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Tecnologia permite que alunos com doenças graves tenham aula fora da escola

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 Alanna Anders foi diagnosticada com câncer, mas continuou a estudar usando a plataforma do colégio Porto Seguro (Foto: Arquivo pessoal)

Alanna Anders foi diagnosticada com câncer, mas continuou a estudar usando a plataforma do colégio Porto Seguro (Foto: Arquivo pessoal)

Mariana Queen Nwabasili, no R7

Quando estava no 6º ano do ensino fundamental, o estudante Ricardo (nome usado para preservar identidade da criança) foi diagnosticado com leucemia. O tratamento da doença exigia transplante de medula e, consequentemente, o afastamento do ambiente escolar por um período de, no mínimo, sete meses.

Meses depois, na mesma escola em que ele estudava outra aluna teve uma doença grave. Alanna Anders, que cursava o 1º ano do ensino fundamental, foi diagnosticada com um câncer raro que afeta os rins.

A escola resolveu então tomar uma providência: utilizar meios tecnológicos para garantir a participação dos alunos nas aulas, estando eles em casa ou no hospital.

Roberto, que usou a tecnologia primeiro, tinha um tablet e acessava o espaço virtual de estudos disponibilizado pela escola nos momentos em que estava se sentindo melhor, conta Renata Pastore, diretora-geral de tecnologia educacional do Colégio Porto Seguro.

— Pensamos em montar uma sala de aula online no Moodle [plataforma de compartilhamento de conteúdos online] da escola. A ideia era fazer uma ponte entre a escola e o aluno.

A plataforma traz exercícios de fixação que dão apoio ao conteúdo aprendido na sala de aula. A instituição montou um ambiente online de estudos só para os alunos que passavam por tratamento médico, mas, normalmente, cada classe da escola tem uma sala de aula online no ambiente virtual.

Utilizando um tablet emprestado pela escola, Alanna teve acesso a exercícios no Moodle direcionados à continuidade da alfabetização.Também eram transmitidas a ela as mesmas atividades que estavam sendo feitas em sala de aula pelos seus colegas de turma.

— A gente sabia que não ter acesso a nenhum tipo de conteúdo durante o tratamento iria dificultar a passagem dela para o segundo ano. Achávamos que a parte emocional também ficaria prejudicada, porque ela perderia todo o contato com os amigos, diz Renata.

Além de ter acesso ao Moodle, algumas vezes, por semana Alanna se correspondia com os seus amigos de classe por meio de videoconferências feitas durante as aulas.

— Usar a plataforma em casa foi muito legal, porque eu via meus amigos, podia estudar e brincar com eles novamente. As matérias que mais gostei foram matemática e ciência, com os jogos e atividades, mas o mais legal mesmo foi rever meus amigos, diz a aluna.

Segundo Juliana Ortiz, professora de Alanna, a experiência transformou todos os envolvidos.

“No início foi até engraçado, porque na rotina das crianças sempre pergunto ‘quem faltou’? E os alunos falavam ‘faltou a Alanna’. Com o passar dos dias, eles já não falavam mais isso, porque ela estaria presente [via videoconferência]. A turma se modificou muito ao longo desse período, foi um movimento muito cativante”, conta.

Além do conteúdo 

As ações de inclusão com os alunos trouxeram resultados para além da compreensão do conteúdo. Sendo avaliados pelos professores por meio do Moddle, Ricardo e Alanna puderam passar de ano e retomar os estudos presenciais no colégio, ainda respeitando as necessidades dos tratamentos médicos.

Mas, acima de tudo, como comenta Telma Vinha, professora de psicologia educacional da Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), os alunos foram amparados em um período de dificuldade e necessidade de recuperação.

— Para o estudante que está afastado, o mais importante não será adquirir conteúdo, mas sim continuar a se sentir pertencente a esse grupo de alunos, perceber que os amigos e os professores se importam, estão preocupados e interagindo com ele. O amigo é sempre um fator de proteção para as crianças.

Segundo Telma, quando a escola demonstra uma preocupação sobre como é possível incluir a distância, ela está ensinando para os seus alunos a ideia da generosidade e acessibilidade.

Considerando instituições que não possuem um Moodle, César Nunes, assessor de informática educativa na rede municipal de educação de São Paulo, fala sobre experiências em escolas públicas.

— Nas escolas municipais de São Paulo, utilizamos o Edmodo, um ambiente de colaboração, e também o EducaPX, que é um espaço para alunos e professores publicarem sites.

— A Secretaria Municipal de Educação adota esses e outros softwares para facilitar a inclusão dos alunos. Eles são distribuídos para as escolas e ajudam a suprir diferentes necessidades.

Ensino fundamental a distância 

Desde 1969 no Brasil, o decreto Lei nº 1.044 garante tratamento excepcional para os alunos que passam por doenças graves. O artigo 2º da lei possibilita a esses estudantes compensação da ausência às aulas e execução de exercícios em casa por meio do acompanhamento da escola. Os chamados exercícios domiciliares devem ser compatíveis com o estado de saúde do aluno e o local em que ele está se tratando.

Segundo Renata Pastore, as iniciativas desenvolvidas com Ricardo e Alanna no colégio Porto Seguro têm base nessa lei. A diretora  acredita que o uso da tecnologia pode ser feito em atividades educacionais nos anos iniciais do ensino fundamental. Porém, faz uma avaliação específica sobre a educação a distância nessa fase do ensino.

— É importantíssimo que o aluno frequente a escola, porque um dos principais objetivos da escola é trabalhar o convívio social da criança. Então, as crianças devem conviver com amigos e professores.

Pesquisa mostra que alunos perdem um dia de aula por semana devido a má gestão no ensino público

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No Brasil, 27% do tempo em sala é dedicado a organização da turma e 9%, a atividades não escolares

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Por O Globo

RIO – O mau gerenciamento das salas de aula das escolas públicas no Brasil faz com que os estudantes percam o equivalente a um dia inteiro de ensino por semana. O dado é do novo relatório “Professores excelentes: como melhorar a aprendizagem dos estudantes na América Latina e no Caribe”, divulgado pelo Banco Mundial.

Ao observar mais de 15 mil salas de aula de três mil escolas em sete países latino-americanos, pesquisadores detectaram problemas relacionados às relações cotidianas entre alunos e educadores — falta de liderança, perda de tempo letivo com assuntos extracurriculares —, além de baixo padrão de formação de professores, ausência de planos de carreira, baixos salários e falhas nas avaliações de desempenho. Tudo isso, somado, explicaria o desempenho ruim dos alunos nas avaliações internacionais.

—A observação das salas de aula no Brasil mostrou que 64% do tempo são direcionados a atividades acadêmicas; 27%, à organização da sala de aula; e 9%, a atividades que não competem ao ensino. O padrão para um bom gerenciamento seria com 90% direcionados às práticas pedagógicas, e 10%, para a organização sala — afirma Barbara Burns, uma das coordenadoras da pesquisa.

Docente bom, aluno adiantado

O levantamento demonstrou que alunos com os melhores docentes conseguem superar em até 50% o conteúdo previsto para uma determinada série, antecipando tópicos da seguinte. Já nas escolas com os piores professores, a turma chega ao fim do ano letivo com menos da metade do conteúdo planejado.

A pesquisa também revelou que o desempenho escolar dos estudantes influencia na economia do país. O relatório expõe que, se o México aumentasse o rendimento médio de seus estudantes no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) até o nível da Alemanha, seu produto interno bruto (PIB) teria um incremento de dois pontos percentuais.

— É difícil pensar em um elemento mais importante para ampliar as oportunidades para todos os latino-americanos do que a qualidade da educação — afirma Jorge Familiar, vice-presidente do Banco Mundial para a região.

O Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe) afirma que o Estado não fornece condições para a atuação do professor, e isso é refletido em sala de aula.

— É inviável um bom rendimento sem formação continuada e com remuneração baixa. O que acontece na sala de aula é um reflexo da falta de estrutura. O professor está entregue a sua própria sorte — afirma Samantha Lopes Maciel, coordenadora-geral do sindicato, que ficou espantada com o índice de “perda de tempo” em sala, mas o vê como um problema de planejamento. — É necessário que o professor tenha um momento na sua carga horária para reunião e planejamento. Quando não existe, isso impacta na relação com os alunos.

O relatório demonstra a falta de incentivo salarial. O nível de remuneração mensal em 2010, na América Latina, era entre 10% a 50% mais baixo do que a verificada em outras carreiras equivalentes. Essa relação se mantém desde 2000.

Revisão curricular é necessária

Para o presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, Moacir Feitosa, há uma deficiência na formação, que deveria ser bem mais completa.

— Do ponto de vista acadêmico, os currículos deveriam ser mais plenos. Falta uma atenção mais intensiva aos objetivos de cada série. A distribuição do tempo fica prejudicada quando se dá atenção a várias demandas e se perde o foco na questão central. Por isso, é necessário revisarmos o currículo para cada segmento — afirma Moacir.

A atenção mais direcionada é um dos pontos do relatório que demonstram como simples práticas podem gerar resultados.

— Durante a observação, vimos professores que faziam coisas simples como comentar o dever de casa. Quando cruzamos com os resultados daquela turma em exames, vimos que há uma correlação positiva — afirma Barbara, que enfatiza a necessidade de investimento: — Obviamente, o professor precisa ter condições de trabalho para atuar.

Gustavo Ioschpe derruba 12 mitos da educação brasileira

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Gustavo Ioschpe: "No dia em que a má qualidade do ensino tirar votos, teremos uma mudança verdadeira no país." (Heitor Feitosa/VEJA.com)

Gustavo Ioschpe: “No dia em que a má qualidade do ensino tirar votos, teremos uma mudança verdadeira no país.” (Heitor Feitosa/VEJA.com)

Professor ganha pouco, universidade pública deve ser gratuita… O economista desconstrói versões predominantes sobre a realidade e os desafios do ensino nacional. Leia também: trecho inédito do novo livro do colunista de VEJA

Bianca Bibiano, na Veja

No início de 2013, Israel Lelis (PP), prefeito de Ibipeba, cidade de 17.000 habitantes no interior da Bahia, teve uma atitude bastante incomum: deu a todos os 200 professores da rede municipal de ensino local um exemplar do livro O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer?”, de Gustavo Ioschpe, economista e colunista de VEJA. “Pensamos que era uma piada de mau gosto”, conta Cleide Lelis, secretária de Educação da cidade. “Os professores que não conheciam o autor acharam que se tratava de um pseudônimo criado pelo prefeito para criticar nosso trabalho.” Esclarecida a situação, os docentes organizaram um evento para discutir os artigos do livro, publicados originalmente em VEJA. “Os textos falam do que ninguém quer ouvir e fazem questionamentos que enriqueceram o debate sobre o que fazer para melhorar a qualidade da educação”, diz a secretária.

O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer? (Editora Objetiva; 254 páginas; 36,90 reais). Divulgação/ Ed. Objetiva

O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer? (Editora Objetiva; 254 páginas; 36,90 reais). Divulgação/ Ed. Objetiva

Sim, falar de temas espinhosos, questionar versões consagradas e derrubar mitos sobre a educação brasileira (leia na lista abaixo) é uma especialidade de Ioschpe, de 37 anos. Apoiado em rigor metodológico e na análise minuciosa de pesquisas nacionais e internacionais, o economista desconstrói discursos que se tornaram predominantes entre professores, pais, políticos e quase toda a sociedade para explicar a funesta situação do ensino nacional e seus desafios. Ioschpe volta à carga em novo livro, uma edição ampliada de “O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer?”, que chega às livrarias no dia 1º de agosto e reúne 40 artigos publicados em VEJA entre 2006 e 2013. Os textos tratam de questões como financiamento da educação, participação dos pais e propostas de melhoria do ensino. O volume traz ainda um extenso material produzido após uma viagem do autor à China, em 2011, para investigar as causas do recente e acelerado avanço da educação no país asiático. Parte da apuração foi publicada à época em VEJA, mas parte permanecia inédita até agora (leia capítulo na íntegra).

A bagagem que permite ao economista fazer afirmações incisivas, que destoam da maioria — como a de que o Brasil não gasta pouco em educação e de que os professores não ganham mal —, foi acumulada ao longo de mais de 15 anos de pesquisas. “Eu não escrevo para mostrar minha opinião. Escrevo como pesquisador, apoiado em literatura empírica”, diz Ioschpe. O gaúcho de Porto Alegre começou a escrever quando cursava o ensino médio e se preparava para o vestibular. “Sempre gostei de escrever e resolvi fazer um livro com dicas para vestibulandos que, assim como eu, precisavam aguentar a pressão dos exames.” A repercussão do livro rendeu um convite para se tornar colunista do jornal Folha de S.Paulo, em 1996. No mesmo ano, foi aprovado na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, onde estudou administração, economia e ciências políticas.

O interesse pela educação brasileira nasceu com a repercussão de um artigo que defendia a cobrança de mensalidade nas universidades públicas. “Foi a primeira vez que recebi uma resposta agressiva dos leitores”, diz. Para compreender o que causava tantas queixas, decidiu aprofundar a discussão em uma pesquisa científica. O resultado do trabalho ganhou forma em sua tese de graduação e foi aprofundado no curso de mestrado em desenvolvimento econômico na Universidade de Yale, onde ele mergulhou no estudo da economia da educação.

“Minha pesquisa me deixou chocado. Àquela altura, o Brasil ganhava visibilidade internacional com a promessa de um forte crescimento econômico, mas sofria com um problema seriíssimo de falta de capital humano, que atrapalhava o crescimento da nação e persiste até hoje. Para piorar, a discussão a respeito era irrelevante. O debate se resumia ao financiamento da educação e ao salário dos professores.”

Com a “pretensão da juventude”, como ele mesmo define, Ioschpe pensou que poderia mudar o eixo central do debate usando argumentos de sua tese de mestrado, publicada em 2002. “Eu queria mostrar que soluções comprovadamente eficazes para alavancar a aprendizagem, como cobrar diariamente o dever de casa, não envolviam recursos financeiros. Mas ninguém quer ouvir sobre soluções que deem mais trabalho aos professores. A educação nacional era e continua um desastre.”

O receio de que o atraso educacional aniquilasse as chances de o Brasil se tornar um país desenvolvido motivou Ioschpe a seguir escrevendo — ele é colunista de VEJA desde 2006. “O maior elogio que posso receber é uma crítica pessoal. Se os comentários apontassem fraquezas nos dados que apresento, eu me importaria de verdade. Quando elas vem recheadas de xingamentos, vejo apenas que faltaram argumentos consistentes aos meus interlocutores.” Com poucos interlocutores nessa seara dispostos a debater, o economista mirou outro alvo. “Antes, eu acreditava que poderia interferir no debate educacional mostrando que o problema é de má gestão e não de falta de recursos financeiros ou tecnológicos. Recentemente, concluí que discutir com esses grupos não adianta: a mudança só vai acontecer quando a população passar a cobrar melhorias.”

 

1 -”O Brasil investe pouco em educação”

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“Se um médico prescreve um remédio para uma doença e ele não surte efeito, a primeira opção é aumentar a dosagem. Se o problema persistir, provavelmente o médico tentará outro medicamento. Quando o assunto é educação, a lógica segue o caminho oposto: a solução para todos os problemas é sempre aumentar a dosagem do que se considera o único remédio, ou seja, o dinheiro. Os defensores desse tratamento desconsideram o fato de que repasses de verba cada vez maiores já foram anunciados por programas como Fundef e Fundeb sem melhorar a qualidade da educação. Apesar disso, o Plano Nacional de Educação, recém-sancionado pela presidente Dilma Rousseff, prevê que, até 2024, 10% do PIB brasileiro deve ir para o setor. Segundo a Unesco, países como Finlândia, China, Irlanda e Coreia do Sul, que apresentam os melhores índices educacionais do mundo, gastam até 5,7% do PIB com educação. Em contraponto, nações como Quênia, Namíbia, Armênia e Mongólia despendem entre 7% e 12,9% do PIB no setor: mesmo assim, não conseguiram solucionar o problema da baixa qualidade do ensino.”

 

2 -”Os professores são mal remunerados”

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“No Brasil, o salário da maioria dos profissionais, como médicos, engenheiros, artistas e professores, é em média 3,5 vezes inferior ao pago a profissionais das mesmas categorias nos Estados Unidos. A diferença salarial é explicada pelo PIB per capita de cada país. O professor ganha pouco por ser brasileiro, não por ser professor. O argumento comum, porém, é de que se o Brasil quiser atingir o patamar educacional de países desenvolvidos, como os próprios Estados Unidos, deve pagar o mesmo a seus docentes. Isso desconsidera o fato de que quase 80% do gasto com educação aqui são destinados a pagar salários de professores e funcionários. Se pagarmos aos docentes brasileiros, em termos nominais, o mesmo que os americanos recebem, eles seriam a única categoria a atingir esse patamar salarial no Brasil. Os demais profissionais, contudo, continuariam a ganhar 3,5 vezes menos.”

 

3 -”Ganhando mais, os professores vão ensinar mais”

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“Não há, na literatura empírica nacional e internacional, provas de que salários mais altos influenciam a melhora na qualidade do ensino. Uma simples constatação disso é que os sucessivos aumentos no piso salarial dos docentes brasileiros até hoje não tiveram reflexos nos índices educacionais e também não solucionaram os problemas das greves, que continuam a acontecer todos os anos. O sistema educacional é perverso: se o professor faz mal o seu trabalho e ainda assim ganha mais, por que lutar para fazer um trabalho melhor que não trará mais ganhos?”

 

4 -”As salas de aula têm alunos demais”

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“Este é um dos mitos comumente relacionados à baixa qualidade do ensino e à necessidade de aumento salarial dos docentes. A relação, porém, não resiste à apuração de pesquisas empíricas. Elas mostram que, em salas com menos de 20 alunos, a turma aprende o mesmo que em uma sala mais cheia. O único fator que faz diferença real é o professor e sua capacidade de gerir uma sala de aula e transmitir conhecimentos para um grupo.”

 

5 -”Escola em tempo integral vai melhorar os índices educacionais”

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“Há evidências de que mais horas-aula melhoram o desempenho acadêmico. O problema é que a carga horária brasileira, que já não é alta, raramente é cumprida, e a maioria dos programas de ensino integral praticados no Brasil oferecem atividades não-acadêmicas, como música e esporte, no contraturno. Nesse modelo, o ensino em tempo integral é um desperdício. A primeira prioridade deveria ser usar o tempo de aula de modo eficiente, pois o Brasil é um dos países que mais desperdiça tempo com atrasos de professores e alunos, anúncios, chamada etc. Quando essa carga horária estiver bem ocupada, e quando os programas no contraturno forem de português, matemática e outras disciplinas, o desempenho dos alunos vai melhorar. Nesse caso, eu seria totalmente favorável à iniciativa.”

 

6 -”A tecnologia vai resolver o atraso escolar”

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“Praticamente toda a pesquisa sobre o assunto, não apenas no Brasil como no exterior, mostra que não há relação entre a presença de computadores na escola e aprendizado. Ainda assim, o Ministério da Educação decidiu em 2012 dar tablets aos professores, um custo de 150 milhões de reais. O fracasso atual das tecnologias em sala de aula não quer dizer que elas não possam dar resultados no futuro. A utilização de softwares específicos para aprendizado tem mostrado resultados positivos, principalmente em matemática. Mas o melhor software educacional disponível hoje é, disparado, o cérebro de um bom professor.”

 

7 -”A escola tem que formar cidadãos críticos e conscientes”

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“Esse argumento reflete a ideologização do ensino, presente em todas as escolas brasileiras. Pesquisas do Inep (órgão ligado ao MEC responsável por pesquisas educacionais) com professores mostram que nove em cada dez docentes concordam com a afirmação de que ‘o professor deve desenvolver a consciência social e política das novas gerações’. Menos da metade, no entanto, acredita que ‘o professor deve evitar toda forma de militância e compromisso ideológico em sala de aula’. Essa percepção, além de alterar o conteúdo a ser ensinado, afeta a forma como ele chega aos alunos: por isso, trabalhos em grupo passaram a se sobrepor a exercícios individuais, notas e provas passaram a ser vistas com maus olhos e recompensar o mérito acadêmico é equivalente a premiar uma competitividade nefasta. É impossível, porém, medir se essa filosofia está efetivamente criando cidadãos críticos e conscientes ou apenas se sobrepondo ao ensino dos conteúdos.”

 

8 -”Rankings educacionais não levam em consideração a realidade das escolas”

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“É verdade que os rankings educacionais não consideram fatores socioecômicos. O que se esconde por trás desse mito, contudo, é a ideia de que por causa disso eles não podem ser considerados bons termômetros para a educação, como apontam os críticos das avaliações externas nacionais e internacionais. Os rankings estão certos em não considerar esses fatores, porque eles devem medir o conteúdo que está sendo ensinado em uma determinada etapa de ensino, independente da localidade da escola. Se eles considerassem o fator social, esse serviria apenas de muleta para justificar o fato de que em regiões mais pobres os alunos aprendem menos e não há nada a ser feito. Com os rankings isentos dessas peculiaridades, é possível saber onde está o problema e minimizar fatores externos ao ensino dos conteúdos com uma política educacional específica. Onde há déficit econômico, é preciso haver superávit educacional.”

 

9 -”Divulgar a nota do Ideb na porta das escolas estigmatizaria alunos” (mais…)

Infrator aprovado na UnB celebra vida nova: ‘só pisei lá para vender droga’

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Ele vai cursar educação física e chama última apreensão de ‘mal-entendido’.
Jovem já tinha ensino médio e estudava enquanto colegas assistiam à TV.

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Raquel Morais, G1

Seis meses cumprindo medida socioeducativa em centros do Distrito Federal fizeram o jovem Matheus [nome fictício], 18 anos, tomar uma decisão importante: esquecer a “vida de drogas e roubos” e estudar. Mesmo já tendo concluído o ensino médio, ele conseguiu autorização da direção da Unidade de Internação do Recanto das Emas para frequentar a escola como ouvinte e levar apostilas, caderno e caneta para o quarto. O resultado veio em pouco tempo. Quase cem dias depois, o nome dele estampava a lista de aprovados em educação física na Universidade de Brasília.

“Só fui à UnB uma vez, para vender drogas e roubar”, contou ao G1. “Eu acho que vai ser uma experiência diferente. Todo mundo fala que na universidade surgem muitas oportunidades, que no segundo semestre a gente pode estagiar. Agora, vou à UnB como uma pessoa normal.”

Matheus diz enxergar na graduação uma oportunidade de mudança. Ele foi apreendido em outubro do ano passado, a dez dias de completar a maioridade, em um episódio que classifica como um “mal-entendido”. O jovem usava uma camiseta vermelha e óculos escuros – mesma descrição dada pelas 12 vítimas do suspeito de três assaltos em série ocorridos em Brasília.

Apesar de não ter sido reconhecido por ninguém, o rapaz acredita que permaneceu detido por ter um “histórico ruim”. Então funcionário de uma empresa que funciona perto de casa, ele estava em semiliberdade por atos infracionais análogos a tráfico de drogas, roubos, lesão corporal e porte ilegal de arma.

“Eu achava que comemoraria meu aniversário na beira do Lago [Paranoá], mas não foi o que aconteceu. De alguma forma, bateu um sentimento de revolta. Eu estava sendo culpado injustamente, por algo que não fiz. Mas na minha cabeça teve espaço para tudo, inclusive que, querendo ou não, eu procurei. Achava que eu estava pagando pelo que fiz e ninguém havia descoberto”, disse.

O jovem passou pelo Centro Socioeducativo Amigoniano (Cesami) e pela Unidade de Internação do Plano Piloto. Lá, ficou até o final de março, quando o espaço foi desativado e demolido. Desde então, Matheus cumpre a medida socioeducativa no Recanto das Emas.

Entediado com a rotina de apenas acordar, almoçar, tomar banho de sol, jantar e ver televisão com os cinco companheiros de quarto, o rapaz pediu para acompanhar as aulas do ensino médio como ouvinte. As três horas por dia em sala de aula não lhe pareceram suficientes, e o garoto decidiu aproveitar o tempo em que os colegas assistiam a novela para ler as apostilas e fazer novas anotações.

“Não é que eu não gostasse de ver TV também, mas aquilo cansava. Era legal, mas não ia para lugar nenhum. Preferia estudar. Eu nem sei dizer como que eu me concentrava, mas dava certo. Eram mais duas ou três horas por dia no quarto”, afirma o jovem. “Eu gosto muito de matemática e física.”

Matheus recebeu o apoio dos funcionários da unidade – um dos agentes levava canetas de casa para o garoto todas as vezes que um colega confiscava, duvidando que ele realmente estivesse estudando – e dos pais. A mãe, Laura [nome fictício], lembra que chegava a comer dentro do carro ou na fila para nunca deixá-lo sozinho nos dias de visita. O orgulho era grande quando o garoto mostrava as redações que treinava na escola.

“Uma vez ele me disse: ‘mãe, a senhora não desiste de mim? A senhora passa vergonha toda vez’. E, por mais que eu ficasse chateada de vê-lo, com todas as oportunidades que teve, fazendo o que fazia, eu nunca desisti. Eu nunca desistiria”, diz a Laura [nome fictício]. “O Matheus é um menino inteligente, começou a ler com 4 anos. Estudo na nossa casa sempre foi prioridade.”

Mas, apesar da dedicação, o rapaz não cogitava prestar vestibular. A inscrição foi feita pelo pai, Afonso [nome fictício], e contra a vontade do filho. O homem contratou um advogado para pedir à Justiça autorização para que o garoto participasse dos dois dias de seleção. Para surpresa dele, o pedido foi negado, com a alegação de que Matheus tinha pouco tempo de internação. A família entrou então com uma liminar e conseguiu que ele fizesse a prova.

Afonso lembra que deu plantão no site do Cespe para ver o resultado. Às 17h, ele encontrou o nome do filho. “Eu gritei à caçula, gritei que o Matheus havia passado. A gente quis dar a notícia no dia, mas não pôde. Eu falava para ele da importância dos estudos, mas ele não acreditava nele mesmo. Foi difícil convencê-lo, ele achava que não valia a pena tentar. Acho que fiquei mais ansioso do que ele.”

O resultado animou os 40 colegas de módulo de Matheus, que também decidiram estudar. Até então, o rapaz já era uma inspiração para o grupo e, por causa da facilidade com português e da boa caligrafia, era o “escriba” da turma e escrevia cartas a pedido dos meninos. Além disso, dava dicas de estudos.

A aprovação do garoto no vestibular fez com que os colegas passassem a pedir ajuda para conquistar “novos sonhos”. Parte da equipe multidisciplinar que atende o módulo, a psicóloga Izabela Borges Mendes afirma que o jovem foi um precursor e mudou a forma como o grupo encarava os estudos.

“Ele plantou a sementinha nos outros. Agora, é um tal de ‘dona Izabela, a senhora consegue uma apostila para mim?’, ‘a senhora liga para a minha mãe para lembrá-la que quero fazer aquele concurso?’, ‘eu quero estudar’. Estamos felizes por ele e felizes pelo bem que inspirou nos outros. O Matheus amadureceu bastante aqui”, diz.

Por causa da força de vontade de Matheus de estudar e do resultado obtido em um curto prazo de tempo, a equipe multidisciplinar decidiu enviar um relatório à Justiça pedindo a liberação dele das medidas socioeducativas. A solicitação foi reforçada pelo advogado da família.

“A gente considera que é o melhor para ele agora. Seria constrangedor e desnecessário que ele frequentasse a UnB escoltado, tendo que dar explicações sobre isso. No relatório, colocamos que ele cometeu um ato infracional de menor potencial ofensivo e cumpriu a medida por um tempo bom – são quase dez meses. E ele tem uma família presente e estruturada”, explica a psicóloga.

Futuro

Os planos do jovem transcendem as aulas na UnB, que começam no dia 11 de agosto. Matheus diz que pretende cursar arquitetura nos próximos anos e que também quer fazer concurso público. “Imagina que algum dia eu posso voltar para cá, mas como professor de educação física, ensinando a esse pessoal que vale a pena estudar”, sonha.

A ideia dá orgulho à família, que espera inaugurar uma fase nova junto ao garoto. O casal veio para o Distrito Federal com os filhos em 2010 e afirma que aproveitou pouco a convivência na nova cidade. Os problemas de Matheus com “más companhias e drogas” começaram no ano seguinte, quando ele tinha 14 anos.

“Passei por uma fase muito ruim. Sentia muita raiva, mas nem sei exatamente de quê”, conta o rapaz. “Lembro de um dia que minha mãe achou um pedaço de maconha e quis saber de quem era. Eu neguei. Só que isso é passado. Eu sei que não vou esquecer, mas quero pegar o que aprendi aqui e levar para frente. Aprendi a esperar, a obedecer, me liguei à minha família e a comecei a confiar em Deus e em mim.”

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estigmatizado por ter cumprido medida socioeducativa, não esconde preferir que a “fama” fique apenas entre as pessoas próximas.

“Acho que com isso ele viu que droga é uma droga mesmo”, diz. “Agora quero o que é normal. Meu sonho é poder levar toda a minha família para almoçar fora.”

Internação

A unidade em que Matheus cumpre medida socioeducativa funciona no antigo Ciago, no Recanto das Emas, tem 280 jovens. No local, os rapazes frequentam a escola e participam de oficinas, como panificação e mecânica.

De acordo com a psicóloga Izabela Borges Mendes, 70% dos garotos cursaram apenas até a 5ª ou 6ª série. “O caso do Matheus, de já chegar aqui com ensino médio completo, é incomum”, afirma.

Apenas 11% dos jovens negros no Brasil fazem ensino superior, diz estudo da ONU

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Acesso dessa parte da população à universidade melhorou com relação à década de 1990

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Do R7

No Brasil, apenas 11% dos jovens negros que têm entre 18 e 24 fazem universidade. O acesso dessa parte da população ao ensino superior melhorou com relação ao ano de 1992, quando só 2,2% dos jovens negros e mestiços faziam faculdade.

Os dados têm como base o ano de 2012 e constam no novo “Relatório de Desenvolvimento Humano” divulgado nesta quinta-feira (24) pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Considerando o histórico nacional, o estudo elogia a implantação de políticas afirmativas no País, destacando a criação da Lei nº 12.711, mais conhecida como lei de cotas do ensino superior.

Aprovada em agosto de 2012, a medida garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno nas 59 universidades federais e 38 institutos federais de educação, ciência e tecnologia do País a alunos oriundos integralmente do ensino médio público.

Dentro da cota de 50%, as vagas devem ser reservadas considerando o percentual de pretos, pardos e indígenas em cada estado, de acordo com o último censo demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

No relatório, a ONU destaque que, a partir da implantação da lei, “o Brasil está tentando reduzir as desigualdades raciais” entre a sua população. Também é mencionado que a medida garantiu o aumento de vagas direcionadas a brasileiros carentes em universidades públicas. Segundo o levantamento, as vagas para essa parte da população passaram de 30.000 para 60.000 em universidades federais.

Em entrevista coletiva concedida em Brasília, os ministros Tereza Campello (Desenvolvimento Social e Combate à Fome); Arthur Chioro (Saúde) e Henrique Paim (Educação) comentaram os dados divulgados. Paim destacou que “houve um esforço nos últimos anos bastante grande para a implantação de políticas afirmativas”.

— O Enem possibilitou mudança de imaginário da população jovem sobre o acesso à educação. Esse processo de inclusão está reconhecido nesse relatório, disse o ministro.

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