Orgulho & Preconceito

Educadora niteroiense estimula pais e alunos ao hábito da leitura

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Para Rona Hanning, os maiores obstáculos são a desinformação e questões culturais

Educadora ensina pais, professores e crianças das mais variadas classes sociais a desenvolverem o prazer pela leitura Agência O Globo / Ana Branco

Educadora ensina pais, professores e crianças das mais variadas classes sociais a desenvolverem o prazer pela leitura Agência O Globo / Ana Branco

Mariana Timóteo da Costa em O Globo

SÃO PAULO – Um menino de 8 anos de Teresópolis, após as enchentes que levaram seu pai e sua mãe embora, em 2011, leu “O bicho folharal”. Por meio da história do macaco que arruma um jeito de enganar a onça para beber a água da fonte guardada por ela, o menino conseguiu elaborar sua perda, desenhando, logo após a leitura, animais de estimação e integrantes da família dele inundados de azul (a cor da água da chuva). Em Juá, no interior do Ceará, castigado por uma seca que parece eterna, Érica Ávila, de 17 anos, lembra-se da emoção de ler o “primeiro livro interessante” de sua vida, “dos 8 pros 9 anos”. O livro era “Leo e Albertina”, a história de um porco que se apaixona por uma galinha.

— Esse livro me fez ver que temos que ser nós mesmos e que, quando queremos, não há limites. Era muito tímida e não sabia me expressar, mas tudo mudou — diz Érica, que está concluindo o ensino médio e quer fazer pedagogia, para ser professora.

O menino de 8 anos e Érica foram tocados pelo trabalho da educadora niteroiense Rona Hanning, de 41 anos. À frente dos institutos Ler é Abraçar, no Rio, e Oziris Pontes, no Juá, Rona ajuda pais, educadores e, principalmente, crianças a partir dos 2 anos a descobrir o prazer de ler.

— O patinho de plástico do bebê, com o qual ele brinca durante o banho, já é uma forma de leitura. A criança é estimulada a reagir a historinhas, criar personagens. O hábito da leitura se aprende desde cedo. Infelizmente, no Brasil, a criança lê pouco e de forma não diversificada. E quem é responsável por isso? O pai e a escola. Meu trabalho é tentar preencher essas lacunas — conta Rona, que fala em formar “leitores múltiplos”, capazes de entender e se interessar por qualquer livro. — Um pai deve ficar feliz, claro, quando um filho de 8 anos lê “Harry Potter”. Mas ele não é um leitor se lê só “Harry Potter”.

Educadores multiplicadores

Formada em pedagogia pela PUC-RJ e mestre em educação brasileira (com ênfase em literatura infantil), Rona vive entre a Lagoa (onde mora), a Tijuca (onde fica a sede do Ler é Abraçar) e o Juá, onde passa uma semana por mês; o restante do tempo trabalha por Skype. O Oziris Pontes surgiu no início dos anos 2000 como uma ONG, mantida por fazendeiros locais, para oferecer aulas de complemento escolar para as crianças matriculadas na rede pública.

Ao longo do tempo, os próprios donos foram achando as aulas insuficientes e acrescentaram outras atividades, atingindo também adultos e transformando a ONG em instituto. Em 2007, Rona foi convidada para ser a diretora educacional e foi enfática em relação à importância da leitura: criou uma biblioteca e formou uma série de “educadores multiplicadores”, como a jovem Érica, que deu oficinas de teatro e hoje ensina literatura aos mais novinhos.

— Não imagino a vida de ninguém aqui sem o instituto. Não teríamos nada para fazer se não viéssemos todos os dias para cá. Além de nos educarmos melhor e nos divertirmos, temos a oportunidade de trabalhar no instituto. Daí, não precisamos sair do Juá — conta Érica, que tem 17 irmãos.

Os pais dela vivem, como a maioria dos seis mil moradores da região, do Bolsa Família.

— Vou cursar uma faculdade que fica a poucas horas do Juá e voltarei professora para continuar o trabalho feito pela Rona — planeja Érica.

No Rio, o Ler é Abraçar foi criado por Rona em parceria com a educadora Carolina Sanches também em 2007 — mesmo ano em que Rona descobriu e se curou de um câncer de mama. O local, oportunamente em cima de uma livraria, oferece oficinas para pais, professores, psicólogos, entre outros, além de fazer trabalhos em comunidades. Um projeto de destaque foi o “Seu conto é a nossa história”, em parceria com a Firjan, no primeiro semestre deste ano, em 11 UPPs. Crianças de 8 a 13 anos participaram de oficinas de literatura e foram estimuladas a escrever um livro, que está sendo editado e deve ser publicado ano que vem.

A história do menino de Teresópolis com “O bicho folharal” ocorreu quando Rona e Carolina ficaram “muito mexidas” com a tragédia na Região Serrana.

— Achamos que poderíamos contribuir levando livros — conta Rona, que reconstruiu seis bibliotecas escolares, ajudando, de forma lúdica, crianças a se recuperarem do trauma.

O Ler é Abraçar mantém, em parceria com a Globosat, um blog no site do canal infantil Gloob, para o qual Rona e Carolina dão consultoria em produção de conteúdo. Em 2014, o instituto quer lançar um portal de dicas de leitura.

— Os pais, até os de classes mais altas, são desinformados sobre que tipo de leitura oferecer aos filhos. A produção infantil e juvenil é intensa e diversificada, mas os pais acabam sempre optando pelos mesmos livros, chegam às livrarias e não sabem o que comprar — acredita Rona, solteira e sem filhos.

A desinformação vem aliada a uma questão cultural. Pesquisa da Fundação Itaú Social mostrou que 96% das mães de classe A e B reconhecem a importância do incentivo à leitura. Só 37%, porém, leem com os filhos. E as mães estão, segundo outro estudo, desta vez do Instituto Pró-Livro, entre os maiores influenciadores do hábito de leitura, ao lado dos professores. Rona acha que a escola pública, a maior compradora de livros infanto-juvenis no país, contribuiria para mudar esse quadro se diversificasse seu repertório.

— Existe muita literatura boa que fica de fora. As editoras acabam reduzindo a oferta para a rede privada, porque não conseguem vender o suficiente para a rede pública — diz ela.

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Bibliotecas públicas à espera de leitores

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Algumas têm mais funcionários que usuários; ‘Há mês que não vem ninguém’, diz bibliotecária

Edison Veiga, no Estadão

Existem centenas de bibliotecas em São Paulo, de instituições públicas e privadas, cujo acesso é livre. Entretanto, muitas delas são praticamente desconhecidas da população – e permanecem quase vazias na maior parte do tempo.

É o caso da que funciona na Assembleia Legislativa, na frente do Parque do Ibirapuera. São 14 mil livros que ficam à disposição tanto dos funcionários e deputados quando da população em geral – o espaço funciona de segunda a sexta, das 9h às 20h. “Mas muito pouca gente vem”, comenta a bibliotecária responsável, Patricia Ide.

Ela e outros nove funcionários trabalham ali. Mais do que os oito visitantes por dia que o local costuma receber, em média. “E a maioria dos visitantes vem para ler o jornal do dia”, diz Patricia.

Outro exemplo de pouca frequência é a biblioteca mantida pela Academia Paulista de Letras, instituição fundada há 104 anos no centro de São Paulo. Tem um acervo riquíssimo. São cerca de 80 mil títulos, muitos deles em raras primeiras edições dos séculos 17 e 18 – o foco é a literatura brasileira.

“Na média, devemos receber umas oito pessoas por mês. Mas tem mês que chega a vir um por dia. Tem mês que não vem ninguém”, comenta uma das duas funcionárias, a bibliotecária Maria Luiza Pereira de Souza Lima. A biblioteca fica no terceiro andar do prédio da Academia e funciona de segunda a sexta, das 9h às 12h e das 13h às 17h – exceto às quintas, quando só abre pela manhã.

“Os que nos procuram, em geral, são pesquisadores, acadêmicos que estão fazendo tese de mestrado ou doutorado, por exemplo”, explica Maria Luiza. O acervo foi montado, ao longo das décadas, com base em doações – em geral, dos próprios membros da Academia. “Já é uma tradição não termos verba para adquirir novos livros”, comenta a funcionária. Os móveis do ambiente, feitos pelo antigo Liceu de Artes e Ofícios, dão uma aura clássica ao espaço.

Prato cheio para quem gosta de pesquisar em livros de História, a biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo funciona de segunda a quinta, das 12h às 17h. Ali há 4,8 mil livros, principalmente sobre a Revolução Constitucionalista de 1932. “Mas também sobre outras revoluções e sobre a História do Brasil e de São Paulo”, apresenta a bibliotecária Ivone Cavalcanti Maciel.

Ivone afirma que são cerca de 150 visitantes por mês. “Entretanto, há um público sazonal, que surge todos os anos nas proximidades do feriado de 9 Julho, data em que se comemora a Revolução de 1932”, explica a bibliotecária.

Acessível. Muito provavelmente pela localização, a biblioteca que funciona na Câmara Municipal não tem público tão pequeno. Diariamente, são cerca de 50 os que consultam o acervo da casa, formado por 22 mil títulos, das mais variadas áreas – neste mês, 14 títulos foram incorporados às estantes, entre eles o livro 28 Contos, de John Cheever, Afinado Desconcerto, de Florbela Espanca e 125 Contos, de Guy de Maupassant. A biblioteca funciona de segunda a sexta, das 10h às 18h30.

“Estamos no meio de um processo que, acreditamos, culminará com um aumento do número de visitantes”, explica o secretário de Documentação da Câmara Municipal, Angelo Caio Monteiro da Cruz, cuja pasta é responsável pela biblioteca. “Na reforma do térreo está prevista a mudança da biblioteca para lá. Acredito que ali ficaremos mais acessíveis. Nosso público deve dobrar.”

Municipais. Mais conhecidas pela população, há 56 bibliotecas públicas municipais espalhadas pelos bairros da capital. Elas recebem 85 mil pessoas por mês – gente interessada em mais de 4 milhões de livros dos acervos de toda a rede.

De todas as unidades, a que recebe menor público mensal é a Chácara do Castelo, no Jardim da Glória, com média de 401 visitantes por mês. Seguida de perto pela que fica no bairro do Limão, a Menotti Del Picchia, com uma média mensal de 456 visitantes.

Na outra ponta, as recordistas de público são a Mário de Andrade, por onde passam mais de 32 mil pessoas por mês, e a biblioteca do Centro Cultural São Paulo, com 24 mil usuários por mês.

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Primavera árabe

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Sahar Delijani, author of Children of the Jacaranda Tree

Vivian Masutti, no Agora São Paulo

Autor dos best-sellers “O Caçador de Pipas” e “O Silêncio das Montanhas”, o escritor afegão Khaled Hosseini não demorou a elogiar “Filhos do Jacarandá” (R$ 34,90, 232 págs.), livro da escritora iraniana Sahar Delijani (foto) recém-lançado no Brasil pela Globo Livros.

O estilo dos dois escritores se assemelha bastante, já que suas obras estão ambientadas na chamada primavera árabe, onda revolucionária que eclodiu no Oriente Médio e no norte da África.

Foto: Psychobooks

Foto: Psychobooks

E as histórias de Hosseini e Sahar também são bem parecidas: ambos retornam décadas no tempo para contar o início dos conflitos em seus respectivos países e o impacto da revolução na vida da população.

Assim como o afegão, a autora iraniana de “Filhos do Jacarandá” não vive mais em sua terra natal e se valeu das histórias contadas por amigos e familiares para narrar as diferentes tramas que se alternam e se complementam no livro.

No caso de Sahar, elas começam com a revolução de 1979, depois que o país passou de monarquia à república e foi submetido ao comando de aiatolá Khomeini.

Nesse período, o tio de Sahar foi executado e seus pais, contrários a ambos os regimes, encarcerados. Como muitas jovens revolucionárias, a mãe de Sahar estava grávida quando foi presa.

É justamente a dor de uma mulher que dá à luz na prisão, sem higiene nem cuidados médicos, que a autora narra no começo do livro, quando a personagem Neda entra em trabalho de parto enquanto é arremessada de um lado para o outro dentro do porta-malas de uma van, com os olhos vendados.

Assim como a menina que nasce na história, Sahar passou seus primeiros 45 dias de vida na penitenciária de Evin, na capital iraniana.

“Tenho uma ligação especial com cada personagem. Cada um deles representa uma parte de mim”, disse a escritora, em entrevista concedida à coluna por e-mail, de Turim.

Ela visitou o Irã há dois anos e confessou que o que viu foi um país repleto de tristeza. “Mas vi também que as pessoas não perderam a esperança.”

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Personagem morre em novo volume de ‘Bridget Jones’ e causa revolta entre fãs

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Publicado por Folha de S.Paulo

As vésperas do lançamento do terceiro volume da série “Bridget Jones”, a revelação da morte do personagem Mark Darcy pegou os fãs de surpresa.

Com lançamento previsto para o dia 10 de outubro no Reino Unido, alguns trechos da obra foram publicados neste domingo (29) na revista “Sunday Times”.

Em “Mad About The Boy”, Bridget continua contando calorias e ávida consumidora de álcool, mas se tornou uma viúva de 51 anos –embora ainda responda 35 quando lhe perguntam a idade– e está obcecada com seu “toyboy”, Roxter, de 29 anos.

No livro anterior, “Bridget Jones: No Limite da Razão”, publicado em 1999, Darcy pede a mão da heroína em casamento. Eles têm dois filhos, Mabel e Billy, mas não viverão felizes para sempre.

Os fãs não gostaram nada e já foram para as redes sociais reclamar. Muitos afirmaram que estão em dúvida se vão ler o novo volume da série. Outros disseram que estão “com o coração partido”.

O diretor de publicações da Jonathan Cape, Dan Franklin, afirmou anteriormente que Fielding “deu voz a toda uma geração de mulheres”.

“Agora estas mulheres cresceram e ela faz isso de novo. Mas desta vez com todas as alegrias e complicações das redes sociais”, acrescentou a autora.

Os dois primeiros livros da saga — “O Diário de Bridget Jones” (1996) e “Bridget Jones: No Limite da Razão” (1999)– venderam mais de 15 milhões de cópias em todo o mundo.

Ambos também se tornaram filmes bem-sucedidos, com Renée Zellwegger no papel da protagonista que se divide entre os personagens encarnados por Hugh Grant e Colin Firth.

Colin Firth, Renee Zelwegger e Hugh Grant chegam para a pré-estréia do filme O Diário de Bridget Jones em Londres, Inglaterra / Kieran Doherty - 4.abr.2001/Reuters

Colin Firth, Renee Zelwegger e Hugh Grant chegam para a pré-estréia do filme O Diário de Bridget Jones em Londres, Inglaterra / Kieran Doherty – 4.abr.2001/Reuters

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Carioca coordena 2 mil voluntários que gravam livros para cegos

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Atriz Analu Palma é personagem do quadro ‘Os Cariocas’ do RJTV. Veja como se tornar voluntário do projeto Acessibilize-se.

Publicado no

O quadro “Os Cariocas” do RJTV mostra semanalmente gente do bem que contribui para fazer do Rio uma cidade solidária, boa de se viver. Neste sábado (28), a série mostra o trabalho da atriz Analu Palma, que coordena o projeto Acessibilize-se e, com 2 mil voluntários, grava livros para levar cultura aos deficientes visuais. Analu e os amigos dos cegos são os “ledores” dos livros falados.

A voz da atriz são os olhos de muita gente. Carioca de Inhaúma, ela decidiu partilhar o prazer da leitura com quem não consegue ler, por gosto ou necessidade. O estudante Júlio César Careira, por exemplo, faz faculdade de psicologia. Estuda graças à iniciativa de Analu. De tanto ler no ônibus, ele sofreu um deslocamento de retina e perdeu a visão. As publicações em braile não são suficientes.

“As pessoas que são voluntárias não fazem ideia do quanto nos ajudam”, diz Júlio. “Aqui encontramos todo o necessário para ter um futuro melhor”

A programadora de computador Rita também tem deficiência visual. Para ela, é mais fácil entender de linguagens complicadas e números quase indecifráveis do que simplesmente ter acesso a um livro.

Analu começou o projeto por conta própria. Gravava os livros e publicava na internet. Depois, percebeu que, sozinha. seria difícil ajudar o tanto de gente que precisava.Criou uma metodologia e formou voluntários. “Ledores”, como ela chama. Ao todo, 2 mil já fizeram o curso pelo país todo e mais de 600 títulos já foram gravados.

Os alunos aprendem as partes do livro, a lidar com um programa de computador para gravar a narração e têm aulas de colocação da voz. A psicóloga Monique Leal, é voluntária do projeto há três meses e pretende ficar ainda por muito tempo. Cada minuto livre é usado para gravar os livros. “A gravação faz parte do meu dia a dia”, conta.

A voz e o gesto de Analu vêm corrigindo injustiças. Discreta e serenamente, Analu e sua turma vão espalhando palavras preciosas para quem está ansioso por ouvi-las.

Veja como se tornar voluntário do projeto no site http://www.livrofalado.pro.br. Se você conhece alguém que ajuda a melhorar a vida de quem mora no rio, conte para a gente. Envie sua sugestão para o quadro “Os Cariocas”.

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