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Textos

Quer ler mais, porém não sabe por onde começar? Confira estas dicas

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Sarah Gomes, no Metropoles

A prática da leitura é ainda mais essencial nestes tempos difíceis nos quais vivemos, onde as páginas deram lugar ao feed e uma máquina invisível quer nos manter mais selfies do que cultos. E por que não podemos ser os dois? (Afinal, também amamos uma selfie!)

Confira algumas dicas preciosas para se tornar um apreciador da leitura e alguns macetes para trocar livros, comprar com precinhos camarada e encontrar audiolivros na tela do seu celular.

1. Um livro de cada vez
Não adianta se jogar dar uma de exagerado e comprar cinco livros para começar de uma vez. Concentre-se em uma história, conecte-se com ela e, se não gostar, passe para frente. Leitura é foco e paciência também.

2. Desconecte-se para se conectar
Se você está tendo problemas para se conectar com o livro, eu já te passo logo o diagnóstico: muito tempo on-line. A ansiedade do mundo tecnológico inunda a nossa cabeça e não nos deixa ter uma horinha de paz fora do WhatsApp. Pegue o seu celular, coloque no modo avião e se concentre na leitura por 30 minutos a uma hora. Com o passar do tempo, você notará a diferença.

3. Um rolê na livraria
Livrarias e sebos são lugares mágicos! Não sabe por onde começar a ler? Dê uma voltinha por um destes estabelecimentos, converse com os vendedores e, com certeza, você vai encontrar algo que chame a sua atenção.

4. Chame os amigos
Torne a atividade de leitura em um clube do livro, mesmo que seja com uma pessoa. O fato de ter alguém para dividir as novidades e compartilhar comentários ajuda muito no desenvolvimento do hábito de ler.

5. Que horas são?
Descubra qual o seu horário favorito para ler. Antes de dormir, ao acordar ou no meio do dia para dar uma pausa no trabalho?

Antes de colocar as dicas em prática, vamos utilizar o mundo www a nossa favor. Quer comprar livros usados, mas não sabe onde? E se você pudesse trocá-los com outras pessoas? Onde encontrar audiolivros? Vamos te ajudar!

Se liga nessas alternativas de compra e leitura que fogem dos tradicionais sites de grandes livrarias. Elas podem te ajudar a economizar, fazer rodar livros usados e te incentivar a ler mais.

Lembrando que nenhuma destas dicas é publicidade, ok? Todas são genuínas e orgânicas. Já testei e recomendo.

1. Na Facebook, Venda e Troca de Livros
Uma enorme comunidade que visa, principalmente, a troca de livros usados entre os seus participantes.

2. Site, Troca de Livros
Galera que ama ler e se viu afogado em livros. Eles resolveram criar este site para incentivar a economia sustentável e conecta pessoas que querem trocar seus exemplares.

3. Site, Renova Livro
Mais uma plataforma de troca de livros usados. Conta com um sistema de pontos para melhorar a sua reputação como “trocador”.

4. Site, Estante Virtual
É o site que mais uso para comprar livros usados. Você digita na busca o que procura e ele te mostra uma lista de centenas de livrarias e sebos no Brasil onde o título está disponível. Sempre opto pelos usados! Precinhos ótimos e exemplares em ótimo estado.

5. App Audiolivros
App para escutar audiolivros em alta qualidade, um dos mais baixados da App Store no Brasil. Lá você encontra vários dos clássicos da literatura brasileira.

Como organizar livros na estante

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Deixe os queridinhos por perto – e saiba como acomodar aqueles volumes que você está sem coragem de jogar fora.

Marcelo Testoni, na Superinteressante

1. NA PRATELEIRA MAIS ALTA

Coloque as obras que você já leu e não quer se desfazer na parte mais alta da estante. Elas não ocupam as áreas mais nobres, mas continuam acessíveis e organizadas para quando for preciso consultá-las.

2. NA ALTURA DOS OLHOS

Vão aqui os queridinhos: livros preferidos, edições caprichadas e aqueles com dedicatórias ou autógrafos especiais. Por serem tão precioso, devem ficar longe do alcance de crianças, animais de estimação etc.

3. NA TERCEIRA PRATELEIRA

Abaixo, reúna tudo o que ainda não leu e que faz questão de ler, para visualizar o tamanho da responsabilidade. O ideal é que os livros que você mais consulta fiquem entre a altura dos olhos e essa região intermediária.

4. PERTO DO CHÃO

No térreo da estante, acomode aqueles cujo destino é indefinido. Entram nessa lista os livros que ganhou, mas não vai ler e não criou coragem de se desfazer, ou então as obras que já foram lidas e perderam utilidade, como guias de viagem desatualizados.

5. SE FALTAR ESPAÇO

Se suas prateleiras estão repletas e você não tem espaço para instalar mais nenhuma, arrume as obras no sentido horizontal. A desvantagem é que retirar um livro da pilha fica mais difícil.

As seis tramas que são a base de (quase) todas as histórias já contadas

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Keira Knightley e Matthew Macfadyen em cena do filme ‘Orgulho e preconceito’, de 2005 (Foto: Divulgação)

 

Pesquisadores analisaram mais de 1,7 mil romances e chegaram a seis formas de narrativas. Mas será que elas podem ser aplicadas às nossas histórias mais populares?

Publicado no G1[via BBC Brasil]

Minha contribuição mais bonita à cultura”. Assim foi como o romancista Kurt Vonnegut descreveu sua antiga tese de mestrado em antropologia, “que foi rejeitada porque era simples e divertida demais”. A tese sumiu sem deixar rastro, mas Vonnegut continuou a promover a grande ideia por trás dela: “As histórias têm formas que podem ser desenhadas em papel gráfico”.

Em uma palestra em 1995, Vonnegut esboçou vários arcos narrativos – os desdobramentos de ações dramáticas de uma história – em um quadro negro, traçando como a sorte do protagonista muda ao longo de um eixo que se estende de “boa” a “má”. Esses arcos incluem: “homem no buraco”, no qual o personagem principal entra em apuros, e em seguida sai dele (“as pessoas adoram essa história, elas nunca se cansam!”); e “o menino fica com a menina”, no qual o protagonista encontra uma pessoa maravilhosa, perde-a, e depois a reencontra.

“Não há razão por que as formas simples de histórias não possam ser inseridas em computadores”, ele ressaltou. “São formas lindas”.

Graças a novas técnicas de mineração de texto, isto foi feito. O professor Matthew Jockers, da Universidade de Nebraska, e, posteriormente, pesquisadores do Laboratório de História Computacional da Universidade de Vermont, ambos dos EUA, analisaram dados de milhares romances. Com isso, eles chegaram a seis tipos básicos de histórias – também chamados de arquétipos – que formam os blocos de construção para narrativas mais complexas. São eles:

Ascensão – Da pobreza à fortuna, ou de má a boa sorte
Declínio – Declínio de bom a mau, uma tragédia
Icarus – ascensão e depois declínio da sorte
Oedipus – declínio, ascensão e declínio de novo
Cinderela – ascensão, queda, ascensão
Homem no buraco – queda, ascensão

Os pesquisadores se basearam na chamada análise de sentimento. Essa é uma técnica estatística comumente usada por marqueteiros para analisar posts de mídia social. Com base em dados públicos, a cada palavra é alocada uma “pontuação de sentimento”. Dessa forma, uma palavra pode ser categorizada como positiva (feliz) ou negativa (triste), ou pode ser associada a até oito emoções mais sutis, como medo, alegria, surpresa e anseio. Por exemplo, a palavra “abolir” é negativa e associada à raiva.

Ao fazer a análise de sentimento em todas as palavras de um romance, poema ou peça e traçar os resultados em relação ao tempo, é possível perceber as mudanças de humor ao longo do texto, revelando um tipo de narrativa emocional. Embora não seja um sistema perfeito – já que foca em palavras isoladas, ignorando o contexto -, ele é surpreendentemente perspicaz quando aplicado a trechos maiores de texto.

As ferramentas para fazer análises de sentimento estão livremente disponíveis, e boa parte da literatura de domínio público pode ser baixada de bancos de dados online como o Projeto Gutenberg. A BBC Culture pesquisou algumas das histórias britânicas mais populares para tentar aplicar as seis formas narrativas.

A Divina Comédia (Dante Alighieri, 1308-1320)

Tipo de narrativa: Ascensão

O poema épico de Dante conta sua jornada imaginária ao inferno, acompanhado do poeta Virgílio. Obviamente, as coisas começam mal na Divina Comédia, com uma pontuação baixa de sentimento que se afunda ainda mais à medida que a dupla desce aos círculos do inferno. Há traços de “um homem no buraco” na história, que acaba sendo literal em um texto tão alegórico como esse.

Tendo sobrevivido milagrosamente ao inferno, eles então escalam a Montanha do Purgatório onde as almas dos excomungados, preguiçosos e luxuriosos residem. E Beatriz – a mulher ideal de Dante – acaba substituindo Virgílio como companhia. A ascensão do casal ao paraíso é marcada pelo aumento da alegria à medida que o poeta compreende a verdadeira natureza da virtude, e sua alma se torna plena “do amor que move o sol e outras estrelas”.

Madame Bovary (Gustave Flaubert, 1856)

Tipo de narrativa: Declínio

Em dado momento da história de Flaubert, a dona de casa entediada e desleal – a protagonista, Emma Bovary – reflete que, se sua vida até então foi tão ruim, a parte a ser vivida será com certeza melhor.

Não é bem assim. Emma embarca em relações amorosas falidas e desesperadas, que oferecem apenas um breve respiro a um tédio angustiante. Bovary é uma mulher criativa casada com o homem mais sem graça do mundo, acumula dívidas exorbitantes e acaba se suicidando com arsênico.

Seu marido de luto, após descobrir suas várias infidelidades, também morre, e a então filha órfã do casal vai viver com uma tia pobre, que a manda trabalhar em uma fábrica de algodão. É uma clássica tragédia, conduzida implacavelmente rumo ao total declínio.

Romeu e Julieta (William Shakespeare, 1597)

Tipo de narrativa: Icarus

Romeu e Julieta é comumente considerada uma tragédia por conta da descrição do próprio Shakespeare, mas, quando a analisamos, a história se alinha mais à forma de Icarus: ascensão e declínio. Afinal, o menino precisa encontrar a garota e se apaixonar antes que ambos se percam. O pico romântico acontece quando se passa cerca de um quarto da peça, na famosa cena da varanda, na qual eles declaram amor eterno um ao outro.

É uma descida morro abaixo a partir daí. Romeu mata Tybalt e foge. Logo, o plano de Friar de forjar a morte de Julieta traz um pequeno salto de esperança à trama, mas, depois que a jovem bebe a poção, nada consegue evitar o final trágico.

Orgulho e Preconceito (Jane Austen, 1813)

Tipo de narrativa: Homem no buraco ou Cinderela

A primeira metade do romance de Austen traz um animado baile (embora comedido), gracejos e propostas de casamento cômicas. como a do vigário Mr Collins. As coisas ficam mais sombrias quando Bingley parte, e Elizabeth começa a se estranhar com Darcy (mas por um mal-entendido, obviamente).

O sentimento do romance entra em um território decisivamente negativo depois da proposta desastrosa de Darcy, alcançando seu ponto mais baixo quando Lydia foge com o desonesto Wickham. Isso, claro, serve de oportunidade para Darcy provar a que veio, o que ele faz com dignidade e segurança. Assim, ele ganha o coração de Elizabeth e assegura um comedido final feliz, em que todos estão ligeiramente mais sábios do que antes.

Frankenstein (Mary Shelley, 1818)

Tipo de narrativa: Oedipus

O influente romance de Shelley narra a lamentável vida de Victor Frankenstein e sua Criatura. O primeiro narrador é o capitão Robert Walton, que, em cartas à sua irmã, conta o enredo de Victor – que aparece em primeira pessoa no texto. Num certo ponto, a Criatura assume a narrativa, transformando o romance em uma história dentro de uma história dentro de uma história. Esse é o momento de respiro da trama, que em geral segue uma trajetória descendente desde o início, com a descrição de Victor sobre sua vida feliz, até o surpreendente final.

Em um momento crucial, a dois terços do romance, a Criatura oferece a Victor uma saída – fazer para ele uma companheira feminina. Mas Victor recusa. Desse ponto em diante, seu destino está selado. “Lembre-se, eu estarei contigo na noite de seu casamento”, ameaça a Criatura. E assim o faz.

O Patinho Feio (Hans Christian Andersen, 1843)

Tipo de narrativa: Complexa

Embora seja curta, a famosa fábula de Hans Christian Andersen tem estrutura complexa. Ela incorpora tipos narrativos de “dois homens no buraco” (ou melhor, um pato no buraco) dentro de uma narrativa de “ascensão”. Ou seja, as coisas melhoram ao longo da história para o patinho, mas há flashes de luz e escuridão no caminho.

Ele sai do ovo (oba!), mas sofre bullying por ser diferente (ahhh). Ele descobre que pode nadar melhor que os outros patos e sente um indício de afinidade com o grupo de cisnes em sobrevoo (oba!). Em seguida, quase morre no inverno gelado (ahhh). E finalmente torna-se um cisne, de uma forma completamente prevista desde o início. A ideia é essa, claro: “Nascer num ninho de pato não tem importância se ele vem do ovo de um cisne”. A história termina com a pontuação mais alta, aquele que sempre foi um cisne exclama que “nunca sonhou com tamanha felicidade”.

Por que esquecemos a maioria dos livros que lemos e filmes a que assistimos

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A rede Saraiva vende livros, filmes, games e itens de papelaria – Divulgação

Segundo pesquisador, a forma que consumimos informação mudou o tipo de memória que damos valor

Texto de Julie Beck, na Folha de S.Paulo

As lembranças de Pamela Paul quanto a leituras são menos sobre as palavras e mais sobre a experiência. “Quase sempre me recordo de onde estava, e do livro em si. Lembro do objeto”, diz Paul, editora da revista The New York Times Book Review e pessoa que pode ser facilmente definida como alguém que lê um monte de livros. “Recordo a edição; recordo a capa; usualmente recordo onde comprei o livro, ou de quem o ganhei. O que não recordo —e isso é terrível— é tudo mais”.

Paul me contou, por exemplo, ter terminado recentemente de ler a biografia de Benjamin Franklin por Walter Isaacson. “Enquanto lia o livro, aprendi não tudo que se conhece sobre Ben Franklin, mas boa parte disso, e estava ciente da cronologia geral da revolução americana”, ela diz. “Agora, dois dias mais tarde, eu provavelmente não conseguiria resumir a cronologia da revolução americana”.

Certamente há pessoas capazes de ler um livro ou assistir a um filme uma vez, e reter a história perfeitamente. Mas, para muita gente, a experiência de consumir cultura é como encher uma banheira, entrar na água e depois vê-la escoando pelo ralo. Pode restar uma pequena quantidade de água na banheira, mas o resto se vai.

“A memória em geral tem uma limitação muito intrínseca”, diz Faria Sana, professora assistente de psicologia na Universidade de Athabasca, no Canadá. “É essencialmente um gargalo”.

A “curva do esquecimento”, o nome pelo qual o fenômeno é conhecido, é mais acentuada nas primeiras 24 horas depois que a pessoa recebe uma informação. Exatamente quanto a pessoa esquece, em termos percentuais, varia, mas a menos que ela revise o material, boa parte dele escorre pelo ralo depois do primeiro dia, e a perda aumenta nos dias subsequentes, o que deixa apenas uma fração do que a pessoa recebeu.

Presume-se que a memória sempre tenha funcionado assim. Mas Jared Horvath, pesquisador da Universidade de Melbourne, na Austrália, diz que a maneira pela qual as pessoas consomem informação e entretenimento hoje mudou o tipo de memória a que atribuímos valor —e a nova preferência não é pelo tipo que ajuda a reter a trama de um filme assistido seis meses atrás.

Na era da internet, a memória declarativa —a capacidade de acessar espontaneamente informações que a pessoa guarda na cabeça— se torna muito menos necessária. É boa para jogos de bar ou para recordar a lista de tarefas a fazer, mas, segundo Horvath, a chamada memória de reconhecimento se tornou em geral mais importante. “Desde que você saiba onde está a informação, e como acessá-la, não precisa da memória declarativa”, ele diz.

Pesquisas mostraram que a internet serve como uma espécie de memória externa. “Quando as pessoas antecipam ter acesso futuro a uma informação, elas recordam menos os detalhes dessa informação”, nas palavras de um estudo. Mas mesmo antes que a internet existisse, produtos de entretenimento serviam como memórias externas sobre eles mesmos. Ninguém precisa lembrar uma citação de um livro se puder consultá-lo. Quando surgiram os videotapes, tornou-se fácil voltar a assistir um filme ou programa de TV.

Não existe mais a sensação de que, se a pessoa não gravar uma dada informação em seu cérebro, ela se perderá.

Com os serviços de streaming e os artigos da Wikipédia, a internet rebaixou ainda mais o limiar da recordação, quanto à cultura que consumimos. Mas não é como se antes recordássemos mais ou melhor.

Platão foi um dos mais famosos ranzinzas da antiguidade, se o assunto era conservar memórias fora do cérebro. No diálogo que ele escreveu entre Sócrates e o aristocrata Fedro, Sócrates conta uma historia sobre o deus Thoth, o descobridor do “uso das letras”.

O rei egípcio Tamo diz a Thoth: “Essa sua descoberta criará o esquecimento nas almas dos aprendizes, porque eles não usarão sua memória; confiarão nos caracteres escritos externos e não recordarão sozinhos”. (É claro que as ideias de Platão só nos são acessíveis hoje porque ele as escreveu.)

“[No diálogo], Sócrates odeia a ideia de escrever porque acha que isso matará a memória”, diz Horvath. “E ele está certo. Escrever com certeza matou a memória. Mas pense em todas as coisas incríveis que obtivemos com a escrita. Eu não trocaria a escrita por uma memória declarativa melhor, em hipótese alguma”. Talvez a internet ofereça uma barganha semelhante: o usuário pode acessar e consumir toda a informação e entretenimento que desejar, mas não reterá a maior parte disso.

É verdade que as pessoas acumulam em seus cérebros muito mais do que são capazes de reter. No ano passado, Horvath e seus colegas da Universidade de Melbourne constataram que as pessoas que assistem a muitos episódios de séries de TV em rápida sequência esquecem o conteúdo dos episódios muito mais rápido do que as pessoas que assistem a um episódio por semana.

Pouco depois da conclusão de um episódio, o pessoal que assistia a múltiplos episódios em sequência registrava os melhores resultados em um teste de memória, mas passados 140 dias seus resultados eram inferiores aos dos espectadores que assistiam a um episódio por semana. Eles também reportaram curtir menos a série do que as pessoas que assistiam a um episódio por dia ou por semana.

As pessoas também estão consumindo palavras escritas em grande volume. Em 2009, o americano médio estava exposto a 100 mil palavras por dia, mesmo que não as “lesse” todas. É difícil imaginar que esse número tenha caído, nove anos mais tarde.

Em “Binge-Reading Disorder” [distúrbio da leitura compulsiva], um artigo para o jornal The Morning News, Nikkitha Bakshani analisa o significado dessa estatística. “Ler é uma palavra nuançada”, ela afirma, “mas o tipo mais comum de leitura é provavelmente a leitura de consumo – lemos, especialmente na internet, para adquirir informação, uma informação que não tem chance de se tornar conhecimento a menos que seja retida”.

Ou, nas palavras de Horvath, “é uma risadinha passageira, e você logo quer outra risadinha. Não estamos falando de aprender alguma coisa, e sim sobre uma experiência momentânea que leva a pessoa a sentir que aprendeu alguma coisa”.

A lição do estudo sobre leitura compulsiva é a de que, se a pessoa deseja recordar aquilo que assistiu ou leu, precisa espaçar o processo. Eu costumava me irritar na escola quando o curso de inglês requeria leitura de apenas três capítulos de um livro por semana, mas havia um bom motivo para isso.

A memória ganha força se a pessoa é forçada a reclamá-la constantemente, diz Horvath. Se a pessoa lê um livro todo de uma vez – por exemplo no avião -, a história ficará armazenada em sua memória de trabalho o tempo todo. “Ela jamais será reacessada”, ele diz.

Sana diz que é comum, quando lemos., que haja uma “sensação de fluência” falsa. A informação está fluindo para o cérebro, o leitor a está entendendo, e ela parece estar sendo armazenada em uma pasta que encontrará lugar na nossa biblioteca mental. “Mas na verdade ela não será fixada se o leitor não se esforçar, e não adotar certas estratégias que ajudam a lembrar”.

Pode ser que as pessoas ajam assim quando estão estudando ou lendo algo para o trabalho, mas parece improvável que, em seus momentos de lazer, façam anotações sobre “Gilmore Girls” para teste posterior. “Você pode estar vendo e ouvindo, mas talvez não esteja percebendo e escutando”, diz Sana. “E acho que é exatamente assim que agimos na maioria do tempo”.

Ainda assim, nem todas as memórias que não são armazenadas devidamente se perdem. Algumas delas podem estar retidas na memória, inacessíveis, até que a pista correta as libere – talvez uma cena de episódio anterior exibida no começo de um novo episódio de “Gilmore Girls”, ou uma conversa com um amigo sobre um livro que ambos tenham lido. A memória é “essencialmente associativa”, diz Sana.

Isso pode explicar por que Paul e outros se recordam do contexto em que leram um livro sem se recordarem de seu conteúdo. Paul mantém um “livro de livros”, apelidado de “Bob” [book of books], desde que estava no segundo grau – uma forma analógica de memória externa.

Ela anota no diário todos os livros que lê. “O Bob oferece acesso imediato aos lugares em que estive, psicológica e geograficamente, em cada dado momento de minha vida”, ela explica em “My Life With Bob”, livro que ela escreveu sobre seu livro de livros. “Cada anotação conjura uma lembrança que de outra forma poderia ter se perdido ou se tornado menos nítida, com o tempo”.

Em artigo intitulado “A Maldição de Ler e Esquecer”, para a revista New Yorker, Ian Crouch escreve que “ler tem muitas facetas, uma das quais pode ser bastante indescritível e naturalmente fugaz, uma mistura de pensamento, emoção e manipulação sensória que acontece no momento e desaparece. Que proporção da leitura, portanto, é só uma forma de narcisismo – um marcador de quem você era e em que estava pensando ao encontrar dado texto?”

Para mim, não parece narcisismo recordar as estações da vida com base na arte que as ocupou – a primavera dos romances de amor, o inverno das reportagens sobre crimes. Mas é verdade que, se você consome cultura na esperança de construir uma biblioteca mental à qual possa se referir a qualquer momento, é provável que se decepcione.

Livros, espetáculos, filmes e canções não são arquivos subidos para os nossos cérebros – são parte da tapeçaria da vida, entretecidos a tudo mais. De longe, pode ser difícil distinguir uma das meadas, mas ela estará lá.

“Seria bacana se nossas memórias fossem limpas – uma informação entra e em consequência a pessoa tem uma memória daquele fato”, diz Horvath. “Mas na verdade, todas as memórias são todas as coisas juntas”.

Julie Beck é editora sênior da revista The Atlantic, onde cobre família e educação

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Quatro benefícios da leitura

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(Museu Picasso Barcelona/Divulgação)

 

As “reservas cognitivas” propiciadas pela leitura ajudam as células cerebrais a encontrar novas conexões em caso de danos causados por derrame

Publicado na Veja

– Ler ficção melhora o raciocínio
Estudo feito pela Universidade de Toronto mostrou que leitores de ficção tendem a recorrer menos ao chamado “fechamento cognitivo”, processo em que o indivíduo tira conclusões rapidamente, às vezes com base em informações incompletas, para satisfazer sua necessidade de “entender” um assunto. Os leitores de ficção, segundo os pesquisadores, usam menos esse expediente porque conseguem fazer raciocínios mais complexos, levando em conta nuances e ambiguidades.

– A leitura aumenta a longevidade
Um estudo da Universidade de Yale feito com 3 635 pessoas acima de 50 anos revelou que as que liam livros por trinta minutos diários viviam em média 23 meses mais que as que não liam. Pesquisadores atribuem o fato à melhora, proporcionada pela leitura, de dispositivos cognitivos associados à longevidade, como concentração, vocabulário, pensamento crítico e empatia.

– Quem lê tem melhor recuperação em caso de dano cerebral
Pesquisa feita pela Universidade de Santiago de Compostela mostra que, assim como o sangue se coagula para proteger o corpo de um ferimento, as “reservas cognitivas” propiciadas pela leitura ajudam as células cerebrais a encontrar novas conexões em caso de danos causados por derrame ou perda de memória.

– Ler ajuda a reduzir o stress
A leitura de um livro por seis minutos ajuda a diminuir em 68% o nível de stress. Psicólogos da Universidade de Sussex concluíram que, ao se concentrar em um livro, o indivíduo tem suas tensões nos músculos, inclusive os cardíacos, aliviadas de forma mais eficaz do que com outras opções relaxantes, como tomar um chá.

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