Marcelo Nova - o Galope do Tempo

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Manuscritos de Stephen King e primeiras edições são perdidas após inundação nos EUA

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Livraria ficou praticamente destruída. (Foto: Divulgação)

Rompimento de duas tubulações foi a responsável por inundações em Bangor

Fernando Rhenius, no Vavel

Manuscritos e primeiras edições de Stephen King foram perdidas após tubulações de água se romperem no município de Bangor, Maine nos Estados Unidos. Os documentos eram do colecionador Gerald Winters.

Proprietário de uma livraria especializada em materiais raros de Stephen King, o acervo continha manuscritos, e primeiras edições. De acordo com o site Bangor Daily News, a coleta das obras demorou mais de 20 anos para ser concluída.

A sorte de Gerald mudou nesta terça-feira, 16, quando tubulações subterranêas inundaram as principais ruas do centro da cidade, onde estava localizada a livraria. Foram perdidos mais de 2 mil livros, edições assinadas, cartas, livros traduzidos e sete manuscritos originais de Stephen King, incluindo “O Cadillac de Dolan”, presente no livro Pesadelos e Paisagens Noturnas 1, “Caminhões”, que faz parte do livro Sombras da Noite. Também foram perdidos os manuscritos de “Os olhos do Dragão”, obras assinadas de JRR Tolkien e George RR Martin.

Subsolo da livraria. (Foto: Divulgação)

Há uma primeira edição de” Cemitério Maldito“, disse Gerald, apontando para o livro encharcado. Além de várias caixas boiando no porão. Aproximadamente 90% do acervo foi perdido. De acordo com a prefeitura local foram duas quebras de tubulação nesta terça-feira, uma na Avenida Maine e outra na Universidade do Maine.

O próprio King ficou perplexo com a perda dos manuscritos. “Estou horrorizado. Como amante dos livros, meu coração se dirige a ele “, disse King ao jornal Bangor Daily News na quarta-feira. “Eu eventualmente vou ver se eu posso ajudar de qualquer maneira”.

Conheça Carina Rissi – a autora nacional que vem conquistando o Brasil

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Jadson Lukas, no Cabana do Leitor

No Brasil e no mundo conhecemos muitas e muitas histórias incríveis, mas nem sempre sabemos de toda a trajetória do autor até seu livro ser lido por milhares de pessoas. E, pensando nisso, a editoria de livros do Cabana do Leitor resolveu criar um especial, que será postado 1 vez por semana durante 1 mês, de um autor e falaremos curiosidades sobre eles. Como leitor, eu adoro descobrir como é o autor por trás das páginas de um livro, é uma forma de me conectar com ele e, não podia deixar de falar da autora que me fez conhecer a literatura nacional e me apaixonar por este mundo. É claro que estou falando dela, da diva Carina Rissi.

Carina Rissi nunca imaginou que seria uma autora de sucesso. Desde criança, tem o hábito da leitura, um amor incondicional por Jane Austen e suas obras. Formada em jornalismo, Carina nasceu em Ariranha, uma cidade no interior de São Paulo, onde mora atualmente com sua família, após ter passado uma temporada na capital.

A ideia para escrever seu primeiro livro surgiu de repente: Quando ela estava esquentando um pedaço de lasanha no micro-ondas e faltou energia. Sua mãe lhe aconselhou a colocar a comida em um banho maria, mas ela não fazia ideia do que aquilo significava, então começou a imaginar como seria uma pessoa supermoderna ir parar em um século sem modernidade alguma e então surgiu “Perdida”, seu primeiro romance chicklit.

Perdida conta a estória da Sofia, um garota super moderna do nosso século. Não tem credibilidade no amor, os únicos romances em sua vida são os dos livros.

Após comprar um celular, Sofia percebe que foi parar no século dezenove e tenta desesperadamente voltar para casa. Ela é acolhida pela família Clarke, e com a ajuda do Ian Clarke, Sofia vai encontrando pistas que talvez possam ajuda-la a voltar para casa. Ela apenas não contava que seu coração tinha outros planos…

O processo de escrita do livro “Perdida” levou cinco meses para ficar pronto. Os primeiros capítulos foram escritos em um celular. Carina escrevia em todos os momentos possíveis.

Adriano Capela, seu marido, foi o primeiro a ler e a encoraja-la a publicar e a apoia-la. Eles fizeram publicação independente de “Perdida” por um ano de contrato. O livro foi disponibilizado em e-book e publicado na Alemanha, onde Carina conseguiu muitos leitores e reconhecimento.

Perdida ficou em quarto lugar de livro, em língua Portuguesa, mais vendido da Alemanha e em primeiro lugar em relevância e popularidade nos Estados Unidos.

Com isso, a Verus Editora trouxera o livro Perdida, da Carina Rissi, para ser republicado aqui no Brasil com contrato tradicional, e publicou também o seu segundo livro que se chama “Procura-se Um Marido”. Ambos são referências de sucesso de uma das autoras mais queridas pelo publico leitor do Brasil. Perdida já foi publicado em vários países: Portugal, Ucrânia, Rússia, Itália…

E tem promessa para virar filme. Teremos novidades sobre Perdida nas telonas no decorrer desse ano.

Carlos Heitor Cony planejava lançar “Operação Condor” em 2018

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Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

A obra seria uma reedição revista e ampliada de O Beijo da Morte. Funeral do jornalista e escritor será na terça-feira (9/1)

Publicado no Metrópoles

O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, que morreu na sexta (5/1), aos 91 anos, no Rio de Janeiro, planejava lançar, este ano, Operação Condor, reedição revista e ampliada de O Beijo da Morte, romance-reportagem em coautoria com a escritora e jornalista Anna Lee, sobre a morte de JK, Jango e Carlos Lacerda, de acordo com a Ediouro.

“Com a exumação do corpo de Jango, Anna colheu novas informações, viajou, entrevistou diferentes pessoas, pesquisou documentos e está finalizando o original para entregar à Nova Fronteira”, informou a editora, em nota.

Cony morreu de falência múltipla de órgãos e será cremado na próxima terça-feira (9/1), no Memorial do Carmo, no Rio.

Cony deixou orientação por escrito, lavrada em cartório, para que seu velório e enterro fossem reservados aos familiares. Ele dispensou todo ritual ao qual, como membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), teria direito.

Biografia
Ele trabalhou como funcionário público da Câmara Municipal do Rio de Janeiro até 1952, quando se tornou redator da Rádio Jornal do Brasil. Depois, passou por diversas redações, incluindo as dos jornais “Correio da Manhã” e “Folha de S. Paulo”.

Cony já publicou contos, crônicas e romances. O romance mais famoso dele é de 1995, “Quase Memória”, que vendeu mais de 400 mil exemplares. Esse livro marcou o retorno do jornalista à atividade de escritor/romancista. Seu romance “A Casa do Poeta Trágico” foi escolhido o Livro do Ano, obtendo o Prêmio Jabuti, na categoria ficção.

Biografia
Membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony nasceu no Rio em 1926. Sua estreia na literatura se deu com os romances “A Verdade de Cada Dia” e “Tijolo de Segurança”. Lançados em 1957 e 1958, os dois livros receberam o Prêmio Manuel Antônio de Almeida – abrindo uma carreira de distinções literárias que mais tarde incluiriam o Prêmio Jabuti (em 1996, 1998 e 2000) e o Prêmio Machado de Assis, em 1996, pelo conjunto da obra, além da comenda de Artes e Letras concedida em 2008 pelo governo francês.

Em meados dos anos 60, Cony já tinha oito livros publicados – além de ficção, coletâneas de crônicas. “Todos eram romances de forte afirmação do individualismo, numa época e num país com pouca tolerância para com individualismos. As esquerdas viam Cony com desconfiança, apesar de seus livros saírem por uma editora sobre a qual não restava a menor dúvida: a Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, um homem ligado ao Partido Comunista. Ênio podia não concordar com Cony quanto à linha apolítica e alienada que imprimia a seus romances, mas não abria mão de tê-lo entre seus editados. Cony era talvez o maior escritor profissional do Brasil – produzia um romance por ano, firmara um público certo e não dava bola para os críticos”, escreveu Ruy Castro sobre o autor no Estado no final dos anos 90.

Em 1967, no entanto, lançaria um livro seminal em sua trajetória: “Pessach, a Travessia”. A obra retrata um escritor carioca que, em pleno regime militar, rejeita qualquer tipo de posição política mais radical, assim como renega sua origem judaica. Pouco depois de completar 40 anos, no entanto, acaba se comprometendo, involuntariamente, com questões políticas. O livro continha crítica dura ao Partido Comunista. Em 1999, o autor voltaria ao tema com “Romance Sem Palavras”, no qual continuava a história do escritor Paulo.

Ditadura
Em entrevista publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 2008, Cony relembrou o período da ditadura ao falar do romance “O Ventre” – e tratar da melancolia e do pessimismo que são normalmente associados à sua obra, influência, naquele instante, do pensamento de Sartre.

“Havia nessa época um tom exagerado de bossa nova, de desenvolvimento, que não me encantava. Da mesma forma que não aderi à literatura engajada que surgiu depois da Revolução de 1964, mesmo depois de preso pelos militares. Nessa época, escrevi “Antes, o Verão”, um romance completamente alienado, sem nenhum referência política, assim como “Balé Branco”, que veio em seguida. Mesmo “Pilatos”, que saiu em 1973, quando a situação continuava difícil. É curioso que alguns críticos entenderam ao contrário, identificando o homem castrado do romance como uma alusão ao que viviam os cidadãos, alijados politicamente. Mas não era nenhuma metáfora para mim. Minha crítica aberta estava nos textos que escrevia para os jornais, especialmente o Correio da Manhã”, disse.

“Pilatos” é ainda hoje considerado por muitos o grande livro de Cony – inclusive pelo próprio autor. Lançado em 1973, narra a história de um homem que, após sofrer um acidente, vaga pelas ruas do Rio com o órgão sexual mutilado em um jarro, encontrando diferentes personagens pelo caminho. Havia na obra uma sátira sobre a situação política e a contestação no Brasil. E o autor, feliz com o resultado, decidiu abandonar a escrita de romances. Foi o que fez, ao menos pelos próximos 20 anos, até a publicação, em 1995, de “Quase Memória”.

Nele, o escritor explora território nem sempre claro que existe entre a ficção e a memória – e o faz a partir das lembranças que têm do pai. O cineasta Ruy Guerra trabalha há anos na adaptação para o cinema da obra e, em 1996, em texto publicado no caderno Cultura, explicaria como a relação entre pais e filhos o levou à produção.

“Houve mesmo uma vez que cheguei a aflorar o assunto e dediquei-lhe um rápido parágrafo, quando falava de algumas lembranças da minha juventude. Só que depois achei que ele merecia mais, e melhor, e resolvi deixar para outra ocasião. Só que agora a questão se tornou muito mais difícil. Surgiu um livro. Um livro magnífico, que conta as aventuras de um pai que faz lembrar o meu. Talvez por isso me tenha tocado tão profundamente o seu humor e sua ternura. Quase Memória é o livro que eu gostaria de ter escrito sobre o meu pai. Como escrever agora algo sobre a matéria? Só me resta aceitar a sabedoria do destino, fazer um filme com o seu romance, e assim cumprir a minha promessa de infância, de outro modo, sob uma outra forma, com um outro pai.”

Relações humanas
Ainda que toque em temas políticos, a obra de Cony tem como foco, antes de mais nada, as relações humanas – e, em direção ao final da vida, essas relações se transformam na possibilidade de reencontro. “Quase Memória”, na aproximação que o autor tenta com a figura paterna, faz parte desse processo, assim como “A Casa do Poeta Trágico”, lançado em 1997, que evoca a ideia de que todo homem tem a capacidade de distinguir entre o bem e o mal, mas nem sempre a sabedoria de se decidir por um ou outro. Como coloca o professor gaúcho Antonio Hohlfedt, em texto publicado na edição dos “Cadernos de Literatura Brasileira” dedicada a Cony, o autor lança mão de recursos memorialísticos para contar histórias da classe média urbana, no quadro da falência da família e da busca da identidade e do sentimento de vazio dos narradores”, dentro do conceito de que “a literatura é um modo de resistência”.

O modo como tratou esses temas deu ao autor a pecha de pessimista inveterado. O jornalista Zuenir Ventura, amigo do escritor, discordaria, no entanto, em texto também publicado nos Cadernos de Literatura Brasileira. “Desconfiem do auto-proclamado Cony pessimista e muito menos acreditem no Cony cínico. Ou melhor, acreditem, mas considerem que é uma atitude filosófica, moral, intelectual, uma visão do mundo que é desmentida a cada dia por sua prática de vida. Gozador, ele deve se divertir com o efeito sobre os outros da imagem que criou de pessimista, mal-humorado e rabugento.”

Na mesma entrevista de 2008 citada acima, Cony falava dos problemas de saúde – “Segundo Ruy Castro, eu já me tornei o mais antigo doente terminal do Brasil” – e da falta de disposição para escrever novos romances. De lá para cá, a Alfaguara realizou trabalho de reedição de suas obras – mas Cony se dedicaria apenas ao jornalismo, seja nas colunas que publicava no jornal Folha de S. Paulo, seja na publicação de reuniões de crônicas. “Com 60 anos de carreira jornalística, é só abrir a gaveta e sacar alguma”, brincava.

Pub com nome de autor de Sherlock muda misteriosamente para o “The J.K. Rowling Pub”

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Publicado no Literatura Policial

Via Daily Mail – Um bar de Edimburgo, capital da Escócia, que havia recebido o nome de Sir Arthur Conan Doyle, foi misteriosamente renomeado recentemente. O autor, que nasceu em Edimburgo em 1859 e se tornou célebre por ter criado as histórias com o detetive Sherlock Holmes, é um dos escoceses mais famosos da história do país. Mesmo assim, a homenagem passou de Doyle a outro nome célebre, o da criadora da série Harry Potter e do detetive Strike, JK Rowling.

O lugar foi renomeado para “The J.K. Rowling Pub” e, no exterior do bar, a placa com a imagem de Conan Doyle e seu generoso bigode foi substituída por uma JK sentada com as pernas cruzadas, como se estivesse fazendo uma refeição. Rowling nasceu no Reino Unido mas mudou-se para a Escócia em 1993, antes de se tornar mundialmente famosa.

The Conan Doyle pub renamed as the J K Rowling.in Edinburgh

A mudança do nome não foi bem recebida por alguns usuários, que reclamaram sobre o assunto nas redes sociais. Os donos do pub não se manifestaram ainda mas, segundo o jornal Daily Mail, um porta-voz respondeu que “ ainda não pode dizer nada sobre isso, mas que todos os segredos serão revelados em breve”. Será que eles cansaram de Sir Doyle?

(Imagens: Flickr, will_bremen, SteHLiverpool)

Livro reúne textos antológicos de Ruy Castro, que comemora 50 anos de jornalismo

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Ruy Castro avisa: 'Escrever às pressas não é desculpa para escrever mal'. (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Pres)

Ruy Castro avisa: ‘Escrever às pressas não é desculpa para escrever mal’. (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Pres)

 

‘Trêfego e peralta’ reúne artigos do autor mineiro que se especializou em dissecar a descrever a vida de personalidades

Angela Faria, no UAI

Ruy Castro hipnotiza o leitor – assim como foi hipnotizado “pelo ouvido” em suas conversas telefônicas com João Gilberto. Parece fácil escrever tão “simples”. Ledo engano. O ofício exige pesquisas exaustivas, 400 perguntas planejadas para apenas um entrevistado, guerra sem trégua aos clichês. Trêfego e peralta: 50 textos deliciosamente incorretos não deixa de ser oportuna provocação ao jornalismo do século 21, às voltas com a fugacidade do mundo on-line. Organizado pela escritora Heloisa Seixas, o livro traz artigos e entrevistas publicados desde 1977 e comemora meio século de labuta do repórter.

Nenhuma das 345 páginas tem ranço de passado. E olha que Ruy, de 69 anos, fala de pecados como o prazer de degustar um cigarro. Bom de prosa, instiga Millôr Fernandes a filosofar e a falar do próprio machismo. Desarma o espertíssimo Ibrahim Sued. João Gilberto, Xuxa, príncipe Charles e a Chita do Tarzan ainda conseguem nos surpreender, tantos anos depois da publicação daqueles artigos. Mas o que dá gosto, mesmo, é descobrir “anônimos”, gente como o figuraça José do Patrocínio de Oliveira, a encarnação humana do Zé Carioca. Infelizmente, ficou faltando a “ping-pong” com Tim Maia, lamenta o mineiro de Caratinga, autor das impecáveis biografias de Nelson Rodrigues, Carmen Miranda e Garrincha.

Cinquenta anos de profissão, meio século de redação… O ofício de repórter ainda te fascina? Ou você se sente, hoje, escritor, biógrafo e “ex-jornalista”?

Nunca deixei de ser jornalista. Foi a primeira e única coisa que pensei ser na vida, e bota tempo nisso – mais de 60 anos (risos). O que aconteceu foi que, a partir de 1988, já estava fora das redações, trabalhando em casa. Hoje isso é comum, mas, em 1988, não era. Aí comecei a trabalhar com livros e a vida mudou. Mas nunca abandonei a imprensa. Em todo esse período, mesmo soltando um livro atrás do outro, não se passou um dia em que eu não estivesse ligado a algum veículo como colaborador fixo – ponha aí a Folha, o Estado de S. Paulo, o Jornal do Brasil e, por um breve período, O Globo e o Extra, além de inúmeras revistas. Há 10 anos sou colunista quatro vezes por semana da página 2 da Folha.

Selecionar os 50 textos do livro foi uma “escolha de Sofia”? A missão coube à escritora Heloisa Seixas, mas queria saber como você se sentiu ao se deparar com o “resumo da obra”. Doeu deixar algo de fora?
Trêfego e peralta não é um “resumo da obra”… É uma coletânea de textos provocativos e inéditos – só isso já define bem o escopo da escolha. As “escolhas de Sofia”, portanto, foram dentro desses limites. Mas, sim, doeu deixar de fora a entrevista que fiz com Tim Maia para a Playboy – a editora nos desaconselhou porque a família do Tim é muito chata, cria caso por qualquer coisa – e, no texto, que é de matar de rir, ele arrebentava com o Roberto Carlos…

É uma arte republicar artigos de tantos anos atrás sem soar a “coisa do passado”. Qual é o segredo dessa atemporalidade?
Você tem razão, há uma certa ciência em fazer uma seleção como esta – ponto para a Heloisa. Na verdade, este é um livro sobre jornalismo – sobre as diversas maneiras de fazer jornalismo. Contém reportagem, entrevista, artigo, crônica, tudo. Nas entrevistas (com Ibrahim Sued, Millôr Fernandes e Elsimar Coutinho), espero que o leitor perceba o trabalho do entrevistador, de como ele se preparou para enfrentar o entrevistado, como o cercou para não deixar nenhuma pergunta sem resposta e como fez isto no nível do entrevistado. Em outros textos, como o sobre a inundação da biblioteca da USP ou sobre o lançamento do LP da Xuxa, a ideia era mostrar que, por mais insignificante o assunto, pode-se tratá-lo de modo a ser informativo, satisfazer o leitor do jornal daquele dia e ainda continuar interessante em livro mais de 30 anos depois.

O primeiro artigo fala de clichês, o “pecado de cada dia” do jornalismo. Bolsas despencando, mercado nervoso… Quais são os clichês contemporâneos que mais te incomodam?
Ah, muitos hoje me incomodam… O “entrar em estúdio” para gravar um disco é indestrutível. Outros são “ponto fora da curva”, “zona de conforto”. Essa é a vantagem de usar o clichê – ele sai direto, não precisa passar pelo cérebro.

A guerra contra os clichês está perdida? A internet veio complicar ainda mais o quadro?

Em duas palavras: sim. Você brilha em assuntos, digamos, “fora da caixinha” – olha o clichê aí… O artigo sobre o cocô é um deles. Como escrever sobre algo que o público rejeita e, ao mesmo tempo, atrair esse leitor? Antes de escrever, costumo pensar sobre o assunto. Geralmente, só começo a pô-lo no papel –digo, na tela – depois que ele foi bem trabalhado na cabeça. Claro que, no calor de uma redação – e vários textos de Trêfego e peralta foram produzidos nesse calor –, nem sempre se tem muito tempo. É preciso, então, aprender a pensar rápido. Mas, como não se pode controlar tudo, muitas vezes uma frase engraçada ou reveladora sai de um jato, espontaneamente, sem você esperar. É uma das magias de escrever.

Em Desconstruindo heróis, você fala de Lillian Hellman, Jack Kerouac, Gay Talese, ídolos de muita gente. Se fosse para escrever o Desconstruindo hoje, em quem você miraria?
Sinceramente, eu acompanho pouco o movimento atual. Ficam espantados quando pergunto sobre o que Fulano ou Beltrano faz – como se eu tivesse obrigação de saber. Fico confuso com essa quantidade de Alexandres na praça – deve haver hoje uns 10 Alexandres famosos, não? E os Cauês e Luans? E os Luês e Cauans? Estou brincando (risos). É que, há quase um ano, tenho passado o dia mergulhado no Rio dos anos de 1920 (para o novo livro) e sem muito tempo para me dedicar à vida real. E vou continuar nos anos 20 pelos próximos dois anos!

Depois de meio século de jornalismo, há alguém que você ainda sonha entrevistar? Qual foi a entrevista que você mais gostaria de fazer – e não fez?
Ah, sim, se eu estivesse na ativa, gostaria de entrevistar os grandes caras-de-pau do país – Temer e Lula, principalmente. Mas será que ainda há um veículo como a antiga Playboy, capaz de assimilar uma entrevista de sete ou oito horas de fita gravada, 60 laudas de transcrição e 20 páginas na revista impressa? Esta era a minha média na Playboy e na Status nos anos 80 e 90. Cada entrevista me tomava um mês de preparação antes de ir encarar o entrevistado. Quem pagaria por isso hoje? E eu próprio não tenho mais gás para essa maratona. Dos que já pegaram o boné, lamento nunca ter entrevistado Otto Lara Resende – me dava com ele, mas nunca pintou. E acho uma vergonha ter sido tão íntimo de certas pessoas – Paulo Francis, Ivan Lessa, Decio Pignatari, Ronaldo Bôscoli – e nunca ter havido um microfone em nossas conversas. Talvez a amizade também atrapalhasse.

Discute-se muito o futuro do jornal impresso. Há quem garanta que ele vai acabar. É mesmo só questão de tempo?
Não me incomodarei se os jornais impressos ficarem menores, mais analíticos e com informação enxuta, mas exclusiva e de alto nível. Mas, para isso, os on-lines terão de melhorar muito. São pessimamente escritos e escrever às pressas não é desculpa para escrever mal. Quem me parece correr grande risco também é a televisão – a geração dos meus netos, por exemplo, não passa nem perto.

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