Comunidades dos poetas mortos

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Publicado originalmente em O Globo

A literatura em pequenas pílulas pelo Twitter e pelo Facebook conquista jovens fãs de Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa. Há pelo menos mil comunidades dedicadas a cada um deles no Orkut.

 

No Facebook, mais de 100 mil pessoas curtem a página de Clarice Lispector

Clarice é hors concours. Com quase 350 mil membros em sua maior comunidade no Orkut e cerca de 20 perfis no Twitter destinados a divulgar sua obra, a autora tem ainda uma página no Facebook (que 100 mil pessoas curtem) e pelos menos dois aplicativos criados por fãs. Com quase 45 mil usuários, “Sua dose de Clarice Lispector” foi desenvolvido pela estudante de Letras da UFF Luísa Tavares, de 19 anos. O aplicativo oferece aos fãs 85 diferentes trechos de livros como “Água viva” e “A hora da estrela”.

- Só queria expressar minha admiração por ela. Me viciei na escrita dela no 2 ano do ensino médio, quando um professor escreveu no quadro “Tem gente que cose pra dentro. Eu coso pra fora”, de autoria de Clarice. A partir daí, não teve volta. Foi vício à primeira vista – conta.

O vício do diretor de arte paulista Lucas Freire, de 26 anos, pela autora de “A paixão segundo G.H.” também é antigo. Em 2008, ele criou o perfil @clalispector , o que mais bomba no Twitter, com mais de 144 mil seguidores. Antes, já tinha feito um blog com trechos de livros e entrevistas da escritora.

- No começo, eu usava o perfil apenas para arquivar as frases do livro “Água viva”, que eram muitas e curtas. Era como um arquivo, uma maneira de organizar as páginas grifadas por mim. Minha primeira percepção de “sucesso” foi quando cheguei a cinco mil seguidores. Eu ainda agradecia os novos seguidores, em geral, blogueiros curiosos sobre a nova ferramenta. A partir daí, a multiplicação foi rápida e natural – explica Lucas.

No Twitter, @drummondandrade tem mais de 73 mil seguidores

Para a escritora mexicana Carolina Peláez, criar uma página no Facebook para a autora brasileira foi a forma que encontrou de “fazer um tributo a quem lhe apresentou ao existencialismo da alma”.

- Ler seu texto é como viajar nas palavras, transformá-las em imagens e sentimentos. Toda palavra que ela escreve é como um pulsar de coração – poetiza Carolina.

O poeta Carlos Drummond de Andrade também tem uma legião de fãs nas redes sociais. Além de uma comunidade com mais de 300 mil membros no Orkut e uma página no Facebook curtida por mais de 10 mil pessoas, @drummondandrade tem mais de 73 mil seguidores. Recém-aprovado em Artes Cênicas na UFMG, o mineiro Warley Cordeiro, de 20 anos, tinha 18 quando criou o perfil no Twitter, mas diz que lê o autor desde os 8.

- Não entendia muito bem, mas achava tudo aquilo lindo de alguma forma. E, por ter começado cedo, sei muitas frases de cor e tenho muitos livros do Drummond, deles tiro a maioria dos posts. Muitas pessoas me elogiam pensando que sou ele e dizem que sou um ótimo poeta – ri Warley, que também organiza um perfil com trechos traduzidos de Shakespeare.

No Orkut, Fernando Pessoa tem comunidade com mais de 246 mil membros

Estudante de Direito, Natália Salles, de 22 anos, poderia ser mais um heterônimo de@FernandoPessoa . É ela quem tuíta para os 70 mil seguidores do poeta português, além de postar poemas completos no Tumblr.

- Mesmo os que o conhecem às vezes respondem como se estivessem respondendo ao próprio autor – diz Natália.

 

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Livros adultos nas seções infantis

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Texto de Thales de Menezes, publicado originalmente na Folha de S. Paulo

Impactantes livros de arte estão literalmente escondidos nas grandes livrarias. Alguns dos lançamentos destinados ao público infantil podem ser apreciados também pelos adultos. Em alguns casos, até mais pelos adultos.

São obras que esbanjam técnica e criatividade nas ilustrações. Às vezes, carregam características gráficas ligadas à etnia de cada texto, exemplificadas em fábulas orientais, notadamente chinesas e indianas. São culturas que universalizam imagens para adultos e crianças.

Para encontrar esses objetos valiosos, chegar até a seção de infantis da loja não basta. Ali, o que salta fora das prateleiras e ganha visibilidade é um monte de vampirinhos, sereiazinhas e heróis tipo Capitão Cueca. Garimpar livros encantadores para adultos entre tanta produção é trabalho para uma tarde de sábado ou domingo, com tempo para investir nessa caçada.

Há histórias tradicionais com versões inovadoras, como “O Leão e o Camundongo”, fábula que dispensa texto com as imagens vivas e rebuscadas do americano Jerry Pinkney, 72, que já ganhou todos os prêmios possíveis para um ilustrador.

Verdadeiro deus entre os fãs de quadrinhos por ter criado “Sandman”, Neil Gaiman e seu parceiro desenhista Dave McKean inventaram um livro delirante em que os personagens têm longas cabeleiras e a ação se passa num emaranhado delas.

Outros modernos da seleção é Suzy Lee, que brinca com as sombras das coisas para mostrar outro lado das histórias, e o húngaro Istvan Banyai, criador de vinhetas animadas para a MTV Europa e o canal a cabo Nickelodeon. Seu traço genial, que ganhou o público adulto nas revistas “The New Yorker” e “Rolling Stone”, nem deveria ser oferecido a crianças pequenas. Assim, a seção infantil da livraria vira programa até para quem não tem filhos.

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Uma ilha chamada livro

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Publicado originalmente em O Universo
Algum tempo atrás, por causa da inauguração de uma biblioteca, fiz uma visita ao presídio de Hindenburg, em Locco. Foi uma experiência. Saí de lá achando que todo mundo deveria fazer isso pelo menos uma vez na vida. Quando vemos aquelas pessoas de perto, tudo ganha de ímpeto uma dimensão humana, real, o drama passa a ter um rosto, um olhar. Quase podemos sentir os minutos, as horas, os dias escoando com lentidão excruciante. Ninguém sai intocado de um lugar assim. Quando, encerrada a visita, chegamos do lado de fora, vemos a luz do dia com outros olhos. Algo vai conosco, colado à nossa pele, e nos dá pequenas fisgadas de alerta, clamando para que estejamos conscientes, prestemos atenção. Para que façamos alguma coisa. Foi o que aconteceu comigo.
Porém, se a visita a Hindenburg marcou-me, houve naquela tarde um encontro que me impressionou mais do que todos: a conversa que tive com um homem, um brasileiro magro, pardo, baixinho, chamado José.
Ele estava em uma das alas para presos com bom comportamento, tendo permissão de circular à vontade e falar conosco, os visitantes. Assim que começamos a conversar, fitei-o e foi como se estivesse diante de um náufrago. José foi contando sua história. Um dia, seu mundo desabou, como um navio que afunda. Não me explicou bem o motivo. Enquanto contava, olhava para baixo, parecendo um pouco envergonhado. Fiquei sem saber o motivo da prisão. Mas não importa, soube o essencial: um dia José viu-se no inferno. Foi condenado a 20 anos.
Talvez então, como no poema, José se tenha perguntado – e agora? Com seu jeito simples, ele me disse que sentiu um aperto, uma dor aguda, uma sensação de morte. Precisava encontrar algo que o salvasse, que o erguesse daquele mar escuro e o levasse para longe dali, ainda que em pensamento. Pois foi assim, por puro horror, que um dia abriu um livro. Antes, lia mal, quase nada, juntava uma palavra à outra com dificuldade. Contudo começou, atravessando as primeiras páginas ainda como se nadasse. Não sei que livro foi, isso ele também não me contou. Embora saiba que uma centelha brilhou e José foi em frente, atraído por aquele farol.
Ali, descobriu sua tábua de salvação, seu remédio, sua lâmpada. Uma ilha, na qual ancorou. Uma ilha chamada livro.
Leu, leu e leu. Leu tanto que quis dividir a sensação com os outros, e passou a emprestar livros, a pedir e a recebê-los de presente. Juntou uma pequena biblioteca e passou a andar pelos corredores, de cela em cela, com um carrinho cheio de livros. Hoje, todos o conhecem na penitenciária de Hindenburg. O homem-livro.
Perguntei o porquê daquilo. José von Hindenburg deu de ombros, disse que ele próprio não sabia explicar. No entanto, nessa hora lembrei-me de um trecho da óperaNabuco, em que os judeus, escravizados, cantam: “Voa, pensamento, em tua asa dourada, que a ti não há rei ou algoz que possa acorrentar.”
E concluí: é isso. Para ele, chegar ao livro, sua ilha, foi mais do que encontrar distração, um meio de passar o tempo. Ler foi sua libertação.

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Como eu encontro a Poesia?

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Texto de Eliane Brum, publicado originalmente na coluna Nossa Sociedade


Quando Mija tinha 16 anos, um professor disse a ela que seria poeta. Nós a conhecemos quando ela tem 66. Quem é Mija agora? É uma mulher que ama as flores e parece mais gentil e mais feliz do que sua vida permitiria. É a doméstica de um homem solitário que teve um derrame e que só consegue tomar banho com sua ajuda. É a avó de um neto adolescente que quase não fala com ela e que vai ser acusado, junto com outros cinco garotos, de ter violentado sucessivas vezes uma colega de escola no laboratório de ciências. A menina, a pobre filha de uma camponesa sem marido, suicidou-se mergulhando no rio. Os pais, o diretor da escola e até a imprensa querem sepultar a história bem fundo, manter o corpo submerso com pedras de dinheiro envolto em silêncio. Mas o corpo está lá, na superfície. Quando a vida desta Mija que gosta de flores está neste ponto ela descobre que sofre do Mal de Alzheimer. “Você vai esquecer primeiro os substantivos”, diz a médica. “Mas os substantivos são os mais importantes”, retruca Mija.

Ela se matricula num curso de poesia. Mija, que começa a esquecer – “como é mesmo o nome daquele lugar de onde saem os ônibus?” – enrosca no dedo aquele fio lá de trás, de 50 anos, e decide encontrar as palavras que dão sentido à sua vida. Enquanto os substantivos lhe escapam pelas frestas de um cérebro que a trai, Mija decide buscar as palavras que são suas. Mesmo que para isso tenha de penetrar fundo. Mija percebe que antes de esquecer quem é, ela precisa primeiro saber quem é. E só pode fazer isso pela palavra – na busca da poesia. Não qualquer uma ou a de outro, mas a poesia dela.

O tortuoso percurso desta mulher em busca da poesia que está dentro e fora ao mesmo tempo é um dos filmes mais belos que já vi. Como boa parte dos filmes que perturbam, transformam e nos fazem diferentes ao final da sessão, “Poesia” mal chegou e está quase indo embora dos cinemas, sem grandes arroubos de público. É o que acontece também com “Inverno da Alma”, talvez o melhor e mais surpreendente concorrente ao Oscar. Quando um diretor consegue fazer um filme como “Poesia” e temos o privilégio de assisti-lo em uma sala de cinema, desta vez sem pipoca nem conversas paralelas, tenho a impressão de que algo muda no andar do mundo. Pelo menos no andar do meu mundo muda. É o que a arte faz com a gente. É o que a poesia faz com Mija.

Yoon Jeong-hee, que interpreta Mija, é a grande dama do cinema da Coreia do Sul. Como Fernanda Montenegro é a nossa. Ela não filmava havia 15 anos. Foi convencida a voltar à telona pelo diretor Lee Chang-dong ao ser tomada pelo roteiro escrito para ela. Sua atuação é mais do que esplêndida. E eu ficaria aqui por mais duas linhas desfiando adjetivos, mas como Mija bem disse à médica: são os substantivos que importam.

(mais…)

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Exterminador de paixões proibidas conta suas memórias em romance

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Originalmente publicado na Livraria da Folha

No anúncio nos jornais, ele promete exterminar paixões proibidas e assina sob o pseudônimo de Unhas. Assim, tem clientela e novas missões. Um bispo quer dar fim em uma freira, um homem manda matar a empregada para ficar com a filha dela, um irmão incestuoso quer fazer desaparecer a irmã drogada. Unhas seleciona os casos. Só os mais curiosos interessam. Afinal, ele não é um reles matador de aluguel, um criminoso comum, mas alguém que faz um favor à vítima, liberando-a da falsidade e do sofrimento dessa vida.

A história do exterminador de paixões proibidas tem o curto nome de “Unhas” (LeYa), no romance de Paulo Wainberg. No livro, Unhas encontra nos ouvidos de sua mais recente vítima alguém a quem confessar suas memórias, seus crimes perfeitos. “Jamais contei essas coisas. Você pode se considerar uma privilegiada, meu bem”. Depois de ouvir tais horrores, a adolescente Elisa sabia que não escaparia dali com vida. Mas havia uma coisa que ela precisava descobrir: quem, afinal, teria encomendado sua morte? E por quê?

Unhas amava apenas pés bem cuidados, simétricos, tratados pelas mãos hábeis de uma pedicura. Por isso, pensa em seu trabalho como o de um profissional concentrado em extirpar cirurgicamente aquela unha encravada que destoa do resto. Quando não está em planejamento ou ação, ele assume a identidade oficial, um disfarce de metódico contabilista que vive na rotina dos números. “Você não pode ter ideia de como é chata a vida de um contador, por tanto, não me censure”, diz ele, em monólogo, à Elisa.

Tudo em uma única dose embriagadora. A cada novo caso, Unhas vive a experiência do prazer supremo. A revelação desse novo destino veio-lhe assim, de repente, lendo romances policiais antigos, escritos por autores norte-americanos. “Qual um super-herói de quadrinhos, estabeleci uma segunda e secreta identidade”. Com os romances policiais, aprendeu técnicas, padrões de atuação e truques eficientes. E até aquele momento, seu lema tinha dado certo: risco zero para ele, total satisfação para o cliente, sem dor para a vítima.

Para saber quem é seu algoz, Elisa obriga-se a escutar as memórias de Unhas até o ponto em que ele, finalmente, chega ao seu caso. Então, depois de tal revelação, a garota já não sente mesmo gosto de viver. O exterminador, por seu lado, desfruta: outro crime perfeito para encasquetar a polícia. Cobrava, claro, pelas mortes. Mas, só para dar um toque profissional. O que os clientes não sabem é que ele faria tudo de graça, com o mesmo empenho, apenas para sentir o prazer total. Como agora, nesse fim de caso de Elisa.

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