Ruina e Ascensão

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Stoner, romance de John Williams redescoberto depois de 50 anos, ganha edição brasileira

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John Williams, autor de Stoner Foto: Special Collections / Biblioteca da Universidade de Arkansas

John Williams, autor de Stoner Foto: Special Collections / Biblioteca da Universidade de Arkansas

Livro do escritor americano foi só recentemente resgatado de um limbo de meio século de esquecimento e silêncio

Felipe Charbel*, no Zero Hora

Publicado em 1965, o romance Stoner teve uma trajetória bem comum nos seus primeiros anos. “Ele foi respeitavelmente resenhado; teve uma vendagem razoável; não se tornou um sucesso de vendas; saiu de catálogo”, resume Julian Barnes, um dos responsáveis pela ressurreição literária do americano John Williams, morto em 1994 e autor de outros romances pouco conhecidos. Isso não significa que Stoner tenha caído em ostracismo nos 50 anos que separam o lançamento do livro e sua inesperada aparição nas listas dos mais vendidos – um “best-seller do tipo mais puro”, diz Barnes, “motivado quase inteiramente pelo boca a boca entre os leitores”. Nesse período ele foi resenhado e discutido, cativando poucos mas fiéis leitores que o recomendavam entusiasticamente.

A sinuosidade da fortuna crítica diz muito sobre a descoberta recente de Stoner pelo grande público – de 2012 para cá foram vendidos aproximadamente um milhão de exemplares mundo afora. O curioso é que não se trata de uma obra “à frente da sua época”, um daqueles livros que só vão encontrar os seus leitores no futuro. Muito pelo contrário. Stoner já era anacrônico quando foi publicado. Mas a distância temporal permitiu ao livro escapar da pecha de antiquado, e alcançar o status de clássico, obra capaz de sobreviver ao teste do tempo. Tudo isso graças à obstinação dos seus leitores, que souberam se impor ao desinteresse do mercado (um livro que não se encontra é um livro que pouco se lê) e ao “espírito do tempo” (nada se percebe, no romance, da energia social dos anos sessenta. É como se ele se dirigisse a um público extinto).

O próprio William Stoner é o anacronismo em pessoa. Nascido no final do século 19 no meio oeste americano, ele é um náufrago dos valores humanistas e do ideal universalista de cultura, decisivos em sua formação mas em declínio quando inicia a carreira de professor de literatura na Universidade do Missouri, durante a I Guerra. Talvez por uma questão de decoro narrativo – Stoner ensina retórica e literatura medieval –, sua vida é contada “ao modo quase clássico”. Não há pirotecnias formais, o estilo é sóbrio e elegante, e o relato se concentra nos momentos decisivos do biografado. Como em Plutarco. Por que um livro como esse interessaria – e, a julgar pelas vendas e pela recepção calorosa, vem interessando – aos leitores de hoje?

Henry James afirma em um ensaio que “a única obrigação que devemos imputar a um romance, sem cair na acusação de arbitrariedade, é a de que seja interessante”. A extraordinária habilidade de John Williams de cativar o nosso interesse para os dilemas existenciais das pessoas que inventa me parece um dos êxitos de Stoner. Mesmo os antagonistas – a esposa Edith e o chefe de departamento Lomax – são abordados pelo ângulo de suas misérias, favorecendo a compreensão do que se tornam com o passar do tempo. Esse primoroso trabalho com a perspectiva faz com que as tensões do enredo pareçam incontornáveis, e confere a Stoner a fisionomia de um romance jamesiano, um dos últimos da sua estirpe, com personagens de interioridade complexa e comportamento social labiríntico.

Na primeira página somos apresentados a William Stoner. O ponto de vista é o da posteridade, e esta não foi generosa com ele: só o que restou da sua memória foi o nome, gravado num manuscrito doado à biblioteca universitária por professores do seu departamento. “Os colegas de Stoner, que não o tinham em grande estima quando vivo, quase nunca falam dele agora; para os mais velhos, o seu nome é um lembrete do fim que os aguarda a todos, e para os mais jovens é só um som que não evoca nenhuma sensação do passado.” Fica a impressão de se tratar da biografia de um homem comum, mediano, impressão ao mesmo tempo confirmada e desmentida no decorrer do relato.

Na aparência, a vida de Stoner é realmente medíocre: ele foge da guerra, se prende a um casamento infeliz, é incapaz de cativar seus alunos, não escreve, não ascende na carreira. Sobretudo, sua vida é uma sequência de gestos de anulação e resignação às forças externas. Através da figura dos antagonistas, essas forças se impõem sem encontrar resistências e o espoliam do que lhe é mais precioso – o escritório, a companhia da filha, o relacionamento amoroso da maturidade. Mas nada disso faz de Stoner um personagem que suscita o nosso riso, ou mesmo a nossa pena. O narrador não ousa se dirigir a ele com escárnio, e tanto seus equívocos como suas pequenas vitórias se tornam compreensíveis à luz de uma escolha, à qual se agarra com teimosia: a de se manter fiel à própria vocação. Enquanto o deixarem estudar e ensinar, Stoner encontrará algum consolo para os seus fracassos. E isso lhe confere dignidade.

Pela compostura, Stoner se distingue de outros acadêmicos da história literária recente. Esse predicado o torna imune a uma abordagem irônica, como a de Nabokov em relação a Pnin, e o mantém a uma distância segura da tragédia, convocada como destino por David Lurie em Desonra (J. M. Coetzee) e por Coleman Silk em A Marca Humana (Philip Roth). O pêndulo de sua vida se movimenta entre o trágico e o cômico, mas nunca se fixa nesses extremos, pois William Stoner se recusa a enxergar a si mesmo pelas lentes da arte. Talvez por essa razão sua vida funcione como um espelho para os leitores: o que ela faz ver não é mais, nem menos, que o desamparo da existência.

* Professor de Teoria da História na UFRJ

Biografia de J.K. Rowling contará segredos sobre a saga Harry Potter

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Getty Images

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Karen Carneti, na Info

O autor de livros infantis Philip Errington acaba de compilar, em 544 páginas, uma biografia da também autora J.K Rowling, que contará todo o processo de criação de Harry Potter e também alguns segredos, de acordo com o The Guardian.

O livro, chamado JK Rowling: A Bibliography 1997-2013 e publicado pela editora Bloomsbury Publishing, demorou cinco anos para ficar pronto. Segundo o TG, a autora descreveu o livro como “um trabalho servilmente completo e irresistível emocionalmente”.

Entre os segredos encontrados no livro estão o fato de que J.K Rowling ficou ‘enjoada’ do livro ‘Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban’ porque teve que fazer diversas modificações nele a pedido de sua editora.

“Finalmente! Eu li tanto este livro que estou enjoada disso, eu nunca li qualquer um dos outros tantas vezes ao editá-los, mas eu realmente tive que fazê-lo desta vez “, escreveu Rowling em uma carta para sua editora Emma Matthewson.

Segundo Errington, existe muitas informações incorretas por aí, e esta é uma oportunidade de esclarecer tudo com uma investigação detalhada. “Estou muito feliz que a Bloomsbury tenha me deixado entrar em seus arquivos, e que eu fui capaz de entrevistar pessoas-chave. Isso poderia funcionar como um mapa para o futuro … você pode ver como a série Harry Potter decolou”, disse ele ao TG.

O livro já está disponível para compra no Reino Unido por 75 libras (aproximadamente 329 reais) e deve chegar aos EUA no dia 23 de abril. Ainda não há previsão de lançamento no Brasil.

Ácre, encino… 10 erros e polêmicas de livros didáticos

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Falhas nos textos vão de cálculos matemáticos a fatos históricos

 De falhas matemáticas a gramaticais, relembre 10 casos marcantes no Dia Nacional do Livro Didático Foto: Getty Images / Terra

De falhas matemáticas a gramaticais, relembre 10 casos marcantes no Dia Nacional do Livro Didático
Foto: Getty Images / Terra

Publicado no Terra

O livro didático é uma fonte de pesquisa em que os alunos, geralmente, podem confiar. Mas e quando o livro está errado? Há casos em que as próprias publicações estão incorretas e precisam ser recolhidas e substituídas. Em outros, o conteúdo é que gera polêmica. De falhas matemáticas a gramaticais, relembre dez histórias marcantes no Dia Nacional do Livro Didático.

1. Ácre, Espíritu Santo e Minas Gertais
Ao abrir o livro didático, estudantes da rede municipal de Jundiaí (SP) encontraram alguns estados brasileiros com a grafia incorreta – e outros, da região Nordeste, sequer constavam no mapa. O Brasil representado no livro Projeto Ciranda mostra os
Estados “Ácre”, “Espíritu Santo” e “Minas Gertais”, além de ignorar a existência do Distrito Federal, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Sergipe. A história virou notícia em abril de 2014. A Prefeitura da cidade multou a editora em R$ 23 mil, e as páginas com erros foram substituídas. Segundo a Secretaria de Educação de Jundiaí, quatro mil exemplares incorretos tinha sido distribuídos.

2. Dez menos sete é igual a quatro?
Em junho de 2014, escolas da rede rural do Estado de São Paulo receberam livros didáticos com a seguinte conta: 10 – 7 = 4. Sim, quatro! A resposta certa é três, mas ainda assim os livros foram distribuídos para cerca 1,3 milhão de alunos. O Ministério da Educação reconheceu os erros e o uso do material foi suspenso.

3. Dois Paraguais
América do Sul sem Equador e com dois Paraguais
. Isso foi o que alunos da sexta série do ensino fundamental da rede pública do Estado de São Paulo encontraram no livro de geografia, em março de 2009. Foram 500 mil livros distribuídos com o erro. A fabricante alegou que o problema foi na diagramação, e a secretaria de educação do Estado determinou a troca dos exemplares.

4. Quando Colombo descobriu a América?
Na mesma série de livros distribuída no sistema de ensino paulista, a apostila de história dizia que Cristóvão Colombo descobriu a América em 1942. Isso mesmo, o continente teria sido descoberto no meio da Segunda Guerra Mundial, de acordo com o livro. O erro foi encontrado em abril de 2009 e, por ser em uma apostila bimestral que já estava em uso, não foi corrigido.

5. Sem Piauí
Em 1998, o Piauí foi esquecido em um mapa do Brasil do livro didático “Geografia”, editado pela Módulo Editora e Desenvolvimento Educacional, de Curitiba. Os alunos da primeira série de uma escola particular de Teresina repararam no erro do material. A empresa responsável pela publicação informou ter enviado páginas para corrigir os mapas incorretos. Outros erros foram encontrados no mesmo mapa. Fernando de Noronha não estava no lugar certo e Sergipe fazia fronteira com Pernambuco, o que não ocorre.

6. Propaganda eleitoral
Em 2007, o livro didático de história do Projeto Araribá foi distribuído com um texto sobre o programa Fome Zero, no capítulo sobre a história recente do País. O diretor-executivo da editora admitiu que a existência do texto sobre o programa social naquela edição, vendida para o ano letivo de 2008, foi um erro. Ele disse que a primeira edição da obra foi elaborada em 2003, quando o assunto estava em alta. À época, alguns veículos acusaram a publicação de fazer propaganda político-partidária favorável ao Partido dos Trabalhadores (PT).

7. Encino
Para cada livro didático, há a versão feita para os alunos e outra, com orientações para o professor. A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo entregou aos professores exemplares com a palavra encino, grafada assim mesmo, com “C”, apesar de o correto ser com “S”. A assessoria de comunicação do órgão informou ser um erro de digitação e não houve recolhimento dos livros, pois eles não eram entregues aos alunos.

8. Nem o hino nacional escapou
Alunos de Vespasiano (MG) receberam um hino nacional um pouquinho diferente: “Fulguras, ó Brasil, forão da América, (…) Teus risonhos, lindos campos têm mais fores”. Sim, “forão da América”. Enquanto as palavras corretas são florão e flores. Outros erros também foram encontrados, como a palavra desafa (em vez de desafia), fâmula (em lugar de flâmula) e flho (em lugar de filho). Foram impressos 55 mil exemplares com essas falhas, ao custo de R$ 280 mil. O caso ocorreu em abril de 2014. A fabricante foi avisada para alterar os livros.

9. Homofobia
Em setembro de 2013, uma escola de Fortaleza, no Ceará, recebeu livros com conteúdo homofóbico. Em um exemplo de física sobre prótons e elétrons, a publicação sugere que dois meninos não se atraem, assim como duas meninas também não poderiam se atrair. A ilustração causou mal estar entre os alunos e levou a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais a se pronunciar sobre o caso.

10. Variação popular
Em 2011, um livro didático distribuído a alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) pelo Programa Nacional do Livro Didático chamou a atenção e teve grande repercussão na imprensa. No capítulo “Escrever é diferente de falar”, a frase “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” consta como correta. Não era um erro. O próprio livro explicava que essa frase só é correta na variação popular da língua portuguesa. Mas o debate provocou até um esclarecimento da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), responsável pelo livro.

Livro traz correspondências de mentes brilhantes

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(Fotos: Hulton Archive/Getty Images (2), Spencer Arnold/ Getty Images, Topical Press Agency/Getty Images)

(Fotos: Hulton Archive/Getty Images (2), Spencer Arnold/ Getty Images, Topical Press Agency/Getty Images)

Grandes ideias não precisam ocupar grandes livros. Personalidades geniais concentraram belos e complexos pensamentos em missivas breves

Marcos Coronato, na Época

Há muitos motivos para gostar de cartas – elas funcionam como delicadas cápsulas do tempo, a preservar sutilezas e segredos do pensamento. Elas convidam o autor, confiante na intimidade da correspondência, a expor ideias, desejos e medos que não confessaria em público. Hoje, e-mails assumiram essa função. Mas, impalpáveis, de existência frágil, sempre a um clique do extermínio, não oferecem um refúgio seguro às pequenas histórias da vida privada – ou às grandes correspondências, destinadas, em algum momento, à posteridade. A historiadora britânica Sarah Pearsall, da Universidade de Cambridge, considera o gênero epistolar o preferido dos viajantes, migrantes e refugiados – e, principalmente em períodos turbulentos, “nos esclarecem sobre os conceitos fluidos de privacidade, segredo e confiança”. Gosto especialmente delas porque obrigam o autor a concentrar, em poucas linhas, o que há de mais intenso em suas opiniões e seus sentimentos.

Por esses motivos e mais alguns, o editor inglês Shaun Usher garimpa cartas históricas há anos. Desde 2009, Usher mantém o blog Letters of Note, dedicado a publicar correspondência à moda antiga – cartas, cartões e memorandos com algum interesse histórico. Usher ama cartas não apenas por elas serem reveladoras, (às vezes) concisas e valiosas como documentos. Ele as adora por ser um nostálgico. Sua devoção precisou de espaço em um segundo blog, o Letterheady, dedicado apenas à beleza de papéis de carta, envelopes e carimbos. Em 2013, Usher escolheu 125 cartas para publicar numa coletânea, Letters of note (recém-lançada no Brasil pela Companhia das Letras, com o título Cartas extraordinárias). Na Inglaterra, o editor usou um site de financiamento coletivo para conseguir lançar o livro. O entusiasmo dos adoradores de cartas garantiu que ele levantasse o triplo do dinheiro necessário.

As 125 cartas formam um conjunto variado, às vezes engraçado, às vezes tocante. Há missivas de famosos a anônimos – a escritora Anaïs Nin explica a um leitor boçal por que escreve sobre sexo sem boçalidades. E de anônimos a famosos – o menino Jim Berger propõe ao consagrado arquiteto Frank Lloyd Wright que projete uma casinha de cachorro. Anaïs e Jim fazem parte de um grupo que brilha. Muitas das cartas revelam medos recônditos, paixões equivocadas e sonhos grandiloquentes. Outras tantas expõem pensamentos e ideias que mudaram o mundo. Todas permanecem vivas – e têm algo a nos dizer.

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EUA vão devolver livros do século XVII roubados de museu na Itália

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Os livros "Stirpium Historiae" e "Rariorm Plantarum Historia Anno 1601” foram levados da Biblioteca Nacional Histórica de Agricultura da Itália e vendidos a um negociador de antiguidades no país (Foto: Homeland Security Investigations, Misty D. Miller/AP)

Os livros “Stirpium Historiae” e “Rariorm Plantarum Historia Anno 1601” foram levados da Biblioteca Nacional Histórica de Agricultura da Itália e vendidos a um negociador de antiguidades no país (Foto: Homeland Security Investigations, Misty D. Miller/AP)

Eles foram encontrados com negociador de antiguidades em San Francisco.
Livros raros foram roubados de museu de agricultura.

Publicado no G1

O livro ‘Rariorm Plantarum Historia Anno 1601’ é visto em foto do governo dos EUA (Foto: Homeland Security Investigations, Misty D. Miller/AP)

O livro ‘Rariorm Plantarum Historia Anno 1601’ é
visto em foto do governo dos EUA (Foto: Homeland
Security Investigations, Misty D. Miller/AP)

Dois livros italianos datados do século XVII que tinham sido roubados de um museu do país foram descobertos em San Francisco, nos Estados Unidos, e serão devolvidos ao seu país de origem junto com outros artefatos antigos, informaram autoridades federais.

Os livros “Stirpium Historiae” e “Rariorm Plantarum Historia Anno 1601” foram levados da Biblioteca Nacional Histórica de Agricultura da Itália e vendidos a um negociador de antiguidades no país. O vendedor, americano, acabou entregando os livros às autoridades durante as investigações.

Oficiais do escritório de Imigração e Alfândega vão devolvê-los junto com outros tesouros culturais italianos ainda nesta semana.

Os itens foram roubados na Itália e contrabandeados para os EUA ao longo dos últimos anos. Seu valor não foi divulgado.

“O valor cultural e simbólico destes tesouros italianos supera de longe qualquer valor monetário para os italianos”, disse Tatum King, agente especial responsável pela investigação.

O governo americano devolveu mais de 7,2 mil artefatos para 30 países desde 2007, incluindo pinturas da França, Alemanha, Polônia e Áustria, manuscritos antigos para a Itália e o Peru e outros itens para a China, Camboja e Iraque.

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