Praças da Cidade

10 livros que abalaram meu mundo (2)

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Para começo de conversa, minha escolha recaiu sobre o Père Goriot , de Balzac. Escolher um livro que tenha causado profunda impressão é uma grande desafio para qualquer bom leitor que tenha começado a ler cedo e que esteja, como eu, em idade avançada.

Li, durante setenta anos, uma média de cem livros por ano, e é fácil imaginar a dificuldade em que me encontro. Seria Os Sertões, lido na mocidade? Ou, desde a mocidade, a obra de Machado de Assis, especialmente Memórias póstumas? Ou, na obra de Anatole France, Les dieux ont soif, que dá um quadro espetacular do terror na Revolução Francesa? ou então Jean Christophe, de Romain Rolland? Ou ainda alguma das obras de stendhal ou de Flaubert? Isso sem falar de Tolstói, Dostoiévski, ou dos Essais, de Montaigne, meu primeiro contato com o humanismo, ou ainda Le discours de la méthode, de Descartes, Le discours de la méthode que me revelou o pensamento lógico. E, voltando à ficção, a obra imortal de Shakespeare e o óbvio Grande sertão: veredas. Poderia ainda acrescentar Of human bondage, de Somerset Maugham, e uma infinidade de outras obras.

10 livros que abalaram meu mundo (Casa da Palavra)
Imagem: Brasiliana USP

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(a)moral

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“Não existe livro moral ou amoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo”

Oscar Wilde

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“Não existe livro moral ou amoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo”

Oscar Wilde

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A construção do leitor

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por Paulo Franchettii

Antes de refletir sobre qual o melhor caminho para ensinar literatura, penso que o melhor seja tentar responder à pergunta “por que ensinar literatura?”. E, antes de formular essa pergunta, talvez seja útil pensar em que consiste o processo da leitura.

Quando lemos um romance, por exemplo, nós nos colocamos na posição das personagens, repudiamos ou aprovamos o seu comportamento, nos identificamos ou nos indignamos com suas opções morais e movimentos espirituais. Como no cinema, experimentamos emoções que não nos pertencem originalmente, mas que sentimos até com mais intensidade do que as nossas próprias. Estamos ali mais livres. Olhamos para os dramas, os ridículos, o desespero ou a alegria do triunfo sem um interesse particular.

Usei, para destacar o ponto, uma analogia entre um romance e um filme. Mas há grandes diferenças entre eles, como há entre um poema e uma canção com letra e entre uma peça teatral escrita e suas encenações. Uma das mais evidentes é que o cinema é uma arte combinada: o efeito geral é produzido pela combinação de imagem, palavra, música, ruídos, efeitos visuais. Um romance ou um poema pode e deve produzir emoção, riso e outras respostas afetivas, mas apenas por meio da palavra.

Por depender só da palavra, a literatura tem uma força que as artes combinadas não possuem. Ela abre enorme espaço à projeção do leitor. De fato, tudo depende da sua imaginação: a forma de um rosto, por mais pormenorizadamente descrita, é uma para cada leitor. Assim também o tom da voz de uma personagem, uma paisagem, um ruído de guerra, o som de um grito ou de um encontro amoroso. E a importância disso se comprova quando vemos um filme sobre um livro que nos apaixonara. A concretização do rosto, do traço, a associação com uma voz real é perturbante. Mais ainda a presença de tudo aquilo que não aparece ou se apaga durante a leitura.

Por exemplo, quando lemos a descrição dos olhos de Capitu, não pensamos que ela tem mãos. Nem pés. Não imaginamos que vestido estaria usando, nem somos obrigados a lidar com particularidades como brincos, penteado, maquiagem etc. Não há nada senão as imagens que se juntam para dar ideia daqueles olhos. Mas, quando se filma ou se desenha Capitu com traço realista, todas as coisas não nomeadas no texto do Machado [de Assis] (partes do rosto, do corpo, do ambiente) vêm junto com os olhos, empanam o seu brilho, enfraquecem a sua força, de forma que uma representação pictórica dos olhos de Capitu nunca terá, sobre um leitor de Dom Casmurro, impacto semelhante ao dos trechos do romance em que eles são tratados.

Concentremo-nos agora no processo da leitura – na leitura de um romance, por exemplo. O que sucede ali? O leitor por acaso o decifra palavra por palavra? Não, por certo. Ele voa sobre elas, busca ao mesmo tempo o sentido do conjunto e o tom do trecho e do livro. Ele precisa entender se uma passagem é dita em tom irônico. Precisa perceber os sentidos que se formam além dela, pela alusão a eventos históricos, a outros textos, a costumes. E precisa fazer muitas outras operações complexas de interpretação, com base apenas no texto escrito, nas palavras que se sucedem nas páginas. Além de apreciar o ritmo das frases e a justeza ou o inusitado das imagens. Esse leque de capacidades não é trivial. Não é fácil dominar o conjunto complexo de habilidades que permite ao leitor ter pleno acesso ao prazer e à emoção que um bom livro lhe pode dar.

A mais rica fruição da literatura pressupõe ainda um exercício amplo da cultura, naquilo que ela tem de relação com o passado, como continuidade ou ruptura. É o passado que dá sentido ao presente da literatura. Uma obra solta no tempo não tem significação literária, no sentido que damos a essa palavra hoje. Um texto literário faz contínuas referências a outros textos que o precederam, e há alguns em que, sem o conhecimento do texto aludido ou incorporado, o sentido se perde ou, pelo menos, não se apresenta em totalidade.

A literatura é, assim, uma forma de ligação com o passado, uma forma de revivificá-lo. De aprender com ele, mas também uma forma de nos apropriarmos dele. A literatura fala pelo passado e faz o passado falar pelo presente. Ensinar literatura, portanto, em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial.

Tornar-se herdeiro significa não só poder compreender, mas poder vivenciar em si mesmo o passado. Isso inclui poder deslocar a sua perspectiva temporal sobre vários assuntos, de modo a compreender que quase nada de “natural” existe no comportamento e nas instituições humanas, que quase tudo é cultural, ou seja, muda ou pode ser mudado. A literatura expõe a historicidade das formas de sensibilidade, convocando o que permanece ainda vivo em nós e o que já não permanece; o que nos rege desde o mundo dos mortos porque ainda é vivo e o que nos rege desde lá sem nenhuma razão para isso.

É certo que uma pessoa pode adquirir os instrumentos necessários para ler literariamente por meio da convivência solitária com os livros, no caso de dispor de acesso a uma biblioteca. Mas como ler literariamente é uma atividade que exige treinamento, referências culturais e repertórios específicos, faz sentido imaginar que a escola forneça meios para o estudante situar-se desde logo no campo literário.

Podemos tentar responder agora à pergunta metodológica que se apresenta, às vezes, com urgência e que foi o gatilho deste texto: deve-se começar o ensino da literatura pelos clássicos ou pelos contemporâneos?

Há quem julgue que pelos contemporâneos, tendo por princípio que se deve começar do mais fácil para o mais difícil. Do que tem mais apelo imediato para o que tem menos. Os que assim pensam acreditam que o essencial é despertar o gosto pela leitura. Entre esses, muitos creem que qualquer forma de leitura é melhor do que nenhuma e por isso não hesitam em usar os best-sellers, o livro ainda fresco da gráfica ou mesmo a adaptação cinematográfica, como degrau para a literatura.

Já os que pensam que se deva começar pelos clássicos têm, como argumento, que à escola compete fornecer a maior quantidade de experiências culturais, bem como quadros amplos de referência. Para esses, o gosto pela e na leitura deve ser construído, não apenas despertado. Esta é a posição com que simpatizo mais.

Para a maior parte das pessoas, as demandas do presente podem incentivar a leitura de best-sellers, livros de autoajuda ou romances-reportagem. Raramente, ainda mais num ambiente culturalmente pobre, um jovem será exposto à literatura de qualidade que nos é legada do passado recente, quanto mais do passado remoto.

No que toca à literatura, assim, creio que o mais interessante que a escola tem a oferecer é uma experiência da tradição viva, na qual os pontos altos de realização possam ser percebidos como tal; é a formação de um repertório de leituras que permita que o estudante, depois, pela vida afora, possa traçar o seu próprio caminho pelo campo da cultura literária, tornando a literatura, para ele, uma experiência plena e uma fonte de prazer intelectual.

Do meu ponto de vista, a questão não é atrair os jovens para a literatura, mas permitir-lhes o acesso à leitura mais refinada, que só a experiência e o repertório podem propiciar. Um jovem leitor não precisa da escola para ler um best-seller. O marketing das grandes editoras o induz a isso. Nem provavelmente para ler um romance contemporâneo sobre tema momentoso. Mas, sem a orientação e o estímulo de um leitor mais experiente, é pouco provável que esse mesmo jovem tenha acesso à beleza dos poemas homéricos, à complexidade da Divina Comédia, das tragédias gregas ou do Quixote ou de tantas outras obras que forneceram, ao longo dos séculos, padrões de gosto e matéria sempre renovada para novas obras literárias – ou mesmo a textos contemporâneos de maior complexidade ou menos investimento de publicidade.

É claro que, para isso, a escola precisa de livros e, sobretudo, de professores bem formados e que tenham vivência literária ampla e íntima. Sem isso – e, na época da explosão do acesso a textos literários pela internet, sem, sobretudo, professores educados e competentes – não há muito que fazer com a literatura na escola. Mas essa é já outra discussão.

Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).

“Ensinar literatura (…), em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial”

Fonte: Revista E

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A construção do leitor

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por Paulo Franchettii

Antes de refletir sobre qual o melhor caminho para ensinar literatura, penso que o melhor seja tentar responder à pergunta “por que ensinar literatura?”. E, antes de formular essa pergunta, talvez seja útil pensar em que consiste o processo da leitura.

Quando lemos um romance, por exemplo, nós nos colocamos na posição das personagens, repudiamos ou aprovamos o seu comportamento, nos identificamos ou nos indignamos com suas opções morais e movimentos espirituais. Como no cinema, experimentamos emoções que não nos pertencem originalmente, mas que sentimos até com mais intensidade do que as nossas próprias. Estamos ali mais livres. Olhamos para os dramas, os ridículos, o desespero ou a alegria do triunfo sem um interesse particular.

Usei, para destacar o ponto, uma analogia entre um romance e um filme. Mas há grandes diferenças entre eles, como há entre um poema e uma canção com letra e entre uma peça teatral escrita e suas encenações. Uma das mais evidentes é que o cinema é uma arte combinada: o efeito geral é produzido pela combinação de imagem, palavra, música, ruídos, efeitos visuais. Um romance ou um poema pode e deve produzir emoção, riso e outras respostas afetivas, mas apenas por meio da palavra.

Por depender só da palavra, a literatura tem uma força que as artes combinadas não possuem. Ela abre enorme espaço à projeção do leitor. De fato, tudo depende da sua imaginação: a forma de um rosto, por mais pormenorizadamente descrita, é uma para cada leitor. Assim também o tom da voz de uma personagem, uma paisagem, um ruído de guerra, o som de um grito ou de um encontro amoroso. E a importância disso se comprova quando vemos um filme sobre um livro que nos apaixonara. A concretização do rosto, do traço, a associação com uma voz real é perturbante. Mais ainda a presença de tudo aquilo que não aparece ou se apaga durante a leitura.

Por exemplo, quando lemos a descrição dos olhos de Capitu, não pensamos que ela tem mãos. Nem pés. Não imaginamos que vestido estaria usando, nem somos obrigados a lidar com particularidades como brincos, penteado, maquiagem etc. Não há nada senão as imagens que se juntam para dar ideia daqueles olhos. Mas, quando se filma ou se desenha Capitu com traço realista, todas as coisas não nomeadas no texto do Machado [de Assis] (partes do rosto, do corpo, do ambiente) vêm junto com os olhos, empanam o seu brilho, enfraquecem a sua força, de forma que uma representação pictórica dos olhos de Capitu nunca terá, sobre um leitor de Dom Casmurro, impacto semelhante ao dos trechos do romance em que eles são tratados.

Concentremo-nos agora no processo da leitura – na leitura de um romance, por exemplo. O que sucede ali? O leitor por acaso o decifra palavra por palavra? Não, por certo. Ele voa sobre elas, busca ao mesmo tempo o sentido do conjunto e o tom do trecho e do livro. Ele precisa entender se uma passagem é dita em tom irônico. Precisa perceber os sentidos que se formam além dela, pela alusão a eventos históricos, a outros textos, a costumes. E precisa fazer muitas outras operações complexas de interpretação, com base apenas no texto escrito, nas palavras que se sucedem nas páginas. Além de apreciar o ritmo das frases e a justeza ou o inusitado das imagens. Esse leque de capacidades não é trivial. Não é fácil dominar o conjunto complexo de habilidades que permite ao leitor ter pleno acesso ao prazer e à emoção que um bom livro lhe pode dar.

A mais rica fruição da literatura pressupõe ainda um exercício amplo da cultura, naquilo que ela tem de relação com o passado, como continuidade ou ruptura. É o passado que dá sentido ao presente da literatura. Uma obra solta no tempo não tem significação literária, no sentido que damos a essa palavra hoje. Um texto literário faz contínuas referências a outros textos que o precederam, e há alguns em que, sem o conhecimento do texto aludido ou incorporado, o sentido se perde ou, pelo menos, não se apresenta em totalidade.

A literatura é, assim, uma forma de ligação com o passado, uma forma de revivificá-lo. De aprender com ele, mas também uma forma de nos apropriarmos dele. A literatura fala pelo passado e faz o passado falar pelo presente. Ensinar literatura, portanto, em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial.

Tornar-se herdeiro significa não só poder compreender, mas poder vivenciar em si mesmo o passado. Isso inclui poder deslocar a sua perspectiva temporal sobre vários assuntos, de modo a compreender que quase nada de “natural” existe no comportamento e nas instituições humanas, que quase tudo é cultural, ou seja, muda ou pode ser mudado. A literatura expõe a historicidade das formas de sensibilidade, convocando o que permanece ainda vivo em nós e o que já não permanece; o que nos rege desde o mundo dos mortos porque ainda é vivo e o que nos rege desde lá sem nenhuma razão para isso.

É certo que uma pessoa pode adquirir os instrumentos necessários para ler literariamente por meio da convivência solitária com os livros, no caso de dispor de acesso a uma biblioteca. Mas como ler literariamente é uma atividade que exige treinamento, referências culturais e repertórios específicos, faz sentido imaginar que a escola forneça meios para o estudante situar-se desde logo no campo literário.

Podemos tentar responder agora à pergunta metodológica que se apresenta, às vezes, com urgência e que foi o gatilho deste texto: deve-se começar o ensino da literatura pelos clássicos ou pelos contemporâneos?

Há quem julgue que pelos contemporâneos, tendo por princípio que se deve começar do mais fácil para o mais difícil. Do que tem mais apelo imediato para o que tem menos. Os que assim pensam acreditam que o essencial é despertar o gosto pela leitura. Entre esses, muitos creem que qualquer forma de leitura é melhor do que nenhuma e por isso não hesitam em usar os best-sellers, o livro ainda fresco da gráfica ou mesmo a adaptação cinematográfica, como degrau para a literatura.

Já os que pensam que se deva começar pelos clássicos têm, como argumento, que à escola compete fornecer a maior quantidade de experiências culturais, bem como quadros amplos de referência. Para esses, o gosto pela e na leitura deve ser construído, não apenas despertado. Esta é a posição com que simpatizo mais.

Para a maior parte das pessoas, as demandas do presente podem incentivar a leitura de best-sellers, livros de autoajuda ou romances-reportagem. Raramente, ainda mais num ambiente culturalmente pobre, um jovem será exposto à literatura de qualidade que nos é legada do passado recente, quanto mais do passado remoto.

No que toca à literatura, assim, creio que o mais interessante que a escola tem a oferecer é uma experiência da tradição viva, na qual os pontos altos de realização possam ser percebidos como tal; é a formação de um repertório de leituras que permita que o estudante, depois, pela vida afora, possa traçar o seu próprio caminho pelo campo da cultura literária, tornando a literatura, para ele, uma experiência plena e uma fonte de prazer intelectual.

Do meu ponto de vista, a questão não é atrair os jovens para a literatura, mas permitir-lhes o acesso à leitura mais refinada, que só a experiência e o repertório podem propiciar. Um jovem leitor não precisa da escola para ler um best-seller. O marketing das grandes editoras o induz a isso. Nem provavelmente para ler um romance contemporâneo sobre tema momentoso. Mas, sem a orientação e o estímulo de um leitor mais experiente, é pouco provável que esse mesmo jovem tenha acesso à beleza dos poemas homéricos, à complexidade da Divina Comédia, das tragédias gregas ou do Quixote ou de tantas outras obras que forneceram, ao longo dos séculos, padrões de gosto e matéria sempre renovada para novas obras literárias – ou mesmo a textos contemporâneos de maior complexidade ou menos investimento de publicidade.

É claro que, para isso, a escola precisa de livros e, sobretudo, de professores bem formados e que tenham vivência literária ampla e íntima. Sem isso – e, na época da explosão do acesso a textos literários pela internet, sem, sobretudo, professores educados e competentes – não há muito que fazer com a literatura na escola. Mas essa é já outra discussão.

Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).

“Ensinar literatura (…), em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial”

Fonte: Revista E

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