra é reconhecida em muitos países, mas que, infelizmente, é muito pouco aqui no Brasil.”

Nascida em Sacramento, no interior de Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus desembarcou na Estação da Luz, em São Paulo, em 1937. Mãe solteira, trabalhou como catadora de papéis para sustentar os três filhos, até ser alçada à fama repentina, com a publicação de seu primeiro livro, a partir dos muitos escritos que produzia cotidianamente.

Suas obras, que incluem “Casa de Alvenaria”, “Pedaços de Fome”, “Provérbios” e o póstumo “Diário de Bitita”, foram traduzidos para muitos idiomas, entre os quais o inglês, o espanhol e o francês. Nos Estados Unidos, seus livros são constantemente reeditados e estudados.

O nome de Carolina já é utilizado por uma EMEI na Vila Dalva, na zona oeste. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, não haverá conflito quando a EMEF Infante Dom Henrique ganhar a sua nova denominação, pois as unidades oferecem etapas de ensino diferentes.

Professores e currículo têm de estar alinhados, diz educador de Cingapura

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Lee Sing Kong, 65, liderou mudanças na formação de professores em Cingapura

Lee Sing Kong, 65, liderou mudanças na formação de professores em Cingapura

 

Renata Cafardo, na Folha de S.Paulo

O reconhecimento que já aparecia na economia chegou à educação para Cingapura, pobre ex-colônia inglesa que é hoje um dos países mais desenvolvidos do mundo.

Seus estudantes, pela primeira vez, apareceram no topo dos rankings do Pisa, a mais importante avaliação internacional de educação. A prova tem questões de ciência, leitura e matemática e é feita pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

A pequena nação asiática deixou para trás antigos campeões do Pisa, como China e Finlândia. Os resultados foram divulgados em dezembro.

“A chave do sucesso é que todos os componentes do sistema educacional precisam estar alinhados. Se muda o currículo, a formação de professores precisa mudar também”, contou à Folha, Lee Sing Kong, 65, um dos responsáveis pela transformação do ensino no país.

Em 2009, o Ministério da Educação de Cingapura determinou que as escolas precisavam formar estudantes “para serem relevantes no século 21” e remodelou todo o sistema com esse objetivo. Entre as habilidades que tinham que ser desenvolvidas estavam o forte pensamento crítico, a boa comunicação e o trabalho em grupo.

Lee liderou a mudança no instituto de formação de professores do país, ligado ao ministério. “Antes da aula, o aluno já procura no Google o tópico que será estudado. E faz perguntas muito difíceis. O professor precisa compreender esse cenário e entender como os estudantes aprendem.”

Mas a base para o êxito atual no Pisa começou a ser construída assim que o país se tornou uma República, em 1965. Até então, quase metade dos jovens abandonava a escola. Um sistema flexível passou a permitir que crianças com dificuldade tivessem mais tempo para terminar os ensinos fundamental e médio. Bons profissionais foram atraídos para a carreira de professor, que teve o salário equiparado ao de um engenheiro.

A educação hoje é a segunda área com mais investimentos do governo. Perde apenas para defesa.

Lee foi um dos palestrantes deste mês na Academia de Ciências de Nova York, uma das mais importantes organizações científicas do mundo. O educador hoje ocupa o cargo de vice-presidente da Nanyang Technological University, universidade pública que abriga o único instituto de formação de professores do país.

Ele diz não haver contradição entre o esforço para formar jovens com pensamento crítico e a situação política de Cingapura. O país é governado há décadas pelo mesmo partido, elogiado pela eficiência e incorruptibilidade, mas acusado de restringir liberdades.

Cingapura tem 5,5 milhões de habitantes. Suas 369 escolas atendem 450 mil estudantes, metade da rede municipal de ensino de São Paulo.

Folha – Como o resultado do Pisa foi recebido no país?
Lee Sing Kong – Ficamos felizes porque ele mostrou que estamos indo no caminho certo. Mas não faremos nenhum evento específico para festejar. O Pisa não é o objetivo da nossa educação, queremos educar nossos alunos para serem relevantes no século 21.

Que mudanças foram feitas para que eles passassem a ser formados dessa maneira?
Fizemos uma grande revisão em 2009 e desenvolvemos uma modelo de formação de professores para o século 21. O estudante agora é o centro da educação. O aprendizado no século 20 era passivo, hoje é ativo. Nós temos que permitir que os alunos sejam responsáveis pelo seu próprio aprendizado e os professores são os facilitadores, não o principal fornecedor de conteúdo.

Uma das competências que desenvolvemos foi ensinar com questionamentos corretos, com perguntas, ajudando a criança no processo do conhecimento. Isso faz com que desenvolvam um pensamento extremamente crítico.

Como é a formação na prática?
Criamos as chamadas salas de aula colaborativas em nosso instituto que forma professores. As ferramentas para o século 21 (colaboração, empreendedorismo, pensamento crítico, comunicação) não podem ser adquiridas em ambiente de conhecimento passivo. Então, nossos estudantes se sentam em grupos. Quando se tornam professores, levam essa experiência para a escola.

Formamos um thinking teacher (professor pensador), que sabe como se adaptar, inovar e reconfigurar a sala de aula. Ele precisa escolher o melhor jeito de ensinar cada assunto. Além disso, 35% do tempo do currículo é para prática nas escolas, com supervisão de professores seniores.

Vocês identificaram também um novo perfil de aluno.
Os alunos hoje gostam de aprender com experimentos, imagens interessantes, participando do processo e se conectando em grupo. Professores precisam criar atividades em que os jovens realmente façam parte. O conhecimento está em qualquer lugar. Antes da aula, o aluno já procura no Google o que será estudado e faz perguntas muito difíceis. O professor precisa compreender o cenário e entender como os estudantes aprendem.

O Pisa mostrou que os estudantes de Cingapura estão entre os mais motivados para estudar. Como conseguir isso?

Primeiro, é preciso mostrar a relevância do estudo. Depois, trazer para a sala de aula problemas do mundo real, para eles pensarem e aplicarem o conhecimento. Por exemplo, ao ensinar fotossíntese, dizemos por que ela é relevante, ou seja, porque muito da sua comida é produzida por meio dela.

Mas os professores também precisam estar motivados para fazer mudanças.

Desde os anos 90, passamos a mensagem de que o professor é crucial no desenvolvimento do país. O Ministério da Educação aumentou o salário de um professor inicial para se tornar igual ao de um engenheiro. Havia poucas oportunidades para ele ser promovido, apenas o caminho administrativo. Mas há ótimos professores que não querem ser diretores. Criamos a carreira de professor master e sênior, com salários equiparados aos do diretor. Aos poucos, a sociedade começou a reconhecer o valor deles.

No Brasil, o governo está criando uma Base Curricular Nacional. Como fizeram isso?
Se vamos viajar, precisamos saber bem o destino. Em Cingapura, ele é o que chamamos de Resultados Desejados da Educação (Desired Outcomes of Education).

Nós sabemos como queremos educar nossos alunos. Eles têm que ter habilidades para serem relevantes no tempo em que vivem (integridade, pensamento crítico, curiosidade, amor a Cingapura). Só quando estabelecemos isso, pudemos falar sobre qual currículo era necessário. Quais atividades e avaliações.

Nosso currículo é sempre revisado, quando se inclui tópicos, outros são tirados. Assim, os professores têm tempo suficiente para pensar em maneiras de aplicá-lo. E o mais importante é que os professores passaram a ser treinados assim também.
A chave do sucesso é: todos os componentes do sistema educacional precisam estar alinhados. Se o currículo vai para um lado, a formação dos professores vai para outro e avaliação para outro, como vai ter impacto? Se muda o currículo, a formação de professores precisa mudar também.

Isso é mais fácil de fazer em um país pequeno. Como ter essa integração em um país como o Brasil?
Não se pode teletransportar um modelo de um lugar para outro porque o contexto é diferente. Mas a lição que aprendemos aqui é: sim, somos um país pequeno e podemos trabalhar juntos, mas precisávamos planejar bem. No Brasil, você tem vários níveis de administração, estadual, municipal, você precisaria fazer isso talvez nesses níveis.

Outra discussão no Brasil é a flexibilização do currículo no ensino médio. Como é em Cingapura?
No ensino médio há vários caminhos vocacionais que os estudantes podem escolher. Alguns vão para o caminho mais acadêmico, outros para os práticos. Mas podem mudar se quiserem, o caminho não é um fim. O estudante pode fazer a formação prática e depois ir para os estudos acadêmicos.

O governo fala em pensamento crítico, mas Cingapura é visto como um país onde não há liberdade de expressão.
Essa é uma impressão errada. Somos um país multirracial, onde a harmonia e a paz são muito importantes. Um cidadão precisa respeitar o outro, respeitar a diversidade.

O que o governo desencoraja é falar coisas que podem afetar questões sensíveis na religião, por exemplo. Isso não é controlar sua liberdade de expressão, é uma maneira de manter harmonia e paz.

Então, os estudantes devem desenvolver pensamento crítico mesmo que seja para criticar o governo?
Claro, tem muita crítica ao governo no Facebook e o governo desliga o Facebook? Não. Os estudantes precisam saber como o mundo está se desenvolvendo e como eles vão se posicionar para se adaptar ao mundo.

RAIO X

Cargo atual Vice-presidente da Nanyang Technological University (EUA)

Cargo anterior Ex-diretor do Instituto Nacional de Educação (de 2006 a 2014)

Formação Biólogo e educador

O mito da boa escola pública no passado

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Antônio Gois, em O Globo

No ano passado, recebi de um leitor um convite para que conhecesse estudos de seu avô, Mario Augusto Teixeira de Freitas (1890-1956), sobre números da educação brasileira nas décadas de 30 e 40. Teixeira de Freitas foi uma das figuras mais importantes na criação do IBGE, mas eu desconhecia seus trabalhos na área de educação. Não deveria, pois seu esforço em organizar na época estatísticas educacionais do país e, a partir delas, pensar em soluções para a melhoria da qualidade do ensino público já era reconhecido por educadores do calibre de Fernando de Azevedo, Anisio Teixeira e Lourenço Filho.

A leitura dos livros de Teixeira de Freitas mostra que ele já identificava problemas que ainda hoje limitam nosso avanço na educação. E serve também para derrubar alguns mitos. Um deles é a ideia de que nossa escola pública era boa no passado, quando atendia a poucos, mas que perdeu qualidade ao se massificar na segunda metade do século XX.

Que a escola pública do passado era para poucos, não há discussão. Segundo o Censo do IBGE de 1940, 69% das crianças de 7 a 14 anos não estudavam no país. Porém, ao analisar as estatísticas da década de 30 no livro “O Ensino Primário Brasileiro no Decênio 1932-1941”, Teixeira de Freitas identifica que o principal problema não estava na falta de vagas ou no desinteresse por parte das famílias de enviarem seus filhos para estudar. O problema, já naquela época, era a péssima qualidade do ensino. “A nação já envia à escola, nas zonas urbanas, 95% dos seus infantes, e, nas áreas rurais, mais da metade deles”, escreveu o pesquisador em 1946.

Se a maioria dos alunos era enviado à escola, como explicar que sete em cada dez crianças na faixa de 7 a 14 não estudavam? A resposta estava nas absurdas taxas de reprovação e abandono na primeira série do ensino primário, equivalente hoje ao segundo ano de nosso ensino fundamental (para crianças de sete anos). Na mesma obra citada, Teixeira de Freitas identifica que a matrícula no primeiro ano do primário era já próxima do total de alunos da faixa etária no país. Porém, uma análise mais detalhada mostra que mais da metade dos matriculados nessa série era de alunos repetentes, que acabavam nos anos seguintes desistindo de estudar.

“A causa disto? Aponta-a a estatística de maneira impressionante: é a ineficiência do ensino. A atuação da escola, em vez de aproveitar, sob salutares estímulos, a tenacidade do discipulado, transforma-a em estagnação patológica, que se traduz por enorme repetência, máxime na 1a série, a repercutir nas séries superiores como aparente evasão escolar, quando esta é, em verdade, a desistência fatigada dos alunos após prolongado insucesso”, diz o autor no livro, para em seguida refletir sobre a responsabilidade por esse fracasso.

“Mas tão grande ineficiência ocorreu, acaso, por culpa dos alunos? Ou das famílias? Não. Por culpa exclusiva da organização escolar. A Nação – agora já se vê isto inequivocamente – vem cumprindo o seu dever onde quer que disponha de escola aonde mandar os seus filhos. Mas a Escola não tem cumprido o seu, deixando de educar as crianças que a Nação de fato lhe confia ao levá-las à inscrição insistentemente – e por certo sob penosos sacrifícios – mas em pura perda.”

Certamente existiam boas escolas públicas no passado, como há atualmente também algumas. O problema, ontem e hoje, é que apenas uma minoria de alunos progredia no sistema e conseguia chegar aos melhores colégios públicos do país.

PS – Na biblioteca virtual do IBGE, é possível fazer o download gratuito de alguns dos livros de Teixeira de Freitas sobre educação, e de algumas publicações do pesquisador Nelson Senra sobre sua obra.

O livro “O Ensino Primário Brasileiro no Decênio 1932-1941” está disponível na biblioteca do IBGE para download neste link.

Também sobre Teixeira de Freitas, ainda sobre educação, é possível acessar o livro “Teixeira de Freitas: Um Cardeal da Educação Brasileira”. Veja o link aqui. 

Outro livro sobre Teixeira de Freitas, esse não restrito à educação, é “Teixeira de Freitas e a Criação do IBGE: Correspondências de um homem singular e plural”, de Nelson Senra, acessível neste link

Autoras investigam educação de crianças na Dinamarca, país mais feliz do mundo

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Crianças dinamarquesas assistem à competição de vela: socialização é aspecto importante na formação de filhos no país - Reuters

Crianças dinamarquesas assistem à competição de vela: socialização é aspecto importante na formação de filhos no país – Reuters

 

Segundo elas, a raiz dessa satisfação está na forma como os filhos são criados

Mariana Alvim, em O Globo

RIO – Considerado o país mais feliz do mundo em três das quatro edições do Relatório Mundial da Felicidade, das Nações Unidas, a Dinamarca motiva investigações e suposições sobre as causas de tanta satisfação. No livro “Crianças dinamarquesas: o que as pessoas mais felizes do mundo sabem sobre criar filhos confiantes e capazes” (Fontanar), publicado em 18 países e recém-chegado no Brasil, as autoras Iben Sandahl e Jessica Alexander levantam uma hipótese: a raiz dessa felicidade está na forma como os filhos são criados.

Entre os preceitos dessa educação estão a liberdade com limites, formação cidadã e altas doses de “hygge” (pronuncia-se “ruga”), palavra dinamarquesa que define momentos de alegria com pessoas queridas, sejam amigos ou familiares, e é um estilo de vida, segundo o livro, que tem até um “juramento do hygge”. Iben é dinamarquesa e psicoterapeuta especializada em crianças e família, enquanto Jessica, com formação em Psicologia, é americana, casada com um dinamarquês e radicada na Itália. Ambas são mães, com dois filhos cada.

O GLOBO – Por que as crianças dinamarquesas são mais felizes?

Iben: Os dinamarqueses dão muita importância à socialização e à formação da criança como um todo, em vez de somente destacar suas notas e conquistas. Ensinamos ativamente a empatia, o que torna a criança capaz de levar uma vida autêntica, de se conhecer e agir a partir disso. As crianças dinamarquesas sabem que os desafios e problemas não as derrubam, porque não são poupadas disso na criação. A brincadeira também é considerada importante no aprendizado, mesmo com toda a pressão para ter as crianças engajadas em várias coisas que dão resultados mensuráveis. Não há nada a “realizar” numa brincadeira, e a personalidade da criança pode se desenvolver. Isto é um dos grandes motivos para nosso país ser o mais feliz do mundo.

Os pais dinamarqueses sabem dizer “não” para seus filhos?

Iben: Uma abordagem não disciplinadora da criação não significa que os limites não existam. Pelo contrário! Trata-se de estabelecer regras que criam um sentimento de segurança para a criança de uma forma respeitosa. Mas os conflitos de força podem ser algo difícil de evitar, apesar de tudo. Na Dinamarca, tentamos não entrar imediatamente nessas disputas.

Jessica: Dinamarqueses são muito bons em estabelecer limites, mas fazem isso com respeito e explicação. Não é fácil, mas costumo dizer que os dinamarqueses enxergam o papel de um pai ou uma mãe como um farol: eles enviam sinais consistentes, e as crianças devem aprender como navegar em suas vidas. A questão não é controlar, mas, sim, guiar.

Como é a relação das famílias com a tecnologia na Dinamarca?

Iben: As crianças usam celulares e tablets, mas não durante as refeições, por exemplo. Não podemos evitar as novas tecnologias, e esses aparelhos podem ser úteis como ferramentas pedagógicas ou até para acalmar a criança, se usados adequadamente. Mas insisto na importância dos momentos em que ninguém está ligado neles, todo dia. O cérebro das crianças precisa de paz, e os adultos precisam controlar e dar limites que façam sentido. Somos nós, os pais, que decidimos que tipo de família queremos ser.

Pais que vivem em países com condições socioeconômicas bem diferentes da Dinamarca podem, mesmo assim, aprender com o livro?

Jessica: Não moro na Dinamarca, mas uso a conduta dinamarquesa. É uma filosofia. Todos podem, por exemplo, dar a seus filhos mais tempo para brincar. Ensinar o valor da empatia, também. É claro que a qualidade de vida na Dinamarca, com toda sua estabilidade e benefícios, torna mais fácil aplicar esses ensinamentos, mas muitos podem ser adotados ao redor do mundo.

Você percebe diferenças na criação de filhos entre países que conhece?

Jessica: Sim, enormes! Vejo os Estados Unidos como extremamente competitivo e acadêmico: tudo precisa ser medido e classificado com notas. Na Dinamarca, o foco é no espírito colaborativo. Os alunos não recebem notas antes dos 13 anos. A Itália… Bem, a Itália não é muito moderna. Diria que o estilo da educação aqui está mais para o autoritário. Está ocorrendo um intenso debate, porque a França tornou a palmada ilegal (na Dinamarca, a palmada foi banida nos anos 90). E na Itália, a palmada ainda é amplamente aceita. Mas é bem marcante, por exemplo, a importância da família na sociedade.

Já viveu alguma situação diferente, no exterior, que chamou sua atenção sobre a criação dos filhos?

Jessica: Os italianos são muito protetores. Então, a abordagem dinamarquesa, de dar liberdade aos filhos, deixá-los cair e se sujar, é muito nova aqui. Quando eu saio com os meus filhos, os italianos acham que eles são completamente selvagens!

Leitores de outros países já demonstraram algum estranhamento?

Iben: A brincadeira livre é estranha para muitos. Deixe a criança ser criança e brincar mais! Isto é algo que temos feito há tempos. Com essa liberdade, a criança explora o mundo ao redor sem muita interferência dos pais e se desenvolve sem perceber, nos seus próprios termos. Assim, ela pode escolher o que fazer. Hoje em dia, os pais estão tão preocupados em programar tudo para os filhos que muitas crianças não têm a habilidade de tomar decisões.

Como é o apoio do governo à criação dos filhos na Dinamarca? E a divisão de tarefas entre pais e mães?

Iben: Você recebe apoio financeiro para ficar em casa quando tem um bebê recém-nascido. A gestante tem direito a uma licença de quatro semanas antes do parto, de 14 semanas após o nascimento, e uma licença que pode ser dividida entre o pai e a mãe, no total de 32 semanas. Muitos homens tiram proveito desse benefício, então é natural que pai e mãe se envolvam na vida da criança desde o começo.

Por que você acha que as pessoas ficam tão interessadas em livros sobre a criação de filhos em outros países?

Iben: Todos queremos que nossos filhos se tornem pessoas felizes e conscientes — e isto vai além das fronteiras. Portanto, buscamos informações de quem compartilhamos valores. O livro oferece uma filosofia que faz as crianças felizes.

Jessica: Com a globalização, percebemos que não somos afetados apenas por nossos pais, mas também pela nossa cultura.

Como sua família recebeu o livro?

Jessica: Independentemente de gostar ou não do livro, as pessoas discutem sobre ele. Minha família era muito autoritária. No início, meus pais foram resistentes ao livro, mas quando virou um best-seller, eles leram. E a nossa relação mudou. Nós implementamos o “juramento do hygge”, e isso transformou nosso convívio.

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